Só consigo pensar escrevendo. De outro jeito, me confundo toda. Os pensamentos vêm em ondas e se misturam uns com os outros e, no final, morrem na praia. Por isso criei esse blog. Para todos que só conseguem pensar escrevendo. Ou, pelo menos, só assim conseguem dar precisão ao que pensam.
quarta-feira, setembro 20, 2006
Terceiro turno
Meninas, tenho uma notícia meio chata. Sabem aquelas contas que fizemos no final do ano passado? Sabem aqueles planos que fizemos? Os projetos de viagem, de abrir um Armarinho no litoral capixaba, de montarmos um curso de literatura brasileira só sobre Clarice? Ah, e a coleção de palavras cruzadas, que trocaríamos entre nós, no chá das quartas-feiras? E o cinema da quinta? As aulas sobre história das religiões na sexta? Tínhamos mais planos, não tínhamos? Ah, sim, o passeio no zoológico com as crianças de nossos filhos; no museu da ciência, no parque das Mangabeiras, na casa da Beatriz Alvarenga e onde mais? Estão lembradas? Melhor. Nem se esforcem para lembrar. Na verdade, esqueçam tudo!
A partir de outubro, tudo será diferente. Pra mim, do jeito que as coisas andam, acho que, antes mesmo de outubro, tudo será diferente. Mas, vá lá. Me disseram que é pós-outubro. Me disseram que, seja quem for o presidente eleito, já existe um projeto de reforma da previdência em fase de acabamento. Será colocado em discussão assim que as urnas forem fechadas e, assim que possível, em votação. Mais provável, no início do próximo ano. E me disseram que não ficaremos bem na foto. Nem com photoshop, nem com botox, nem com pancake velvet, nem com nadinha de nada.
Os rapazes que estão costurando o texto final da proposta acreditam piamente na igualdade entre os sexos. Para eles, essa está em pleno vigor. E, se é para ser igual, vão radicalizar. Será tudo igual, igual mesmo. Fizeram as contas e canetaram lá no texto. A idade para aposentadoria será uma só: de 65 anos para todos. Homens e mulheres. Idade mínima, claro, como bem frisou Sardenberg, num dos últimos CBN Brasil que ouvi. Podemos até ir além, se quisermos. Viram? Eu não disse que era meio chata. Meninas, planos adiados!
Agora vou dizer uma coisa: não me incomodo. Nem ligo, desde que façamos a repartição de tudo mais. Apoio a igualdade radical. Das pequenas às grandes coisas. Revezar na lavação da louça de domingo à tarde, ao invés de ficar no computador até acabar o Fantástico; revezar nas noites em que temos de levantar para tirar a temperatura do caçula que está com virose; e os dois, trabalhar; dividir quando tivermos de decidir o que fazer no almoço e no lanche, isso TODOS OS DIAS; e trabalhar; revezar nas idas ao supermercado; no arrumar as gavetas; e trabalhar; no pregar um botão na camisa; no passar a camisa; e trabalhar; revezar na hora de acompanhar os meninos nos deveres escolares; nas pesquisas e recortes de gravuras ilustrativas dos diversos biomas do Brasil; e trabalhar e em tudo mais dessa lista infindável de pequenas tarefas que consomem, no mais das vezes, todas as nossas horas vagas do dia. O terceiro turno.
Compartilhar também as grandes aflições: por que ele chegou do trabalho e não me perguntou como foi o meu dia? Como foi o dia dele? O que será que ele fez? Com quem conversou? Por que não me ligou durante a tarde? O que meu filho está pensando? O que está querendo? Está feliz? Está triste? O que está acontecendo? Quem ligou para o meu filho? Por que ele fechou a porta do quarto e está falando baixinho? Por que fica tanto tempo no telefone? Que barulho é esse no quintal? Será que tem um ladrão? Por que ninguém atende o telefone na casa dos meus pais? O que terá acontecido? Será que saíram? Para onde foram? Por que a vizinha desceu a rua e não me deu bom dia? Será que está com problemas? Será que posso ajudar? Ai, ai, preciso descer pra trabalhar, mas quem vai olhar se o meu caçula está tomando o seu banho direitinho? Quem vai ver se está se alimentando bem, comendo alface, feijão e o bifinho de fígado acebolado (argh!)? Quem?
Revezar também nos grandes momentos: nos nove meses que carregamos todos eles na barriga (eu disse que ia radicalizar!), na amamentação, nas tpms, nas menopausas, nas dietas, na musculação e por aí afora vai. Isso é que é ser igual igual. Mas sou uma pessoa bastante razoável e, tenho certeza, de que qualquer esforço nessa direção será inútil. Por isso, prefiro negociar. Não deixemos que, em nome de nossa igualdade, se crie injustiças e nem que, pelas nossas diferenças, se promova privilégios, como diz a Rutinha. Mas, sejamos razoáveis. A começar pelo limite de idade para aposentadoria. Enquanto tivermos de cumprir o terceiro turno, sem direito a revezamento, mantemos a diferença. É uma boa proposta não é, meninas?
Umas horas de folga para todas nós, neste resto de semana
Inté.
sexta-feira, setembro 15, 2006
Mac Feliz!
Olha só, estava ouvindo a CBN e fiquei sabendo da última. A Mc Donald´s pôs à venda a sua rede de lojas no Brasil. Aqui e em mais 20 países pelo mundo afora. Tá vendo? Acontece nas melhores famílias. É claro que não é à toa que estão fazendo isso. Devem ter se cansado de contabilizar prejuízos. Nos últimos 10 anos e em qualquer parte do mundo, toda manifestação anti-globalização sempre terminou na porta de uma lanchonete Mc Donald’s, com os manifestantes jogando pedra, quebrando vidro, destruindo fachada, fazendo o maior auê. Isso, quando não, simplesmente, se postavam à porta de uma das lojas, com cartazes e faixas, convidando a população a boicotar os sandubas de chuchu.
A situação estava saindo fora de controle já fazia um bom tempo. Pode não ter sido fácil chegar a essa decisão, mas também não deve ter sido difícil. Imagino que foi mais ou menos assim: um dia, o CEO, o manda chuva do pedaço, acordou de mau humor. Chegou no escritório com cara de poucos amigos e ficou a manhã inteira trancado na sala do 23º meditando. Na hora do almoço (é sempre na hora do almoço!), convocou uma reunião dos executivos seniors e juniors da organização. Expôs a situação: quebra-quebra não sei onde; boicote aqui e ali; médicos, num ato sem precedentes, concordando que as calorias Mc são puro veneno; vendas despencando, enfim, uma crise! E o CEO, de pouca conversa, resumiu a ópera: estamos ferrados! E os srs. têm uma tarde para encontrar a solução. E saiu da sala, né?
Os seniors e os júniors - famintos, mau humorados, com os celulares apitando em todos os tons -, ficaram lá, olhando um pra cara do outro, franzindo a testa, coçando a cabeça, rabiscando setinhas no papel em branco, tamborilando na mesa, enfim, sem rumo mesmo, esperando brotar um túnel no fim da luz. Foi aí que alguém se lembrou do vice-presidente de Marketing, que não estava na sala. Não estava, porque fora convidado para falar sobre As Estratégias de Marketing de Ronald Mc Donalds num seminário internacional sobre Marketing de Guerra, em Oman.
Ligaram pra ele, claro. O cara já estava num restaurante, experimentando um vinho não sei de onde e saboreando porções de kibe cru, esfirra de frango brasileiro, kaftas e outras cositas más. Ouviu os colegas, que estavam em viva voz, e depois pediu um tempo. Tomou um gole de vinho, pensou, pensou e disse: não dá pra saír de fininho, fazendo as trouxas e picando a mula. Temos de bolar uma estratégia de marketing. Elas são fabulosas! Os colegas, do lado de lá, responderam: dãwrr!!! E juntos, num gesto único, fecharam as mãos em punho e bateram-na no alto da testa.
O vice-presidente de Marketing pediu mais um tempo e disse que voltava a ligar. A sala ficou em silêncio. Nisso, entrou a copeira com uma bandeja de Big Mac e coca cola pra todo mundo! Os seniors e os juniors se entreolharam, agradeceram, disseram que estavam muito preocupados, ocupadíssimos e sem fome, aquelas coisas, né? E a copeira deu meia volta com a bandeja e desapareceu. Aí o telefone tocou. Era o vice mesmo. Ele disse: Já sei! Nós vamos fazer uma coisa bem original, vamos terceirizar os prejuízos e administrar os lucros!
- Heeeem? – gritaram os outros do outro lado da linha.
- Isso, vamos vender as lanchonetes para os nativos. Eles é que vão administrá-las e mantê-las dentro do nosso padrão de qualidade. Se o negócio estiver indo bem e quiserem abrir uma nova loja, vá lá. Desde que assumam os investimentos de implantação. E nós, nósitos, vamos cobrar um pequeno percentual sobre o faturamento, tipo assim um royalties, se vocês me entendem, pelo uso da marca. Vammmmmos ficarrr riiiiicos!!!! – disse ele, todo feliz.
E assim está sendo e será. Viu como é simples? Ninguém foi pedir ajuda ao papi bush, aquele. Deram uma solução de mercado. É assim que as grandes empresas fazem, porque elas, principalmente, acreditam no mercado. E é claro que vai aparecer um banqueiro, que também acredita no mercado, e vai achar que essa história de lanchonete é uma boa opção para diversificar seus investimentos e vai fazer uma oferta. Vão negociar, descontar um tanto daqui outro tanto de lá e bater o martelo.
Tudo bem que o caso da Petrobras é um pouco diferente. Mas se for, é muito pouco. Nem vem com essa história de que a Petrobras é patrimônio do povo brasileiro, que o governo tem de defendê-la, que o povo tem de ir pra rua e, se preciso for, tem até de lutar com unhas e dentes para preservar os interesses da empresa brasileira na Bolívia. Nem vem. Tá certo, a Petrobras foi construída com o dinheiro do povo mesmo e pára por aí. Nunca nem um brasileiro recebeu um dividendo da Petrobras. Nem em dinheiro vivo nem em investimentos sociais, a não ser que pudessem ser descontados do imposto de renda. Nunca nem um brasileiro deixou de pagar cada gota de gasolina que consome e ainda mais os impostos que incidem sobre esse valor.
Então. Mas não quero discutir. A Petrobras é uma empresa público-privada! Pronto. Chegamos a um bom termo. Os prejuízos são coletivizados e o lucro privatizado. Mas, se é que vamos mesmo, nós brasileiros, ter de assumir esse prejuízo, com a desapropriação dos bens da Petrobras na Bolívia, tive uma idéia! Vamos convidar o vice-presidente de Marketing da Mc Donald’s para nos fazer uma visita. Vamos oferecer a ele um churrasco de picanha, daquelas bem suculentas, vermelhinhas, temperada só com sal grosso e regada a caipirinha ou doses controladas de Maria da Cruz. É, Maria da Cruz é só em doses controladas. Não dá para entornar, né?, igual os gringos gostam de fazer. Aí, no meio da confusão, a gente senta com ele num canto e arranca dele uma estratégia dessas de marketing, das boas, para nos tirar do território estrangeiro. Quem sabe? Não custa tentar, né? Melhor que nada. Ou vamos esperar o Lula dar uma solução?
É isso.
Um fim de semana mac feliz para todos!
Eu vou, mas volto. Quando der!
domingo, setembro 10, 2006
Feliz por um triz
Meninas, vocês viram como somos felizes? Uma pesquisa da Datafolha, publicada neste domingo, constatou que 75% do universo feminino brasileiro é feliz. Somos nós. A pesquisa mostrou ainda que 76% dos brasileiros se dizem felizes. Somos todos nós. Já ia comemorar, claro, mas o jornal de São Paulo está sempre alerta. Pensam que ele se deixaria enganar pelos números? Nem por aqueles que ele próprio apurou. É rápido no gatilho e parte para a sabotagem sem nos dar tempo nem para respirarmos aliviadas. Desconstrói o próprio cenário que montou. Isso é que é autocrítica red bull. A vitalidade questionadora do jornal de São Paulo é um espanto!
Assim, na mesma manchete, já nos adverte que essa felicidade declarada faz parte de um sistema de autoengano que utilizamos para enfrentar as agruras do mundo. Minha vó fazia muito isso, de fato, o que não quer dizer que não era sinceramente feliz . Mas o jornal não quer deixar dúvida. Usa o olhar do outro, nossos vizinhos, amigos, colegas, testemunhas vivas da nossa felicidade, para comprovar sua anti-tese. E aí a pesquisa aponta que só 28% dos entrevistados consideram a população em geral feliz.
Vê se pode? O Cláudio diz que pode. Nós nos avaliamos sempre em relação ao outro. Se dizemos que somos felizes, é porque olhamos para o outro e achamos que a situação dele é pior que a nossa. Logo, estamos melhor que eles e, portanto, devemos ser feliz por isso. Que vínculos estranhos criamos para compreender o mundo, hem? Não posso olhar para o outro e vê-lo feliz e ser feliz por isso? É cristão demais para o nosso ateísmo?
Seja como for, o jornal de São Paulo, no corpo da matéria, busca validar essa desconfiança em relação ao resultado da pesquisa que ele próprio patrocinou, ouvindo diversas autoridades no assunto. De Eduardo Giannetti a Rosely Sayão, passando por líderes religiosos e educadores. Todos concordam que não é recomendável levar os números a sério. Não? Não devemos? Então, não entendo. Se não devemos levar os números muito a sério e se o que eles estão dizendo, nessa pesquisa, não procede, quer dizer que a pesquisa é fajuta? Que confusão mental nos metemos, hem?
Se é fajuta, para quê divulgar? Para demonstrar que, diferente do que muita gente poderia estar pensando agora, nesses últimos quatro anos não perdemos o medo de ser feliz? Não, não perdemos o medo de ser feliz. Apenas nos enganamos. Nos enganamos com a felicidade, nos enganamos com Lula, nos enganamos com o Congresso, com os empresários, com os publicitários, com os caseiros, motoristas, secretárias, ex-companheiros e ex-companheiras, maridos, mulheres, etc,etc,etc. É isso?
Que baita zorra, hem meninas? Que coisa caótica o jornal de São Paulo foi nos contar. Somos e não somos felizes. Somos mais, porém menos felizes do que em 1996, como demonstram os números da economia, citados na matéria. O que vivemos hoje é puro engano, eleitores! Ops, leitores! Não caiam nessa armadilha! É isso que o jornal de São Paulo quer nos dizer? Porque não diz? Porque finge não dizer? Porque se engana também?
Querem saber, meninas? Não vou levar essa pesquisa a sério. Acho que os números são mesmo um engano. Além do mais, não passo o dia me questionando se sou feliz ou não. Nem penso nisso, na maioria das vezes, porque essa definição é muito subjetiva para o meu gosto. Não acho que é possível medir a felicidade com se fosse uma peça de tecido, ou pesar como um punhado de arroz. O que sei é que há muitos momentos na minha vida em que estou feliz e outros nem tanto. Essa possibilidade, essa liberdade, de estar ou não feliz, e não ter medo disso é que me deixa muito feliz. Vocês não?
Uma semana desesperadamente feliz ou calmamente infeliz, do jeito que vier e do que jeito que quisermos transformá-la
Até quando der.
quinta-feira, setembro 07, 2006
Me engana e eu não gosto
Tanannn! Descobri o motivo da minha irritação com o jornal Folha de São Paulo. Achava que o que me incomodava era o seu bairrismo desenfreado, mas não é. Ou, pelo menos, não é só isso. É alguma coisa muito mais grave. Mais grave porque não diz respeito só à Folha de São Paulo, mas ao conjunto da imprensa brasileira. E vou restringir a minha impaciência aos veículos de comunicação tupiniquins por pura ignorância, já que não acompanho os demais.
Já desconfiava disso, mas entendia que era uma crise de adolescência encroada. Não é. E mais. Descobri que não sou eu apenas que me irrito com esse comportamento da Folha de São Paulo. Encontrei minha turma e ela não é pequena. É o seguinte: outro dia fui ouvir o Marcelo Coelho falar. Normalmente leio Marcelo Coelho, mas nesse dia fui ouví-lo. E, de tudo muito interessante que ouvi, o que me emocionou de fato foi o seu relato sobre como funciona hoje a cabeça da imprensa.
Vou tentar explicar com minhas palavras, já que com as dele será impossível, pois não vou me lembrar nem que a vaca tussa. Antes também de ir direto ao prato principal, vou servir umas entradas só para situar a conversa. Já sabemos que houve uma época em que o trabalho do jornalista era buscar a verdade dos fatos e relatá-la com objetividade, com isenção, com imparcialidade. Isso foi uma invenção da escola norte-americana, para dar um verniz científico ao trabalho do jornalista, antes feito com paixão, com identidade, com opinião. Assim, ao invés de idéias, os jornais passaram a buscar fatos.
É claro que não davam conta de todos e mesmo daqueles que alcançavam, não conseguiam relatar todos os aspectos que estavam ali envolvidos. A realidade não é mesmo uma coisa muito simples. Para fisgar a verdade de um fato, convencionou-se então que o jornalista deveria encontrar, pelo menos, duas versões plausíveis sobre um mesmo fato, de forma que uma validasse a outra e vice-versa. Isso nem sempre funcionava muito bem, pois uma versão acabava, muitas das vezes, se sobrepondo a outra, que, mesmo sendo aceitável e compondo o todo daquela parte da realidade, aparecia no corpo da matéria menos consistente ou até inadequada. Aí por razões outras, não que uma fosse mais verdadeira. Mas, seja como for, o fato é que essa prática pegou.
Assim a verdade passou a ter pelo menos duas versões. Não sei se motivados por esse modelo - acho difícil – mas, por alguma razão qualquer que não sei explicar, nesse momento, passamos também a ter uma consciência maior de que a realidade é mesmo muito mais do que complicada, é um sistema complexo, ultrainter-relacionado tanto no que diz respeito às causas quanto às conseqüências que um simples fato pode conter e gerar. Essa constatação, de uma certa forma, colocou em xeque algumas verdades até então consideradas inabaláveis e muitas outras, até menos sagradas. A busca da verdade tornou-se assim uma missão bem mais árdua, nesse mundo de facilidades. Exige dos jornalistas uma formação mais sofisticada, que o simples domínio das técnicas difundidas pela escola norte-americana. Para alguns, tornou-se uma missão até meio quase que impossível. Pronto. Aqui acaba a minha intervenção.
Marcelo Coelho chegou a sobrevoar algumas considerações sobre como esse contexto vai influenciar o jornalismo, mas acho que não é necessário entrar nesse capítulo para entender o prato principal. O que interessa é que, a partir desse momento, o jornalismo foi se abrigar num certo ponto entre o fato e as versões que surgiam para explicá-lo. Os fatos, claro, continuaram sendo importantes, mas apenas para dar veracidade às versões divulgadas, que eram e são as que prevalecem hoje como verdades para o senso comum. E aí chegamos onde queria.
Sem saber onde a verdade se esconde, o jornalismo, na sua insana e metódica busca, passou então a sabotar, até a exaustão, as versões apresentadas por suas fontes. Se elas resistissem, tornavam-se verdades provisórias, até que surgisse uma nova mais robusta. Se não resistissem, estavam desmascaradas e o pobre do jornalista deveria sair a rua novamente, até garimpar uma outra versão, mais consistente, que sustentasse sua notícia. Assim foi e ainda é. É o jornalismo da sabotagem, como identificou Marcelo Coelho. Também não funciona muito bem. Às vezes, por razões outras, uma versão prevalece sobre outras sem contudo provar que seja a verdadeira ou a mais verdadeira.
Esse é um método copiado da ciência, conforme a Ruthinha me explicou. Para validar uma tese qualquer, os pesquisadores tentam encontrar os furos que ela pode conter e vão questionando-a também até a exaustão. Se não provam nada contra, a chance dessa tese estar correta é muito alta. Então, mais uma vez, o jornalismo foi buscar socorro na ciência, para validar o seu discurso da objetividade. Mas ao questionar as versões à exaustão, sem aprofundar no contexto em que o esquecido fato se insere, sem identificar as conexões a que ele está ligado, a imprensa constrói apenas uma realidade hiperfactual, sem nenhuma coerência e sem significado.
Nada que nos ajude a entender o mundo em que estamos vivendo. Não sei se consegui explicar o que entendi da fala de Marcelo Coelho, mas essa versão que fiz me ajudou a entender porque a Folha me parece sempre ser um jornal do contra, que critica tudo, que destrói qualquer explicação possível sobre qualquer fato. Um jornal eternamente aborrecente. A Folha e todos os demais. Entendi porque, no final de uma cobertura, tenho sempre a impressão de que fui enganada. O fato perdeu atualidade, perdeu espaço na imprensa e o máximo que consegui foi supor alguma coisa do que aconteceu.
Ôiaiá...pensei demais. Agora preciso divagar um pouco para descansar.
Vou ouvir Egberto Gismonti.
Boa noite, meus queridos. Um fim de semana com muitas e boas (di) versões.
Até mais ver, um dia.
sábado, setembro 02, 2006
A faca que meu pai me deu
Vou contar uma história. Essa também não é minha, foi a Cris que me contou e foi alguém que contou pra ela. É a história da faca que meu pai me deu. Um dia meu pai me deu uma faca, a mais bonita de todas. Tinha lâmina de aço afiada, cabo de chifre de boi e bainha de couro natural. Uma faca sorocaba, ele disse, mas acho que é mineira. Não importa. Uma belezura. Não era grande de assustar, mas também não era pititica, mais igual a canivete. Era de bom tamanho, pra levar na cintura e cortar rama de folha que atravancasse meu caminho, modelar vareta de bambu pra fazer papagaio, entre outras finalidades mais saborosas, como descascar laranja e cortar carne queimada na fogueira.
Um dia, depois de muito tempo, essa faca ficou meio que cega, já não cortava tão bem como antes e volta e meia me deixava na mão. Então, pedi ao amigo de um amigo do meu pai, que arrumasse aquela lâmina e trocasse por outra mais nova, mais disposta a cortar os fios que embaralhavam o meu caminho ou a carne que sangrava na fogueira. E ele arrumou e ela durou mais um outro tanto de tempo. Um dia, que não aquele primeiro, ela estava num canto do fogão e passou um menino correndo e jogou a faca no chão. Não caiu de ponta, de jeito que estragasse a lâmina, mas caiu de cabo e quebrou um lado da empunhadura, quebrou de tal forma bem quebrado que não dava pra colar nem parafusar de novo a peça no lugar.
Voltei no amigo do amigo do meu pai e pedi a ele que me arrumasse outro cabo para aquela faca de bainha de couro natural. O homem fez um cabo caprichado, de osso de chifre de búfalo com detalhes em metal, fez uma peça bem moderna mesmo. Ficou outra belezura. E eu olhei para aquela faca e fiquei pensando, que faca especial eu tinha nas mãos. Não era uma faca qualquer. Era uma faca mágica. Não tinha mais nada da faca original, nem a lâmina nem o cabo, mas ainda era e sempre será a faca que meu pai me deu.
A Cris me contou essa história uma vez só, em pé, na beira da garrafa de café, e nunca mais esqueci. Acho que é porque ela me fala da vida. Me identifiquei demais com aquela faca que meu pai me deu. Nesse tempo todo já mudei muitas vezes. Cresci, acho que amadureci (disso não tenho tanta certeza, mas é um pouco inevitável), troquei de roupa, experimentei novos estilos, mudei de opinião várias vezes, mas continuo sendo eu mesma, com esse jeito desajeitado de levar a vida.
Essa história também me fala dos homens e do mundo. Na aparência mudamos muito. Ficamos ultra modernos, tecnológicos. Nos desumanizamos, desnaturalizamos para virarmos seres cibernéticos. Não vivemos mais no meio da vizinhança, vivemos em rede planetária, conectados ao mundo virtual. Não nos alimentamos mais dos frutos da terra, mas daqueles transformados em laboratórios, transgênicos. Enfim, pensamos e acreditamos que viramos seres transcendentais. Mas, no fundo, no fundo, continuamos os mesmos.
Permanecemos pavorosamente angustiados e desesperadamente felizes, buscando superar a incomunicação humana para nos tornarmos uno e, aí de fato, transcendentes, como propôs Theilhard de Chardin. Igual a faca que meu pai me deu, permanecemos, ainda que fingindo termos superado a nossa condição humana, permanecemos natureza, poeira do universo, os mesmos desde sempre. Que nem os ruminantes, que por séculos e séculos a fio continuam no pasto mastigando o capim, ainda ruminamos, no fundo da nossa alma, as velhas idéias de solidariedade e o sonho de nos tornarmos o todo de qualquer parte.
Continuamos sendo peças de puzzle. Uma única não quer dizer nada, não tem nenhum significado, como escreveu um dia Georges Perec (in A vida modo de usar). Uma única, não passa de pergunta impossível, desafio opaco, mas basta que se consiga conectar uma delas às suas vizinhas, ao cabo de alguns minutos e tudo se torna evidente. Das duas peças, miraculosamente reunidas, se forma uma única e assim por diante, até vislumbrarmos um conjunto pleno de significado. E é assim que eu penso o mundo. Sozinhos, é difícil percebermos o sentido da nossa existência. Juntos formamos um belo conjunto da natureza, com a mesma missão de sempre: encontrar o sentido da vida. Pena que o homem contemporâneo ande tão sozinho e tão distraído, preocupado apenas com suas guerras, particulares ou coletivas. Pena mesmo.
Vou aproveitar a chuva e montar um quebra cabeça de mil peças.
Um fim de semana em boas vizinhanças.
Até de repente.
quarta-feira, agosto 30, 2006
E agora, José?
Ahmadinejad convidou bush, aquele, para um debate sem censura. Meninas, isso é tudo que estamos precisando. Um debate aberto, franco, desarmado, sem meias palavras, sem produção, sem cortes. Que delícia! Estou sentindo a maior falta disso. Olhem só o nosso horário eleitoral. Que tédio, que modorra. Até propaganda de celular é mais emocionante.
Alguns candidatos estão sendo até absolutamente verdadeiros, mas sem efeito. Vocês já ouviram essa: o seu voto é a minha vitória? Ele foi sincero, vamos admitir. E essa outra: Olá eleitor! Vou começar roubando um pedacinho do seu tempo... Como assim? E depois? Sem comentários, né? E o 45-44, o número certo do sapato que vai chutar os corruptos? Horrível! Parei de ver e ouvir. Se ficarem sabendo de algum debate, me avisem.
Mas já nem sei o que é pior. Não ter debate ou ter um debate com o Alckmin. Já tentaram imaginar o Alckmin debatendo? Ele parece que não tem arranque. Pisa fundo no acelerador, mas o carro não sai do lugar. Fica aquele rrãmi, rrãmi, rrrãmi e não acontece nada. Não sei se um debate entre Ahmadinejad e bush, aquele, mudaria alguma coisa. Os dois são muito cabeça dura. Acho que seria um diálogo de surdos, mas que daria o maior ibope, isso daria. Seria emocionante, se fosse.
Vou dizer o que eu penso. Reduziram a política a um amontoado de números sem nenhum significado. Os nossos grandes temas, que batem na veia e deságuam no coração, que nos afligem a todo instante, foram transcritos para a linguagem matemática, viraram gráficos com linhas que sobem e descem, como se fossem planos de vôo para elevadores. Tem dó. Não há conversa que renda nessa tabuada.
Eu penso que a política é a arte de criar possibilidades. É nesse exercício que se engorda o discurso. Na política, inventamos realidades, sem constrangimento, imaginamos novos cenários, novos atores, novos papéis. Depois a história vai surgindo. Não há nada do que está acontecendo hoje, por exemplo, que não tenha sido antes imaginado por alguém. Mas, parece que agora os números embotaram nossa imaginação. Só conseguimos pensar a partir deles, no limite do possível. Do real. E aí não saímos mais do lugar.
Outro dia fui ouvir o Francisco de Oliveira falar sobre o Esquecimento da Política. Para ele, a política é uma invenção formidável, destinada a corrigir as assimetrias de poder geradas, em qualquer sociedade, pela ação do mercado, que é intrinsecamente concentrador de riquezas e, portanto, de poder. Mas quando a própria política é reduzida a uma prática contábil, ficamos condenados à barbárie. Como enfrentar esses desequilíbrios, forjados pela economia, se não pela violência? Como é que aqueles meninos, que foram à escola, aprenderam a ler, fizeram um curso técnico qualquer, se esforçaram pra caramba, mas continuam fora do mercado, como é que esses meninos vão garantir sua vaga no grande espetáculo da vida? Foram transformados em refugo humano, lembram?
Quando mais precisamos da política, ela se tornou absolutamente irrelevante e impotente. Foi colonizada pela economia. Pra Rutinha, não temos saída dentro dessa racionalidade, pois a política e o mercado são como irmãs siamesas. Nasceram juntos, estão na raiz de uma mesma matriz. Ou damos um jeito novo de inventar a vida, de olhar o mundo a partir de um outro ponto de vista, até enxergarmos saídas mais honrosas, ou continuaremos nossa marcha impávida rumo ao nada.
Tô concordando.
Uma noite inspirada para todos. Amanhã, levantem cedo, abram a janela, e experimentem olhar o mundo de outras bandas.
Buenas, amigas e amigos.
sábado, agosto 26, 2006
Chamem a diarista!
Mas ai ai, viu meninas! Ao longo da minha vida, ocupei um bom espaço do meu limitado cérebro só para memorizar o nome de nossos planetas, inclusive Plutão. Tinha até um macete para não errar a seqüência deles. Era uma frase: Minha velha traga meu jantar, sopa, uva, nozes, pão. Ou seja: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Agora cortaram o pão. Não preciso nem divagar sobre o significado simbólico dessa decisão dos astrônomos, né? Vou poupá-las.
O que quero dizer mesmo é que, desocupando essa pasta, posso agora, quem sabe, dar a ela uma nova serventia. Quem sabe, destiná-la ao aprendizado do inglês. Descobri, faz pouco tempo, que minha resistência à língua imperial não é apenas ideológica. Falta espaço mesmo no meu disco rígido. É mais um problema de hard, que agora, penso, poderei superar. Descobri que o nosso cérebro é um sistema multifuncional. Cada milímetro de massa cefálica é destinado a preservar e executar determinadas funções. Fiquei pensando que, talvez, a minha parte destinada ao aprendizado do inglês esteve mais ocupada, nesses anos todos, com os planetas. Como não há mais certezas nesse universo, vou deletar esse arquivo e tentar novamente aprender uma língua.
Aliás, pensando bem, vou radicalizar. Vou dar de diarista e fazer uma faxina geral. Depois vou desfragmentar o meu HD para ver se ele fica mais esperto e passa a operar com mais rapidez. Entre outras coisas, vou deletar todos os arquivos que se tornaram inúteis. Por exemplo: vou arrastar para a lixeira a pasta com o relato sobre o descobrimento do Brasil. Esse foi um dos maiores engodos que aprendi na escola. Darcy Ribeiro e César, o BarãoVermelho, já diziam isso e hoje qualquer criança de sete anos já sabe também: os portugueses nunca descobriram o Brasil. Chegaram até aqui de caso pensado e só nos encontraram porque já sabiam que estávamos ali. Não vemos o que não conhecemos. Por isso, o mais correto mesmo é dizer que os índios descobriram as caravelas.
Outro dia vi um filme que confirma essa versão. No Quem somos nós?, os cientistas relatam que quando CristóvãoColombo chegou nas Américas, os índios custaram a notar sua presença se aproximando. Perceberam as águas do mar agitadas, mas olhavam o horizonte e não viam nada. Não viam, porque nunca antes tinham visto uma caravela. Não acompanharam o desenvolvimento tecnológico dos meios de transporte. Foi preciso o pagé, o mais esperto deles, se concentrar bastante, com os olhos fixos no horizonte, para olhar uma, duas, três, quatro, até se familiarizar e, de repente, ver as caravelas. Imagino que aqui também tenha se passado assim. De repente, o nosso pagé de plantão olhou e viu: descobriu as caravelas portuguesas. Aí, o resto da história, todos nós já conhecemos. Ou pensamos que conhecemos. A versão que aprendi na escola vai pro lixo.
Vou deletar também o arquivo inteiro destinado à matemática. De tudo que aprendi, os únicos conhecimentos que ainda utilizo são relativos às operações. Ah, e regra de três, que faço utilizando também meus conhecimentos básicos de matemática: soma, subtração, multiplicação e divisão. Para isso, não preciso gastar massa cinzenta. Meu celular tem uma calculadora muito boa. Realiza todas as operações com um rigor científico. Aliás, desde que passei a usar celular, não ocupo mais meu HD com números de telefone. O único que ainda sei de cor é o da casa de meus pais, que, surpreendentemente, nesse mundo instável, ainda é o mesmo de quando pertencia ao meu avô, acrescido apenas de alguns novos prefixos, que fui aprendendo a repetir ao longo da vida e não me esqueço mais. Está automatizado. Nem sei como esquecer esse número.
Também não gasto mais memória com letras de música. Nunca cantei um dó mesmo! Nunquinhas, apesar da insistência de Ana Márcia e do meu professor de violão. A bem da verdade, faz muitos anos que me conformei em apenas ouvir as músicas, sem nem sequer ameaçar repeti-las debaixo do chuveiro. E agora, para recuperar as letras que gosto mais, até para citá-las de vez em quando, vocês já sabem, né meninas? Google nelas! Aliás, o google e a wikipédia têm me permitido esquecer muitas outras coisas e liberar enormes espaços do meu disco rígido. O único problema é quando sou surpreendida por alguma curiosidade longe do computador. Aí fico na maior saia justa. Mas o meu adola disse que isso já tem solução. Posso fazer consultas pelo celular. Ele falou que um dia vai me ensinar.Vou esperar sentada.
Então é isso. Outro dia conto como vou redistribuir as áreas desocupadas do meu cérebro.
Um fim de semana pleno de horas livres e novas descobertas para todos.
Bye.
quarta-feira, agosto 23, 2006
Gentileza urbana
Não considero os chineses um povo rude. Acho que são diferentes e respeito e admiro essas diferenças. Portanto, não há nenhum julgamento moral na minha satisfação. Mas admito que essa notícia me trouxe um grande alento. Tenho andado muito angustiada com os rumos que a nossa história está tomando. Sempre que abro o jornal para tomar pé das coisas, tenho a certeza de que já estamos vivendo em plena barbárie e fico com o sentimento de que ainda temos muito por onde piorar. Hoje foi mal, mas será melhor do que amanhã. E no dia seguinte, concluo exatamente a mesma coisa. Isso me arrasa. Não é do meu feitio cultivar a desesperança. Pelo contrário, acordo sempre muito bem humorada e super animada a começar um dia novo. Aí olho o jornal e o bicho pega. Me dá vontade de voltar pra cama e deixar pra depois. Como isso não é possível, vou só levando o que tenho de levar até chegar outro dia. E assim por diante.
Mas olhem só se não é pra me aborrecer mesmo. Vamos começar pela situação no Oriente Médio. Ninguém alivia nada por ali. Nunca. Estão sempre esbarrando no limite da tensão. E vocês sabem, a maioria dos países dessa região já possui algum tipo de arma nuclear, monitoradas cotidianamente por Israel. Mesmo os que acaso ainda não chegaram lá, não temem usar o próprio corpo para ameaçar a sobrevivência dos vizinhos. A vida ali vale tanto quanto nada. Aí vocês acham mesmo que se o Irã, por exemplo, que está quase conseguindo a sua carteirinha do clube da Formiga Atômica, se o Irã desvendar a fórmula nuclear para fins militares, Israel vai assistir passivamente a essa conquista? É claro que vai primeiro detonar, para depois conversar. Não tenho dúvida de que estamos à beira de uma guerra de alto poder destrutivo. Ou pelo menos não tinha.
Aí vocês mirem um pouco pra esquerda, é a porta do inferno, como ouvi alguém falar outro dia. É só miséria. Agora atravessem o oceano e vão dar de cara com São Paulo, Rio ou onde o vento levar. Está muito diferente? Vamos ser sinceras. Quase nada. Ontem mesmo, fui navegar na internet e cai No mínimo e vi uma entrevista com o sociólogo Luiz Carlos Fridman, que nos coloca numa situação trágica. Estamos sendo testemunhas da criação de uma nova classe social, se é que podemos nos referir a ela dessa forma. É a classe do chamado refugo humano. Lixo. É aquele grupo de pessoas que não ocuparam, não ocupam e não ocuparão lugar nenhum na divisão social do trabalho. E eles sabem disso. E porque sabem, estão se virando, do jeito que é possível, para conquistar um lugarzinho ao sol. É uma guerra também sem trégua e sem limites. E ninguém sabe ainda como lidar com essa violência, que de aguda, virou crônica.
Não consegui terminar de ler a entrevista, mas o que li foi o suficiente para estragar o meu humor. Então é assim, nessa sopa de letrinhas que o mundo virou. Tem horas que gostaria de me desalfabetizar, pelo menos viveria bem na ilusão. Fazer como está fazendo Perelman, aquele matemático que decifrou um grande enigma, proposto há mais de um século. Vi a notícia no CBN Brasil. O danado do russo resolveu equações cavalares para provar uma conjectura de um francês sobre um assunto que não tenho a menor idéia. Fez tudo de difícil que a matemática tem, mas parece que não sabe fazer contas, ou não quer. Dispensou um prêmio de US$ 1 milhão e sumiu no mapa. Eu também gostaria de dispensar os milhões de notícias que me chegam diariamente pelos jornais, revistas, pelo correio, pela rádio, televisão, pela internet e por aí afora. Dispensar até os livros, alguns. E sumir no mapa. Só não me arrependo de vez de ter um dia aprendido a ler quando vejo uma notícia como essa, sobre os chineses. Fico pensando que, talvez, o pior já tenha passado. Talvez, não estejamos entrando na barbárie como fico temendo, mas já saindo. Talvez, os meninos terão a chance de conhecer um mundo diferente, um outro que não esse onde estamos envelhecendo. Talvez.
Um alegre despertar para todos, um bom dia e não se esqueçam das gentilezas urbanas. As mudanças começam assim, nos pequenos gestos.
Inté.
sábado, agosto 19, 2006
Próxima estação: Vida
Nesses dias, suspendi a leitura de jornais, que não ajudavam em nada a travessia. Só não consegui me manter plenamente sob as graças de Santa Ignorância. Mas tudo que fiquei sabendo foi só de ouvir falar e, assim mesmo, escutava só o que me convinha e nada do que me apoquentava. No mais, ouvia música. As mesmas: Madeleine, Norah Jones e sua banda, Racionais, Tupak Shakur e cia. E subia e descia a Raja. Às vezes fazia o caminho da Nossa Senhora do Carmo, pra variar. E, nas horas vagas, trabalhava, que ninguém é de ferro.
Só que tem uma coisa. Meninas, vocês sabem disso muito bem: curiosidade, se não mata, engorda. Mas, assim mesmo, a gente arrisca, porque gostamos de viver é perigosamente, não é? Então. Ontem, quando cheguei em casa e vi aquela pilha de jornais vencidos, todos pegando poeira debaixo do teclado roland, não pude resistir. Fui pelo menos passar os olhos para ver como é que a vida ficou nesses últimos 15 dias de agosto. E aí desconfiei que a tese de Heráclito não é tão verdadeira quanto imaginava.
Nada passou nesses 15 dias. Nada mudou, nem as manchetes de jornais. Israel e Hezbollah continuam trocando tiros na fronteira do Líbano; bush e Condolezza contorcendo a cintura pra não atrapalhar os planos de Israel e não ficar mal na foto; dilúvios, vulcões, tempestades, enchentes pelo mundo afora, mas sem manchete nos jornais, porque esse assunto já perdeu seu charme; e além de tudo isso, mais. Dá-lhe mesmice. As instâncias superiores continuam investigando os sanguessugas, que continuam fazendo campanha para reeleição; o Plenário continua sem votar e o povo sem saber em quem votar, sem saber porque faz tanto calor no inverno e porque Lula continua subindo nas pesquisas. Em Sun Paulo, o PCC , na dele, também vai queimando ônibus e Cláudio Lembo, na boa, dizendo que tudo está sob controle. De quem, né? É o caso de se perguntar. Mas a vida, parece, não mudou de página nesses quinze dias. Ah! E tem os números. Para que servem mesmo os números? Os da economia continuam melhorando. Bom pra uns, pior pra outros. E, claro, o Cruzeiro continua invicto. Perde todas. E assim caminha a humanidade, sem sair do lugar.
Meninas, só vi uma notícia nova. Vocês viram como somos muito mais parecidas com o universo, bem mais do que supunha a nossa vã filosofia? Então. Li num desses jornais vencidos que o universo pode ser 2,1 bilhões de anos mais velho do que aparentava. E olha, sem precisar usar botox, silicone nem qualquer outro recurso da medicina moderna. É o que eu digo. Basta ser feliz, que a vida perdura. É verdade que todas nós temos os nossos segredinhos para manter a aparência sempre rejuvenescida, não é? Beber, no mínimo, seis copos d’água por dia; dormir oito horas de sono por noite; espreguiçar antes de escovar os dentes; comer muita verdura e frutas variadas; caminhar ao ar livre – de esteira não conta; espreguiçar; rir do que é engraçado e do que não tem jeito; perder a pressa; espreguiçar; cultivar a paciência; destampar de quando em vez, que também faz bem; espreguiçar e assim por diante.
Com essa estratégia, até que conseguimos enganar um pouco. Às vezes, parecemos de um a dois anos mais novas. Sem botox, sem silicone nem qualquer outro recurso da medicina moderna. Agora, vou contar pra vocês, 2,1bilhões de anos é tempo pra burro! Manter uma aparência mais nova, escondendo tudo isso, não é coisa para amadores. Mas se temos mesmo o dna das estrelas, não será difícil desvendar esse mistério. Conhecemos, inconscientemente, os segredos do universo. Basta apenas ficarmos atenta para a senha que irá nos desvendá-lo.
Hoje, por exemplo, vou dedicar alguns minutos a essa procura. No início da noite, vou descer pro quintal, fechar os olhos, ficar em silêncio absoluto por alguns instantes e aguardar que nossas irmãs estrelas me enviem algum sinal. Um piscar de luz, um brilho novo no céu, um qualquer coisa que me indique que a vida, mesmo que aparentemente não esteja mudando, está tomando novos rumos e quando formos reparar, ela já será diferente. Será outra. Estará renovada de tal jeito, que nem nós seremos capaz de reconhecê-la rapidamente. Nesses casos, sou absolutamente crente de tudo. Vou aguardar. Sob as graças de Santa Paciência.
Um fim de semana com energias renovadas para todos.
Até de repente ou até quando der
quinta-feira, agosto 10, 2006
Santo Agostinho, iluminai-nos!
Agora, fiquei preocupada mesmo, porque, além de gostar, concordei com Heloisa Helena. Também acho que o Parlamento deve atuar com autonomia, independência e na oposição, para ter liberdade e disposição política de fiscalizar com rigor o Executivo. Também acho que a elaboração da lei orçamentária deve ser um processo democrático e aberto, fora dos gabinetes e com participação da sociedade. Também acho que o orçamento aprovado no Parlamento deve ser determinativo e não autorizativo. Também acho que a credibilidade e autoridade do Parlamento só serão resgatadas quando essa função for exercida plenamente, como Heloisa Helena propõe. Então concordamos em muitas coisas e todas essenciais.
É o mundo ideal, mas alguém tem de propor o mundo ideal para servir ao menos de parâmetro no meio dessa barafunda em que estamos afundados. Discordamos, mais ou menos, só num ponto. Eu adoro blusa branca, mas odeio rendinhas. Só de olhar, arrepio. E Heloisa Helena ama rendinhas. Blusas brancas de rendinhas. É de chorar, mas vou relevar esse aspecto, afinal rendinhas são apenas detalhes, né?
Também vi o Cristovam Buarque no Jornal das 10. Que coisa, siô. Aí fiquei mais preocupada ainda. Gostei também. Adorei quando ele disse que não quer disputar a presidência só pelo poder, mas sim porque tem uma causa para defender. Essas coisas a gente até esquece. A disputa política anda tão mesquinha, tão rasteira, que a gente se esquece mesmo de para que serve o poder. Hoje vou tentar acompanhar a entrevista do Lula. Se gostar, aí será o limite. Vou me internar. Vai ser a prova cabal de que, definitivamente, perdi o senso crítico. Estou à deriva. Se eu conseguisse me desligar, sob as graças de Santa Ignorância, até que seria bom navegar sem rumo, mas como estou poupando suas bênçãos, fico é mais preocupada, principalmente porque outubro já está aí.
Vou ver tevê, voltar a ler jornal, ouvir rádio e tentar recuperar massa crítica.
sábado, agosto 05, 2006
Santa Ignorância, olhai por nós!
Mas a medicina moderna não é tão crente assim. Ao contrário. Prega o mais amplo e irrestrito compartilhamento de informações, com suas variáveis e todas as demais possibilidades. Uma confusão mental do tamanho de um mamute gigante. O paciente, que deveria ser passivo e obediente, como bem diz a palavra ou como bem a traduzi, torna-se então co-responsável pelas decisões da equipe que o assiste, mesmo não entendendo nada de medicina moderna. De paciente, vira coadjuvante. Exatamente isso, como explicam os dicionários, de ajudados, passam a ajudar também.
Fui subindo a Raja e pensando. Vê se pode? Alguém que precisa de ajuda, vai ajudar? Não pode dar muito certo. Quem precisa de ajuda, tem de se deixar levar. Tem de deixar ser ajudado. Tem de agir como se fosse um ignorante mesmo que somos, sem nenhum constrangimento. Deixar que os outros digam: vá por ali, faça isso agora, faça aquilo e assim por diante. Deixar e mais, ter fé em que essas são boas decisões. Melhores do que aquelas que poderíamos tomar, quando precisamos de ajuda.
Mas a medicina moderna não é assim. Na sua limitada maneira de conhecer a vida, ao invés de rogar a qualquer Santa, das tantas que nos olham, que a inspire, a medicina moderna prefere dividir ou transferir a responsabilidade com o pobre do paciente coadjuvante. Eu já escutei muito doutor dizer isso: agora é com ele! Como?! Se o ele está debilitado, um bagaço, um poço de dor, o ele ainda tem de arranjar um jeito de sair desse fundo sozinho? Se me viro? E se não se me viro, a culpa é minha? Eu hem?
Fui subindo a Raja e pensando. Tomara que a Santa Ignorância envolva os nossos pacientes com seu manto azul celeste e os tornem surdos e cegos para todos os conhecimentos da medicina moderna. Vindos de onde vierem, da boca dos doutores especialistas ou da sapiência dos mais vividos. Tomara que a Santa Ignorância encha de graça nossos pacientes. Tantas e tantas graças que eles se deixarão levar movidos apenas pela fé na vida. A fé dos ignorantes, que não sabem nada de medicina moderna, mas estão certos de que tudo isso passa. Hoje passa um pouco. Amanhã mais um bocado e assim por diante. Até tudo sumir e ficar bom de novo, né?
As graças de Santa Ignorância são boas também para tornar a vida toda um pouco mais leve.
Vou subir a Raja.
Um fim de semana peso pluma para todos, na mais santa ignorância.
domingo, julho 30, 2006
A idade da razão
Minha avó também era assim. Ela até concordava que é, a partir de uma certa idade, que as pessoas conquistam a liberdade de falar e de fazer o que bem entendem. Mas não porque estão caducas, pelo contrário. Até uma certa idade, a gente não tem é muita noção do perigo, das conseqüências dos nossos atos. Mas, a partir de uma certo momento, que não é 75 anos e varia de pessoa pra pessoa, estamos maduros para assumir nossas opiniões, nossas escolhas. Aí, sim, estamos livres, leves e soltos para transitar no mundo sem arrependimentos. Ela adotou essa filosofia e viveu muito bem seus 105 anos.
Mas tem outra coisa que me intriga mais nessa fala do Lula. Quando ele diz que só a partir dos 75 anos temos a liberdade de falar e de fazer o que bem entendemos, ele está querendo dizer que o que fala e faz não é bem o que ele pensa nem o que gostaria de fazer? Então o que é que ele gostaria de falar e de fazer que não diz nem faz? Por quem ele fala, então? Pra quem ele faz? Quem é o dono da sua voz? Quais interesses determinam suas ações? Minha mãe argumentou que não é bem assim. Pode ser que uma pessoa só fale e faça o que pensa e deseja, mas não fala e faz tudo que pensa e deseja, porque algumas dessas coisas podem não agradar outras pessoas de quem ela gosta, porque outras coisas podem machucar essas pessoas, ou que são coisas que são erradas ou não são socialmente aceitáveis ou ainda porque não chegou o momento adequado de falar e de fazer.
Não discordo. Outro dia, por exemplo, comentávamos sobre a nossa dificuldade para lidar com essa coisa que chamamos povo. Povão mesmo. Dificuldade que o Lula, por exemplo, não tem, pois seja lá como for que ele vive hoje, é visto, por esse mesmo povão, como aquele que melhor o representa. Lula é o povo no poder. O que não quer dizer, absolutamente, que ele represente os interesses desse mesmo povo, claro, né? Nessa conversa fiada toda, um amigo, bem mais sofisticado que eu, comentou que sua relação com o homem da rua, com essa gente humilde que o Chico cantava, é muito contraditória. É de amor e ódio. Ao mesmo tempo que se sente movido, por esse amor, a fazer algo por ela, sente um ódio danado dessa mesma gente, que nos ameaça com a sua pobreza, com a sua ignorância, com suas vidas desprovidas de sentido, tornando as nossas também supérfluas e egoistas.
Ele deu o exemplo daqueles meninos que ficam trançando no meio dos carros, nos pedindo, nos oferecendo, nos intimidando, nos ameaçando, nos matando. Ele sente amor por esses meninos, a ponto de querer e de fazer algo por eles. E sente ódio também, sente vontade de ameaçá-los da mesma forma, de matá-los com as mesmas armas. Porque, como eles, estamos todos perdidos no mesmo caos, sem saída. Mas não faz isso, é óbvio. Esse é um exemplo de que, mesmo sendo livre, leve e solto para dizer o que pensa e fazer o que quer, meu amigo não diz nem faz tudo que passa pela sua cabeça.
Mas essa é outra história. O que eu fico pensando é que quando um político, eleito para representar uma parcela da população, para defender um projeto de mundo, um idéia, uma política; quando esse político não se sente a vontade para dizer tudo o que pensa e fazer tudo que acha que tem de ser feito, é estranho. É muito esquisito. Tem uma coisa errada aí. Ou ele não é exatamente o melhor representante daqueles a quem ele diz representar ou ele está fingindo representar um grupo que, de fato, não representa, ou está apenas representando seus próprios interesses. Ou tudo isso junto.
O maior dom de um político é a palavra, é o poder de poder dizer, o poder de poder começar a fazer pelo menos. Se não é, o que é, então? Vai esperar fazer 75 anos? Então, um dos critérios que vou adotar nessas próximas eleições, será o da idade. Só voto em quem tiver mais de 75 anos de idade. Pronto.
Para vocês, com menos de 75, a minha mais plena e completa desconfiança.
Uma semana livre, leve e solta para todos.
Até mais não ver.
quarta-feira, julho 26, 2006
Vida de artista
Primeiro, ela fica muuuito confusa. Esse detalhe é importante, porque diz muito do comportamento das formigas. Depois, ela tem a chance de trombar com o acaso ou com a sorte: cruzar com uma companheira no meio do caminho. Aí já viu, as duas movem as anteninhas, trocam feronomas, tricotam e encontram o rumo de casa. Agora, se isso não acontece, aí o bicho pega. E pega mesmo e ela corre sério risco de morrer. As formigas são assim: altamente vulneráveis. Persistem no planeta, porque se reproduzem aos milhões e são absolutamente disciplinadas. Mas sofrem de uma limitação básica. Pertencem a uma sociedade de especialistas, organizada por divisão de tarefas. Nela, cada grupo de indivíduos assume uma única e exclusiva tarefa, para a vida inteira.
Além das reprodutoras - as rainhas e os machos - existem as obreiras, que trabalham incansavelmente a vida inteira, fazendo sempre a mesma coisa, e as predadoras, soldados obedientes, responsáveis a vida inteira pela defesa da colônia ou ataque aos inimigos. É isso o que cada casta sabe fazer. Daí a confusão mental que elas enfrentam, quando se perdem ou se encontram diante de uma situação nova ou inesperada. Piram completamente. Se não aparece ninguém para ajudá-las a reencontrar o caminho, elas ficam perdidonas e entregues de bandeja a qualquer predador. Esse é o perfil da sociedade das formigas.
Aí fui andar na areia. Olhar as ondas, que desafiam todos os padrões que lhe são impostos. Arrebentam na praia cada hora de um jeito, num ritmo cada hora diferente do outro, com uma intensidade, mais forte ou mais fraca, totalmente ao acaso. E vi claramente a polêmica que vinha em anexo àquela pergunta. É a seguinte: será que nós também não estamos como essa formiguinha, perdidos de tudo? Será que não estamos também muito, muito confusos, diante desse mundo improvisado que estamos vivendo? Será que não estamos também correndo sério risco de morrer, por não sabermos buscar soluções novas para os imprevistos que atravessam nosso caminho a todo instante?
Coincidentemente, essa tarde, fui provocada mais uma vez a retomar essa questão. Claro, em outro contexto e de uma forma bem diferente, mas arrisquei a trilhar o mesmo caminho. No fundo, no fundo, o que Gilberto Dupas discute hoje no seu artigo, publicado no destemido jornal Folha de São Paulo, é exatamente isso. Se nós nos perdermos, o que poderá nos acontecer? E o que entendi do que ele disse é isso mesmo: ficaremos muito confusos e, se não encontrarmos ninguém para nos ajudar, correremos sério risco de morrer.
Só para situar. Citando algumas evidências dos profundos desarranjos que caracterizam a nossa sociedade, Dupas nos adverte que urge um novo olhar, onde o atual já não dá conta, para encararmos a imensidão de desafios que temos pela frente. Não vou copiar o que ele escreveu, porque o original é muito bom e vai ser muito melhor saboreá-lo na fonte. Mas a idéia é essa: até então, estávamos acostumados a um mundo de referências seguras, um mundo sólido, assentado na rotina de todos os dias. Éramos iguais a formiguinha. Tínhamos tarefas bem definidas e rotinas bem planejadas. Mas esse mundo caducou. Como disse Arthur Clarke, o futuro não é mais o que costumava ser. E hoje, quanto mais sólidos tentamos parecer, mais vulneráveis estamos diante do dinamismo, da ambigüidade, do imprevisto e da variedade a que estamos submetidos.
Como a formiguinha, estamos perdidos e confusos. Mas, para Dupas, a desorientação não é algo que possa ser combatido, e sim uma oportunidade desestabilizante para a busca de soluções. Entenderemos melhor uns aos outros se nos aceitarmos como perdidos e desorientados, vivendo num sistema onde o imprevisto é a regra e assumindo o perigo da ruptura, da morte e da decomposição. Dupas pegou pesado mesmo. Mas vou concordar com ele, quando conclui que o importante é investigarmos a razão mais profunda das coisas que nos deixam perplexos e buscar caminhos, em vez de inventar entidades que aliviem nosso terror momentâneo, mas que criem outros.
Então, pensei de novo na formiguinha. E, olha só, acho que não é hora mais de ficarmos nos espelhando nas sociedades dessas hymenopteras, assim como fizeram os gestores das sociedades industriais. Agora, para enfrentarmos esse mundo doidão que demos de criar, temos de buscar inspiração em novas espécies. Talvez, nos golfinhos. Golfinhos sobrevivem num ambiente difícil, rodeados por tubarões, mas se preservam, porque estão sempre vigilantes, interpretando as correntes, buscando informações, monitorando o ambiente.
Diante do improvável, do imprevisto, os golfinhos sabem se unir e agir em grupo e, se estão sozinhos, agem da mesma forma, buscando, implacavelmente, algo diferente, algo que realmente funcione, que faça sentido, para garantir a sua sobrevivência. Se necessário, podem até matar um tubarão, mas não é um objetivo. É assim que são, poderosos, porque não se rendem à rotina, buscam na criatividade, no improviso, a superação de suas dificuldades. São uns artistas. Êita, gostei deles.
Um oceano de águas claras e povoado de golfinhos para todos.
Inté.
sábado, julho 15, 2006
Palavras ao vento
Cassandra bem que gostou. Aprender coisas novas é sempre bom. Mas, não era esse o objetivo de Apolo, ser um mero professor de metodologias. Queria mais. Só que a ficha não caiu. Cassandra não entendeu ou não quis entender. E Apolo, vingativo, lançou-lhe uma maldição. A menina, agora já moça, continuaria a profetizar eventos de toda ordem, mas ninguém, jamais, acreditaria nas suas previsões. Jogaria palavras ao vento. A partir daí, Cassandra passou a vagar pelo reino, prenunciando as desgraças e tragédias que estavam por acontecer, mas ninguém, ninguém jamais mesmo, a levaria a sério outra vez. Virou uma louca mansa e histérica, pessimista incorrigível, que só via desgraça em tudo que olhava, até o fim.
A história é essa. E nos lembramos dela quando começamos a pensar sobre o mundo que nos espreita. Somos capazes de ouvir as vozes dos deuses. A todo instante escutamos as notícias que nos chegam. Somos capazes de processar essas informações e prever os cenários onde amanhã estaremos atuando. E somos tolos o bastante para advertir os mais próximos sobre o que está por acontecer. Mas estamos condenados à maldição que recaiu sobre Cassandra. Somos impotentes, como ela, para modificar a história.
Não há nada do que está acontecendo hoje no mundo que não tenha sido, incansavelmente, prenunciado por alguém que tinha o dom de ouvir as vozes dos deuses. Não há nada do que está acontecendo na África e que ainda vai acontecer, que não tenha sido e não venha sendo prenunciado aos quatro ventos. Não há nada do que esteja acontecendo hoje na América do Sul, que não tenha sido resenhado por um bom observador da realidade. Não há nadica de nada do que acontece hoje no Brasil que não tenha sido, por um e por todos, com um mínimo de bom senso, nada, nada mesmo, que não tenha sido já pressentido, previsto, descrito, dito e datado.
Agora, o que temo é a falta do medo, que antes sentia e não sinto mais. Escuto as vozes dos deuses. Como todos nós, costuro as palavras umas nas outras e, do desenho que surge delas, bordo os cenários que se prenunciam. Mas, diferente de Cassandra, já não fico histérica com o que vejo. Já não temo a sorte que nos atropela no meio da rua. Estou imune ao desespero. Conformada com o papel que a maldição de Apolo nos reservou a todos, de profetas desacreditados do apocalipse. Vou curtir o fim de festa na beira da praia. Vou pular sete ondas e desejar, com todas as minhas forças, que os deuses, sempre misericordiosos, nos concedam o antídoto da maldição de Apolo. Desejar que, em algum tempo, que não seja tão distante assim, despertemos da nossa apatia e retomemos o controle do bonde da nossa história.
Hasta la vista!
domingo, julho 09, 2006
Ah, olhar estrelas!
Aprendi, por exemplo, que futebol também se joga com a cabeça. Isso é óbvio. Mas até onde eu entendia, a cabeça era para cabeçear a bola, como o Ronaldinho fez e funcionou num dos jogos do Brasil. Depois de muito sofrimento, compreendi, no entanto, que não bastam só as cabeçadas dos jogadores. O técnico também precisa usar a cabeça, bem mais do que os pés. Aliás, os pés devem ter uma utilidade convencional para os técnicos, a cabeça é que precisa estar turbinada para bolar as jogadas que vão surpreender os adversários. Sobre cabeçadas, aprendi também que, no caso dos jogadores, eles devem ter como alvo única e exclusivamente a bola. Quando um jogador tenta usar a cabeça para, por exemplo, neutralizar um adversário, ele pode zidanar. Essa foi uma grande lição.
Outra coisa que aprendi nesses 30 dias foi que todos nós, quando atingimos o nosso limite, chegamos à exaustão, quando já estamos prestes a desmontar, todos nós temos o direito, o dever, a obrigação de nos jogarmos ao chão. Doravante, isso passa a ser normal pra mim. Nunca vi, principalmente depois das quartas de finais, tantos jogadores se jogarem ao chão, sem nenhuma razão aparente, a não ser o cansaço. Ficavam ali, olhando pro céu, até receber, nem que fosse por alguns mínimos instantes, a assistência da equipe técnica. Aí bebiam uma águinha fresca, respiravam, levantavam e bola pra frente. Vou adotar essa prática com maior freqüência também. Ando cansada de correr pra lá e pra cá, segurando peteca, descascando abacaxi e tapando buraco que não abri. Vou me jogar ao chão e ficar olhando as estrelas de vez em quando.
Tem mais, aprendi o novo significado da expressão fair play. A língua é assim mesmo, está em permanente movimento. Até onde eu sabia, fair play é aquela qualidade de quem joga limpo, com classe, com elegância, sem ferir as regras do jogo. Eu nunca usei essa expressão, embora tenha muitos amigos que têm fair play. Mas já tinha visto, algumas vezes, pessoas se referirem a outras, até mesmo dentro da política, como sendo alguém que tem fair play. Este significado, no entanto, parece, caiu em desuso nesta Copa. Fair play agora significa aquele que está abúlico, apático, sem vontade, sem desejo, sem alma. Pelo menos é isso que entendi, quando deram o título de campeão de fair play para o Brasil. É isso mesmo, né?
Aprendi ainda, distraidamente, que nem sempre que a bola balança a rede, é gol. Isso foi o Maurício que me ensinou. Ele entende tudo de futebol. Comemorei muitos gols que não existiram, só porque a bola balançou a rede, mas pelo lado de fora. Paguei esses micos sim, mas aprendi, né? Aprendi o que é impedimento. Aliás, isso eu já sabia, só que, conhecia por banheira. Era assim mesmo que o Fernando Sasso dizia, mas isso, no meu tempo: fulano estava na banheira. Aliás, de novo, Fernando Sasso fez muita falta nessa Copa. Os jogos do Brasil estavam perfeitos para o seu estilo de narração.
Outra coisa que aprendi é que futebol se resolve é no campo. Como na vida. Pode até ser que esta Copa tenha tido bastidores impublicáveis ou, pelo menos, ainda não decifrados pelos repórteres e comentaristas esportivos, que não têm muito faro investigativo, com raríssimas exceções. O Brasil é um exemplo. O Brasil não jogou porque se jogasse ganhava e não podia ganhar. Isso é uma hipótese. Pode ser que o Brasil estivesse impedido de ganhar por alguma negociação de bastidor, feita por não sei quem e nem por qual objetivo. Pode ser. Mas isso não interessa ao torcedor. Ao torcedor, interessa o jogo que está sendo jogado no gramado verde. E nesse, o Brasil zidanou. Isso é o que vai para a história. Os bastidores, se ninguém revelá-los, entrarão para a galeria do esquecimento. Como na vida. O que vai pra nossa história, é só aquilo que fizemos em campo. Nossas intenções, por melhores que fossem, servem só para descrever o que não fomos.
Mas isso já é divagação. Antes, aprendi muitas outras coisas. Nesses 30 dias, aprendi a fazer um risoto de cerveja preta e linguiça que é uma delícia. Ficou com uma aparência e um sabor tão parecidos com o da culinária da Croácia, que resolvi incluí-lo entre os pratos típicos dessa cozinha. Não sei se os croatas vão gostar da idéia, mas do risoto, tenho certeza que aprovariam. Aprendi também o que é um cassulê. Não aprendi a fazer, mas gostei de degustá-lo. Aprendi também uma receita de bacalhau na nata. Não arrisquei fazer, claro, mas quem sabe um dia.
Então. Foi um período de intenso aprendizado. Estou exaurida. Vou me jogar ao chão. Mas, antes disso, vou pôr em dia o que ficou pra trás, por conta dos jogos da Copa. Depois pego a estrada. Vou repôr o meu estoque de ares marinhos. Repensar em ondas tudo o que aconteceu ou qualquer outra coisa que me venha a cabeça.
Bom fim de jogo pra todos. Aproveitem e joguem-se ao chão também e se deixem ficar olhando as estrelas só por alguns instantes. O suficiente para retomar o folego e, depois, bola frente, que a vida continua!
Até de repente.
quarta-feira, julho 05, 2006
O melhor lugar de todos os lugares
Gonçalo M. Tavares - Poeta português
Adoro o destempero de Filipão. Sua falta de civilidade. Seu jeito de paizão. Suas broncas, suas reações intempestivas, sua vibração. Se futebol não é emoção vai ser exatamente o que? Um bando de homens de um lado, um bando de homens do outro e todos correndo atrás de uma bola? Ou andando ou se arrastando? Qual a graça disso, se não tiver coração? Então, deixem Filipão, antes que começe a dar bolhas no pé dele. Que coisa, siô! Olha só, nem bem terminou o jogo com a França e já me inventaram, na falta de assunto deles, de querer conter Filipão. Domesticar sua alma e seu jeito extravasado de ser. Fico pensando que precisamos mesmo é de pôr limites na vaidade, na abulia, no jeito pirracento de ser de alguns outros. Filipão precisa é de espaço, pra correr, pular, xingar e comemorar cada um de todos os instantes emocionantes dos jogos que comanda.
Eu penso assim. Eu e quase todo mundo. E, principalmente, quase todo mundo e os números, que só mentem se deixarmos. Tá lá, nas estatísticas da Fifa, Portugal foi um dos times mais combativos desta Copa Europa de Futebol. Antes de Portugal, só Alemanha e, depois da terrinha, só França e Itália. Engraçadamente, os quatro finalistas. Depois dizem que o futebol europeu é sóbrio. Os números mostram o contrário, jogaram como ébrios, loucos e ensandecidos. O único time com perfil equivalente, que ficou de fora da final, foi Gana. Mas isso foi um azar, não conta.
Portugal foi à luta. Brigou como um guerreiro bárbaro para ir até onde chegou. Foi o time que recebeu o maior número de cartões amarelos: 21. Mas não foi desleal. Não foi vingativo. Tinha era fome de bola mesmo, por isso entrava com fúria e, às vezes, extrapolava. Portugal, depois da Alemanha, foi o time com o maior número de faltas cometidas: 101. Mas não foi traiçoeiro, não foi maldoso. Tinha era sede de pegar a bola. Fez 154 desarmes de jogadas adversárias. Mais que a França e Itália, e apenas 34 menos que Alemanha.
Portugal subiu nas tamancas e rodou a baiana. Ninguém faz isso impunemente. Quem já armou barraco alguma vez na vida conhece bem a regra no. 1 dos pavios curtos: é preciso ter coragem. Ninguém sobe nas tamancas se tem medo de cair. Ninguém roda a baiana se tem medo de levar canelada. Ninguém bate de frente se tem medo de quebrar a cara. Então. É preciso ter coragem e Portugal teve. Nos jogos que jogou sofreu 101 faltas. O Brasil, com um time de campeões, com uma seleção dos melhores do mundo, marcada homem a homem, sofreu míseras 91. Ou nossos adversários tiveram medo de nós, o que cá pra nós, não aconteceu, ou nossos jogadores não tiveram tanta coragem quanto nossos irmãos portugues. Posso concluir isso, não posso?
Acho que posso, porque foi essa vontade de lutar, essa falta de medo de errar, essa coragem de ser o que se é, para além das simples aparências e sem nenhum limite é que fizeram Portugal chegar onde chegou e estar agora onde está, no melhor lugar de todos os lugares: campeão moral de 2006. E, por isso eu também, hoje, estou no melhor lugar para estar, que é mesmo, de verdade, o lugar de estar contente.
Inté
PS: Só uma curiosidade. Sabe quais foram os dois times menos combativos nessa Copa? Quer saber? Vou contar: Arábia Saudita e Estados Unidos. Não é curioso? Deve ser que, pra eles, guerra é guerra, futebol é futebol.
sábado, julho 01, 2006
Mas hein?!
Não tô falando de jogo bonito não. Isso já seria uma sofisticação, considerando o desempenho do Brasil nos jogos anteriores. Tô falando de resultado mesmo. Do futebol pragmático dos europeus, que o Brasil inventou de jogar. Nem isso. Sei não, parece que essa Copa foi decidida no tapetão. Rifaram a Copa no pregão da Fifa e o Brasil sofreu uma desvalorização de leve, para fazer circular os investimentos que estão empatados nesse mercado. Será Kfouri? Acho que será.
Olha só, desde o dia em que vi Zagallo chorando na Globo, antes do início da Copa, fiquei com um mau pressentimento. E Bobial lá, esfregando o braço do Zagallo e fazendo cafuné, numa cena patética. Muito esquisito. Tudo muito esquisito. Não foi um choro emocionado, foi sentido, parecia mesmo um choro antecipado. Depois vieram os problemas. Não tinha. Mas começaram a fabricá-los. Um atrás do outro, para, como diz Otávio, render assunto nas mesas redondas. Agora, pronto, devem estar esfregando as mãozinhas. Temos um problemão para meses de mesas rendondas.
E a tristeza do Armando Nogueira? Nem me falem. Achei que hoje, no final de tudo, ele estava até mais aliviado. Agora tem uma coisa, não vou incluir Pelé nessa história, mas o Galvão..., o Galvão, não resisto. A primeira frase dele, antes do jogo começar, foi um alerta. Isso é apenas um jogo de futebol. É bom que pensemos assim. Como? E o que mais seria? Exatamente, o que o Galvão quis dizer com esse comentário? Meu sofrimento começou justo nesta frase e se agravou no momento em que Zidani, já no final do jogo, entregou o cartão fidelidade à seleção brasileira. Aí foi a vergonha mesmo. Deslavada.
Agora, tô pasma. Arrasada. Mas ainda vou continuar tentando entender o que estão querendo de nós. Primeiro, detonaram com a política. Agora, nos tiram o futebol. Religião já foi pras cucuias faz tempo. Hoje, cada um tem a sua e ponto final. E aí? Vamos discutir o quê, na hora de jogar conversa fora? Superávit primário? Resultado do Enem? Endemias? Safra da soja, preço do boi em pé? Façam me o favor, né?
Vou voltar às origens. Voltar a ler jornal. Não a FSP, claro, mas qualquer um outro. Vou ler o noticiário político e trocar figurinhas sobre os candidatos. Vou questionar essa história de um deus homem e de um filho que é mais filho que os demais. De um deus que está mais presente numa só cria e não em todas e em todo lugar. Quero discutir isso. Quero discutir essa história também do Ronaldinho Gaúcho não poder chegar perto do gol. Quem decidiu isso? Tinham medo de quê? Por que puseram ele fora da área? E mais, quero uma CPI da Copa Européia de Futebol. Ah, e mudei de idéia de novo. Vou continuar torcendo. Pro Filipão, que ele merece.
No mais, respirem aliviados. Pelo menos, acabou o sofrimento.
Um fado, um vinho, um queijo da Estrela da Serra e bons sonhos portugueses pra vocês.
sexta-feira, junho 30, 2006
Pra fazer um Armando Nogueira feliz
Por exemplo, mudei de idéia. Até agorinha, achava que os comentaristas esportivos estavam ficando doidos. Estavam abusando da nossa ignorância e tripudiando da nossa ingenuidade. Mas, talvez, não. Alguns sim, mas não todos. Principalmente Armando Nogueira, que tem sempre ao seu lado o bom senso, para ajudá-lo a nos fazer entender o que se passa. Ontem, ouvindo a sua conversa com Sardenberg, na CBN, achei-o triste. Pela sua voz, tenho quase certeza de que ele está desencantado com o nosso futebol. E isso é muito grave, porque sabemos bem que Armando Nogueira é um torcedor senior e um profissional na sua paixão pela bola. Então deve estar acontecendo mesmo alguma coisa.
Achava ainda que o time brasileiro, mesmo não jogando bonito, estava arrasando com suas vitórias seguidas. Acreditava que, ao continuar torcendo para essa seleção de Parreira, à revelia dos comentaristas, nós, torcedores amadores, estávamos sendo mais visionários que os entendidos. E estava convicta de que os críticos da seleção estavam querendo era guerra em campo. Mas mudei de idéia. Acho que estou entendendo a desilusão de Armando Nogueira. Para ele e alguns outros poucos, futebol é só arte. Uma arte lúdica. O jogador brinca com a bola, distrai o adversário, encanta os torcedores e daí surge um momento mágico que se transforma em gol. Como uma arte lúdica, o futebol era um exercício de liberdade.
Era tudo o que não é mais hoje. Futebol agora é business. É resultado. Não é culpa do Parreira, embora, no nosso caso, seja ele o responsável. Mas quem inventou esse jeito feio e frio de jogar foram os europeus. Foram eles que transformaram o gramado numa linha de montagem para produção de vitórias em série. Antes, nos interessavam as pelejas esportivas. Era o durante do jogo que se discutia. Agora é só resultado. Quem ganhou, quem perdeu, quantos pontos fez, quantos pontos perdeu, qual sua classificação, saldo de gols e assim por diante. Nos impuseram uma visão econômica do futebol. E fizeram isso, porque foram eles, os europeus, que puseram seu rico dinheirinho para mover essa engrenagem. E o futebol virou isso que estamos vendo nos últimos dias.
Durante 90 minutos não acontece nada. O juíz prorroga a partida para ver se os jogadores se inspiram e fazem alguma coisa, e nada. Aí vão para a disputa de penaltis. Isso é a tortura legalizada. Olha se não é, Cristina. O goleiro lá, sozinho. O batedor do outro lado, sozinho. Tudo o que as duas equipes não fizeram em 90 minutos de jogo, mais a prorrogação, fica nas mãos e nos pés dos dois. Um duelo. O futebol ficou reduzido à sorte de quem a tiver. O durante tornou-se irrelevante, virou um detalhe do jogo. E nós, torcedores amadores, consumidores despreparados do futebol made in UE, somos submetidos ao sofrimento extremo daqueles segundos eternos, do momento em que o batedor chuta e a bola chega ao gol ou à mão do goleiro. Quero tudo, menos isso, na partida de amanhã. Mesmo porque, depois de um cassulê, não sei se terei condições de suportar à pressão de uma disputa gol a gol. Por isso é que quero tudo diferente.
Quero que dê a doida nos Ronaldos, que os demais embarquem no delírio da dupla, que Cafu assuma o comando em campo e deixe o Parreira no banco. Quero que todos se percam no tempo e voltem a jogar como jogavam. Brincando com a bola, distraindo o adversário e encantando os torcedores. Vou torcer para que façam tudo que é preciso ser feito no durante e não no depois. Com arte. Só de brincadeira. Quem sabe aí Armando Nogueira volte a ser feliz.
Pra vocês: sonhos lúdicos, gols de letra, de cabeça, de chapéu e de sei lá mais o quê. E, o que é mais importante, para amanhã, um 3 a 1 a nosso favor, sem perhaps (rsrs).
PS: Depois volto para falar dos comentaristas esportivos de novo. O Otávio já me deu a dica: mute neles. Vou seguir o conselho, mas eu vou falar (rsrs).
terça-feira, junho 27, 2006
A dúvida indubitável
A perplexidade de minha amiga portuguesa, portanto, também me acompanha. Tenho dúvidas para quem torcer. E acho que de resto, todos os brasileiros andam assim. Desde que a multinacional Brasil Futebol Clube se instalou nos mais distantes e improváveis países e dominou as equipes mais poderosas do mundo, a dúvida passou a fazer parte, como mal necessário, da personalidade dos torcedores brasileiros. Nessa Copa, só não viramos vacilões ainda, porque a maioria das equipes treinadas por técnicos brasileiros ainda não amadureceram o suficiente para disputar, com perigo, um torneio mundial, mas um dia chegam lá.
Ainda assim, ficamos suspensos na dúvida durante o jogo com o Japão. Se Ronaldinho, o original, não estivesse também em estado de dúvida e precisando muito da nossa torcida, o jogo teria sido puro sofrimento, mesmo com uma vitória. Pra mim foi quase. Quando Japão fez o primeiro gol, fiquei triste e feliz. Feliz por Zico e triste por Parreira. Depois, a cada gol do Brasil, levantava, pulava, comemorava. Aí, aparecia a carinha do Zico na telona e vinha uma ponta de vergonha por estar feliz e uma pontinha de raiva por não poder estar livremente feliz. Puxa vida, porque os japoneses do Zico não são tão bons quanto os nossos? Isso tornaria o jogo mais igual e nos deixaria livres para celebrar o melhor. Mas nada, a vitória tinha de ser de goleada. É claro que, depois, mentalizei a opção de Zico e considerei que a derrota foi escolha dele e comemorei sem remorso. Feliz!
Agora vem Gana. Já havia me comprometido com essa seleção desde o início da Copa, a pedido de Kofi Annan. Vinha torcendo por ela em todos os jogos, na minha ingênua ignorância. Nem passava pela minha cabeça que, mais cedo ou mais tarde, seríamos nós que ela teria de enfrentar. Olho no olho. And now? É pior ainda. Fiquei sabendo disso há poucos dias, mas foi um choque. Gana foi a primeira seleção que Parreira comandou na vida. E com seu trabalho, levou a equipe à final da Copa da África. Cá pra nós, não foi nada assim muito excepcional, mas tem o seu mérito. E, mais grave, como foi a primeira seleção do caderninho de Parreira, com certeza, mora no seu coração. Com certeza Parreira vai ficar na dúvida. Enfrento radicalmente ou enfrento só pro gasto? Derroto ou não derroto? Ó dúvida!, deve estar sofrendo Parreira. Espero que não, mas temo que sim.
Aí, meus amigos do futebol, estou prevendo que esse jogo vai ser outro sofrimento. Vou torcer para que Parreira conheça, como conheço de cor e salteado, a única dica infalível para sairmos da dúvida: a ação. Vou torcer para fazermos um gol nos quatro minutos de jogo. Vou torcer para que Gana continue correndo atrás da bola, como tem feito em todos os jogos, mas que não acerte a rede nem uma vez. Ou uma vezinha só, igual ao Japão. Vou torcer para que Ronaldinho, o original, faça mais um gol e Ronaldinho, o Gaúcho, faça outro e até mais um. Vou torcer para que Gana não perca a categoria e, junto com nossos jogadores, dê um show de bola para o mundo inteiro assistir.
Êita! Depois do Japão e agora Gana, fiquei escolada. Já vou começar a torcer também para que Portugal tenha um desempenho excepcional nessa Copa, mas que não dê de nos enfrentar pela frente nos jogos que ainda faltam. Já pensaram? Parreira versus Filipão? Seria um clássico da dúvida. Eu torceria hora pra um, hora pra outro. Comemoraria se um ou outro ganhasse. E lamentaria se um ou outro perdesse. E, no final, não saberia se estaria feliz ou triste. Isso não vai dar certo nunca! Melhor evitar essa situação. Vou torcer para que o Brasil tenha um desempenho melhor ainda e pegue pela frente Alemanha ou Argentina, esses são clássicos da certeza: sou Brasil de olhos fechados!
Chega de dúvida. Vamos para a ação. Vamos cair na real!
Bom jogo para todos e que vença o melhor: Brasil, é claro!
quinta-feira, junho 22, 2006
Espírito esportivo
Mas nunca tentei tocar bola. É claro que já bati muita bola na parede. Com uma mão, com a outra, com as duas, uma palma, duas, três, uma volta e assim por diante. Também fiz controle com meus irmãos, quando faltava jogador e ainda sentei no banco de reserva do time de vôlei do colégio, mas nunca precisei jogar. Nem treinava. Também gostaria de saber jogar bola. Mas sei, desde pequena, que tanto a música quanto a habilidade para um esporte não depende só de vontade. Nem de vocação. Essa, se não nascemos com ela, podemos desenvolvê-la. Com bastante querer, determinação e disciplina, nos tornamos vocacionados para alguma coisa. Mas para a música e o esporte, é preciso mais. É preciso ter o dom.
Não basta tocar bem. Não basta cantar afinado. Não basta jogar corretamente. É preciso por alma em tudo isso. É ela que fisga e prende e envolve e hipnotiza o público. Aliás, como em tudo na vida. O que fazemos por fazer, ninguém percebe. O que fazemos com um querer especial, com alma mesmo, pode até não ser notado por todos, mas nos faz muito mais feliz e fatalmente será percebido por quem está conosco. Por exemplo: não costumo ver uma partida de futebol até o fim. Só um lance ou outro, de passagem. Mas se, nesse momento, a alma está em campo, fico até o final. É irresistível. E só quem tem o dom, consegue escalar a alma para uma partida inteira.
A maioria dos jogadores da seleção brasileira tem o dom. Os Ronaldos, Roberto, Robinho, Kaká, Fred e muitos outros. Tanto que venceram todas as partidas até agora, mesmo não demonstrando muita garra em campo, mesmo com a barreira quase intransponível de adversários sem dom, mas bem treinados e com uma vocação bastante disciplinada para o futebol. Venceram, mas, como disse mesmo Armando Nogueira, parece que a alma do futebol brasileiro ainda não entrou
Tanto que o Brasil não perdeu nem uma até agora. Pelo menos, até agora. Mas o mercado quer mais. Hoje, o espírito que inspira o futebol mundial é o espírito de guerra. Não é vencer o adversário. É derrotar, estraçalhar, aniquilar o inimigo, fazê-lo sangrar até a última gota. E é esse espírito belicoso, de um bárbaro faminto, que anda solto nas arquibancadas, nas cabines da imprensa, no meio da torcida surda e cega, que quer tudo e mais um pouco. Até o Jabor, que às vezes tem bom senso, e Armando Nogueira, que é uma alma privilegiada, os dois querem até o último fio de cabelo. Querem a alma dos nossos jogadores. Mesmo que, para isso, seja preciso mandar uma para o sacrifício. E a escolhida é a de Ronaldo.
Sinceramente, não sei o que Ronaldo tem, o que o está aborrecendo, angustiando, mas sei que, seja o que for, a sua alma está ferida. Está machucada, abatida. A alma de Ronaldo precisa de ajuda, de um cuidado especial. Precisa de carinho mesmo, como disse o Filipão. De pai e mãe, como ele mesmo soube e foi buscar. Da amizade dos amigos, como tem contado. Pode ser ingenuidade de quem não entende nada de futebol nem de mercado; pode ser estupidez de quem não consegue incorporar, ou pelo menos tenta não conseguir incorporar, o espírito belicoso dos mercados altamente competitivos; pode ser simples ignorância; mas, sinceramente, hoje admiro mais os jogadores brasileiros. Admiro-os por sacrificarem o seu dom, em nome de uma virtude em extinção: a solidariedade. Jogaram seriamente, mas ocuparam sua alma com outras tarefas. Formaram uma rede de proteção para Ronaldo. Cada gota de suor derramada em campo é o sinal do esforço que fazem para distrair Ronaldo.
Taí. Também vou torcer pra Ronaldo. Espero que sua alminha de brasileiro se recupere logo. Vou desejar, do fundo da minha alma, que nos 90 minutos de hoje, ele dê muitos dribles bonitos, passes para muitos gols e toques de bola especiais para marcar o seu gol e fazer as pazes com a sua própria alma.
Agora tem uma coisa. Demonstrar solidariedade com o colega Ronaldo, tudo bem. Mas não me inventem de praticar essa virtude com o ex-Zico. Até fico com pena dele também, não sei do que os japoneses serão capaz de fazer se o técnico brasileiro não conseguir A Vitória, mas isso é problema dele. Foi uma escolha pessoal. Poderia estar junto com o solitário Parreira, o chorão Zagallo e outros amigos mais. Quis ousar, fazer uma coisa diferente, agora assume. Espírito esportivo!
Bom jogo para todos e cuidem bem de suas alminhas.
domingo, junho 18, 2006
Brasil 2 x 0 Liga das EBCs
Então. Tô liberada agora. Vou começar a avacalhar. Igual a Liga das EBCs faz quando vai falar da seleção brasileira. Por deus, nunca vi isso! Se estiver errada, por favor, me corrijam. Mas me lembro muito bem que essa era a seleção perfeita. Não havia nem um porém. Nós torcedores, claro, tínhamos nossas preferências e desavenças. Essa é a brincadeira. Mas para a imprensa esportiva, era a seleção sem problemas. Só que bastou pisar em solo estrangeiro, começou o fuxico. Arrumaram logo um problemão pra seleção, garantindo o noticiário durante toda semana de pré-estréia: Ronaldo tá gordo! Ronaldo tem bolhas no pé! Ronaldo está com febre! Ronaldo está deprimido! Ronaldo está rude! Ronaldo espirrou! E mais um: Ronaldo tem ciúmes de Ronaldinho. E foi: Jogadores caíram na farra. E foi: Pelé fala mal da seleção. Roberto Carlos revida. E foi: Cafu vai ser preso! Cafu não vai mais ser preso. Até o Bobial fazer Zagalo chorar, numa cena patética! Por que chorou? Chorou porque? Fiquei confusa de verdade. Mas a Liga, não. Era só mais um problema para a seleção sem problemas. Até que o Brasil estreou estraçalhado, cheio de problemas mesmo.
Bola na rede para o marketing das empresas brasileiras de comunicação. É a tática da burduna. E dá-lhe na seleção brasileira, porque isso é que vende jornal, espaço na tevê e tempo no rádio. É como um amigo me lembrou outro dia. Sabe aquele ditado: perco o amigo, mas não perco a piada. Pois é. A imprensa, quer dizer, as empresas brasileiras de comunicação agem do mesmo jeito: se distanciam da verdade, mas não perdem a manchete. Foi assim na cobertura da crise política, na cobertura do fogo cruzado em São Paulo e, agora, com a seleção brasileira. O negócio é descer o sarrafo. Nenhuma discussão produtiva, propositiva. É só pescotapa, pra vender notícia.
Do Sistema Globo, já não espero nada mesmo. E por não esperar, às vezes, me surpreendo para o bem. Mas, pela FSP Futebol Clube, tinha um carinho especial. Agora, quer saber, cansei. É um rebelde sem causa. Do contra por princípio. Um jornal de fanicríticos, ops, faniquitos. Tudo é feio, tudo é ruim, tudo é brega, nada vai dar certo, nada evolui, nada sai no jeito. Tudo que pode ser bom, no fundo é ruim. E chamam isso de espírito crítico. Minha avó chamava de espírito de porco. Quem estará com a razão?
Admito, é difícil mesmo entender a complexidade do mundo em que vivemos e, ainda mais, observá-lo com olhos críticos. Mas daí simplificar, como o FSP Futebol Clube passou a fazer, falando mal de tudo, vai uma distância gigantesca, né? É por isso que vou cancelar minha assinatura. Pronto. Cheguei à exaustão. Vou mudar para o Estadão, pro Globo, sei lá. Com estes, nós leitores é que temos de exercitar o nosso espírito crítico. Confio mais. Se não der certo, vou procurar as notícias só de ouvir falar. E acho que vai ser bom também.
Enquanto a Liga corre atrás das nossas desgraças, nós daqui, do mundo real, vamos levando a nossa vidinha média e feliz, sempre que possível, torcendo pra seleção, de olho nos candidatos para decidirmos menos mal o nosso voto, candidatando para trabalhos voluntários nas comunidades carentes do nosso bairro e assim por diante, sem falar nas licenças poéticas e gastronômicas que nos permitimos, nos momentos especiais. Como as leituras em voz alta do Sertão de Guimarães, ontem à noite, e o coelho com vinho tinto australiano que traçamos nesta tarde. Viver.....o senhor já sabe, é étcetera.
Fim de jogo.
Até o próximo embate.
quarta-feira, junho 14, 2006
Brasil X Brasil - Versão II (+ rigorosa)
Quanto ao jogo, sem comentários. Seguem apenas algumas observações sobre Brasil X Quem mesmo?
1. Acompanhei o blá,blá,blá dos comentaristas esportivos e as observações do Cláudio sobre o jogo do Brasil. E, como ele disse, parece que o Brasil jogou sozinho, porque não ouvimos nem vimos nem lemos nenhum comentário sobre o desempenho do nosso adversário, a valorosa equipe da Croácia. E olha que a Croácia adotou uma estratégia quase imbatível para derrotar o quadrado mágico: o triângulo pragmático. Era Ronaldinho, Kaká ou qualquer outro jogador pegar a bola e já apareciam três croatas para fechar o cerco, formando o triângulo pragmático. A única opção para os jogadores brasileiros era passar a bola pra frente, rapidinho, para não perder a jogada.
2. Mesmo que a estratégia da seleção da Croácia não seja tão boa assim, afinal levaram um gol, o quadrado mágico não se mostrou tão eficiente quanto imaginávamos. Acho que deveríamos adotar o plano b e criar o círculo de confiança, que tem mais chance de descer redondo até o gol. Se os jogadores confiarem uns nos outros e no Parreira e se o Parreira confiar nos jogadores, inclusive Ronaldo, e nos palpiteiros, e se Zagalo confiar em Santo Antônio e Santo Antônio na equipe e no Parreira, e se a torcida confiar no Parreira e na equipe, e assim por diante, acho que o time entrará em campo em ponto de bola para faturar o jogo.
3. Sobre a partida: um amigo me disse que o Brasil jogou pro gasto e fez muito bem. Ele entende de futebol. Argumentou que, com essa apresentação mediana, tirou um pouco do medo dos adversários e isso poderá ser fundamental para abrir espaço às boas jogadas nas próximas partidas. Tendo a concordar. Sou bem iludida, acho que o Brasil está escondendo o jogo também.
4. Uma amiga comentou que não achou Ronaldo nem um pouco gordinho. Parecia mais tonto. Lula sim, está mais gordo.
5. Ainda sobre o desempenho de Ronaldo. Acho que ele arriscou ao tentar jogar sem bola. Já vi um só jogador brasileiro fazer isso com um desempenho irreparável, digno até de aparecer na lista dos melhores jogadores em campo: Tostão. Tostão jogava com e sem bola. Quando pegava a danada, tinha sempre grandes chances de marcar um gol. Quando estava sem ela, dava a impressão de que já tinha visto o jogo e se deslocava no campo, atraindo os adversários e liberando espaço para seus colegas surpreenderem a defesa e fazer os gols que nem esperávamos, mas precisávamos. Ae Tostão! Tá começando a fazer escola, hem? No princípio é assim mesmo, os alunos são um pouco desatentos. Depois eles aprendem.
6. Outra coisa sobre Ronaldo: acho que a oposição está pegando muito no pé dele. Tá dando até bolha. Será que não dava pra deixar o rapaz em paz, siô?
Fim de jogo.
Até a próxima partida!