terça-feira, dezembro 16, 2008

Quem será o próximo?

O dilúvio

O ano está se desfazendo, desmilingüindo-se, escorrendo enxurrada abaixo e, basicamente, nem percebi. Só hoje, quando sai de casa, mais cedo do que de costume, me dei conta de que estamos chegando ao fim de mais uma temporada. Vi um ou outro papai noel se exibindo em alguma fachada de loja ou escalando as janelas de alguns raros prédios. Ainda vi outros perdidos nos jardins de outras casas e mais nada. Passei pela Praça da Liberdade e mal reparei os fios de luzes que se enroscam nas palmeiras imperiais e desaparecem no meio das folhagens. De dentro do carro, vi mais a praça se desmanchando no meio do aguaceiro do que qualquer outra coisa.

Estou cismada que agora é muito tarde para encarnar o espírito natalino e sair por aí distribuindo abraços e felicitações pelo novo ano que se iniciará a qualquer momento. Se é que vai. Muito tarde para montar a minha árvore de natal que está perdida dentro de algum maleiro. Mais tarde ainda para procurar o meu presépio português, que guardei em algum caixa, dentro de alguma gaveta, em algum armário que não sei mais qual foi. Está muito tarde e muito sem jeito. Melhor me ocupar com outros afazeres. Dedicar o fim de semana que ainda resta para arrumar gavetas, rasgar papéis velhos, organizar meus arquivos de fotos ou dançar na chuva. Não tomar conhecimento. Deixar passar e adiar os festejos para a próxima temporada. Mal não deve fazer. Acho que nem vai doer.

Estou me convencendo, de verdade, que devemos todos ignorar mesmo essa passagem. Fazer ouvido de égua e desconsiderar solenemente a sugestão de Lula e seus amigos de voltarmos às compras. Estou convicta de que será melhor para todos nós, embora, reconheça, ser difícil resistir a tentação. Ou, então, fazer como Muntazer al-Zaid, o jornalista iraquiano, e distribuir as sapatadas que reprimimos durante todo ano. bush estará dispensado, pois já levou duas. Mas, podemos encontrar novos alvos.

Hoje, agora, a minha sapatada vai para a Suggar, fabricante mineira de eletrodomésticos. É uma história longa, mas vou resumir para justificar a prioridade do meu alvo. Faz dois natais passados, comprei uma secadora de roupas Suggar, para enfrentar a temporada de chuvas. Com pouco mais de um ano, ela estragou. Mas as chuvas passaram e eu deixei pra lá. Essa semana, precisei dela de novo e resolvi tomar providências. Liguei para a Assistência Técnica da fábrica e me passaram três telefones de oficinas credenciadas para fazer o conserto. Liguei para a primeira e a mocinha, muito esclarecida, me disse que faria o serviço sem problema, desde que eu levasse a secadora até lá. Lá, é na rua Tamoios, no centrão da cidade.

- Como assim? - quis saber.
- Minha senhora, a secadora é um produto de balcão e não atendemos a domicílio. A senhora terá de trazê-la aqui, para podermos consertá-la.
- Mas você conhece uma secadora? - quis saber.
- Não. - ela me respondeu.
- Pois então, para você ter uma idéia, uma secadora não cabe dentro de uma sacola de supermercado. Como vou pegar esse trambolho, debaixo dessa chuva, pegar um carro, parar no centrão da cidade, arrumar um lugar para estacionar o carro, descer, no meio dessa chuva, carregando uma tv de 29 polegadas debaixo do braço e levar até o seu balcão?
- Não sei, minha senhora.

Desisti. Liguei para o segundo número. A mocinha, também muito prestativa, falou que me atenderia prontamente, desde que eu levasse a secadora até a loja, que também fica na rua Tamoios.

- Como assim? Foi com vocês que conversei a alguns minutos atrás? - quis saber.
- Não senhora, deve ter sido com a outra loja, do número 700. Aqui é Tamoios, 900.
- Mas porque vocês não podem vir aqui arrumar a secadora?
- Porque esse é um produto de balcão. A senhora terá de trazê-lo aqui.
- Minha filha, a secadora não cabe dentro de uma sacola de supermercado. Não é como um liquidificador, uma sanduicheira. É um trambolho que nunca funcionou direito, do tamanho de uma televisão. Como vou chegar com isso aí, no centrão da cidade?
- Não sei, minha senhora.

Desisti. Liguei para o terceiro número. E a menina, muito simpática, se desculpou e me contou que rompeu com a Suggar a quatro meses atrás. Explicou que tem dificuldades de encontrar peças para reposição e o cliente acaba se aborrecendo é com ela. Agradeci e liguei novamente para Assistência Técnica da fábrica. Disse à mocinha que me atendeu que seu cadastro estava desatualizado e que, dos três números que me passara, só dois poderiam me atender, desde que eu levasse a secadora até a loja. A mocinha me disse que era assim mesmo.

- A secadora é um produto de balcão, minha senhora!

E foi repetindo toda a ladainha que já vinha escutando três ligações atrás. Desisti. Liguei de novo para uma das lojas autorizadas e resolvi engrossar o caldo. Quis saber o nome da oficina, o nome do atendente, o nome do gerente e informei-os que iria encaminhar a minha queixa ao Procon. Imediatamente, o gerente entrou na linha e me disse que o técnico poderia vir a minha casa. Achei isso um escândalo! Mas topei.

- A senhora terá de pagar uma taxa de R$ 50,00 e mais o preço das peças que forem necessárias. - ele me esclareceu.

Pomba! Achei caro, mas nem discuti.

- Sim senhor. - respondi.
- A partir de amanhã, então, ele estará ligando para agendar a visita.
- E qual é o prazo desse a partir de amanhã?
- De três a quatro dias, depende.

De três a quatro dias para ligar e, a partir daí, marcar um dia, que não sei quando, para vir fazer uma visita. Desisti outra vez. Tenho certeza de que ele fez isso de propósito, para que eu desistisse da visita do técnico.

Liguei, então, para o seu Zé Geraldo que, há 18 anos, dá assistência a minha máquina de lavar, uma brastemp amarela que continua trabalhando ininterruptamente todos esses anos. Ele me passou o telefone de um colega que conserta secadoras. Liguei para o rapaz que se dispôs a passar na minha casa no início da tarde, para resolver o problema. Ufa!

- Qual a marca da secadora? - ele quis saber.
- Suggar. - respondi.
- Ich!
- Como ich? - quis saber.
- Não trabalho com a Suggar.
- Por que?
- Porque é muito difícil encontrar peças da Suggar. Não tem no mercado. Aí o cliente acha que sou eu que estou enrolando e briga comigo. Não quero caçar confusão. Sinto muito.
- Então comprei uma secadora descartável?!
- É mais ou menos isso. - disse ele. E se senhora tentar levar na autorizada, vai ver, eles farão um orçamento absurdo que vai sair quase pelo preço de uma secadora nova. Se fosse a senhora, nem tentaria. Desistia já.
- Já tentei. É impossível mesmo.
- Pois é. Sinto muito.

Eu também. Sinto muito. Ainda não sei como vou resolver essa pendenga. Amanhã vou pensar nisso. Mas hoje a minha sapatada vai para a Suggar.

Inté.
Fotos: A primeira é minha, hoje de manhã cedinho.
A segunda, da máquina, pesquei na internet, porque fiquei muito irritada para fotografar a minha própria secadora. Quero distância dela.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Batmacumba


Cidades prisioneiras

Esse povo é doido de dar com pedra. Só pode. O mundo rola ribanceira abaixo e não adianta um tico de nada. Todos continuam no mesmo lugar onde sempre estiveram, com o mesmo trololó de desde antes. Ninguém merece. Agora, até Barack Obama e Lula entraram na dança. Estão esperando o quê? Que sejamos nós os heróis da pátria? Nós, pobres trabalhadores, com o dinheiro contadinho para chegar ao final do mês? Nós, que ficamos contando moedinha bem ali, na boca do caixa, aguentando a fila resmungando pela nossa demora? Nós, que nunca desfrutamos do mundo irreal, nunca apostamos no cassino internacional, nunca nada que não estivesse exatamente ao alcance de nossas posses, vamos nós, agora, ter de tirar o mundo do fundo desse redemoinho onde foi jogado? Ah, nem! Me poupem.

Fico apoplética ao ver os grandes líderes mundiais, se é que são, virem, sem nenhuma cerimônia, conclamar o seu eleitorado a comprar, comprar, comprar, como se esse fosse o único gesto capaz de salvar o mundo, nessa altura da viagem. Parece o mantra daquele menininho que fazia propaganda de Batom na televisão. Coooompre batom, cooommpre batom, cooommpre batom, até a mãe não aguentar mais e comprar o diabo do chocolate pro diabinho que atormentava a sua orelha. Daqui a pouco somos nós que não suportaremos mais a ladainha dos chefes de governo da Europa, dos EUA, da China e do nosso brasilzinho. De repente, lá vamos nós, às compras, desvairados, até sucumbirmos em dívidas. Tô fora. Acho que o Lula deveria é baixar uma medida provisória, um decreto federal ou seja lá o que for, adiando o Natal para o ano que vem. Teria o meu apoio incondicional. Abaixo o Natal, desde já!

Não é pelo dinheiro não, porque dinheiro, como já disse meu pai, foi feito para gastar e eu sou obediente. Não tenho nenhum apego, nem por nota de 100 reais nem pelas mixurebas de 20 e de 10 que caem na minha mão. Gasto, sem dó nem piedade. Claro que, na medida do possível, cuido do futuro também, porque não sou besta desse tanto e tenho dois filhos pra criar, mas não jogo no cassino. O que me aporrinha nesse mantra é uma questão de outra ordem. Duas, para ser mais exata. A primeira, diz respeito à falta de criatividade desse povo doido de dar com pedra. Estão vendo que o mundo, do jeito que eles criaram, não funciona mais. Estão vendo ou não estão? Estão, claro que estão, mas insistem em repeti-lo. Propõem soluções que reproduzem a mesma lógica aloprada do consumismo desenfreado, beirando o mundo irreal do mercado financeiro. São doidos.

A segunda é mais grave. Comprar, comprar, comprar significa, consumir, consumir, consumir, que, por sua vez, significa produzir, produzir, produzir, que é a mesma coisa que consumir, consumir, consumir, todo tipo de metal e minerais e mais árvores, energia, água e tudo que for necessário para fabricar um carro, uma bicicleta, uma boneca de olhos azuis, uma bola, um caderno, uma caneta, uma caneca, um vestido, uma galocha, um cinzeiro, um copo descartável e assim por diante. E hoje, nosso consumo dos recursos naturais já supera em 30% a capacidade de o planeta se regenerar. Se mantivermos esse mesmo ritmo alucinante que estão nos sugerindo, somado ao crescimento populacional, amanhã mesmo, em 2030, já estaremos precisando de mais dois planetas para nos mantermos. Duas Terras! Onde vamos achar isso? Em Marte? Mercúrio? Na lua? Nem São Jorge nos salva dessa!

A água, por exemplo, um recurso relativamente abundante na Terra. Hoje, agora-agora, já está faltando. A cada oito segundos uma criança morre no mundo por falta de água potável, são cerca de 3 milhões ao ano. Pronto, lá se foi mais uma. O presidente-executivo da organização não-governamental Green Cross, Alexander Likhotal, que está em Belo Horizonte, participando do Fórum Internacional Diálogos da Terra no Planeta Água, é quem fez esses cálculos. E, para ele, "as pessoas precisam compreender que os efeitos das alterações climáticas, a falta de água limpa, a poluição são problemas tão graves quanto a desordem financeira que vivemos atualmente. Seremos penalizados de forma cruel se não tomarmos consciência disso".

Em entrevista ao jornal Estado de Minas, Likhotal estimou em cerca de 2,4 milhões o número de pessoas que hoje sofrem com a escassez de água. Para resolver esse problema, ele calcula que seria necessário investir uma bobagem em torno de US$ 50 por cabeça. Ou seja, US$ 120 milhões por dez anos, para acabar com essa miséria. Pechincha, hem? Perto dos US$ 45 bilhões que o Tesouro americano liberou ontem para o Citybank é mixaria, ou não é? Perto da fortuna que os bancos centrais do mundo todo já liberaram para as instituições financeiras em risco não é nadica de nada. Perto do que já gastaram com guerras perdidas, menos ainda. Mas a vida já é tão abundante nesse planeta, né? Salvar pra quê? Tá sobrando. Deve ser assim que eles pensam.

São todos doidos de dar com pedra. Por isso não perdem uma noite de sono tentando inventar um modelo econômico mais amigável, que garanta o bem estar de todos e o equilíbro ambiental do planeta. Por isso não se dão ao trabalho de esquentar a cabeça, queimar a pestana, arrancar os cabelos para criar um modelo diferente desse que aí está. Pra mim, são todos, no mínimo, pais desnaturados. Como eles imaginam que seus filhos irão sobreviver? Vão comer dinheiro? Beber moedinhas? É isso que me aporrinha.

Inté, moçada.
Foto: minha mesma.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Queridos, encolhi o mercado!



Enquanto tento escapar dos engarrafamentos e sobreviver às ameaças de motoristas estressados, vou ouvindo no rádio as profecias agourentas que vão sendo alinhavadas para o futuro próximo da indústria automobilística mundial. A impressão que tenho é que, no próximo fim de semana, estarão todas, inevitavelmente, fadadas a entulhar os ferros-velhos que se multiplicam na periferia da cidade. Faz de conta que acredito. Vão mesmo virar sucata, mas só nos próximos duzentos anos. Agora, esqueçam. Teremos ainda de conviver com essa geringonça chamada automóvel por bons e longos séculos, simplesmente porque, à nossa revelia, eles se tornaram indispensáveis.

De bens de luxo, destinados a uma minoria muito rica, os carros se popularizaram e, rapidamente, entupiram as ruas das cidades e foram alçados à condição de motor da economia do planeta. André Gorz refaz esse caminho, quilômetro por quilômetro, no texto A ideologia social do automóvel, publicado na coletânea organizada por Ned Ludd e intitulada Apocalipse Motorizado - A tirania do automóvel em planeta poluído , disponível na internet. Não vou, portanto, repetir o que já está dito, só recomendar: leiam! Faz bem e não engorda.


Gorz é trágico ao descrever a nossa dependência do automóvel. Ele nos prova que quanto mais a indústria automobilística avança, produzindo carros cada vez mais velozes e eficientes, mais dependentes nos tornamos dela. E isso faz sentido. Quando os automóveis deixaram de ser mero objeto de desejo para se tornarem objeto de consumo de todos nós, as cidades tiveram de se adaptar aos seus caprichos. Abriram-se ruas, avenidas, estradas, auto-estradas, passando por cima de casas, comunidades, vilas e de tudo que nos acolhia. Vivemos hoje em cidades fragmentadas. Tudo é longe, qualquer lugar ficou distante de nós e só chegamos lá a tempo, aos trancos e barrancos, se tivermos um possante nas mãos. As cidades se tornaram passagens mal assombradas, que percorremos solitariamente, para alcançarmos o nosso destino. Há muito, deixaram de ser espaços de convivência.

Hoje gastamos boa parte do nosso dia dentro de túneis-móveis de plástico e vidro. Cortamos a cidade de ponta a ponta, para trabalhar, para ir às compras, para estudar, para ver os amigos, para nos divertir ou para nos distrair. É o nosso fado. Mas Gorz é crédulo. Ele tem esperança de que iremos nos libertar dessa condenação. Não destruindo as fábricas de automóveis a ferro e fogo ou a borduna, que seja, mas reconstruindo nossas cidades. Tornando-as novamente espaços de convivência e, de tal forma, que poderemos dispensar e prescindir por completo do transporte, seja carro, buzão ou qualquer outro meio que venha a ser inventado. Torço com ele. E até desconfio que essa empreitada poderá ser a nossa salvação. Irá nos mobilizar por muito tempo, gerar muitos empregos, criar novas necessidades e mover a economia do mundo, soprando novos ares e salvando-a da crise em que está se enterrando e das ameaças do aquecimento global.

Mas, por enquanto, durante o ajuste da economia virtual à economia real, o que vamos assistir é só uma versão menos engraçada do filme Querida, encolhi as crianças e um salve-se quem puder sem fim, a 120 quilômetros por hora.

Inté, que já estou atrasada.

Fotos: minhas, da série Relíquias


quarta-feira, novembro 05, 2008

Pensamentos complexos



Ainda existem coisas nesta vida que podem ser consideradas simples. Assim, de cabeça, não me vem nem um exemplo, mas existem. Tirando essas, todo o resto é bastante complicado. Mesmo as que não eram, tornaram-se. Escovar os dentes, por exemplo. Era simples. Você comprava uma teck de boa qualidade e, três ou quatros vezes por dia, escovava os dentes e estava tudo muito bem feito.

Depois, surgiu o fio dental! Não era mais suficiente apenas escovar os dentes, era preciso uma limpeza prévia. Agora, nem só isso basta. Na semana passada, fui fazer a consulta anual no Serviço Odontológico e conheci mais alguma inovações. Recebi uma verdadeira aula, de quase 45 minutos, sobre como escovar os dentes e ser feliz para sempre. E saí de lá com três novas escovas, que deverão ser utilizadas em cada uma das três etapas da escovação. Mas, antes, tive de demonstrar ser capaz de dominar as novas técnicas para utilização do fio dental, bem mais eficientes que aquelas que adotava até então. Só que, agora, vou precisar de pelo menos 30 minutos diários só para escovar os dentes. Não é nada simples.

Mas outras coisas já nascem complicadas. Eleições, por exemplo. Sempre foram processos complexos. Mesmo naqueles momentos em que se tornaram meramente plebicitárias, foram processos complexos. Não importa o número de partidos que está na disputa nem quais são as regras em vigor, são os movimentos das peças no tabuleiro eleitoral que tornam esse jogo bastante sofisticado. Como os candidatos percebem suas chances na disputa e como se movimentam e como os eleitores interpretam esses movimentos e definem suas preferências, expressas no voto, tudo isso é muito complexo.

As últimas eleições municipais no Brasil, por exemplo. É impossível compreendê-las apenas a partir da contabilidade final dos votos. O quadro consolidado das siglas e dos candidatos eleitos não revelam todas as histórias que estão por trás de cada vitorioso. E algumas nem são vitórias, mas a derrota do adversário. Outras, nem pertencem à sigla indicada no quadro, pelo menos, não totalmente. Resultam das coligações construídas ao longo do processo eleitoral ou de apoios informais que aderiram àquela candidatura em algum momento da disputa. Enfim, são muitas as variáveis que influenciam a conformação do placar partidário ao final de uma eleição.

Isso sem falar nas acrobacias mentais que o eleitor faz para escolher o seu candidato. No Brasil, os partidos ainda tem um peso muito relativo nesse processo. O perfil do candidato, a percepção que o eleitor tem desse perfil, não importa se correta ou não, são muito mais relevantes que a coloração partidária do candidato. E conta, especialmente, o quanto esse eleitor está disposto a investir nessa participação, livre e espontaneamente obrigatória. Se vai correr atrás de informações ou se vai buscar estratégias para gastar o mínimo esforço, o absolutamente necessário, para chegar a alguma conclusão. Tudo isso torna o processo eleitoral extremamente complexo. E mais difícil e complicada ainda, a compreensão das expectativas da sociedade em relação aos candidatos eleitos.

E as eleições americanas? Essas nem se fala. Apesar de parecerem simples como um jogo de ping-pong, são ainda mais complexas. E essa última, especialmente. Os muros do colégio eleitoral norte-americano foram derrubados e eleitores do mundo inteiro palpitaram na disputa. Nunca vi isso, até chefes de estado declararam seu voto antecipadamente. De Lula a Sarkosy. Mas vai entender o que se passa na cabeça do eleitor. Nos dois casos, ainda dependemos de uma prova dos noves, para compreender exatamente o que aconteceu e o que virá pela frente. Doravante, estamos mesmo condenados a pensamentos complexos e que o nosso anjo da guarda não nos abandone nessa hora.

Inté, quando der.
Ilustração: captada na internet

segunda-feira, outubro 20, 2008

Ca'stou a pensar

Lisboa vista do alto do Castelo São Jorge

Meninas, voltei. Depois de percorrer mais de mil quilômetros pelas estradas del mondo, chegamos sãos e salvos. Não vou aborrecê-las com o meu diário de bordo, mas depois deixarei-o acessível em algum lugar, para quem quiser se aventurar. Por enquanto, o que posso dizer é que a Europa está bem mais preocupada com essa tal crise do que supomos aqui, na nossa santa ignorância. Os portugueses, em particular, estão em pânico. A crise financeira é discutida no rádio e na TV 24 horas por dia. Há relatos e mesas redondas reunindo autoridades, especialistas, economistas e empresários em qualquer canal e a qualquer hora do dia. Todos tentam trocar a crise em miúdos, para que qualquer criança a entenda. Mas, principalmente, tentam construir um discurso que ajude a minimizar a contaminação do sistema bancário português pela descrença que hoje atinge o sistema financeiro internacional. Para eles, os problemas de ordem prática são simples de serem resolvidos, mas a quebra da confiança no mercado financeiro é o que de pior poderia ter acontecido. É o pesadelo. Percebi que eles estão tiririca com os executivos financeiros norte-americanos. Se encontrarem um deles pela frente, acho que torcem o pescocinho de um. E não perdoam também as agências de risco. E, de fato, é muito estranho. Mas, desde então, elas entraram num silêncio funébre. Não é por coincidência, não é mesmo?

Além dos noticiários e dos especiais sobre a crise, toda hora fazem uma rapidinha, tipo o Povo Fala. Aí entra o cidadão. A história é a mesma. Se entendi bem, porque não é tão simples assim captar o sotaque português, o que está acontecendo agora é uma bolha imobiliária, semelhante a que ocorreu nos Estados Unidos. A crise provocou uma forte desvalorização dos imóveis e quem financiou a compra da casa própria hoje está pagando uma prestação equivalente ao aluguel de duas casas, com uma sobra suficiente para ainda comprar um carro. Conclusão da história, estão abrindo mão do sonho, abandonando os imóveis, parando de pagar as prestações, alugando uma casa e, com o troco, mantendo o status quo. Se o sistema financeiro habitacional vai suportar essa inadimplência, é o que vamos ver.

Quem vai querer?

Fora da TV e do rádio, a crise parece ainda maior. Os portugueses, já sabia disso, são chorões por natureza. Eles mesmos admitem. Preferem reclamar antecipadamente a ter de pagar um mico mais tarde. Faz parte da cultura, do jeito de ser português. Mas agora não é só um estado de espírito. Reclamam de coisas concretas. Queixam-se da falta de emprego, da falta de oportunidade e da incapacidade do país de oferecer aos seus cidadãos um nível de vida melhor, equivalente àquele dos demais países da União Européia. Nem pedem muito. A referência é a Espanha. Lá, o salário mínimo já é o dobro do de Portugal. Queixam-se do fechamento de fábricas e da redução das atividades comerciais e de prestação de serviço. É um quadro recessivo que vem se formando de cinco anos para cá, mas ninguém sabe direito o porquê. Alguns atribuem à políticas públicas mal conduzidas e à corrupção, mas não entram em detalhes.

Duas amigas que deixei em Portugal.
Depois volto para colocar a conversa em dia

Em Sortelha, encontrei duas portuguesinhas muito especiais: Felismina e Encarnação. Já viveram muitas histórias, mas repetiram a mesma ladainha: nunca viram Portugal numa situação como a atual. Ficaram com os olhinhos brilhando quando disse a elas que trabalhava. Ficaram encantadas com esse fato e concordaram que o Brasil é um país abençoado. Não sei se me acharam muito incompetente para ser capaz de arrumar um emprego e daí o espanto ou se ficaram mesmo admiradas do mercado, num período de escassez, dar oportunidade para mulheres. Enfim, vai saber o que se passa na cabeça dessas meninas, mas elas concordam: a crise portuguesa foi provocada por políticas mal concebidas. Veja só, não podemos mais criar ovelhas, não podemos mais fabricar nosso pão, não podemos plantar, não podemos nada. Só ficar aqui, fazendo essas cestinhas de brecejo, que ninguém compra. Depois dessa, claro, comprei dois cestinhos de lembrança. Adorei as duas.

Mas seja qual for a crise que Portugal enfrenta, se versão 2.0 ou versão 2.8, o fato é que o país não transparece, para quem o visita, toda essa desolação. Pelo contrário, o país parece em construção. Por todo canto que andamos, existem obras a pleno vapor. E, da mesma forma que vimos muito anúncios de imóveis a venda, vimos muitos anúncios de emprego também. Talvez com salários não tão altos quanto gostariam, mas empregos. Enfim, como os portugueses gostam de dizer, tudo é conforme for. Tudo pode ser que sim e pode ser que não. Depende. Para nós, brasileiros, pode ser que o quadro não seja tão grave, comparado com o que vivemos aqui. Mas, para eles, pode ser até mais grave do que imaginamos, quando comparado com o que eles vêem nos países vizinhos. Depende, né.

Por enquanto é isso. Uma semana de boas notícias para todos nós, que estamos sempre precisando, né?

Inté.

Fotos: minhas

quinta-feira, outubro 09, 2008

A vida continua

Indiferente a crise, o cão amigo aprecia a paisagem

Se não estivesse com as malas prontas e reservas confirmadas, acho que iria preferir ficar em casa, escondida debaixo da cama para que essa crise monstruosa, horripilante, beligerante, esquizofrênica e estrangeira nunca me encontrasse. Mas ficaria feio fazer isso, nessa altura da viagem. Depois de tudo combinadim, como dizem lá na terinha. Então, vamo que vamo! Vou tirar a crise do ar e torrar a vontade ou até onde puder ou até onde aguentar. Bacalhau de domingo a domingo, com muito azeite e cebola, regado a vinhos variados e arrematado com porções generosas de pastéizins de Belém e outros docitos similares, é tudo. Tudo o que favorece para a aquisição de mais algumas arrobas, como diz a Clará. Mas, como o tempo das vacas magras se aproxima, vamos relaxar, não é não?

Enquanto isso, vou ficar olhando a crise passar pela janela. Também esse mercado é muito chato. Normalmente já é ciclotímico. Uma hora tá de bom humor, dois minutos depois já ficou nervoso, daí mais um tempinho já acalmou outra vez e depois volta brabo que nem um pitbull e assim vai. E ninguém sabe o porquê de nada. Não sabe, mas fica todo mundo querendo adivinhar para tentar domar o bicho. Ah, ném! Agora, em crise, o mercado resolveu ficar obsessivo. Anda histérico, desorientado, estribuchando quem nem cão raivoso na lama. Espalhando o barro para tudo quanto é lado. Ah, ninguém merece, não é não? Como diria minha avó, me erra, menino. Vai catar gabiroba no matinho e muda de assunto!

É claro que não é nada tão simples assim. O mercado não vai nunca sair por aí catando gabiroba no matinho, não nasceu pra isso. Prefere os gráficos que sobem e despencam desesperados e descompassadamente ao sabor do desatino dos investidores. Portanto, não se iludam, o mercado jamais mudará de temperamento. Será sempre ciclotímico, mesmo sabendo que o caminho do meio, do equilíbrio, das linhas suavemente curvas é que garantem vida longa aos afortunados.

A não ser, a não ser que: em vez de dar a solução costumeira das grandes crises planetárias, que terminam sempre no confronto bélico, nossos líderes, se é que podemos chamá-los assim, encontrem uma saída harmônica, orquestrada, afinada, como sugerem que vão tentar. Mas nem só isso basta. Além de harmônica, é preciso ser inclusiva. Muita mais inclusiva do que gostariam, mas inclusiva. E é preciso ser criativa, inventiva e, como acredito piamente, inovadora. É preciso mesmo reiventar a roda. Mas, antes disso ou enquanto isso, uma medida é fundamental. Ninguém gosta que mexam no seu salário, mas é preciso, urgentemente, restringir o valor do bônus dos grandes executivos financeiros.

Com os prêmios que recebem hoje, quem vai pensar no que virá amanhã? A guerra é no dia a dia. Eles se engalfinham que nem bestas feras para cumprir metas crescentes. Querem resultados já. Não importa como. E nesse afã, puseram no mercado um rolo inteiro de papéis podres. Depois, com a meta cumprida, pegaram seu bônus milionário, encheram os bolsos e foram embora, pousar noutras plagas. É assim que foi e assim que funciona desde sempre. Não que, nessa crise, os governos não tenham tido responsabilidade. Foram omissos nas regulamentações. Não que os investidores não tenham tido também sua parcela de responsabilidade. Foram cegos e gananciosos. Não que os empreendedores não foram também responsáveis ou irresponsáveis. Foram sim inescrupulosos, aceitando operações de alto risco. Mas, foram todos animados pelos executivos showmens. Ou não?

Então, lamento, não vou parar para ficar assistindo esse espetáculo. A vida continua, indiferente aos demais. E eu vou seguir o meu destino, ora pois, pois. Por isso, estarei ausente alguns dias, mas voltarei cheia de novidades. Prometo.

Uma semana boa de pescaria para todos. Deixem o mercado com a sua nervosia para ele mesmo.

Até de repente, quem sabe.

Foto: minha, num engarrafamento de um dia qualquer.

terça-feira, setembro 30, 2008

É preciso reinventar a roda

Nem queria me envolver, mas é díficil escapar do nosso destino ceciliano. Como ela, nascemos incumbidas de tomar conta do mundo e acabamos sempre metendo nossa colher no refogado dos outros. Não compartilho com a idéia de alguns de que quanto pior, melhor. Quanto pior, pior mesmo. Por isso, sempre fico estarrecida quando escuto o noticiário. Hoje mais ainda. Mas é inevitável reconhecer que a implosão do mercado financeiro internacional é uma crônica anunciada, pois os remendos que estão sendo aplicados para tapar as crateras que se abrem neste tecido globalizado seguem a mesma lógica com a qual ele foi costurado. E já sabemos, desde sempre, que nossa grande virtude é fatalmente e na mesma proporção também o nosso maior defeito. Para evitá-lo, a única saída é nos reiventarmos. E não é isso que se está buscando nas políticas que estão sendo propostas para enfrentar esse tsunami.

Entendo perfeitamente o pacote apresentado por bush, o de sempre. Ele pensa exatamente como deveria pensar, dentro da mesma lógica com a qual foi concebida a globalização dos bancos. Embora nos pareça contraditório, a estatização da crise é uma prática que remonta ao início do capitalismo. Estado e mercado são filhos do mesmo pai. E a generosidade do governo americano, oferecendo ajuda a todas as instituições financeiras afetadas pela crise do crédito imobiliário dos bancos americanos, seja lá onde elas estiverem, está absolutamente dentro do cardápio globalizado. Seria incoerente se não fosse assim. Só não resolve, porque não se reinventa.

Também entendo perfeitamente a reação dos contribuintes americanos. Estão tão perplexos quanto nós e por uma única razão: não se identificam com esse mundo. Eles, como nós, estivemos à margem das decisões que tornaram possível a construção dessa globalização esvaziada de sujeitos e inspirada exclusivamente nas grandes corporações industriais e financeiras. Raramente, como li uma vez num texto de Néstor Canclini, conseguimos imaginar, nesse tempo todo, um local preciso de onde partiam as ordens. Era a voz do mercado. Era a voz do governo. Era a voz das grandes corporações. Não havia sujeitos, mas estruturas. Nunca alguém.

Essa distância, entre o mundo das estruturas e o mundo dos sujeitos, nos torna inevitavelmente não-responsáveis por qualquer catástrofe, pois somos, desde sempre, impotentes para operá-la. Estamos distantes dos gigantes globais que se desdobram em meia dúzia de 10 ou 20 pelo mundo inteiro. Estamos distantes da política, que se rendeu aos interesses de um mercado fantasmagórico, sem rosto e sem nome. Bem distantes mesmo da política que deixou de ser o lugar de encontro das divergências, para se tornar um balcão de negócios. Estamos distantes dos governos, meros fantoches, submissos aos caprichos do mercado. E o pior é isso. Estivemos distantes, mas não estamos a salvo agora.

Não temos mesmo como escapar. Ninguém e todo mundo. Por isso me envolvo. Só fico pensando que, para enfrentarmos esssa crise, só há uma saída: teremos todos de nos reinventarmos.

É isso.

Não entrem em pânico, meninas. Uma semana de idéias mais originais para todos.

segunda-feira, setembro 22, 2008

Crise de confiança

O disse me disse


Não estou nem um pouco preocupada com a crise financeira internacional. Eles lá que são bancos que se entendam. Essa crise não me pertence. Só pensei, assim bem distraidamente, porque não estou nem me dando ao trabalho, que ela poderia ser mais rapidamente resolvida se fosse transferida para o Second Life. Acho que todos se sentiriam mais em casa, dos investidores aos devedores, passando pelos atravessadores. Ou será que alguém acredita que essas cifras que andam rolando no noticiário existem de verdade?

Não duvido da concretude da crise. Longe de mim tamanho radicalismo. Aliás, meu consultor para assuntos aleatórios já me convenceu disso faz tempo. As bolhas estavam apenas começando a estourar. Mas não conseguiu me provar que esse dinheiro todo existe de fato. Imagino que boa parte dele é mera ficção. Apostas. E ficção por ficção, o Second Life acolheria a todos em sua praia, de braços abertos. Logo daria um jeito de um personagem anunciar uma nova rodada de lançamentos, com créditos novos, débitos novos e assim por diante. Infinitamente, sem nenhum lastro no mundo real. Exatamente como vem acontecendo, desde a derrota fragorosa dos Estados Unidos na guerra do Vietnan.

Mas é claro que essa opção não é muito razoável. Por isso bush, aquele, está preferindo enfrentar a crise de dentro da gráfica, rodando a maquininha. Quer enquadrá-la, custe o que custar. Para isso, já se dispôs a trocar os papéis podres que estão circulando no mercado global pelas velhas e boas verdinhas. Dinheiro vivo, cash. E é aí que mora o perigo. Salvam-se os bancos e vão se os dedos e os anéis dos contribuintes americanos. De lambuja, vão acabar levando os nossos também.

É claro que essa opção, da mesma forma, não é nada razoável. McCain, por exemplo, está desorientado. Não sabe nem o que dizer. Mas a última coisa que o mercado pede, nesse momento, é coerência. E, menos ainda, que sejamos razoáveis. Primeiro, salve-se todo mundo, ou seja, eles. Depois, quem quiser peça para rever as regras do jogo. Se é que elas existem. Mas, como ainda tem muita água nessa fervura, vou continuar acompanhando tudo só de longe, para não me queimar. Um dia peço alguém para me desenhar as estratégias de bush, o mesmo, para ver se consigo entendê-las. Um dia. Hoje não.

Para todos, muita calma nessa hora, pois dias melhores virão.

Inté, que tenho mais o que fazer.

Imagem: Norman Rockwell

domingo, setembro 14, 2008

Não somos loucos, somos únicos

Ópera de Arame
Os ingleses continuam em forma. Não sei o que seria de mim, se não fossem eles. Sempre que sinto que estou prestes a enlouquecer, são eles que me socorrem. Provam incontestavelmente a minha normalidade, não apenas porque são muito mais loucos que eu, mas porque demonstram que aquilo que achava que era loucura é absolutamente normal. Desta vez, foram os pesquisadores da Universidade de Portsmouth que vieram me resgatar. Tenho uma péssima memória para fatos passados. Também não sou boa para guardar nomes nem fisionomias, mas tenho estratégias bem eficientes para me proteger de micos. E fotografias. Milhares, que não me deixam esquecer os bons momentos que já vivi.

Em compensação tenho lembranças incríveis de coisas que nunca me aconteceram. Reconstituo histórias inteiras, personagens que nunca existiram, cidades onde nunca estive, sonhos que nunca sonhei. Me lembro perfeitamente de casas que nunca habitei. Das salas compridas e escuras, dos quartos com três janelas, de portas que se abrem para cômodos que não sabia que existiam. Me lembro de uma árvore que jamais vi, gigantesca, frondosa, de pequenas folhas verdes, quase negras, sem flores, sem frutos, sem nada, mas com uma sombra imensa e acolhedora. Às vezes me ocorre que essa árvore inexistente é aquela onde Alice estava quando lia seu livro e viu um coelho correndo passar e sumir dentro de um toca aberta no chão. Mas Alice nunca esteve recostada no tronco dessa árvore. Quando viu o coelho, estava sentada no barranco, junto à sua irmã. Mas ainda assim, acho que ela poderia muito bem estar sob a sombra dessa árvore.

Meu caçula me disse uma vez que essas lembranças não são invencionices, são lembranças de vidas passadas. Às vezes, ele é muito místico. Eu sou muito prática. Acho que são apenas flashs do passado que se misturam. Mas seja o que for, não é loucura. James Ost, pesquisador da Universidade de Portsmouth provou que todos nós somos capazes de recordar memórias de coisas que nunca existiram. No experimento, ele entrevistou 300 pessoas sobre as recordações que guardavam do atentado ao ônibus em Tavistock Square, em Londres, ocorrido no dia 7 de julho de 2005. As entrevistas foram feitas três meses após o atentado, um prazo bem razoável para garantir que as lembranças ainda estivessem bem vivas. Um exercício bem facilzinho, considerando que a série de explosões que atingiram o sistema de transporte público da cidade naquele dia, bem na hora do rush, teve uma repercussão internacional, provocou 52 mortes, deixando cerca de 700 pessoas feridas.

O resultado foi surpreendente. Para minha avó, apenas óbvio. Dos entrevistados britânicos, 40% afirmaram ter visto imagens de um circuito interno de televisão no momento da explosão do ônibus, enquanto 28% afirmaram ter assistido a uma reconstrução computadorizada do evento. No entanto, nenhuma das duas imagens do ataque existe. Ost concluiu, então, que as memórias "não são perfeitas. Não são como uma fita de vídeo que você pode rebobinar e assistir novamente para lembrar com perfeição". As pessoas fantasiam, enganam a si mesmas ao acreditar que viram coisas que jamais poderiam ter sido vistas, já que nunca existiram. Ou seja, Ost concluiu o que a sabedoria popular sempre soube: quem conta um conto aumenta um ponto. Minha avó sempre me alertou para isso. E mesmo antes dela me avisar, nós, crianças, já sabíamos disso. Quem nunca brincou de telefone sem fio? Até meus meninos, que são novos, já passaram por essa experiência.

Mas não menosprezo o experimento de Ost. A prova científica tem um valor inestimável. E resgatar essa discussão no mundo contemporâneo tem uma importância ainda maior. Somos bombardeados, diariamente, por milhões de informações, vindas de todas as partes do mundo. Mas essas histórias que assistimos ao vivo e a cores, como se fossem reais, fatos de fato, são apenas histórias, como Ost provou.

Por isso, amigos, fiquem espertos. Quando saírem por aí navegando ou quando se acomodarem em frente à televisão para assistir ao noticiário, não se esqueçam: desconfiem! Dêem um desconto, subtraiam. O pior que pode acontecer é surgir uma nova história. Nem mais nem menos fantasiosa que aquela que vocês acabaram de ver.

Uma bela semaninha, de lembranças inesquecíveis de tudo aquilo que nunca viram nem nunca viveram.

Inté
Foto: do Topi, em Curitiba.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Esposa dedicada

Minha amiga, que vive assoberbada como eu, teve uma idéia. Para ela, nós mulheres, deveríamos ter também uma esposa dedicada. Assim, quando voltássemos do trabalho, encontraríamos a casa em ordem, com todas as providências encaminhadas, os filhos já assistidos e as gavetas arrumadas. Teríamos tempo de sobra para nos estirarmos numa poltrona, esticarmos as pernas e suspirarmos aliviadas com o fim do dia. É uma idéia, só não sei se é boa. Já pensou, amiga, a gente chegando em casa, depois de um dia estafante, e ainda termos de ouvir a ladainha fastidiosa dos problemas corriqueiros de uma casa? Ou você acha que ela vai fazer com perfeição tudo aquilo que fazemos mais ou menos sem nem reclamar? Claro que vai.

Não tenho uma esposa dedicada, mas tenho uma aliada na minha república. Ela procura fazer tudo da melhor maneira possível, embora o seu melhor esteja bem aquém daquilo que eu mesma considero como sendo o melhor. Quando entro em casa, na hora do almoço, sempre correndo, ela não perde a oportunidade. Em tom de ameaça, ela já vai me avisando:

- Óh, o gás já está quase acabando!
-....

Agora me diga, amiga, o que eu posso fazer se o gás está quase acabando? Acabou? Não, não acabou. Está quase, mas não acabou. Então, precisava de me ameaçar com esse detalhe irrelevante? Não, mas ela faz questão de me colocar a par dessa situação, como se estivéssemos correndo um risco incalculável. Me lembra, a todo instante, que está faltando alguma coisa em casa: fermento biológico para fazer massa de pizza; toddy, para fazer um bolo de chocolate com cenoura; iogurte natural para fazer um frango indiano e pimentão vermelho para dar um toque colorido na salada. Às vezes desconfio que, no fundo, no fundo, ela até gosta quando falta tanta coisa lá em casa, assim ela pode ficar no arroz com feijão, sem dor na consciência. Mas não deixa de me cobrar.

Então, não vamos nos iludir, amiga. A nossa esposa dedicada acabaria também reclamando muito, cobrando despropositadamente, nos ameaçando, assim que puséssemos os pés dentro de casa. Nem acho que esse é um comportamento só das mulheres não. Desconfio que é uma característica da espécie humana. Estamos sempre reclamando de alguma coisa. Olha essa história do petróleo. Nós, brasileiros, vivíamos resmungando pelos cantos, questionando como era possível nossos vizinhos terem tanto petróleo e o Brasil uma merreca de reservas. Aí, alguém descobre que é provável que o Brasil tenha muito mais petróleo do que jamais imaginou. Ficamos satisfeitos? Claro que não.

Tem gente que acha que as reservas dos novos poços na baía de Santos estão superestimadas. Outras, que as reservas do pré-sal são inexploráveis, tamanho o investimento que terá de ser feito no desenvolvimento de tecnologias apropriadas a sua extração. E outras acham que o Brasil deu um grande azar. Foi dar de encontrar petróleo justo agora que o preço está em baixa! Quem entende isso? Todo mundo sabe que, daqui pra frente, e nos próximos cem anos, dificilmente encontraremos energia barata. Ou não? Mas, para reclamar, vale até se esquecer desses detalhes irrelevantes.

E as Olimpíadas? Lembra? Aquelas crianças lá, se esforçando até a última gota de sangue, disputando com os melhores de todas as partes do mundo, e nós aqui, tripudiando, menosprezando, ridicularizando o empenho de cada uma delas. Queríamos era mais, muito mais. Nem bronze nem prata. Só ouro e olhe lá. Por isso, fico cismada de que gostamos mesmo é de reclamar. Queixar ao bispo. E nem somos só nós, brasileiros. Olhe os americanos. Estavam danados com bush, aquele. Todas as pesquisas apontavam esse descontentamento. Aí encontram um candidato à presidência do império que agrada a gregos e troianos. Ficam felizes? Não. No dia seguinte já começam a reclamar. O cara nem foi eleito, nem assumiu nada e já foi avaliado. Não será um bom presidente, não tem experiência, é indeciso, é confuso, é isso, é aquilo. Todo mundo reclamando.

Pode ser? Só pode. Por isso, amiga, acho que uma esposa dedicada é uma idéia, só não sei se é boa. Acho que prefiro continuar do jeito que sempre foi, eu reclamando de mim só comigo mesma, envolve menos gente e faz menos confusão.

Inté de repente ou quando der.


quinta-feira, agosto 21, 2008

Vivendo e aprendendo

Sherazade

Já aprendi muita coisa inútil na vida. Por exemplo, fritar ovos sem quebrar a gema. Sei que assim ficam mais gostosos, mas é inútil. Estender a cama sem deixar pregas no lençol. Fica bonito, mas é indiferente. Desenho geométrico. Gastei boas tardes da minha vida traçando mosaicos coloridos em degradé, para nada. Escrever de trás pra frente. Não tem a menor utilidade, embora seja divertido. Os nomes de todos os ossos do corpo humano. Absolutamente inútil, mesmo porque, já mudaram todos eles. A fórmula quadrática de Sridhara. A não ser para resolver folhas e folhas de papel almaço, com centenas de equações de segundo grau, não me serviu para mais nada. As mitocôndrias: organelas citoplasmáticas, membranosas, cuja principal função é gerar energia através da síntese do trifosfato de adenosina. Inútil. Outros conhecimentos foram tão irrelevantes, que nem me lembro mais deles. Só muito vagamente: compostos orgânicos; complexo de Golgi; cinemática; estática; hidrostática e assim por diante.

Não me arrependo de ter acumulado tanto conhecimento inútil, mas acho razoável quando alguém questiona os conteúdos obrigatórios dos currículos de ensino fundamental e médio das escolas brasileiras ou de qualquer outra parte do mundo. É sempre muito desagradável ter de controlar a nossa curiosidade e deixar escapar milhões de idéias que andam soltas pelo mundo, só para não perder o foco. Ainda hoje dá uma tristeza danada quando tenho de desconversar as histórias compridas que meus meninos inventam de me contar, só para reconduzi-los aos livros que os aguardam em cima da mesa ou às folhas e folhas de deveres que se acumulam dentro da mochila. Por que concordamos todos, em algum momento que não sei exatamente quando foi, que, para ser alguém na vida, temos de aprender exatamente as coisas que aprendemos nas escolas? Por que não outras?

Aprender a cuidar de uma horta, a refogar um arroz, a levantar uma parede, abrir uma janela, a costurar uma roupa, a ser amigo, a namorar, a conversar e outros conhecimentos banais, mas que são fundamentais para nossa sobrevivência? Por que não percorrer novos caminhos, para onde aponta a nossa curiosidade? Aprender um tico de quase nada sobre o universo infinito, sobre física quântica, biogenética, teoria do caos, análise multivariável e outros mistérios da vida? Por que não? Essa deve ter sido a pergunta que os pais de Jonatas e Davi se fizeram, antes de tirar seus dois filhos da escola e oferecer a eles a opção de se formarem em casa.

Os dois meninos, de 14 e 15 anos, moram no município mineiro de Timóteo. Desde 2006, estudam em casa, com o apoio dos pais, Cleber e Bernadeth, e de professores particulares, quando necessário. Aprendem retórica, dialética, gramática, aritmética, geometria, música e duas línguas estrangeiras - inglês e hebraico. É pouco? A Justiça achou que sim. No início deste agosto, os dois meninos tiveram de se submeter a oito provas, elaboradas por 26 professores da rede pública municipal e estadual da pequena Timóteo, para demonstrarem que são bons no que fazem. Foram mais de cem questões, abertas e fechadas, sobre as disciplinas da 5ª, 6ª e 7ª séries do ensino fundamental. Um Enem dirigido. Ainda não sei como Jonatas e Davi se saíram, mas não tenho dúvidas de que deverão ter um bom desempenho, se não nas provas, na vida.

Agora, a nossa Justiça precisava se explicar melhor. Certamente, ela deve ter tido bons argumentos para justificar sua intervenção nesse caso, apesar de se tratarem de crianças que estão plenamente assistidas pela família e apoiadas por uma rede alternativa de educadores, monitorada permanentemente pelos pais. Não sei quais foram, mas devem ter sido bons para mobilizar tanto esforço. E quais deverão ser os argumentos dessa nossa Justiça para se omitir tão vergonhosamente na defesa dos direitos de milhares de brasileirinhos, abandonados na sua santa ignorância? Por que ela não está atrás dos pais desses meninos que estão vagando soltos nas ruas, a léguas e léguas de distância da escola? Por que não está investigando a qualidade do ensino que é repassados a milhões de outros brasileirinhos, que estão regularmente matriculados nas escolas, mas saem de lá sem mal saber ler? Será que é porque esse é um problema maior do que sua capacidade de solucioná-lo? Será que é porque não dá conta mesmo de resolvê-lo e aí melhor fingir não vê-lo? Melhor enfrentar Jonatas e Davi, um problema menor, se é que são mesmo um problema?

São essas perguntinhas bobas que ficam martelando na minha cabeça. Uma hora dessas, perco o foco e mergulho nas histórias de Jonatas e Davi e na dos milhões de brasileirinhos para ver se entendo as razões da nossa Justiça.

Uma semaninha dedicada aos conhecimentos inúteis e irrelevantes, mas saborosos o suficiente para atrair a nossa curiosidade!

Inté



Foto: minha. Obra de Hilal Sami Hilal, exposta no Palácio das Artes. Uma hora conto a história dele.

segunda-feira, agosto 18, 2008

Um incelença entrou no paraíso

Mesmo que estivesse com tempo para parar e pensar um pouquinho, não conseguiria escrever nada mais bonito nem melhor do que esse texto, escrito por meu pai, no último sábado, dia 16, em homenagem a seu amigo Dorival Caymmi. Por isso, nem vou me dar ao trabalho. Mesmo gostando de inventar moda e de caçar palavras para tentar expressar as coisas que passam pela minha cabeça, nesse caso, acho que seria perda de tempo. O texto já está pronto e não gasta reiventar a roda.

Abro aqui uma cessão de espaço para compartilhar com meu pai essa homenagem a Caymmi. Se quiserem, celebrem conosco!

Lembranças de Caymmi

Em 1945 eu trabalhava como auxiliar do Departamento Artístico da Rádio Nacional. Era o meu primeiro emprego, presente do José Mauro a pedido de meu pai em seu leito de morte. Tinha 17 anos e estava deslumbrado com a oportunidade de conhecer e conviver com os maiores astros e estrelas do rádio daquela época. O elenco da Nacional era fantástico: Francisco Alves, "o Rei da Voz"; Orlando Silva, "o cantor das multidões"; Emilinha Borba, "a favorita da Marinha"; Marlene, "a rainha do rádio"; Almirante, "a maior patente do Rádio"; isto sem falar na turma do rádio-teatro:Ismênia dos Santos, Paulo Gracindo, Isis de Oliveira, Rodolfo Mayer, Celso Guimarãese muitos e muitos outros e outras... Mas, faltava um que meu pai admirava muito e eu, por herança, admirava também, não só por herança, mas porque as músicas que ele compunha e cantava eram diferentes das que os cariocas compunham e cantavam. As dele tinham um quê de saudade, de doçura, de balanço de rede. Estou falando de Dorival Caymmi, que era da Rádio Tupi.

Naquela época a Nacional tinha um programa chamado "Um milhão de melodias" que nos corredores era conhecido como o "Coca-Cola". Era uma versão tupiniquim do "HitParade" americano. Seu produtor era o José Mauro, acolitado pelo Paulo Tapajós e pelo Haroldo Barbosa. A regência da orquestra era do Maestro Radamés Gnatalli, também autor dos arranjos. Ia ao ar na quarta-feira, às nove e trinta e cinco da noite e terminava às dez horas, impreterivelmente pois às dez tinha a última edição do dia do famosíssimo "Repórter Esso". Eu tinha uma missão importante naquele programa: cronometrava o tempo dos arranjos durante o ensaio, para evitar que ele ficasse aquém do, ou ultrapassasse, o horário estipulado.

Ter suas músicas apresentadas no "Coca-Cola" era o sonho de compositores e cantores pois valia como um diploma de sucesso.Um dia - era uma sexta-feira - entra na sala do José Mauro ninguém menos do que Dorival Caymmi. Os dois trocaram um abraço, começaram um bate-papo sobre música e o José perguntou:

- Caymmi, você tem alguma música nova?
- Acabei uma hoje de manhã. Ficou bonitinha...
- Canta um pedacinho.
- Sem violão não tem graça - disse Caymmi.
- Isto não é problema, disse o José.

E dirigindo-se a mim, mandou que buscasse um violão na sala do Almirante, que ficava ao lado. O baiano pegou o violão, deu um dedilhado, acertou a afinação, e cantou:

Marina, morena, Marina
Você se pintou
Marina você faça tudo
Mas faça o favor
Não pinte esse rosto
Que eu gosto
Que eu gosto e que é só meu
Marina, você já é bonita
Com o que Deus lhe deu
Já me aborreci,
Me zanguei,
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar
Eu já desculpei tanta coisa
Você não arranjava outro igual
Desculpe, morena, Marina
Mas eu tô de mal

O José ficou entusiasmado: Muito boa! Vamos lançar no Coca-Cola quarta-feira! Roberto, chama o Alexandre Gnatalli (era irmão do Radamés e trabalhava no arquivo musical) para ele transcrever a melodia, e você datilografa a letra. Assim foi feito e, hoje, com muito orgulho, posso inserir no meu currículo este título honroso: "Primeiro datilógrafo de Marina"...

Quando mais tarde fui trabalhar na Tupí, ficamos amigos e guardo com muito carinho o livro "Cancioneiro da Bahia", prefaciado pelo Jorge Amado e ilustrado pelo Clovis Graciano, reunindo letras e comentários do Caymmi, que tem uma dedicatória em que ele diz: "Para o Roberto, com a amizade do Dorival Caymmi. Rio - fev. 1948".

Caymmi, meu caro, peço a Deus que lhe dê uma nuvem, uma rede e um violão, para que à noite você faça uma serenata para as estrelas cantando suas músicas cheias de doçura...

Inté

Foto: pescada na internet

domingo, agosto 10, 2008

Senhora do mundo

Não perdi nem boicotei a abertura dos Jogos Olímpicos de 2008. Adiantei tudo que dava para adiantar e atrasei tudo que sobrou para fazer só para não ficar de fora da festa. Sabia que os chineses não se contentariam apenas em bater o ponto nessa solenidade. A nova senhora do mundo aproveitaria a oportunidade para se apresentar à galera globalizada em rede, ao vivo e a cores. E foi isso que fez. Nos deu uma boa mostra do que será daqui pra frente. Eu fiquei hipnotizada, mas não sozinha. Fomos mais de 4 bilhões de pessoas no mundo inteiro que não descolamos os olhos do televisor.

Então vamos nos acostumando. Se já estamos achando o mundo muito cheio de gente, as ruas entupidas de carro, os bares entornando pelo ladrão, os corredores dos supermercados abarrotados de donas de casas, os pontos de ônibus parecendo saída do Mineirão em dia de clássico, podemos nos preparar, teremos saudades desse tempo. A Era Beijing não terá lugar para petit comité. Ou iremos todos juntos ou não iremos. E todos não é nós, é muitos e muitos e muitos mesmo. Muito mais que 2008 percursionistas juntos ou que milhares de etezinhos reluzentes, piscando no centro do palco.

E tem mais. Não é um todos no meio desse empurra-empurra que estamos acostumados não. Haverá de ter muita disciplina. Os detalhes se tornarão fundamentais. Ou aprenderemos a ter movimentos harmoniosos e sincronizados ou teremos de ensiná-los um pouco da nossa avacalhação para conseguirmos interagir sem descompasso. Mas esse será o menor dos desafios que teremos de enfrentar na Era Beijing. O maior, talvez, será o de superar a superficialidade a que nos acostumamos durante o Império Americano. Teremos de aprender a ir fundo nas coisas, descer às raízes para nos lançarmos para o alto. Afinal, não vamos desperdiçar 5 mil anos de história ou vamos?



Mas enquanto a Era Beijing não se instala, fico pensando nos problemas que teremos pela frente. Ninguém conseguiu responder, por exemplo, a dúvida do coordenador dos Jogos Olímpicos em Pequim. Como a China, com uma população de 1,3 bilhão de pessoas, não consegue arrumar 11 infelizes que saibam jogar um futebol minimamente apresentável? Isso é um problema. O que será mais que eles não dão conta de fazer? Também pensei, como a China, com tantos anos de janela, não conseguiu recuperar a tradição dos primeiros jogos olímpicos, suspendendo todos os conflitos em curso e firmando um período de trégua, durante os jogos, para o congraçamento dos países? Quem me explica esse destempero na Ossétia do Sul?

A única coisa que entendi disso tudo é que o mundo não é tão pequeno assim quanto queriam me fazer imaginar. Os limites do mundo vão muito mais além da consciência que tenho dele. Nunca na minha vida tinha ouvido falar em Ossétia do Sul. Tudo bem, o último Almanaque Abril que comprei foi de 2006, mas podia já ter tido alguma notícia de Ossétia do Sul. E nunca. E isso me incomodou muito. E mais ainda, porque desconheço não apenas Ossétia do Sul, mas muitas outras regiões do mundo. Nunca tinha escutado falar, por exemplo, de Kiribati, Naurú, Lesoto, Eritréia e o escambau. Acho que na Era Beijing, o mundo ficará maior também.

Se pudesse e se quisesse, poderia ficar por aqui digitando milhares e milhares de caracteres, formando centenas e centenas de palavras e frases com todas as idéias que me passaram pela cabeça, enquanto assistia a performance da nova senhora do mundo. Mas vou poupá-los. Vou desfrutar um pouco mais do mundo minimalista, enquanto ele ainda é possível.

Uma semana de trégua para todos e de boas vitórias para o Brasil.

Inté

Fotos: pescadas na internet.

quarta-feira, agosto 06, 2008

Perdi o trem


Acho que estou ficando extemporânea. Essa é uma constatação bastante desagradável mas, ainda assim, prefiro admiti-la a ter de me esforçar para compreender os absurdos que tenho visto. Por exemplo: o McDonald's ser credenciado como restaurante oficial das Olimpíadas pela sétima vez consecutiva! Dá para entender? Desde 2001 que meus meninos, voluntariamente, renunciaram aos mclanche feliz, big mac e outros quarteirões do cardápio fast food da lanchonete símbolo dos EUA. Foi um ato político e eu não tenho nada a ver com isso. O mérito é das professoras da escola onde eles estudavam. De tanto ouvirem falar dos malefícios desse tipo de alimentação, eles acharam por bem renunciar ao McDonald's a ter de abrir mão de hambúrguers, refrigerantes, batatinhas fritas e outras delícias (ops!) da culinária americana.

Para nós, pobres mortais, ainda vá lá. De vez em quando, um hambúrguer com coca-cola até que cai bem. Mas pensem bem: um atleta, um medalha de ouro em ginástica olímpica, um judoca, uma das meninas do vôlei, um halterofilista, qualquer um deles, terminando os treinos e, ainda suando e se arrastando de cansaço, entrando num McDonald's e pedindo um Big Mac, seis embalagens de catchup e mais seis de maionese e um copão de coca. Isso é razoável? Estou absolutamente estupefacta com essa situação. Mas olho para os lados e não vejo ninguém se espantando. Pelo contrário, estão todos felizes por terem agora 1 bilhão de amigos chineses!

E aí está. Se já não consigo assimilar a condição do McDonald's como restaurante oficial das Olímpiadas pela sétima vez consecutiva, tenho ainda mais dificuldade para entender como ele conseguiu manter essa posição em plena China. Não sou desinformada. Claro que sei que hoje existem centenas de McDonald's espalhados por aqueles país; que os chinezinhos, como os brasileirinhos e os francesinhos e todos os inhos adoram comer besteiras. Sei disso. Sei que a China não é mais a China. Mas, por isso mesmo, não consigo entender como os chineses abriram mão de credenciar um China in Box para abrigar um McDonald's. Por que perderam essa oportunidade, de divulgar a sua própria culinára?! Por que? Por que? Não entendo mesmo. Acho que perdi alguma coisa.

Outro exemplo: o anúncio da Lupo, dedicado ao Dia dos Pais. A peça repete o mesmo tema da última campanha: Lupo é tudo. Como assim? Lupo é tudo? Tudo o quê? Bom, mas isso é outra conversa. Vamos admitir que Lupo seja tudo, para resumir a história. Aí a musiquinha do dia dos pais vai listando tudo que um pai é. É forte, é amigo, é legal, é referência é não sei mais lá o quê, é tudo e, a certa altura, vem a pérola: pai é Lupo. Lupo é pai. Pai é Lupo? Lupo é pai? Como assim? Meu pai não é uma meia. Tenho certeza disso. Nem o pai dos meus filhos é uma meia ou qualquer coisa parecida. Também não acho que meia seja pai. Nem meia nem qualquer outro dos produtos Lupo. São todos muito bons, mas não são pai nem aqui nem na China. Ou são?

Viram como estou confusa? E, quando fico confusa, viro um poço de dúvidas. Quem sabe esse anúncio é bom? Quem sabe não é isso mesmo? Lembram da coca-cola? Isso é que é! É o quê? Ninguém sabe, mas esse refrão vingou durante décadas. Estão vendo? A mesma lógica da falta de lógica. Quem sabe a Lupo tem razão? Quem sabe o anúncio é bom? Argh, estou muito confusa. Será que estou ficando muito rabugenta? Será que estou ficando extemporânea? Ai ai.

Uma semana bem divertida para todos, na companhia de um bilhão de amigos chinesinhos, todos de meinhas lupo, andando e pulando pela sala, beliscando hambúrguers e bebericando copões de coca.

Inté.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Andar, andei


Aposto que vocês andam pensando que estou em plenas férias, me esbaldando em alguma praia por aí, pulando ondas e fazendo nadica de nada o dia inteirinho. Ou então, embrenhada num canto de Minas, fazendo trilha em algum parque das Gerais e observando nuvens. Ou melhor, passeando pelo planeta, andando de um país pra outro, tropeçando na língua, estranhando temperos e me deslumbrando com as coisas exóticas das culturas alheias. Seria bom se fosse.

Mas acertaram só muito mais ou menos. Tirei mesmo cinco diazinhos de férias na última semana de julho e já foi uma boa temporada. Aproveitei, de fato, para ver o mar e pular ondas. Uma hora o ano novo precisava começar, não é? E me dediquei com afinco ao Nadismo. Não pensei nada de óbvio nem de inédito, nem nada rasteiro nem de inteligente. Até a medida do sal, preferi olhar na receita a ter de usar a minha intuição. E a cidade me ajudou muito. Estava às traças. Tão vazia, que a praia parecia nosso quintal. E o céu também colaborou. Estava azul pleno, sem nem uma nuvem para ser observada. Enfim, nesses míseros cinco diazinhos, acho que toquei a essência do nada.

Mas antes disso, me fartei de palavras, papéis, apostilas, livros, words, excels, googles e essa tranqueira toda que temos de usar para ninguém ter dúvida de que estamos trabalhando com empenho e dedicação. Não tenho certeza se tive idéias criativas nessa temporada escrava, mas pelo menos consegui organizá-las em frases compreensíveis e textos razoavelmente lógicos. Se vão acrescentar alguma novidade é outra história, mas, enfim, terminei o que comecei. Só devo o trabalho final. Eu e todo mundo. Mas, para isso teremos tempo. Acho que já posso cantar vitória.

E enquanto estive prisioneira no mundo das idéias, perdi completamente o contato com o mundo da vida. Mal ouvia falar dos milhares de acontecimentos que rolavam enquanto me debruçava sobre um monte de letras. Não lia nem manchete de jornais, quanto mais notícias e artigos assinados. Nem as imagens me interessavam. Se mal ouvia ou lia, menos ainda via. Perdi o fio da meada de tudo. Nem me lembro mais de bush, Obama, Hillary. Não dou notícia de Lula nem da sua turma. Perdi de vista os quase 400 mil candidatos a alguma coisa nas eleições de outubro. Nem sei quem vem por aí. Muito menos quem virá em 2010.

Rodada de Doha. Passo também. G-5, G-8, G-12, G-20, perdi a conta. No caixa do supermercado, só percebi que a inflação voltou, mas tive notícias, de longe, que já recuou, depois voltou de novo e não sei mais por onde anda. As bolsas subiram, desceram, caíram, despencaram e devem estar rastejando por aí. Ou não. Vai saber. O mundo continua crescendo, crescendo, crescendo. Mas também desacelerando. Pisando no freio, reduzindo a marcha. Talvez este seja o problema. Não sabe para onde ir. E se ele não sabe, muito menos eu.

O que ninguém precisa me contar, porque isso todo mundo sabe, é que toda hora as pessoas continuam morrendo no Iraque. Que a China continua liderando o ranking de qualquer coisa. Que o clima continua mudando. Que o trânsito continuou parado, mesmo enquanto esse bando de estudantes esteve de férias. Que Gérard Derpadieu continua sendo o ator preferencial de 9 entre 10 diretores de filmes franceses. Que o campeonato brasileiro de futebol continua indefinido porque hoje todos os times são igualmente ruins, exceto o Cruzeiro, claro, que é muito bom, mesmo estando numa fase, vamos dizer assim, meio mal. E que depois de um dia, vem sempre outro dia. Até quando, vai saber.

E enquanto nada muda, vou aproveitar para retomar o fio da meada e, quem sabe, voltar a pensar sobre essas coisas todas que ficam zumbindo no meu ouvido o dia inteiro.

Uma temporada mais branda para todos nós.


Inté. Sempre que tiver um tempinho.

Foto: minha. De um dia que não me lembro mais qual.

segunda-feira, junho 30, 2008

Eterno brilho

O repórter Carlos Castello Branco
Navego cada vez menos na internet. Isso está virando um problema. Quem me salva são os amigos. Que vale que ainda os tenho. Um deles me deu a dica e fui lá conferir. Nem estava tão entusiasmada assim, mas bateu a curiosidade e não resisti. Fui revisitar a Coluna do Castello. Nunca fui leitora fiel do Carlos Castello Branco. Lia quando precisava. Mas quando lia gostava. Depois fui me acostumando, tomando gosto e fiquei mais freqüente. Lia quando precisava e também quando não precisava. Mas era um dia sim, outro não e olhe lá.

O provocador Paulo Francis

Quando estava sozinha, preferia mesmo era a coluna do Paulo Francis: Diário da Corte. Era publicada às quintas-feiras e aos domingos, primeiro na Folha de São Paulo e depois no Estadão. Francis e Castellinho não tinham nada em comum, mas gostava dos dois. Como diria minha avó: Castello e Francis eram duas belezas diferentes. E nessas leituras, muitas vezes panorâmica, me interessava menos pela notícia e mais pelo como eles a trabalhavam. Castellinho era um clássico. Impossível não apreciar a sua leitura. Até hoje me cativa.

Paulo Francis já é outra história. Ou melhor, duas: sua leitura despertava paixão ou ódio. Não tinha meio termo. E isso era uma das coisas que me fazia preferi-lo. Mas, principalmente, o que mais gostava em Paulo Francis era a confusão mental que ele nos impunha. Com frases curtas e cortantes, ele discorria sobre vinte e cinco assuntos ao mesmo tempo e ainda concluía. Também apreciava o seu mau humor e a sua ironia sentinela. Hoje, fico pensando, essa preferência era uma coisa bem adolescente mesmo. Achávamos bacana aquele texto debochado, irreverente, bronqueado que ele tinha. No como de Paulo Francis, me fascinava, especialmente, o ritmo do seu texto. Nos obrigava sempre a fazer uma leitura em alta velocidade. Isso até hoje me fascina.

Não costumo ser saudosista. Revisito, releio, rememoro, mas sem nostalgia. Relembro mais para conferir, para ver se continuo pensando igual pensava quando da primeira vez. Se ainda me emociono, se ainda gosto, se tudo que vi um dia ainda faz algum sentido para mim. E é impressionante como mudei nesse tempo todo. Mas relendo os dois jornalistas, desconfio que não mudei nada. Continuo gostando dos dois e apreciando neles o que já apreciava. Aliás, acho que hoje gosto mais. Sinto falta deles e mais ainda de tudo o que eles representaram para todos nós.

Hoje, a figura do jornalista está em decadência. Posso estar blasfemando, mas essa é a minha percepção. As pessoas têm birra de jornalista. Criticam a nossa superficialidade, nossa generalidade, nossa imprecisão, nosso texto, muitas vezes, descuidado e, não raro, simplificador. Até concordo com algumas dessas críticas, mas por outros motivos. Me aborrece ainda mais a desvalorização do trabalho dos jornalistas dentro das organizações. Desde o advento do marketing, mais vale uma imagem que uma informação. Sem matéria prima para trabalhar, ficamos sem identidade e sem direção. Relendo Castellinho e Francis, tenho certeza de que estamos mesmo com um problemão nas mãos.

Que os dois nos iluminem e olhem por nós lá de cima.

Uma semana de grandes leads para todos nós.

Fotos: Pescadas nos links deste post

domingo, junho 22, 2008

Navegar é preciso

Imagem do Hublle pescada na internet


Na primeira cena do filme Xeque Mate (2006), dirigido por Paul McGuigan, Goodkat, personagem interpretado por Bruce Willis, conversa com um rapaz no saguão de um aeroporto. Não é uma conversa boa. Mas ele diz uma frase que, depois descobri, é a chave para entender o filme. Goodkat chega do nada e se aproxima do jovem. Olha pra ele e diz: tudo tem a sua hora. Isso é muito verdadeiro. Nem precisava dizer, mas é que por ser óbvio e banal demais, acabamos nos esquecendo que, antes de tudo, isso é muito verdadeiro.

Olhem só a nossa situação hoje. Vivemos num planeta que está se deteriorando ao vivo e a cores, no Jornal das 10. Uma hora é a terra que treme, outra hora treme de novo. Quando não treme, são as geleiras do Ártico que se desprendem de onde estão e descem água abaixo se derretendo que nem sorvete na mão de uma criança. E quando não são as geleiras, é um furacão, um tornado, um ciclone que passa, deixando tudo de perna pro ar. Onde fazia frio, está fazendo um calor de rachar, onde era quente está nevando. Uma tragédia. Uma tragédia anunciada.

Mas nem adianta Al Gore avisar, nem o IPCC alertar, cobrar, ameaçar. Ninguém detém o avanço do mercado. Nem aqui nem na China. E dá-lhe madeira abaixo, e puxa água daqui e puxa água dali, e solta fumaça, levanta poeira e solta fumaça, o importante é produzir. Comida, roupa, brinquedo, remédio, carro, casa, batedeiras, liquidificadores, forninhos, fogões, sapatos, ipods, iphones, games, laptops, tratores, e assim por diante. Depois, pega tudo isso e joga fora. E começa tudo de novo. E amontoa o lixo num canto. Montanhas de lixo. E vamo que vamo.

A nossa situação, definitivamente, não é das melhores. Vivemos num mundo que está se perdendo ao vivo e a cores, no Jornal das 10. Já não cabemos mais no planeta. Eramos 6,6 bilhões de pessoas até alguns minutos atrás. Antes de 2012 já teremos chegado a 7 bilhões fácil, fácil. Por enquanto, ainda estamos mais ou menos sossegados. Cada um no seu canto. Mas é por pouco tempo. No ano passado, o número de refugiados, de pessoas que deixaram sua terra por conta de guerras, dos desastres naturais, em busca de melhores condições de vida ou por outra razão qualquer, já foi recorde. Foram quase 38 milhões de pessoas que saíram andando pelo mundo, atrás de uma Pasárgada.

Mas as porteiras do mundo globalizado estão se fechando. E não é por falta de humanidade não. É que a situação anda complicada pra todo lado. As oportunidades estão rareando até no paraíso e, nessa hora, cada um se defende como pode. Olhem os Estados Unidos, o sonho de consumo de todos. Estão desorientados, com uma recessão econômica batendo a sua porta desde o último verão ou até antes disso. E o pior é que esse desconforto não é só deles. É de todos nós, porque o que acontece por lá repercute no mundo inteiro. Olhem a inflação. Não está querendo voltar?

Enfim, estamos todos atados nessa rede. Todos os grandes problemas que temos para enfrentar nos próximos quinze minutos, não são apenas nossos, mas de todo mundo. Ninguém escapa dessa sozinho. Por isso me lembrei de Goodkat. Tudo tem sua hora. Não sei se é uma idéia de direita ou de esquerda. Se é reacionária ou revolucionária. Se é arriscada ou se é o caminho natural. Só sei que é um desafio também. Que é difícil pra caramba. Que é quase impossível, se a olharmos do mesmo lugar onde estamos hoje.


Mas apesar de todos os pesares, dos poréns e do fuzuê que irá provocar, se tiver de ser assim, estou cada vez mais convicta de que não teremos outra saída. A hora é agora. Ou inventamos um jeito de pensar o mundo como um todo indivisível, sem fronteiras nem barreiras, ou vamos ficar remendando até o fim dos tempos. O que não está longe. Só um governo mundial pode dar conta de resolver os problemas que temos hoje. Da superpopulação às mudanças climáticas. Da inflação às guerras. E de tudo mais. É difícil, mas não é impossível.

Fico pensando que, depois dessa semana, ficou até mais fácil. A descoberta dos astrônomos suíços e franceses, de três superterras ao redor de uma estrela fora do Sistema Solar; a confirmação da existência de gelo na superfície de Marte; e o anúncio do governo japonês de novos investimentos em missões espaciais, admitindo até a possibilidade de bancar projetos que visem contatos com extraterrestres, redimensionam de maneira bastante concreta a nossa importância no universo. Não somos mais apenas nós com nós mesmos. Mas nós com todos os que estão por vir. Esse é o novo paradigma que poderá nos acudir e, quem sabe, nos redimir.

Uma semaninha de grandes navegações para todos.

sábado, junho 14, 2008

Ombro amigo

Uma luinha solitária, num céu azul, cortado por falsas nuvens

“A globalização atual não é irreversível. Agora que estamos
descobrindo o sentido de nossa presença no planeta, pode-se
dizer que uma história universal verdadeiramente humana
está, finalmente, começando." (Milton Santos)


Vi o Papa Bento XVI passeando nos jardins do Vaticano ao lado de bush, aquele que foi e já não sabe mais o que é. Não entendi nada, pra variar. Aliás, ando entendendo muito pouco de quase tudo. Mas isso é outra história, bem desinteressante, por sinal. Por isso prefiro só ficar olhando o papa passeando com bush e não pensar em mais nada. Nem ousar imaginar o óbvio, que estavam ali só pousando pra inglês ver. Nem arriscar uma piada, que bush procurou Bento XVI só pra negociar seus pecados e garantir uma sombrinha no céu. Nem inventar um mistério, que os dois estão juntando forças só para derrotar o dito. Prefiro só ficar olhando. De mentirinhas, estamos atolados até o pescoço.

Mesmo sem pensar, acabo, no entanto, pensando. Não há nada de excepcional nem de desprezível no fato de dois homens se encontrarem. Ainda que esses homens sejam, cada um na sua praia, influentes e poderosos. Talvez, por isso mesmo, precisem um do outro. Não para se tornarem ainda mais influentes e poderosos, pois já nem são tanto assim e nem poderão ser mais. Mas, talvez, simplesmente para desabafar. Quem não precisa? Quem sabe se encontraram para admitir, um para o outro, sua impotência diante de um mundo que anda caminhando cada vez mais com suas próprias pernas? E ainda que cada vez menor, pois mais e mais embaralhado nos fios da rede global, um mundo mais livre para inventar novas tramas.

Não há mesmo nada de muito grandioso no encontro de dois homens solitários no poder. Dois homens e seus títulos, influentes e poderosos, mas já nem tanto assim. Do alto de suas torres olham o mundo e confirmam: está desassossegado. Se olham e admitem, não sabem mais como acalmá-lo. Pois nem o mundo quer mais se acalmar. Se agita e se arvora atrás de novas saídas. Não quer mais andar sob a mira de um fuzil, mas também não quer deuses para apontar caminhos. Esse mundo, virado de ponta a cabeça, quer andar sozinho. Abandonado a sua própria sorte. Por isso mesmo, talvez, bush e Bento XVI precisem um do outro. Não são as melhores pessoas para se aconselharem, mas na falta de companhias, um ombro se ajeita bem no outro. Que fiquem em paz.

“Estamos diante de um novo encantamento do mundo, no
qual o discurso e a retórica são o princípio e o fim. Esse
imperativo e essa onipresença da informação são
insidiosos, já que a informação atual tem dois rostos, um
pelo qual ela busca instruir, e um outro, pelo qual ela
busca convencer. Esse é o trabalho da publicidade”
(Milton Santos)

Inté. (obrigada, Cacá!)

Foto: Minha, do fim de tarde deste sábado, cheio de coisas pra fazer,
mas que preferi não fazer nada. Só observar falsas nuvens no céu.

domingo, junho 08, 2008

Nas nuvens

Trilhas nos céus de Belo Horizonte

Nem tudo é o que parece. Olhem essas nuvens. Não são nuvens. São trilhas de condensação, formadas no rastro de aviões que se deslocam em grande altitude. Gavin Pretor-Pinney, autor do Guia do Observador de Nuvens, considera essas trilhas como nuvens. Ele é bem tolerante. Gavin encontrou até uma finalidade para as trilhas de condensação. Elas podem ajudar na previsão do tempo. Quando essas permanecem no céu e se espalham, isso pode indicar que o ar na região mais alta está úmido e em ascensão, o que acontece na iminência de uma frente de calor.


Num final de tarde, em pleno fevereiro

Nem tudo é o que parece nem o que a gente imagina. Olhem essa outra nuvem. Quando vimos essa formação no céu, pensávamos que estávamos diante de um fenômeno raro e inexplicável. Bobagem. São apenas nuvens nacaradas, só mais bonitas do que todas as demais por serem assim, coloridas. Gavin explica exatamente como elas são formadas, mas não vou aborrecê-los com essa história. O que interessa é que ele confirma que as nacaradas já não são nem tão raras quanto imaginávamos. Estão se tornando cada vez mais comuns, embora isso ele não saiba porque.

E na política também é assim. Nem tudo é o que parece e nem o que a gente imagina. Alguém chegou até a dizer uma vez que a política é como as nuvens, muda a todo instante. Por isso também nos confunde. Não sei se foi o Magalhães Pinto ou se foi o Tancredo Neves, mas tanto um quanto outro poderia ter dito isso e teria dito com conhecimento de causa. Como hoje todos nós podemos repetir essa história e estaremos repetindo com conhecimento de causa. Olhem a nossa situação. A cada meia hora, o mapa da política brasileira se mostra diferente. As alianças partidárias que se formam para as eleições de outubro se configuram cada hora de um jeito diferente. Se desfazem e se refazem a todo instante. Só não sabemos por que. Mudam ao sabor apenas do humor e interesse das cúpulas partidárias e dos gabinetes dos governantes.

A nós eleitores, só nos cabe observar, espantados, as mudanças nesse mapa, assim como observamos as nuvens que sobrevoam os céus da cidade. E são tantas as conformações de siglas possíveis nesse cenário, que é difícil conceber um espectro ideológico tão variado quanto, para dar sustentação a todas essas negociações. Por isso desconfio que, como as nuvens, muitas dessas alianças não são o que parecem e nem o que imaginamos ser. Mas vai saber o que serão. Será que um dia saberemos?

Uma semana antenada a todos.
Fotos: São minhas, nem pensem. Estão nos arquivos do Observatório de Nuvens

quarta-feira, junho 04, 2008

Do alto de um muro bem alto

Benedito Valadares, à direita de Juscelino


Reza a lenda que o movimento separatista do Triângulo Mineiro foi definitivamente desacreditado em 1934, quando era governador de Minas Benedito Valadares. Diante da pressão crescente dos prefeitos da região e em meio a manifestações que reuniam mais de 5 mil pessoas na praça da pequena Uberaba, o governador enviou, por meio de um amigo, um recado curto e grosso aos insurgentes:

- Não seja por isso. Diga a eles que Minas adere!

Estou desconfiada que Evo Morales não terá outra saída. Mais cedo ou mais tarde, será forçado a repetir o mesmo gesto de Benedito Valadares e, antes que a Bolívia se dissolva num mar de intrigas, anunciará sua adesão ao movimento separatista dos governadores de oposição. Liderando as regiões mais ricas do país, esses governadores obtiveram vitórias importantes nos referendos realizados em Santa Cruz, Beni e Pando e estão conquistando o apoio popular à opção pela autonomia. Evo tem minimizado esses resultados, alegando que as abstenções são muito altas também. E é verdade, mas não anula o resultado positivo dos referendos. Por isso fico pensando que Evo não terá como escapar, a não ser aderindo ao movimento.

Hillary, por exemplo, já pensa nessa possibilidade. A história é outra, mas a situação é a mesma. Ou não?

E, guardadas as devidas proporções, até nós corremos o risco de ter de assistir a mais uma versão dessa lenda. Se não ficar esperto, o PT vai acabar atropelado em plena Praça Sete. Antes de ter de se render aos fatos, melhor seria aderir a eles, como fez Benedito Valadares. Até mesmo sem conhecer as entranhas dessa história, pois essas são inalcansáveis e só compreensíveis no contexto da política mineira. Eu, particularmente, não sou contra nem a favor, muito antes pelo contrário, mas reconheço: a proposta de se formar uma aliança entre PT e PSDB para disputar as eleições de outubro próximo já é fato consumado em Belo Horizonte. As letras poderão até mudar de lugar, mas a essência da proposta não mudará e nem seus personagens. Só um acidente de percurso, da ordem dos furacões e terremotos, poderá desestabilizar essa dobradinha. O risco sempre existe, pois política é como nuvens e o humor dos eleitores muda sem aviso prévio, mas os astros, parece, vão torcer a favor.
Lula e FHC, nos velhos tempos

Historicamente, os dois partidos têm uma trajetória que muito mais os aproxima do que distancia, haja vista os governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula. A própria biografia de seus quadros reforça essa leitura. Apesar das diferenças, FHC, Lula, Serra e assim por diante são muito mais dessemelhantes do que adversários. Tomaram caminhos diferentes, fizeram escolhas que os distanciaram , mas nada que a história não possa juntar de novo. E visto desta maneira, parece mais inverossímil as alianças do PT com o PMDB e outros Ps do que com o PSDB. E, da mesma forma, do PSDB com o DEM, com o PMDB de Quércia e outras variações em torno do mesmo tema. A proposta de Belo Horizonte não é, portanto, uma proposta de todo estapafúrdia, como querem fazer parecer.

Fora tudo isso, resta ainda e sempre uma terceira via, radical, pra direita ou pra esquerda, ao gosto do freguês. Como não estou com pressa, vou fazer como Benedito, esperar pra ver como é que fica.

Uma semana olhando o mundo de cima de um muro bem alto, mais alto que o mais alto de todos os muros do mundo
Inté
Fotos: pescadas na internet. Os links, acredito, estão nas fotos.