domingo, março 30, 2008

Livre sonhar


Se os pensamentos viraram macaquinhos, pulando de galho em galho, sem a menor chance de pousar em terra firme, ainda que apenas por alguns minutos, é melhor então não contrariá-los. Vou deixá-los à vontade para praticarem seus malabarismos. Uma hora se cansarão e, se tiver sorte, conseguirei agarrar algum deles para debulhá-lo grão por grão.

E enquanto os ventos não mudam, deixemos que a música nos conduza pela vida. Foi o que fiz neste domingo. Fui ouvir a música da Big Band, na Praça da Liberdade. O mentor desse grupo e maestro, arranjador e entusiasta é o Nestor. No próximo domingo tem mais, ou na Praça da Liberdade ou na Praça JK. Acho que não vou perder, mesmo que meus pensamentos queiram, por fim, descansar em algum canto. Agora, eles é que esperem, demoraram muito. Meus sonhos agora estão ocupados com a música.

Um aperitivo, para vocês avaliarem e concordarem comigo: imperdível!





Uma semana no ritmo da música para todos.

Inté
Foto e filme: nossos, nessa manhã ensolarada de domingo, na Praça da Liberdade. Nestor e sua Big Band

Livre pensar

Árvores brancas do bosque de Inhotim

O vento venta lá fora. Venta em todas as direções. Varre todas as idéias, antes que virem pensamento. Os móveis estalam de vez em quando, como se estivessem vivos, cuspindo fora os segredos que descansavam em suas entranhas. As folhas escapam dos galhos e voam livremente rua abaixo, para algum lugar onde não sei qual será.
Se já não fosse domingo, se os fantasmas não estivessem soltos, batendo portas, arrastando latas, virando cadeiras no jardim e se insinuando pelas frestas da janela, assobiando músicas macabras, sairia para a rua só para sentir esse vento batendo no meu rosto. Sairia e deixaria que a ventania me levasse para onde for só para ver onde ia dar. Como as folhas que escapam dos galhos e se deixam levar para algum lugar onde não sei qual será.
Um fim de semana rodopiando nos ventos, partindo e chegando em todos os lugares.
Inté

Foto: Minha, direto de Inhotim

segunda-feira, março 17, 2008

Crise de confiança

Todo mundo sabe disso. Até eu. Mas fui testar. Às vezes o mundo muda. Não foi o caso desta vez, mas foi o que pensei. Este mês, meus neninos, já quase rapazes, mas ainda crianças, deixaram de me entregar a boleta da escola. Resultado, ficaram vencidas. Isso têm vários inconvenientes. Além da multa que terei de pagar no mês que vem, não posso mais quitá-las no meu banco, mas só naquele autorizado pela escola.
Já sabia disso e não me estressei. Fui ao banco indicado e sabem o que aconteceu? Exatamente. O que todos nós já sabemos: bancos não aceitam cheques de outros bancos como forma de pagamento de algum compromisso. Só dinheiro vivo. A não ser que você seja cliente do dito banco. Fico impressionada como isso ainda pode acontecer nos dias de hoje. Ou, talvez, eles tenham razão. Talvez os bancos não mereçam mesmo a confiança que depositamos neles. Mas fingimos que não, que são confiáveis. Fingimos que não estão duvidando de nós ou da própria instituição bancária quando recusam nossos cheques e não achamos desrespeito ter de voltar lá no dia seguinte, com o dinheiro contado, para pagar o que devemos.Afinal, não há nada de pessoal nessa recusa, é só uma questão técnica. Claro. Claro. Que digam os bancos centrais..

Confiem, será uma boa semana para todos nós. Bem curtinha para não corrermos o risco de não se cumprir o anunciado.

sábado, março 15, 2008

Você sabia...

Que nos anos 60, nos Estados Unidos, alguém que estivesse dando uma entrevista para um canal de TV tinha exatamente 1 minuto e 30 segundos para dar o seu recado? E que em meados dos anos 80 não tinha mais do que 8 segundos? Que os norte americanos ficaram tão chocados com essa constatação que as redes de televisão tiveram de ampliar esse tempo para 20 segundos?

Agora vamos: explique a crise do mercado financeiro internacional em 20 segundos. Explique o impasse para aprovação das pesquisas em célula tronco em 20 segundos. Explique porque o céu é azul em 20 segundos. Por que a terra treme, as ondas vão e voltam, o sol se põe todos os dias, mas depois volta, no outro dia, logo bem cedo. Em 20 segundos.

Uma fim de semana em 20 segundos para todos.

Inté

quinta-feira, março 13, 2008

Dim dom dim

As conversas batiam asas e subiam para os céus como balões coloridos

O som do violão tem o mesmo tom dos dias em que ficava na esquina, jogando conversa fora e rindo das bobagens que inventávamos. A vida era riso só.
foto: Minha, numa manhã de terça-feira do mês de março

terça-feira, março 11, 2008

Gira, gira, gira

Fora de foco

Que situação, hem? Frei Beto é quem tinha razão. Ninguém tem dinheiro para programas sociais na África, para projetos ambientais nos países pobres, projetos de educação e saúde para populações carentes e outras iniciativas afins. Se alguém ainda ousar pedir, ouvirá só o que já esperava: esses problemas não se resolvem com caridade, mas com investimentos na economia. Depois o mercado fará um novo arranjo para essas populações. Mas olha que situação. Basta o mercado financeiro tremer que começa a jorrar bilhões de dólares de tudo quanto é torneira que existe nesse mundo. Os bancos centrais das grandes economias se unem rapidamente e o dinheiro público, que não existia, aparece subitamente para segurar a onda do capital financeiro, coitado, tão desprotegido nesse mundo cão. Uma vergonha. Adam Smith deve estar tremendo no túmulo.

Mas uma coisa é certa: se alguém ainda duvidava da gravidade desta crise, agora tem a certeza de que o chão poderá nos escapar a qualquer momento. Venhamos e convenhamos, não é uma quebradeirazinha mixureba qualquer que vai mobilizar tantos bancos centrais de uma vez só, como aconteceu hoje. O rombo no mercado financeiro internacional deve ser bem maior do que supõe a nossa vã filosofia e a culpa, provavelmente, será dos infelizes dos proprietários norte-americanos. A bolha do mercado imobiliário nos Estados Unidos foi a cabeça d'água que rolou rio abaixo, arrastando tudo que via pela frente e, pelo visto, arrastou não só o que via como o que não via também. São poucos, mas poderosos, os que devem ter a dimensão exata desse desastre ou não iriam formar, com tanta presteza, essa corrente pra frente. Só espero que ninguém nos venha pedir ouro para o bem do mercado financeiro internacional. Caridade, já aprendemos, não funciona.

Outra coisa que desconfio certa: o império não vai jogar a toalha sem espernear. Sabe bem que quando cai não cai sozinho, leva todo mundo junto. E é com isso que ele joga. Sabe também que ninguém é besta de ir para o fundo do buraco sem resistir bravamente. E é assim que começam a barganhar. Um cede de um lado, o outro cede um pouco também e vão reassumindo o controle do andar da carruagem da história. Se é verdade que, mais cedo ou mais tarde, o império irá descer ladeira abaixo, pelo menos que vá devagar. Olha o dólar. Já virou moeda de troca nessa ciranda. Vinha caindo em relação ao euro de forma absolutamente disciplinada desde 2006. Por várias razões. Mas sejam essas razões quais forem, terão agora de se recolher. Foi esse recado que os bancos centrais europeus mandaram para o mundo. Desconfio que iremos obedecer.

Desconfio também que, diferente do que possa parecer, o mundo não mudou nada. É o mesmo jogo que está sendo jogado. Com o mesmo objetivo a ser alcançado os mesmos interesses a serem preservados.

Uma semaninha de fortes emoções para todos.
Inté
Foto: minha. Numa noite de chuva.

quinta-feira, março 06, 2008

Decoreba

Tarcísio Meira, Glória Menezes, Marcos Frota e Afonso Ávila. O que esses nomes têm em comum? Absolutamente nada, a não ser o fato dos quatro terem me escapado da lembrança justamente na hora em que iria citá-los em diferentes conversas. Mas depois de algum esforço consegui recuperá-los por inteiro, portanto, sem problema. Como disse uma amiga, esses lapsos acontecem. Estou concordando cada vez mais. Afora o desconforto de não deixar a conversa fluir, esses esquecimentos não chegam a me perturbar, só me causam pânico quando se inicia uma nova conversa, ou seja, pelo menos umas cinqüenta vezes por dia.

Mas, sinceramente, não me incomodo de esquecer uma palavra ou outra. Sempre encontro um sinônimo ou uma definição que as substituem até com mais poesia. Mas nome próprio, título de filme, de livro e similares é realmente um mico que não tem tamanho. E é na hora em que a conversa está engrenando é que dá o branco. Aí, pronto. A conversa dispersa e fica você lá, brincando de Qual é a palavra?. Lembra do anúncio que a Fernanda Montenegro gravou? Já me esqueci qual era o produto ou serviço que ela anunciava, mas o roteiro é o mesmo do jogo:

- O fulano, que trabalhou naquele filme.
- Qual filme?
- Aquele que tinha aquela atriz de cabelos curtinhos, que morria no final.
- Qual? Não estou situando.
- Ele era casado com aquela mulher que armou um barraco uma vez num bar.

E aí vai boa parte da noite. Depois ninguém se lembra mais de por que estávamos falando sobre o fulano e mudamos de assunto e começa tudo de novo. Um horror. Acho que a culpa é da tecnologia. Antes dela, exercitava a minha memória com muito mais freqüência. Guardava de cabeça números de telefone, endereços de amigos e de amigos dos meus amigos, datas de aniversário, tabuada, fórmulas matemáticas, conjugação de verbos e mais infinitas listas: os dez filmes que mais gostei; os dez livros que leria mais de uma vez, mais de duas, mais de três; dez atores irrepreensíveis; dez diretores que mudaram a história do cinema e assim por diante.

Hoje por que precisaria ocupar a minha cabeça com essas informações. O celular me dá na hora o número que preciso discar e ainda faz conta, tira foto, filma, toca música e o escambau. As comunidades virtuais, como o Orkut, me avisam a data de aniversário dos amigos e, se esqueci o nome de alguma celebridade, Google nela. O único problema é quando estou longe de um computador. Mas até isso já está sendo resolvido. Um amigo me enviou outro dia uma notícia sobre o lançamento dos cyber googles, uns óculos cibernéticos, que estão sendo desenvolvidos por pesquisadores da Universidade de Tókio. Eles são capazes de gravar em vídeo tudo que o usuário vê ao longo do dia.


Segundo a matéria, o cyber googles, se é que existem mesmo, têm um programa de reconhecimento de imagens ultraveloz, que analisa, nomeia e cataloga os objetos que aparecem nos registros. Assim, ao longo do dia, se você precisar se lembrar de alguma coisa, basta pesquisar as imagens arquivadas. Bacana. Quando estiverem sendo comercializados serão muito úteis. Para os meus filhos, talvez. Para eles sim, tenho certeza de que sim. Aliás, como diz meu consultor para assuntos aleatórios, esse é o mundo deles. Não tem Che, Fidel, direita, esquerda, guerrilheiros, fronteiras e outras invenções do mundo moderno, que só não foram ainda deletadas, porque nós insistimos em mantê-las vivas.

Meus meninos não fazem questão. Outro dia, o meu mais novo, respondendo ao desafio que lançamos para ele, sobre como resolver o problema da desigualdade social, foi curto e criativo. Citou outros óculos, que estão sendo desenvolvidos por não me lembro quem, e que nos dão, em três dimensões e com vista de diferentes ângulos, a reprodução hiper real de todo e qualquer objeto que quisermos. Poderemos todos morar em casas simples, apenas com o absolutamente necessário; ter uma vida radicalmente monástica; e, ainda assim, realizarmos todos os nossos desejos de consumo, de uma Ferrari do ano a um magret de pato. Bateu uma vontade, é só por os óculos e teremos tudo o que quisermos, experimentando as mesmas as sensações de quem, de fato, um dia teve essa chance. Simples assim.

Mas isso é para eles. Nós, mesmo tendo ainda muito chão pela frente, não sei se faremos a travessia. Então, o jeito é voltar a exercitar a memória, com o mesmo empenho que dedicamos, diariamente, aos 45 minutos de academia. Só não faço palavras cruzadas. Não faço mesmo. E, sabendo disso, uma amiga me deu outra sugestão: decorar poesias. Pelo menos duas por mês. Para iniciar esse programa, ela até já me passou um poeminha do Mário Quintana, bem simples e pequenininho. Fácil mesmo de decorar, olha só:

Os degraus
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

Depois de vencer essa primeira etapa será preciso, no entanto, ir sofisticando, complexizando, se não o exercício perde seu efeito. Então, vamos lá!

Uma semana de decoreba para todos. Valerá a pena. Se for para decorar belos poemas, como esse que ganhei de uma amiga, que ganhou de uma amiga, tenho certeza de que valerá.

Inté outro dia.
Foto: pesquei na internet

segunda-feira, março 03, 2008

Ai que preguiça

Estou com uma leve sensação de que estamos patinhando na linha do tempo. Ao invés de darmos um salto para o futuro, estamos nos atolando cada vez mais fundo no buraco da história. Não nos damos nem ao trabalho de puxar novos fios para tentar desembaralhar essa confusão. Fisgamos as mesmas linhas já tencionadas e mal resolvidas no passado, esperando que agora os nós sejam desfeitos como num passe de mágica. Vamos sonhando.

Pode ser que seja implicância. Pode ser que seja mesmo necessário chafurdar nessa lama toda para descobrir novos caminhos, mas talvez não. Se tentássemos olhar o mundo de outras janelas, poderia ser possível vermos partes novas desse todo, que imaginávamos já completo. Poderia ser possível aventurarmos novos enredos para velhas tramas. Mas a história também vicia e buscamos os mesmos óculos tortos de sempre, de lentes já embaçadas de tanto ver, para tentar compreender o que já se tornou absolutamente incompreensível. Estamos tão enredados no fio da história que não ousamos sequer olhar para o lado, temendo o estranhamento que isso poderia provocar.

Já nem sei mais sobre o que estava pensando, mas acho que era sobre Cuba, sobre a Rússia, sobre essa nossa pobre América Latina, condenada ao desinteresse do mundo e atolada até o pescoço na miséria da sua própria sorte. Mas por isso mesmo, por passarmos despercebidos por todos, poderíamos bem estar agora atravessando o portal do tempo novo. Mas nada. Chafurdamos também. Não demos conta de inventar um outro mundo possível e estamos nos engalfinhando uns contra os outros, igual a todos no mundo.

Como diria Macunaíma, ai que preguiça...

Uma semana de intermináveis déjà vus para todos, se é isso mesmo que queremos.

Inté não sei quando, porque não estou tendo tempo pra nada.