sábado, outubro 19, 2013

De passagem


Ando correndo pra baixo e pra cima e sem tempo para divagações. Também ando preferindo não ver tudo que me mostram, ouvir tudo que me contam, responder tudo que me perguntam e assim por diante. As coisas estão acontecendo e rolando ladeira abaixo. Um desperdício. Podia parar um pouco e pensar sobre tudo isso, sobre a rua, sobre as manifestações, sobre as denúncias, sobre as contrainformações que também rolam ladeira abaixo, assim como as informações válidas e tudo mais. Só que ando correndo.

Outra hora, quando estiver mais sossegada volto aqui e repito o que já disse e digo outras coisas e, quem sabe, invente uma palavra nova pra descrever o que rola ladeira abaixo.

sábado, outubro 15, 2011

Caro mercado,

Vejam mais fotos aqui


Que o Brasil importa muito lixo, já sabíamos. Quem nunca entrou em um desses centros comerciais populares que estão espalhados por todo o país ou fez uma incursão a uma 25 de março de qualquer capital brasileira ou mesmo passou no centro da cidade e parou na banca de um camelô especializado em variedades - isqueiros, sombrinhas e outros importados chineses? Todos nós já passamos por essa tentação e não resistimos. Por isso sabemos muito bem que o Brasil importa muito lixo. Gasta seus dólares com muita bobagem.

Disso já sabíamos, mas nunca pensei que chegaríamos ao ponto que chegamos: importar lixo, literalmente, e não lixo reciclável, que estaria dentro de uma lógica comercial razoável, embora já tenhamos fornecedores locais muito eficientes. Não, nada disso. O que importamos foi lixo hospitalar, contaminado sabe-se lá de quê. E, como informa a imprensa paulista, importamos lixo para vendê-lo diretamente ao consumidor, sem nenhum beneficiamento.


Lençóis hospitalares, semelhantes àqueles apreendidos no Porto de Suape, em Pernambuco, são vendidos a quilo em uma das principais vias de Santa Cruz do Capibaribe e, provavelmente, são comprados para forrar a cama dos beneficiários do Bolsa Família de algum distrito da região. O mercado, o grande senhor da vida, chegou no seu limite. Rompeu as barreiras territoriais com a globalização e agora extrapolou as barreiras da ética, transformando as misérias particulares em produtos comercializáveis em qualquer carrefour do planeta. Tudo bem, isso não foi agora, já vem desde sempre.


Já acompanhamos denúncias contra empresas que utilizavam na sua linha de produção mão de obra infantil; empresas que utilizavam mão de obra escrava, preferencialmente feminina; que comercializavam produtos de baixa qualidade, maqueados como sendo de primeira e assim por diante. Produtos industrializados ou não. Sob o domínio do capital financeiro, o mercado reproduz essa mesma lógica junto às empresas que operam nesse cassino. A bolha imobiliária que provocou a crise financeira americana de 2008 (!!!) não é fruto dessas mesmas práticas?


Mas a hegemonia da lógica mercantilista nas relações humanas pode estar se esgotando. Desconfio que está. Estou cismada com isso desde que li as primeiras notícias da Primavera Árabe e antes ou ao mesmo tempo, não me lembro mais, sobre os movimentos grevistas na Grécia, que estão em assembleia permanente há quase quatro anos. Agora, mais recentemente, essa cisma voltou com o notíciário sobre os movimentos dos indignados e, em especial, sobre o Ocupe Wall Street que está se multiplicando em outras ocupações pelos estados americanos.


Os doutores sociólogos, antropólogos, psicólogos e outros logos americanos estão perplexos e desorientados. Para eles, o Ocupe não tem significado, porque não existe uma causa que os una. Como assim? Pois é, foi isso mesmo que li em alguns jornais ao passar os olhos no noticiário. Cada manifestante fala uma coisa, defende uma causa, apoia uma bandeira. Lá nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. O que eles não entendem é que existe uma vontade comum, expressa por todos os manifestantes, independentemente da sua origem.


Existe a vontade de buscar, coletivamente, novos caminhos para um mundo que está se deteriorando de podre. Existe uma vontade comum de abrir um debate, um debate público, sobre todos as grandes questões que afetam a vida de todos os indivíduos em particular. Estão convocando a ágora. Estão reivindicando a participação direta na discussão das questões que interferem no cotidiando de todos nós e que vinham sendo discutidas e decididas por meia dúzia de 10, 100, pode ser, grandes empresas mundiais.


Neste sábado, algumas lideranças espalhadas pelo mundo estão prevendo que haverá manifestações em quase mil cidades de 82 países, inspiradas no Ocupe Wall Street. Hong Kong, Taiwan, Japão e Austrália, Itália, Bósnia, Romênia e Holanda já saíram às ruas e, ao longo do dia, pode haver protestos na Espanha, Inglaterra e Grécia.


Isso, minhas amigas, é política e política, caro mercado, não tem preço!

quarta-feira, maio 18, 2011

Cidadãos do mundo, dispersemos!

Já estamos todos carecas de saber que a globalização favoreceu, especialmente, a integração dos mercados, transformando o mundo num grande balcão de negócios. Vende-se qualquer coisa, de bananas a mulheres, crianças, trabalhadores, gorilas, mudas de ervas aromáticas, alucinógenos e qualquer droga que possa ser precificada, ou seja, todas e tudo. Mas como as ondas, que inevitavelmente acabam se espalhando na areia, a globalização também respingou em outras praias. A indústria cultural, impulsionada pelo avanço das tecnologias de informação e comunicação, se apossou das manifestações mais singelas de todos os povos e transformou-as em produtos de consumo de massa dando-nos a ilusão de termos nos tornado cidadãos do mundo.

Admito que gosto de pensar que o planeta é a nossa casa; que estamos todos no mesmo barco; que somos gaia, partes de um todo absoluto; que somos todos irmãos e formamos juntos uma grande e única família. Mas basta ler uma vez só, em um dia qualquer, as manchetes de capa de um jornal escolhido aleatoriamente, entre os milhares que circulam pelo mundo, que escapamos sãos e salvos dessa doce ilusão. Mais do que isso. Ainda que as grandes mídias e o mercadão do mundo desconstruam diariamente nossas identidades regionais, tentando nos transformar em meros consumidores das classes A, B, C,. D ou E, sobrevivemos à pasteurização da vida e preservamos nossos vínculos locais, cultivando, longe das câmeras, nossas preferências musicais, gastronômicas, literárias e assim por diante.

Por mais que navegue pelo mundo e por mais que esse mundo tenha se tornado um ovo, continuo curtindo adoidado tomar café com pão de queijo, traçar um prato de arroz com feijão e bife de panela e, de sobremesa, queijo com goiabada. Continuo me divertindo com as festas de São João, as brincadeiras de rua – pula maré, rouba-bandeira, queimada, passa anel e pegador. Gosto de ouvir a música que vem dos cafundós de Minas, de sentar na porta da cozinha, de jogar conversa fora e de tudo mais que me torna inconfundivelmente mineira de corpo e alma. Sempre estarei em Minas, para sempre terei vindo de Minas e jamais sairei de Minas, porque não sou eu que estou aqui, é Minas que está em mim, à revelia da grande mídia e dos esforços da indústria cultural.

Estou divagando sobre tudo isso por uma razão, aparentemente, muito banal. Hoje cedo, quando abri o jornal dos mineiros, li o comentário de um jornalista do caderno SuperEsporte que me deixou estarrecida. Sem nenhuma cerimônia e em meia linha, o colunista desqualificou o campeonato regional de futebol, recém encerrado, desmerecendo o título conquistado pela equipe vitoriosa, título que ele considera inexpressivo. E qual título será que ele gostaria que os times mineiros perseguissem? O do campeonado espanhol?

Mas não importa muito quem saiu vitorioso nas dezenas de campeonatos que se desenrolaram por esse Brasil a dentro nos últimos meses. Quer dizer, não importa para o que estou pensando aqui e agora. É claro que todos os campeões são merecedores das justas homenagens. Mas o que torna esses campeonatos formidáveis é, justamente, o que o colunista do jornal dos mineiros ignora solenemente. São as oportunidades que eles criam para centenas de pequenos times locais se apresentarem dignamente a suas torcidas. Escancararem, a cada jogo, a sua identidade, as suas cores, o seu grito, os seus talentos, muitos, inclusive, cobiçados pelos grandes times e alguns até já transferidos para os novos clubes.

O que é bárbaro nesses campeonatos e, no mineiro foi assim também, é que eles são um momento muito especial também para os torcedores. É claro que torci cegamente para o meu time em todos os jogos, mas me emocionava também a torcida adversária. Nessa hora, somos todos iguais. Torcemos com a mesma alegria, o mesmo entusiasmo, a mesma garra, a mesma fidelidade à camisa que escolhemos. A paixão das torcidas do América de Teófilo Otoni, do Ipatinga, do Caldense, do Democratas e de tantos outros é uma prova de que ainda não estamos perdidos.

Assistimos sim, via cabo, o campeonato espanhol, o italiano, o francês e sei lá mais qual. Assistimos sim os grandes times brasileiros disputando vagas no Brasileirão, na Libertadores. Mas o sangue ferve mesmo é quando entramos em campo junto com o time. É quando temos a chance de ir pra rua, de carregar bandeira, de gritar até perder a voz, de rir, de chorar, de zoar, de bater boca e voltar pra casa com a alma lavada. E isso só acontece, para todos nós torcedores deste Brasil a dentro, é quando chega o campeonato regional. Por isso, viva os campeonatos regionais! Quem dera tívessemos também uma imprensa regional, capaz de reconhecer o valor do nosso glorioso campeonato mineiro!

Lá vai Xico, estou voltando. Até quando der novamente.


Foto: Site lapisraro.com.br

domingo, novembro 14, 2010

Vida que segue


E a vida continua. Aung San Suu Kyl foi solta ontem, após mais de sete anos presa em casa. A companhia estatal de trens francesa SNCF desculpou-se pelo seu papel na deportação de judeus para campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra. Infecção hospitalar mata 11 bebês no Distrito Federal. Mais um sindicalista é morto a tiros em São Paulo. Começou a temporada das festas de formatura, com direito a uma esticada ao Mercado Central. José Alencar sofre um infarto, recupera e mantém o bom humor. É um santo! Tiririca prova que é alfabetizado. Decifra bem o beabá, mas será que está entendendo? Eu, confesso, muitas vezes tenho dificuldades para entender. O que está acontecendo com o Enem, por exemplo, quem explica? Não quero crer que seja incompetência do Ministério. Mas aí o que será?

E tome mais vida. O zagueiro da Inter de Milão, Marco Materazzi, deixa o estádio Giuseppe Meazza de ambulância durante o clássico contra o Milan. Ele foi atingido no rosto numa dividida de bola com Zlatan Ibrahimovic no segundo tempo da partida. Merapi, na Indonésia, entra em erupção mais uma vez. Trezentos e noventa mil pessoas já foram obrigadas a abandonar suas casas na região próxima do vulcão. Os mortos, até agora, já chegam a duzentas e quarenta pessoas. Uruguai e Argentina fecharam acordo para o controle da fábrica de celulose da UPM. O Partido Socialista da Grécia, de Giorgos Papandreou, venceu o segundo turno das eleições regionais. Cruzeiro vai à CBF protestar contra arbitragem. Não vai adiantar, mas espero que Perrella não deixe mesmo de ir.

É vida que segue, como diria Adilson. Sabrina Sato é a nova rainha de bateria da Vila Isabel. Estudo desvenda mistério de como gatos bebem leite sem se lambuzarem. Está confirmado: férias são importante para a saúde mental. Gamova derrota as meninas do vôlei brasileiro na final do Mundial. Jovens da classe C gastam 71% de seus ganhos com roupas e acessórios. Papa Bento 16 pede uma "reforma profunda" da economia mundial. Se fôssemos espertos como acreditamos que somos nem precisava pedir. E assim vamos caminhando, entre um cafezinho e outro.
Foto: minha

domingo, setembro 26, 2010

Caixinha de surpresa


Preferiria não ter visto, mas vi. Vi o Cruzeiro ser derrotado desnecessariamente pelo Santos. O Cruzeiro poderia ter jogado com mais vontade e garra, mas preferiu um jogo morno e disperso. Parecia outra equipe em campo. Cuca parecia outro técnico a orientar os jogadores. Mas ao mesmo tempo, parecia o mesmo Cruzeiro de sempre que, a qualquer momento, poderia reagir e ao menos empatar. Por isso torci até o último minuto, inutilmente. Mas tudo isso são coisas do futebol. Mesmo quando um jogo ou um campeonato, como o Brasileirão, começam a se tornar previsíveis, mesmo quando os resultados vão sendo forjados sutilmente pelos erros e desatenções da arbitragem, pela catimba dos adversários, pela alma vira-lata dos times fora do eixo, mesmo assim, o futebol é um jogo imprevisível. No campo, tudo pode acontecer.

O craque do time pode acordar de mau humor, o perna de pau acordar inspirado, a equipe desentrosada, por alguma razão inexplicável, pode entrar em sintonia e a equipe sempre afinada perder as conexões e correr perdida de um lado para o outro do campo até o apito final. E é disso que eu gosto no futebol: da caixinha de surpresa. Eu gosto dos gols finalizados na prorrogação, dos perebas que surpreendem com jogadas insuportavelmente belas, dos jogadores invisíveis que se materializam no lugar certo quando ninguém espera, das vitórias de virada e de todos os lances únicos, daqueles que não podem nunca ser programados, porque são inventados ali, naquele exato instante em que a bola cai no pé do jogador e ele olha pra frente e enxerga uma oportunidade qualquer.

É claro que, fora de campo, a vida reserva outros momentos caixinha de surpresa. As eleições, por exemplo. Por mais que as pesquisas de opinião, cada vez mais sofisticadas, ajudem a dar previsibilidade aos resultados, ainda assim é possível sermos surpreendidos pelas urnas. O segundo turno das eleições de 2006 foi um desses momentos. Lula e Alckmin caminhavam juntos em todas as enquetes e até o final do primeiro turno. No segundo, Lula disparou e deixou Alckmin para trás, contrariando a expectativa de boa parte dos analistas, que apostavam num resultado apertado.

Já as eleições proporcionais, estas sempre reservam surpresas, porque é quase impossível tentar antecipar seus resultados usando as ferramentas convencionais de pesquisas de opinião. Em Minas Gerais são 553 candidatos a deputado federal e 977 a deputado estadual e um eleitorado próximo de 15 milhões de pessoas, espalhadas por 853 municípios com as mais diferentes histórias. Uma bela caixinha de surpresa. E se isso não bastasse, o fato das eleições proporcionais serem coincidentes com as eleições majoritárias, que mobilizam mais as atenções dos eleitores, poucos são os que já escolheram seus candidatos para o Parlamento. Muitos só se decidem na beira da urna.

Neste ano, espero, mais uma vez, um momento caixinha de surpresa nas eleições. Torço para que seus resultados nos façam recuperar a crença de que a política ainda pode ser o espaço do encontro. O espaço do diálogo verdadeiro e sincero, para troca de ideias e construção coletiva de soluções e alternativas que garantam uma vida boa para todos. Sonhar não é defeito.

Inté
Foto: minha

sábado, setembro 18, 2010

Nua e crua

Brotos de bolas de flores

A primavera está chegando. Já não era sem tempo. Não aguentava mais a mesmice de tudo desde sempre. Vamos ver se agora florescem novas ideias. Não quero nada requentado, reprogramado, repaginado. Quero é o que ainda nem existe nem foi inventado. Quero o que eu nem sei o que é, mas ainda assim é o que eu quero. E na primavera eu posso. Ou penso que posso.

Estou enfarada da vida com photoshop. Dos sorrisos perfeitos; das medidas precisas; das vanguardas moldadas em qualis; dos improvisos cuidadosamente elaborados; das falas absolutamente previsíveis, exaustivamente ensaiadas para responder exatamente aquilo que quero ouvir.

Estou exausta. Cansada das soluções mágicas que não deixam escapar saídas, a não ser aquelas devidamente sinalizadas; das promessas vazias, das promessas improváveis, das promessas razoáveis, das promessas; dos deuses, dos heróis, dos bandidos, de todas as personagens que não conseguem se reinventar e no mais de tudo que finge mudar para continuar como está.

Mas na primavera eu posso. Posso querer um amarelo como nunca antes existiu. Posso querer um bando de maritacas falando pelos cotovelos coisas que ninguém nunca nem ouviu falar. Com palavras que nunca foram ditas. Posso querer pedras no caminho para tropeçar, casca de banana para escorregar. Na primavera eu posso. Posso querer sorvete de araça azul, igual aquele que vi um dia na capa de um disco do Caetano e nunca mais vi. Posso querer um sorriso banguela, uma gargalhada dissonante, fora de hora, fora de lugar. Um discurso desconexo, desarticulado, desafinado.

Posso. Posso querer uma terra nua e crua. Um papel sem pauta, um livro sem letras, uma música sem notas. Posso querer uma foto sem cor, uma imagem sem formas, um filme sem movimento. Acho que na primavera eu posso. Posso até mais, um dia sem horas, uma vida sem destino, um vento, um ciclone, um tufão, um tornado. Acho que posso.

Inté

domingo, maio 16, 2010

Quem está vivo sempre aparece

Vista da cidade, num final de tarde

Depois do chá de sumiço, tento recolher os farelos de pão e renovar a mesa para novas degustações. De lá pra cá, o mundo não mudou muito, mas a vida ficou diferente. O tempo ficou mais curto, tudo acontece muito rápido e quase nada é digerido. As coisas ficam pra trás, passam e pronto. E a gente segue em frente. Só isso que importa: seguir. Seguir sem volta, porque atrás já vem alguém e outro alguém e mais um e outro mais.

Os espaços, parece, também ficaram menores. Eu, por exemplo, não estou mais cabendo no meu quadrado. Parece que virei Alice e, de repente, cresci de uma forma tão descabida e exagerada que não existe mais lugar no mundo que me comporte. Eu, minhas circunstâncias e minhas memórias. De uma hora para outra, não cabemos mais dentro de casa. Tem um mês que a única coisa que faço é doar roupas, brinquedos, bugigangas e lembranças para quem ainda tem espaço vago ou necessidades carentes. Passo meus fins de semana rasgando papel e tentando me desfazer de livros que já li ou que nunca vou ler só para abrir vazios que possam nos acolher.

De tudo isso, o mais difícil tem sido me desapegar dos livros. Mesmo quando consigo exercitar o desapego, não é nada fácil desfazer-se de livros. Hoje os sebos escolhem muito. Não aceitam qualquer coisa só porque é um livro. Querem saber o título, o nome do autor e selecionam obra por obra, para não ficar com estoque parado. Já falei da dificuldade de um amigo para se livrar dos seis volumes de O Capital. Não conseguiu nem a pau que o sebo comprasse a sua relíquia.

Eu estou apenas começando. Já passei uma Barsa pra frente; a Britânica está prometida para a professora de inglês do meu filho; a coleção de Históra Geral de Will Durant, para o amigo de meu outro filho e assim por diante. Mas os livros mais difíceis de nos desfazermos deles são os livros técnicos. Apesar de serem verdadeiros tesouros, pois trazem conhecimentos especializados sobre temas muito específicos, ninguém quer e você não tem coragem de jogar no lixo. Perto desses, a coleção de O Capital será moleza. Mas seja qual for a dificuldade que encontrarei pela frente, vou enfrentá-la, pois terei de cortar pela metade o nosso acervo de livro. São eles ou nós.

Mas não é só a minha casa que ficou pequena, as ruas da minha cidade também estão mais estreitas. Estão. Em algum momento que não sei precisar qual foi, as ruas da minha cidade encolheram. Só pode ser isso. Antes das férias de janeiro, gastava em média de 15 a 20 minutos para percorrer qualquer um dos meus percursos diários. Hoje preciso de, no mínimo, 45 minutos e, em alguns casos, gasto até uma hora. E não é porque as distâncias espicharam, é porque as ruas estão mais estreitas e não comportam mais o volume de carros que circula pela cidade. Ou será que tem mais carros nas ruas?

Ou será que tem mais gente na cidade? Porque também não sobra mais mesa vazia nos bares, nem cadeiras no cinema. Os hospitais estão superlotados, as igrejas estão abarrotadas, os ônibus circulam com passageiros saindo pelas janelas. É fila pra comprar pão, para pagar uma conta no banco, para ganhar um brinde, para ser atendido no consultório. Hoje, até pra ler jornal tenho de entrar na fila. É fácil?

Por isso resolvi voltar para o mundo virtual. Aqui, apesar de todos os espaços estarem ocupados, sempre tem vaguinha para mais um. Aqui posso duplicar minhas palavras, triplicar, quadruplicar, que ninguém se importa. E ninguém se importa, porque cada um só lê o que lhe interessa, o que não interessa, control/delete nele. Eu mesma, quando acho que estou abusando, dou um control/delete e me livro de tudo que está sobrando no meu espaço em poucos segundos.
Aqui a vida parece mais fácil. Menos emocionante, mais fluida ainda que a vida real, mas sobra mais espaço para todos nós.

Inté.

(Foto: minha)

sábado, março 06, 2010

Meninas, eu vi!


Eu vi, da janela da minha casa, o mundo mudando. Vi as ruas de terra do meu bairro sendo calçadas e depois asfaltadas. Vi o rio, onde pescávamos piabinhas, ser canalizado e, sobre seu leito, surgir uma larga avenida. Eu vi, andando pelas ruas da cidade, os pés de mamona, que nasciam soberanos em lotes vagos, serem cortados e lá brotarem casas. Depois vi essas casas serem derrubadas para novas semeaduras. Vi o lote onde fazíamos festas juninas ser ocupado por um prédio de seis andares! Vi as casas mudarem de cor, de fachada, de dono. Vi os jardins serem cimentados para abrigar mais um carro. Vi pés de goiaba, de jabuticaba, de abacate, que faziam nossos quintais parecerem bem maiores do que de fato eram, serem cortados um a um para dar lugar a mais um puxadinho.

Puxa vida, já vi mudando muita coisa nesse mundo. Vi o armazém do seu Fausto fechar e, junto com ele, meia dúzia de outros para dar lugar a supermercados. Vi as cadernetas serem aposentadas e substituídas por cartões fidelidade. Vi os cinemas do meu bairro desaparecerem e, no seu lugar, multiplicarem igrejas evangélicas de diferentes facções. Vi os armarinhos às moscas, até fecharem as portas para não surgir nada em seu lugar. Ninguém mais compra botão, ziper, fitinhas, lantejoulas e linhas coloridas para levar para casa e, muito menos, agulhas e alfinetes.

Vi as ruas escuras serem iluminadas, os buracos, onde nem a pé chegávamos, com o trânsito engarrafado. Vi e vejo todos os dias, os prédios, onde funcionavam faculdades, abandonados, sendo depredados por quem nem tem onde morar. Já vi, mas não vejo mais, os doidos do meu bairro, os vizinhos que sentavam nas varandas para tomar a fresca, os meninos que jogavam rouba bandeira no meio da rua, as meninas que brincavam de pique-esconde e os cachorros amarelos que vagavam pela cidade.

Vi tudo isso, mas não reparava como o mundo estava mudando. Todo dia, toda hora. Achava que era eu. Agora que a terra está tremendo, arredando de um lado para o outro, descartando ilhas, fazendo surgir novos mares, lagoas, redesenhando seu relevo, reconfigurando seu clima, refazendo o contorno dos continentes, para se adaptar aos novos tempos, confesso, não estou preparada para tantas mudanças!

Inté.