domingo, abril 27, 2008

Declaração de voto

Estou retirando o meu voto de apoio a Hillary Clinton e, por hora, nem penso em transferi-lo para ninguém mais. Vou continuar acompanhando as eleições americanas com grande desinteresse, mas ainda vou, por vício ou por saber que, mesmo perdendo posições no tabuleiro da política e da economia mundial, os Estados Unidos continuará sendo, por um bom tempo, uma liderança importante nos salões internacionais.

Não cheguei a me decepcionar com Hillary. Nunca esperei dela mais do que ela fosse capaz. Nem passou pela minha cabeça, por exemplo, que Hillary fosse além de conversas limitadas com o presidente iraniano, Ahmadinejad, para resolver o impasse entre os dois países. Já sabia que Obama seria mais ousado e McCain ficaria em cima do muro. Alguém ainda acredita, em sã consciência, que em plena campanha eleitoral os três candidatos fariam um debate sério e profundo sobre essa questão? Bobos somos nós.

Também não me assustei quando ela afirmou categoricamente que destruirá o Irã se Mahmoud e sua turma vier a atacar Israel, durante um possível governo sob sua liderança. O que mais esperavam que ela dissesse? Nem sei de onde saiu essa conversa, mas tem um tom de provocação quase inquestionável. Ou não. Sabemos que os americanos são fissurados em temas belicosos. Convivem bem com isso. E Hillary deu a resposta que todos esperavam ou gostariam de ouvir. Não é o tema que mais me agrada, pelo contrário, odeio, mas sei relevar meus sentimentos, para tentar entender uma dada situação qualquer.

Então não foi por isso e nem por conta de nenhuma outra discussão mais relevante entre Hillary e Obama ou entre a senadora e McCain que decidi retirar dela o meu voto de apoio. Tomei essa decisão porque estou ficando cismada que nem um dos nomes que estão postos para essa disputa tem demonstrado criatividade suficiente para propor um programa de tipo novo para os Estados Unidos. Estão repetindo as mesmas respostas prontas que qualquer candidato mais chifrim seria capaz de repetir. Nem Hillary nem Obama nem McCain conseguiram, até agora, construir um discurso de campanha inovador e nem um programa mais inventivo para abordar os velhos problemas da sociedade americana. Não estão conseguindo mudar o enredo da história daquele país e, por isso, não é difícil imaginar o final desse espetáculo. Já caímos na mesmice.

Estou também me desinteressando desta eleição porque, além de tudo, os três candidatos que estão no páreo não conseguem, sequer, ter uma atitude nova em relação ao eleitorado. Tratam a política como se fosse um bem a ser adquirido no supermercado de celebridades e transformaram-se, eles mesmos, em produtos perecíveis que precisam ser adquiridos rapidamente e imediatamente consumidos, de preferência no calor da disputa, pois, no dia seguinte, claro, todos já os terão esquecido. Assim, transformaram o cidadão americano em meros consumidores da política. E não é de hoje, mas por isso mesmo me aborrece. Pensei que poderiam fazer diferente. Isso eu pensei.

Agora, tem uma coisa. Sinceramente, não sei se conseguirão estender por muito tempo seus prazos de validade. Eu, pessoalmente, já cansei de todos eles. O eleitor americano, provavelmente, ainda vai suportá-los por mais um tempo, mas cismo outra vez que ele também poderá perder a paciência antes do prazo final. Veremos. Ou talvez, quem sabe, o eleitor americano conseguirá se articular de tal forma que será capaz de dar um novo rumo a essas eleições, surpreendendo os próprios candidatos? Sabe-se lá. Melhor aguardar mesmo.

Outra coisa. Nós, no Brasil, não costumamos aprender com a história. Repetiremos um mesmo erro zilhões de vezes, se tivermos oportunidade. Às vezes, no entanto, surpreendemos e espero que estejamos num desses momentos. Nossos partidos políticos, PSDB e PT, especialmente, deveriam se mirar nesse exemplo americano, para se preparar para as eleições de outubro próximo e para as próximas que virão. A redução do debate político à mera disputa de nomes ou posições no tabuleiro eleitoral não passa desapercebido ao eleitor. O excesso de esperteza traduzida em jogadas cada vez mais antecipadas podem, da mesma forma, cansar o eleitor e afastá-lo para mais longe ainda da política do que já estão. E a excessiva exposição, nos meios de comunicação, dos candidatáveis para essa e para as próximas eleições de 2010, acabará por implodi-los antes mesmo que venham a ser. Espero, portanto, que não fiquem se achando demais, como estão, pois acabarão se perdendo no meio da travessia antes mesmo que a caminhada se inicie. E, pior que perdidos, entrarão para história muito mal acompanhados.

Respondi Márcio?

Uma semana de profunda reflexão para todos.

Até de repente, quando for possível.
Ilusração: Norman Rockwell

quarta-feira, abril 23, 2008

7.5 de preocupação na escala richter

Meninas, acho que deus desistiu mesmo da gente. Da primeira vez, achei que tivesse sido só uma distração. Depois ouvi mais uma vez, mais outra e agora de novo: a terra tremeu em São Paulo, Rio de Janeiro e já nem sei mais onde não tremeu. Sinceramente, não estávamos preparadas para isso, estávamos? Crescemos num país tropical, abençoado por deus e bonito por natureza, lembram?

Claro que não levávamos muito a sério essa crendice, pois víamos com nossos olhos outros milhões de problemas esparramados para tudo quanto era canto do país. Mas lá no fundo da alma, lá bem no fundo mesmo, agradecíamos a deus, todas as manhãs, por não termos de enfrentar, além desses problemas, o mau humor da natureza, com seus vulcões cuspindo fogo, furacões varrendo tudo que viam pela frente, terremotos virando o mundo de cabeça pra baixo e outros destemperos mais.

E agora? Será que ele desistiu de nos poupar? Se desistiu, o que será mais que virá, além de ciclones nos mares do Sul, terremotos e trombas d'água? Ou será que, como antes, deus não tem nada com isso. Pensando bem, acho que ele está mesmo fora dessa. Os especialistas que se virem para explicar o que está acontecendo. Esses senhores, aliás, poderiam deixar de por panos quentes, de dizer que foi um tremorzinho de nada, que essa história de o Brasil ser uma terra abençoada é mito e coisa de ignorante e tal e usar as mesmas letras para desvendar esse mistério, não é não? Tá certo que esse tom ameno é mais reconfortante, mas desconfio que até eles já estão ficando cismados com essa série de coincidências.

Olhem só, reconheço, e até anuncio, que não entendo nada de placas tectônicas, mas vi num mapa captado no google que a fronteira leste da placa sul-americana, provavelmente a responsável pelos tremores ocorridos na costa sul brasileira, faz limite divergente com a placa africana, ou seja, as duas se movem em direções e sentidos opostos. Quando uma placa se move para cá, a outra vai pra lá, entenderam? Se é assim, por que a terra tremeu só aqui, perto de nós, e não tremeu do outro lado também? É uma dúvida que me ocorreu.

Mas tenho outras mais. Fico matutando que esse tremor pode não ter sido provocado pelos movimentos naturais das placas tectônicas, movimentos que ocorrem a milhares e bilhares de anos. Tanto que já fomos África um dia, só desgarramos. Vocês sabem disso. Mas esses tremores agora são diferentes. Tem um tempo que já penso nesse risco que vínhamos correndo.

Pensem bem, meninas. Imaginem uma torta em camadas: biscoito champagne, creme amarelo, gelatina de framboesa, salada de frutas e chantili ou suspiro. Não se preocupem com os ingredientes, foi só para ilustrar, jamais faria toda essa mistura. Mas imaginem essa torta sendo servida e um digníssimo qualquer aceitando. Só que o espertinho quer apenas o creminho amarelo. Você vai lá, cutuca de um lado, cutuca de outro e, com jeito, tira o creme amarelo para o digníssimo. O que vai acontecer com a torta? Vai despencar. Ou não vai?

E o que é que a Petrobrás vem fazendo, cada vez com maior afinco, na Bacia de Santos, naquela área toda que se estende do Sul do Espírito Santo e desce até o Sul do país? Ela está tirando o creminho amarelo da torta, está criando um vazio de nada entre as diversas camadas da crosta terrestre. Ou não está? E se está, o que podemos esperar que vai acontecer? Em algum momento, a camada superior vai despencar, como na torta, e assim uma a uma todas as que estiverem acima do vazio deixado pela Petrobrás, até chegar aquela onde tocamos com nossos pés. Concordam?

Pois é. Alguns vão dizer que sabiam que isso não daria certo de jeito nenhum. Outros, mais otimistas, vão garantir que agora é que tudo vai começar a dar certo. É o progresso chegando, gente! São as passadas gigantes do desenvolvimento, fazendo a terra toda tremer. Ou não são?

Ah, nem! Ai ai, viu?

Uma restinho de semana só no balanço da rede, debaixo de uma mangueira, no meio do quintal ou na varandinha 3 x 3, no sétimo andar de um prédio, no centro da cidade. Mas no balanço da rede.

terça-feira, abril 22, 2008

Uma declaração possível

Muita calma nessa hora. Papéis não têm asas nem pernas. Não podem sair por aí se escondendo, escapando por frestas de janela e desaparecendo no meio do nada. Mesmo que a gente se esqueça de onde exatamente os colocamos, mais cedo ou mais tarde, os encontraremos lá, onde já não sabíamos mais que estavam, mas de onde nunca saíram. As vezes aparecem nos lugares mais improváveis, onde jamais os guardaríamos. Mas é que, de quando em vez, acontece também de não guardarmos os papéis na hora em que os recebemos. Abrimos o livro que está nas nossas mãos e os depositamos ali, ingenuamente, acreditando que, depois, lembraremos de arquivá-los numa pasta. Doce ilusão.

O pior é quando inventamos lugares alternativos. Um envelope, dentro de uma pasta qualquer, junto com outros papéis, de outras espécies e de diferentes ordens, no fundo de uma gaveta, debaixo de uma porção de outras coisinhas que vamos juntando ao longo do ano, como uma rolha de champagne, uma canetinha roxa, uma miniatura da igrejinha da Pampulha, um livreto de propaganda da Elvira Matilde, álbuns de fotos já bem antigas, estojos de lata de cores variadas e mais badulaques e badulaques. Aí vira um filme de horror.

Se está dentro de um livro, temos uma chance de sairmos vitoriosos. Basta nos lembrarmos das obras que lemos durante aquele ano e folheá-las rapidamente. Fatalmente esses livros estarão à vista, na fileira da frente da estante, encaixados sobre os outros livros ou na mesinha de cabeceira ao lado da nossa cama. Aí é só escolher um e começar. Num instante, o papel que procuramos salta da história e cai nas nossas mãos. Mas escondido sobre os livros na estante, no meio de recortes de jornais, de textos impressos que guardamos para ler um dia, entre bloquinhos com anotações de palestras que jamais conseguiremos recuperar, a perspectiva é quase desanimadora. É mais uma tarefa insana.

Por isso, muita calma nessa hora. Muita calma e foco. É fundamental não perdermos o objetivo de nossas buscas. Ao saírmos procurando os papéis que estão em lugar incerto, porém seguros, temos uma tendência forte de querer fazer aquela faxina que adiamos desde o final do ano anterior. Abraçamos um monte de papéis velhos e empoeirados e jogamos em cima da mesa, dispostos a jogar tudo no lixo. Mas o primeiro recorte de jornal já é um risco alto de desvio. Ler a primeira linha da matéria é a certeza de que iniciaremos uma longa viagem. As anotações de palestras são piores ainda. São um amontoado de palavras soltas, pedaços de frases, rabiscos que têm o dom de acionar nossas lembranças de ouvido. Aí ficamos tentados a reconstituir aquelas falas e podemos ficar até a madrugada inteira com aquele caderninho na mão, o olhar perdido e a cabeça a léguas de distância do nosso objetivo. Um perigo. Não façam isso.

Não percam o foco. Concentrem-se nos papéis que procuram e fechem os olhos para todas as demais tentações. É claro que tudo isso poderia ser evitado, se a pasta que separamos no início do ano para arquivar os papéis do imposto de renda funcionasse. Deveria, porque esse é um procedimento muito simples, mas funciona só mais ou menos e, portanto, não funciona. Então, nessa hora, muita calma e sensatez. O que está a mão, é o que de fato é possível declarar. O que não foi encontrado, perdido está. É melhor esquecer, confiar de que os descontos que não faremos por conta da nossa estupidez irão gerar uma sobra de caixa para o Estado, que irá aplicá-la em programas de grande relevância social, beneficiando toda a população. É um jogo do contente, mas, paciência. Agora mãos a obra que o tempo urge.

Uma semana cheia de doces e alegres declarações para todos.

Inté.

quarta-feira, abril 16, 2008

A sobra das sobras


Os gauleses é que tinham razão. O risco que mais nos ameaça é mesmo do céu despencar sobre nossas cabeças. Vocês viram, meninas? A Agência Espacial Européia (ESA) mapeou, com imagens geradas no computador, a extensão do problema que irá nos atormentar daqui pra frente. A conclusão é dramática: já estamos totalmente cercados pelo lixo espacial. Os cientistas calculam que existam mais de 12 mil objetos flutuando na órbita da terra que ainda não foram identificados, a maioria composta de satélites mortos, pedaços de foguetes e materiais sobre os quais não se tem nenhum controle.

Com base nesse trabalho e em dados da NASA, a União dos Cientistas Responsáveis (UCR) estima que o número de unidades de lixo espacial seja até bem maior, de aproximadamente 150 milhões de objetos com menos de um centímetro de diâmetro que estão por aí, rodando sobre nossas cabeças. Por isso meninas, não se iludam mais. Quando olharem para cima e verem um objeto encandecente cortando o céu, não percam tempo fazendo pedidos. A chance de ser uma estrela cadente é cada vez menor. O mais provável mesmo é que seja uma placa enferrujada de um foguete ou coisa parecida.

E o que me preocupa não é só a ameaça do lixo espacial. Temo, claro, que alguma parte desses resíduos sólidos, herança da Guerra nas Estrelas e da corrida espacial que ainda hoje fascina o homem, caia sobre minha cabeça. Mas temo, da mesma forma, terminar os nossos dias nesse planeta soterrada pelo lixo que produzimos irresponsavelmente todos os dias, sem nos darmos conta de que está cada vez mais difícil encontrar um buraco para enterrar essa joça.

Só para se ter uma idéia da dimensão deste risco, um estudo realizado há alguns anos pelo Ministério da Saúde revela que o Brasil produz uma montanha de mais de 80 mil toneladas de lixo por dia, das quais somente a metade é coletada. Da parte que é coletada, cerca de 34% vai para os lixões a céu aberto ou aterros sanitários e 66% termina em beiras de rios e áreas alagáveis levada pelas águas de chuva.

O economista Marçal Rogério Rizzo, em artigo publicado num jornal de Araçatuba, calcula que no mundo se descarta 1 milhão de sacos plásticos por minuto. Essa deve ser a contribuição da turma que não resiste a um supermercado. Ele conta também que cada brasileiro descarta, em média, mais de 1 quilo de lixo por dia. Essa é a nossa contribuição, pois desconfio que, no meio rural, essa média deve ser quase irrisória.

Rizzo observa ainda que se considerarmos somente o lixo que a cidade de São Paulo deposita nos aterros em uma semana, essa escória do nosso sofisticado consumo é suficiente para encher um Estádio do Maracanã no Rio de Janeiro, o maior estádio de futebol do mundo. O Aterro Bandeirantes, o maior aterro em área da América Latina, localizado em São Paulo mesmo, recebe 5 mil toneladas de lixo por dia e isso é só a metade do lixo que a cidade produz. Sacaram o nosso destino?

Segundo o estudo do Ministério da Saúde que citei acima, a falta de soluções adequadas para destinação e tratamento do lixo que produzimos é responsável, entre inúmeros transtornos, por boa parte das doenças da população brasileira. Calcula-se que 65% das internações em hospitais populares decorrem de doenças transmissíveis pela manipulação ou ingestão de águas pluviais e fluviais, contaminadas pelo lixo.

E não fiquem pensando que em Belo Horizonte, nossa ilha de paz, nossa casa, doce casa, é diferente, porque não é. Nós produzimos algo em torno de 3 mil e 800 toneladas por dia de lixo. Tem de tudo que vocês possam imaginar: papel, embalagem de iogurte, folhetos de propaganda, pedaços de brinquedos, restos de comida, garrafas pet e assim por diante. E esse monte de traquitana é depositado no aterro sanitário, que fica às margens da BR – 040. Até que somos modernos, mas não se alegrem muito. Esse aterro, é verdade meninas, está com sua capacidade já esgotada.

A Prefeitura está tentando resolver esse problema tem tempos, mas ainda não chegou a uma solução final. Belo Horizonte não tem mais nenhuma área disponível para abrigar um novo aterro e nenhum dos nossos municípios vizinhos querem ter a honra de abrigá-lo. E eles têm lá suas razões, não é não? Cada um que cuide do seu lixo, ora essa!

Por isso me preocupo. Minha vizinha, por exemplo, já não está mais dando conta do seu lixo. Todo dia de manhã, inclusive aos domingos, que não tem coleta de lixo, a danada desce a rua, sorrateiramente, e deposita parte da sua produção na lixeira que plantamos em frente a nossa casa. Vê se pode? Quando me animar, vou ficar de tocaia e flagrar essa folgada no ato. Ainda não sei o que vou dizer a ela, mas quero muito ouvir o que ela terá para me dizer.

E aí, quando nós também já não dermos mais conta do nosso lixo, imagino que iremos amontoá-lo pelos cantos da rua, formando imensas montanhas de restos da nossa cultura consumista, até que chegará um dia que esse mundo de supérfluos e descartáveis irá desabar sobre nossas cabeças! Deus nos perdoe e nos livre disso, hem?

Um resto de semana de consumo bem comportado e combate sistemático às embalagens.

Inté.

Foto: Da ESA/France Presse, captada no Google

terça-feira, abril 15, 2008

Virando o disco

Meus meninos estão mudando. Acho que estão crescendo. Agora brigam por um espaço no sofá só para assistir os jornais da noite e, quando entramos no carro, nos horários de ida e volta à escola, já toleram ouvir o noticiário em vez das enfadonhas, aborrecidas e repetitivas seqüências musicais das infinitas fms jovens que se multiplicam nas ondas do rádio. Estão mudando por livre e espontânea pressão da escola mas também pela curiosidade insaciável, própria da idade em que estão.

Não vou dizer que se impressionaram com a versão midiática da realidade, porque não seria verdade, mas estão espantados com a estreiteza de mundo que cabe dentro do noticiário. É muito pouco de quase nada e esse pouco se repete o dia inteiro, às vezes dias seguidos, semanas e até meses, sem que nada, sem que nenhuma novidade relevante tenha surgido nesse meio tempo para justificar a permanência de tal fato no noticiário.

Vou dar um exemplo: o caso Izabela Nardoni, que caiu do sexto andar de um prédio, no último dia 29 de março, e morreu. Não vou entrar no mérito do conteúdo dessa notícia, que já rendeu 18 dias de noticiário vazio. Também não vou questionar o fato deste acontecimento, um drama familiar, ter ganhado as páginas de jornais. Sabemos que a violência dentro de casa é muito mais comum do que deveria ser e precisa mesmo estar incluída na agenda pública para ser discutida por todos nós.

Mas aí é que está. Os relatos da trágica história de Izabela Nardoni não conseguem, nem a pau, escapar do particular para o coletivo e tornam-se meros reality shows, como já disse uma amiga. São relatos que não contribuem em nada para a nossa melhor compreensão da realidade. Mas isso, parece, já não interessa mais. A mídia repete a mesma história todos os dias, exaustivamente, sem nenhum elemento novo, além de meras insinuações e suposições, expondo pessoas, inocentes ou culpadas, não importa, ao nosso julgamento absolutamente desinformado e precário.

Meus meninos estão entendendo que é essa condição que produz a banalização da notícia. Ou será banalização da vida? Seja lá o que for, as conseqüências dessa distorção do noticiário são complicadas. Enquanto repete a mesma história, a mídia tem, por exemplo, uma boa desculpa para não incluir outras notícias, até de grande relevância, mas que, para a mídia, é melhor que fiquem de fora da agenda pública.

Enquanto repete trinta e seis mil vezes a mesma notícia, sem nenhuma reflexão que nos permita melhorar o nosso entendimento da realidade, a mídia nos tira a capacidade de nos indignarmos com o horror ou gravidade que essas histórias contém. Tudo torna-se normal ou inevitável, sei lá. Nada mais nos mobiliza. E amanhã, se um sujeito qualquer, por uma razão ou outra, perder a cabeça, não se sentirá inibido, por exemplo, em defenestrar o filho mais próximo para aliviar o seu sofrimento. Isso acontece - ele poderá pensar e, sem se deter mais, partirá imediatamente para a ação.

Enquanto repete outras trinta e seis mil vezes a mesma história, a mídia tenta nos convencer que esse fragmento da realidade, essa parte inacabada de uma história, é a história toda, é o todo da realidade e não sua versão construída e manipulada. E se nossa história não cabe nessa versão é porque também não cabemos nesse mundo e se não cabemos nesse mundo, devemos nos recolher a nossa insignificância e nos voltarmos apenas para o nosso mundinho particular e ali ficarmos olhando a vida pela janela, sem nos metermos em nenhuma grande confusão. Não é assim que nos querem? Meros consumidores de informação e eternamente incapazes de transformá-las em conhecimento? Esses meninos estão ficando muito espertos. Acho que a mídia não vai dar conta deles. Tomara.

Uma semana com o controle na mão, para zapear em outros mundos.

Inté.

sábado, abril 05, 2008

O que será?


Tem alguma coisa no meio do caminho. Tem uma pedra ou tem um muro? Tem uma serra ou um portal para o universo paralelo da imaginação? Tem uma cidade de concreto ou tem um bloco de ferro plantado no meio do gramado? Tem um obstáculo ou um caminho para mundos desconhecidos? É arte ou partes da cidade? É silêncio ou grito?

Fico pensando que pode ser um pouco de tudo.
Hoje cedo, fui andar na Praça da Liberdade e trombei com as obras de Amílcar de Castro. A arte é sempre um problema. Não para o artista, claro, mas para quem olha. Para quem passa e pára e aprecia. Gosto ou não gosto? Me diz alguma coisa ou não me diz nada? Os críticos, entendidos, gostam ou não gostam? O que eles, os críticos, sabem que não sei? Por que gostam e eu não gosto? Ou porque não gostam e eu gosto? O que o artista está querendo me dizer? Ou o que estava angustiando o artista que ele quis por pra fora, porque não aguentava mais?
Olhar uma obra de arte é sempre uma experiência absurdamente cansativa para a mim, apesar de sempre prazerosa. Às vezes, raramente, é até divertida, porque me permite um instante lúdico, me remete à infância e me traz boas lembranças, quase sempre. Já tive esse momento algumas vezes. Mas, no mais, me exige mesmo é um esforço sofrido. Fico olhando e tentando fazer conexões. Tento ligar o que estou vendo com tudo o que já vi, que já li, que já senti. Tento reter tudo na minha mente, criando uma rede de significados. Tento, ferrenhamente, descobrir como nossas histórias se cruzam. Tendo, de todo jeito, dar à obra um sentido particular que a inclua na minha vida de forma definitiva. E, muitas vezes, é um esforço inútil. Outras, não.

As obras de Amílcar de Castro, da mesma forma, me exigem um grande esforço. Portanto, não passei impune por elas, na minha caminhada pela praça. Mas, desta vez, dispendi um esforço alegre. Como hoje é sábado e amanhã é domingo e, neste final de semana, não tenho nada para fazer, nada que seja obrigado, nada que tem de e ponto final, me deixei só ir andando e olhando.
As formas geométricamente perfeitas, traçando relevos absurdamente retilíneos, me permitem um novo olhar sobre o horizonte da cidade. As cores, do ferro ou da terra, me advertem. Não nasci na beira do mar nem nasci no meio da floresta. Nasci das minas, ainda que gerais. Como todos que aqui estamos, tenho minério no sangue. Minha alma é composta de ferro e vento. Meus olhos miram para o dentro e para o fundo das minas. E, do alto das montanhas, olha para cima e para o longe da cidade. Para as gerais. Passado e futuro.
O vazio, das formas de Amilcar de Castro, não é obsessão, como em Weissmann , é transparência, é um fresta para além das minas. É onde as gerais se manifesta. E é mais. É a transcendência do olhar que mira o alto, de cima das montanhas. É a possibilidade da descoberta de novos universos.
Não sei se essa era a intenção do artista, mas esses foram os sentidos que dei a suas obras, sozinha ou a partir de tudo que já vi, já li ou já senti. E seja como for, como disse uma vez o próprio Amilcar de Castro e que, acho, vale para ele e para nós que olhamos suas obras, toda experiência em arte é uma experimentar-se, é a experiência de si mesmo.
As esculturas de Amílcar de Castro também me ajudam a criar links. Olhei para elas e não tive como não me lembrar de Weissmann e foi uma boa lembrança.
Um fim de semana repleto de links com boas lembranças para todos.
Inté
Fotos: Minhas, de uma caminhada na praça
PS: Amanhã tem apresentação da Big Band na Praça JK e, para quem quiser conhecer mais algumas obras de Amílcar de Castro, tem uma exposição na Casa Fiat de Cultura, no Belvedere.

quinta-feira, abril 03, 2008

Reaload


Essa vida é um trem mesmo. Toda hora tem um subindo, outro descendo. Quem está de dentro pode fazer muito pouco, além de olhar o movimento nas estações por onde passa. Quem está de fora, entrando ou saindo, desconfio que também não possa fazer grandes coisas, além de seguir o seu caminho.
Hoje alguém desceu do trem. Não pude nem olhar. Fiquei enrolada nos compromissos do dia, um atrás do outro, e quando dei por tudo, o trem já estava andando de novo. Mas enquanto tocava a vida, ia me lembrando do João, que me fazia lembrar da Heloísa, que me lembrava o Marco e o Tilden e o Edson, que me lembravam a Ângela, a Mércia e depois o Jura e depois o Cristovão, o Ronaldo que, não sei por que, me lembrava a Beth. E voltava no João e, na seqüência, cuja lógica desconheço, me lembrava do Ricardo e da Mana e do Agnaldo e do Valdo e assim por diante, até voltar no João outra vez. A tarde inteira rodei nessa ciranda, enquanto tricotava as tarefas do dia.
O trem da minha vida deu uma ré radical. Fui voltando, voltando e passando uma por uma por todas as estações que já havia deixado pra trás. Do último dia em que conversamos pelo telefone. E foi a um bom tempo atrás. Da última vez que estivemos juntos na redação. Nunca pensei que daria conta de lembrar disso, de tanto tempo que faz. Do último dia que o vi, de longe, com Heloísa e Rodriguinho, passeando na praça. Isso nem se fala. Rodriguinho já é homem. Mas lembrei de tudo. Até voltar no penúltimo sábado, quando tive a última notícia do João.
Pelo menos agora ele está livre. Pode voar como os passarinhos. Que era só isso que ele mais queria na vida. Bate as asas, João! E olhe por nós!

Uma sexta em flashback para todos. Recordar também é viver.
Inté
Foto: Minha, de um domingo no sítio