terça-feira, novembro 29, 2005

Sir May vai criar um clima

Eu implico, mas eu gosto dos ingleses. Mais do que dos americanos. Os ingleses são imprevisíveis. Às vezes, incoerentes. E quem não é? Mas eles não são inconsequentes e isso faz muita diferença. Hoje li no jornais que o Lorde May de Oxford, presidente da Royal Society, principal sociedade científica européia, vai chamar bush na responsa.

Sir May está participando da Décima Primeira Conferência das Partes da Convenção do Clima da ONU, que começou ontem em Montréal, no Canadá. O encontro vai reunir cerca de 10 mil representantes de 189 países até o dia 9 de dezembro. Na pauta do encontro, claro, o famigerado Protocolo de Kyoto, aquele que bush não assina de jeito nenhum e é o único acordo internacinoal existente para reduzir as emissões de gases estufa, como o dióxido de carbono. Na pauta também a proposta do uso dos recursos investidos na manutenção de florestas para geração de créditos de carbono negociáveis internacionalmente. O mercado do carbono, lembram-se?

Bom, mas aí, Sir May vai aproveitar o encontro para fazer o seu discurso de despedida como presidente da Royal Society e vai dizer que bush está pisando na bola por não honrar compromissos feitos por seu pai em 1992 ao assinar a Convenção do Clima da ONU. Vai alertar bush, usando a fina ironia dos ingleses, dizendo que o aquecimento global pode ser comparado na sua escala destrutiva aos efeitos das armas de destruição em massa. E vai dar um exemplo: o furacão Katrina! Os americanos são especialistas em caçar armas de destruição em massa no mundo inteiro, né? Então...

Bom, vai dizer ainda que bush tem omitido sistematicamente, em seus pronunciamentos, o tema da mudança climática e do aquecimento global e que Tony Barbie tem até tentado convencê-lo de que essas questões são um problema sério que o mundo precisa enfrentar. bush tem feito de bobo e deixado a conversa de Tony entrar por um ouvido e sair pelo outro, sem nem registrá-la nos seus arquivos temporários. Olhem só! Tony Barbie tendo um sonho lúcido e tentando convencer seu amigo a entrar na história! Isso não é curioso? Só os ingleses mesmo, hehehehe.

Bom, mas temos até o dia 9 de dezembro para aguardar a decisão do jeca do bush: se vai ou não assinar o bendito Protocolo. Quem sabe se Sir May terá mais sucesso que Tony?

Tô voando por aí.

Uma tarde cinzenta, mas agradável, para todos

Obscuro aliciante

Ai ai, viu. Acho que em vez de ficar 38,6% mais pobre, fiquei foi 38,6% mais burra. Olhem só, no dia 25 de outubro passado, um dia depois do referendo das armas, o presidente da frente parlamentar contrária à proibição da venda de armas, o deputado Alberto Fraga (PFL-DF), deu uma entrevista à Folha de São Paulo (página C4), falando sobre os custos da campanha.

Ele disse, naquela época, que a frente acumulara uma dívida de R$ 900 mil. E, assim como quem não quer nada, falou que se não conseguisse outros patrocinadores, recorreria às indústrias de armamento Taurus e Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) para quitar o débito. “Eu não tenho como pagar isso não!” – foi o que ele afirmou à repórter Fabiane Leite.

O que vocês entenderam disso? Eu entendi que a campanha do “Não” foi financiada por um grupo de patrocinadores que, até então, não incluia as duas fábricas de armas que atuam no mercado brasileiro. Não é isso? Ou tô ficando boba?

Bom, naquela época ainda, o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), tesoureiro da Frente Parlamentar pela proibição da venda de armas, não quis comentar a entrevista de Fraga, mas deixou escapar que a fala do deputado refletia “um jogo de cartas marcadas”. E mais não disse.

Muito bem. Exatamente um mês depois, no último dia 25 de novembro, também na Folha de São Paulo (página C3), o mesmo deputado Alberto Fraga declarou que a Taurus doou à campanha da frente contrária à proibição da venda de armas um total de R$ 2,828 milhões e a CBC outros R$ 2,754 milhões. Mais R$ 144 mil teriam sido arrecadados de pessoas físicas e outras empresas. Ainda segundo Fraga, em entrevista à repórter Silvana Freitas, as duas indústrias não tinham feito doações ao longo da campanha, mas foram convidadas a cobrir a dívida após a vitória do “Não”.

Ham rãm, tô sabendo. A dívida era de R$ 900 mil e as duas empresas, caridooosas elas, resolveram doar a irrisória quantia de R$ 5,582 milhões, isso depois do jogo terminado. Um valor seis vezes maior que o tamanho do buraco. Ham rãm. Me engana que eu gosto!

Aí a repórter foi atrás do Raul Jungmann e ele falou o que não havia dito daquela outra vez. Que a campanha do “Não” foi toda financiada pela indústria do armamento; que a vitória foi obtida com propaganda enganosa; que foi uma farsa; que foi um estelionato eleitoral claro e patatipatatá.

Pois é, né? O apoio da indústria de armas à campanha do “Não” já era, muito antes da prestação de contas agora apresentada, uma constatação do tipo óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Mas em sendo assim, por que tanta gente se deixou enganar por essa balela repetida à exaustão, de que votar “não”, significaria garantir o direito do cidadão (sic) de comprar armas, se assim bem entendesse? Ham?

A Rutinha é quem dizia. Se é assim que é, amanhã, podem escrever, vamos ter referendo para garantir o direito do maconheiro de plantar maconha. Huahuahua! Mas por quê? Por quê? Por quê? Aí fui pensar com o Roberto Campos, aquele economista, deputado, ministro e assim por diante. Ele defendia que, além do “óbvio ululante”, precisávamos cunhar uma nova expressão: o obscuro aliciante. O que é isso? São aquelas palavras ou expressões atraentes que nos encantam ali, no calor da luta, mas que não dizem absolutamente nada, quando penetramos no “ventre do concreto” das suas letras. São vazias e imprecisas, na sua generalidade, como as palavras de ordem adotadas pela campanha do “Não”: defesa do direito de comprar armas. Como assim, hem?

E durma-se com um barulho desses!

Eu me durmo de qualquer jeito, porque amanhã já é hoje e eu levanto é cedo.

Um abraço impreciso a todos

Da idiota de plantão.

domingo, novembro 27, 2005

No donut for you

Preciso devolver o teclado dum-dum do Maick. Então, como o domingo já está acabando, o Atlético foi rebaixado e amanhã vai ser dureza de aguentar, vou suspender minha trégua com os loucos dos ingleses. Eles não batem bem da cabeça e, talvez por isso mesmo, defendam com todas as letras a política de dar tiro na cabeça em casos de abordagem a suspeitos de terrorismo.

Tudo bem, no Brasil morre-se muito de bala na cabeça também. Fiz uma pesquisa na Folha de São Paulo e encontrei mais de 370 registros de crimes em que a vítima morreu com tiro na cabeça, incluindo policiais, ladrões, publicitários, dentistas, bancários e outros. Brasileiro também anda batendo muito a cabeça né? Mas aí é outra história. Depois penso nela.

Lá em Londres, o caso é diferente. É uma política, uma determinação. Só que, uma semana dessas pra trás, alguns ingleses resolveram questionar essa ordem. Acho que foi por conta da morte de Jean Charles de Menezes. Lembram-se dele? Aquele mineiro que estava em Londres e foi confundido com terrorista. Distraiu e levou, para trazer de souvenir, mais de oito tiros na cabeça. E não foi qualquer tiro não, foi de balas do tipo dum-dum, de uso proibido na guerra pelas convenções internacionais. Sabem porquê? Porque além de matar, essas balas estilhaçam quando em contato com o corpo e não dão à vítima nenhuma chance de sobrevivência. Morreu tá morrido.

Bom, mas aí uma parte dos ingleses começou a questionar essa política. Outra parte achava que não. Que é uma boa tática para enfrentar os suspeitos de terrorismo. Aí veio o Tony Barbie e, num dia de george bucha, não só defendeu a política do tiro na cabeça, como sugeriu que ela deveria ser empregada também em outras ocasiões. E deu exemplo. Se alguém está segurando uma criança de 10 anos com uma faca no pescoço dela e vai começar a cortá-lo, o que fazer? Para ele, o único tiro possível é na cabeça e, nesse caso, é o que tem de ser feito.

Ôw, esses caras, não sei não. Se eles têm uma polícia bem preparada, não precisa de uma política para dizer o que ela deve ou não fazer em cada situação, não é não? Cada caso é um caso, ou não é? Além disso, tem mais uma coisa. Ao mesmo tempo em que discutia essa tática do tiro na cabeça, Tony Barbie baixava uma outra política. A da boa convivência, lembram-se dela também? O inglês que não souber se comportar bem em público vai receber uma notificação, multa e até ordem de prisão. Em vez de tiros, ABOs na cabeça.

Então. O sujeito está lá andando na rua e tem um murrinha na sua frente. O que fazer? Ele não pode simplesmente esbarrar com o ombro no tal carinha e passar na frente não. Ele tem de pedir licença e, se por ventura esbarrar, tem de pedir desculpas também. Palavrinhas mágicas! Mas e aí? Cumquequié que fica? O policial vai lá pedir licença pro tal suspeito ou pro zé mané que está com a faca no pescoço do menino de 10 anos e, só depois, atirar? E depois de disparar um certeiro, vai lá pedir desculpa? Eu, heim? Quem que entende?

E tem mais, esses ingleses não param nunca. Sabem qual é o esporte predileto dos ingleses? Não é futebol, não. Futebol é só desculpa. O que eles gostam mesmo é de fazer binge drinking. Também não sabia o que era isso, mas já sei e vou explicar. Binge drinking é um hábito que eles têm de entornar todas no menor espaço de tempo e depois sair trôpegos pelas ruas já no finalzinho da noite. Eles adquiriram essa mania salutar porque lá a venda de bebida alcoólica é expressamente proibida depois das 23 horas.

Então, se eles trabalham até às 18 horas, 20 para os workholics, eles têm, no máximo, quatro ou cinco horas para beber. Aí já viu, vai todo mundo pro pub - porque lá não tem bar -, a casa fica cheia, o garçon de mal humor e ainda tem aquela dúvida – vou beber o quê? E para beliscar?. Bom, tudo resolvido, já se passou pelo menos uma hora, sobram três ou quatro. Aí vira gincana. É um copo atrás do outro para terminar rapidinho. Huahuahuahua.

Bom, mas depois de toda trapalhada que vem aprontando, o Tony Barbie resolveu limpar sua barra com os ingleses e baixou uma nova lei, em vigor desde a última quinta-feira, flexibilizando o horário de fechamento de locais que vendem bebidas. É um agrado, sacaram. Política de compensação. Não foi uma canetada geral, claro, porque lá não é essa bagunça que vocês estão pensando, né? Quem quiser adotar o novo horário tem de pedir autorização. E aí só 1. 212 pontos de venda obtiveram autorização para ficarem abertos 24 horas e, destes, só 359 são pubs ou clubes.

Hehehe, pode ser que os ingleses aprendam a beber mais devagar, mas ainda vão ter de enfrentar casa cheia ou então vão continuar praticando o esporte nacional: binge drinking.

Valeu Maick. Já passei o secador no teclado. Está novinho de novo.

Sonhos em dose dupla para todos vocês

PS: Eu, como não bebo, vou pensar na prestação de contas das campanhas do referendo das armas. Hehehe, quem financiou mesmo a campanha do Não, aquela vitoriosa, à favor da venda de armas? A resposta é do naipe do óbvio ululante, as fábricas de armas: Taurus e Companhia Brasileira de Cartuchos. Mas tem uma historinha interessante nesse rolo. Depois eu conto. Ah, ia me esquecendo. Vou anotar pra não perder. Tive uma idéia de como baixar os juros no Brasil. Sério. É uma idéia legal. Depois vou explicar.

Ufa, fiquei tonta. Essa dose foi cavalar!

Bye.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Sonhos lúcidos

Pois é, né? Vou tomar só um cafézinho e ir embora de novo. Não resisto. Vou pensar só um pouquinho sobre o pesadelo que tive essa noite. Sonhei que os extra-terrestres vieram visitar a Terra, aqueles mesmos que outro dia apareceram no céu da Alemanha. E sonhei que eles fizeram vôos razantes sobre aquelas plagas e um panorâmico sobre o resto do mundo.

Captaram alguns sons, cheiros, brisas; copiaram algumas estatísticas dos CIs de alguns países e jogaram tudo na CPU da nave-mãe. Processaram, reprocessaram, emitiram um relatório geral, leram, analisaram, olharam um para o outro, com aquele olho esperto do meio da testa, levantaram os ombrinhos miúdos, voltaram a ler o relatório e um perguntou pro outro: entendeu alguma coisa? Hum-hum!, disse o outro. E aí?, perguntou o um. Tô fora. Acho melhor vazar, respondeu o outro. Me too. Vamos nessa, então?, falou o que começou. Demorou, encerrou o outro, concluindo o diálogo e apertando o botão vermelho que fez a nave desaparecer no escuro do céu.

Ficamos sozinhos de novo. E aí começou a ventar, ventar e tudo foi se misturando, as histórias foram se cruzando e tudo virou uma balbúrdia danada. E eu lá no meio da confusão. Huahuahua. Até sei porque tive esse pesadelo. Outro dia, estava fazendo uma leitura em diagonal das notícias da FSP, sobre a posse de Angela Merkel na Chancelaria da Alemanha. Ela virou tipo a primeira ministra do país. A primeira primeira ministra mulher. E, parece, pegou um rabo de foguete. O país está mergulhado num marasmo econômico que já dura mais de uma década. Vai ter de se debruçar sobre um caldeirão de problemas e enfrentar, não a resistência do Parlamento, onde tem a maioria, mas o fogo amigo. Tipo o Lula por aqui. E sabem por quê? Porque fez uma coalizão equivocada. Fez uma retrocoalização, como diria Roberto Campos, uma coalização para o retrocesso. Huahuahauha.

Mas o que me chamou a atenção foram os problemitos que ela terá de encarar. Conhecemos todos eles da nossa cozinha. Vou dar só um exemplo para vocês terem uma noção. Vou copiar um trecho da notícia. Olhem só:

Sem um corte do custo do trabalho, as empresas continuarão sem margem de manobra. Ademais, há regulamentações em excesso e pouca preocupação com investimentos em ciência e em tecnologia, o que, a médio e longo prazos, se traduzirá numa limitação ao crescimento. Enquanto não houver um maciço investimento em tecnologia da informação, a Alemanha continuará a apresentar índices pífios de crescimento econômico.

Não é filme repetido? Fiquei pensando que nós somos é muito distraídos. Até o Katrina passar chutando o balde em Nova Orleans e os meninos de Paris soltarem os cachorros pra cima das autoridades francesas, nós ficávamos iludidos que essa história de pobre, excluído, retrocoalizão era tudo coisa só de país do terceiro mundo, não é mesmo? Mas, parece que não é não. Estamos todos é na mesma canoa furada, perdidos no meio do oceano da globalização. Parece até pesadelo mesmo né?

Mas tem solução pra tudo nessa vida. Pois não tem? Hoje cedo, passando os olhos no jornal, em diagonal mais uma vez, porque estou sem tempo, li outra notícia que me deixou estupefada. Os austríacos (os ingleses estão fazendo escola!) descobriram um método para acabar com os pesadelos! Ói só que pena! Eu gosto de filme de suspense e de pesadelos também, principalmente depois que os filmes acabam e depois que eu acordo e vejo que tudo não passou de um sonho. Mas, agora, pode ser diferente. Os sonhadores viciados em adrenalina poderão, devidamente treinados, recobrar a consciência de sua liberdade (o diacho do livre arbítrio, mais uma vez!) e intervir no sonho, controlando seu pesadelo e alterando-o à sua vontade.

Acho que é mais ou menos assim. Se você está sonhando que está caindo num abismo sem fim, poderá mudar o curso dessa história e sair voando do fundo do poço, com suas lindas asas de anjo. Flanando por outros céus. Claro, se essa for sua vontade. Então, você se tornará um sonhador onipresente e onipotente, no comando do reino da fantasia. Essa experiência é o que os cientistas do Instituto de Pesquisa da Consciência e do Sonho, que funciona acoplado ao Hospital Geral de Viena, estão chamando de sonhos lúcidos. Um sonho em estado de consciência clara.

Daí, já estava atrasada e fui embora trabalhar. Fui ouvindo Careless Love, na voz de Madeleine Peyroux, e pensando. Talvez, os pesquisadores austríacos poderiam adotar uma pedagogia de massa e disseminar essa nova técnica entre todos os mortais. Acho que os sonhos lúcidos nos seriam mais úteis do que a razão alucinada daqueles que hoje estão no comando da nossa nave-mãe. Hehehehe.

Já vou indo porque o cafezinho está esfriando.

Sonhos lúcidos pra todos vocês ou razões alucinadas, como preferirem.

Até mais ver!

PS: Contei o meu sonho para o Olivé e ele me ensinou que, para os índios, a vida é vivida é nos sonhos mesmos. O que chamamos de vida real é que é sonho. Sonho ou pesadelo, vai saber, né?

terça-feira, novembro 22, 2005

Olha o trem!

Estou de passagem. Estou pensando em ritmo the flash sobre a conversa que tivemos ontem com o cientista político Fábio Wanderley. Foi uma conversa super saborosa. Não vou contar, né. Quem quiser saber o que rolou vai ter de esperar e assistir o programa na TV Assembléia. Não tratamos de conjuntura. Foi um depoimento longo sobre a sua vida e que se mistura, claro, em alguns momentos, com a história política do Brasil. Mas fiquei pensando foi na fala do professor sobre a questão da educação no Brasil.

Ele citou um caso muito interessante de um estudo comparativo, realizado por um colega seu, sobre a qualidade da Educação e a sua capacidade de inclusão no Brasil e na África do Sul, ainda sob a vigência do regime do apartheid! Lembram-se? Todos os indicadores adotados eram, invariavelmente, melhores na África do Sul do que no Brasil. Foi chocante, porque de lá para cá, pouca coisa mudou. Abriu-se novas vagas nas escolas, é verdade, mas essa inclusão não tem promovido a melhoria das oportunidades para essas crianças. Foram incluídas nas estatísticas, mas não na vida real. Ou, se quiserem, no mercado.

O professor Fábio Wanderley lamentou tristemente a ausência de políticas educacionais eficazes e consistentes na história recente do país. Continuamos vivendo numa sociedade de castas, como ele disse, num país com cidadãos de primeira e segunda classe. E é muito triste mesmo.

Desde o último domingo venho pensando nisso. Não exatamente na educação básica, mas na educação do terceiro grau. Li na FSP que a China quer ser um país de muitas harvards. Em 2004 investiu US$ 10,4 bilhões no ensino superior e está repatriando seus professores, que hoje atuam nas melhores universidades do mundo. É o dobro do que o Brasil vai investir, em 2005, no ensino superior. Isso se todo o recurso previsto for executado, né?

O programa que a China pretende desenvolver não é um programa de vitrine, para deixar o governo bem na foto. É uma ação de longo prazo, para os próximos 10 anos, visando as gerações futuras. E aí me lembrei dos Bric's (Brasil, Russia, Índia e China), a turma dos emergentes, daqueles que estão melhorando o seu folego para mudar de patamar. O Brasil já está se distanciando da turma, apresentando os menores índices de crescimento do grupo. Se continuarmos sem rumo, como estamos, sem políticas públicas bem definidas, principalmente para a área da Educação, acho que vamos ficar no meio da estrada. Deus me livre, hem?

Tô correndo
Bye

PS: Huahuahua. Antes de começar a me descabelar, acho que vou aderir ao Slow Movement. Semana passada, um dos pais dessa idéia, um britânico, se não me engano, esteve aqui em Belo Horizonte, fazendo palestra. Perdi. Fui muito devagar e, quando cheguei lá, já tinha acabado. Huahuahua. Mas peguei o espírito da coisa e acho que vou aderir. Vou me engajar nesse movimento. Abaixo a correria! Viva a preguiça!

sexta-feira, novembro 18, 2005

Deu roque!



Direto do teclado dum dum que o Maick me emprestou. Mas vou deixar os ingleses na prateleira por mais uns dias. O assunto é bem complexo, preciso de um plus de tempo para pensar e, de agora até o próximo dia 15, estarei atolada de trabalho até o pescoço. Não vai dar nem tempo de ler jornal. Vou deixar a minha conexão com o mundo por conta da CBN, nas mãos do Heródoto e do Sardenberg. Acho que vai dar certo.

Ontem à noite, enquanto ajudava Rafael a resolver problemas de matemática, pensei rápido sobre o tabuleiro de xadrez do planalto. Desde que a veja publicou aquela história do dinheiro de Cuba (será que os cubanos também comem criancinhas? rsrsrs), a oposição acendeu a trempe da frigideira, para fritar o presidente em fogo lento. Na última semana, a gordura ficou tão quente que quase pegou fogo. Não tenho dúvida, a oposição ameaçava o presidente com um belo de um xeque mate. Ponto para oposição. Piim.

Vai daí que chegou a vez do presidente mexer suas peças no tabuleiro. O que ele fez? Fez roque. O rei e a torre mudaram de posição e o presidente escapou, temporariamente, da ameaça do xeque. Mas, a sua política econômica foi pro centro da frigideira. A sua que, na verdade, é da oposição. Não estou nem entrando no mérito do conteúdo da política econômica, se é boa ou não, se é melhor que qual ou se nenhuma e blá blá blá.

O fato é que a política comandada por Palocci não fere os brios da oposição. Pelo contrário, é uma continuidade da política econômica que vem sendo implementada no país nos últimos 10 anos. É o orgulho do papai ferdinando. Tanto que na apresentação do ministro, na Comissão de Assuntos Econômicos, os parlamentares da oposição foram extremamente cuidadosos para argüir Palloci e defenderam com carinho especial o trabalho do ministro. Muito mais que os petistas presentes.

Arthur Virgílio (gente, eu até gosto dele, mas, sinto muito, foi hilário), ele começou gaguejando e terminou engasgado. Não sabia o que dizer. Nessa indecisão, falava pra dentro, de forma bem diferente do seu estilo habitual. De peito aberto. Não tenho dúvida, foi uma jogada perigosa, delicadíssima, xadrez radical mesmo, mas acho que o presidente deu um xeque na oposição. Bom, pelo menos por um tempo ela estará mobilizada na defesa da política de Palloci e deixará Lula de molho no escanteio. Será? Piim...o tabuleiro está com a oposição.

Well, and now? O jogo continua e assim caminha a humanidade...

Vou vendo de longe...
Até de repente!

quinta-feira, novembro 17, 2005

Da arte de copiar

Hoje é hoje. Ia pedir emprestadas as teclas dum dum do computador do Maick para pensar de novo sobre os ingleses. Esses caras não são normais. Mas acontece que a minha temporada english’s friend ainda não terminou. Por isso virei a página.

Além do mais, hoje estou amena. Estou sob baixa pressão, mais inclinada a contemplar do que a contestar. Qualquer pessoa que hoje me perguntar se não é?, vou dizer que é. Sem nem piscar. E nem vou pensar também, vou dar uma de copista, que dá menos trabalho.

E vou copiar um poema do Manoel de Barros que li hoje cedo, nas minhas orações matinais. Prefiro sempre ele, quando a alma está indócil:

Auto-Retrato

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
Não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamentos e palavras namorei noventa moças,
Mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios, um prego que farfalha, um parafuso de veludo etc etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas na boca descampada!


PS: Olhem só se não é. Li na etiqueta de advertência que veio junto comigo quando nasci: Quem vocês pensam que ela é, não é ela. Muito menos quem ela pensa que pode ser, é ela. Para funcionar, tem de juntar tudo isso, dar um bom desconto, principalmente naquilo que ela pensa que pode ser, e acrescentar as circunstâncias. Misturar e adoçar a gosto. Aí pode ser que saia alguma coisa parecida com o que gostariam que ela fosse. Não nos responsabilizamos por defeitos de fábrica. Hehehehe.

Hasta un día, amiiigos!

terça-feira, novembro 15, 2005

Ser ou não ser, eis a questão!

"Tenho faro, não preciso de complexidade"
Boaventura de Sousa Santos, in Escrita INKZ - anti-manifesto para uma arte incapaz

Todo dia 15 de novembro, nos últimos 15 anos, aproveitava o feriado da República para montar a nossa árvore de Natal. Cada ano de um jeito. Já fizemos árvores com bolas vermelhas, outra com bolas douradas, outra só com anjos e assim por diante. A do ano passado acho que foi a mais bonita. Decidimos não comprar enfeites novos, mas fazê-los, com pedrinhas vermelhas de bijuterias, miçangas douradas e fio de nylon. Acho que foi para encerrar um ciclo mesmo.

Este ano, nem estávamos nos lembrando de jingle bell. Cada um estava ocupado com uma coisa diferente e nos desconcentramos. O espírito natalino passou batido nesse feriado. Aí, agora, no finalzinho da tarde, resolvemos assistir a um filme temático para ver se pintava um clima: O Expresso Polar. É um filme em 3D, que conta a história de crianças que estão perdendo a crença no bom velhinho e ficam ali querendo e não querendo acreditar nessa história. É bem bacaninha mesmo. Mas acho que não ajudou muito.

Ajudou foi a sossegar meus pensamentos, que estavam perdidos no meio de um mar revolto. Nestes últimos dias li tanta sopa de letrinha que os assuntos foram se misturando, se embaralhando de tal jeito que já não estava entendendo era mais nada. Mas se é mesmo para bagunçar, vamos fazer direito né? Pus tudo no liquidificador de novo e bati na velocidade mais alta.

Olhem só: tão dizendo que o mundo está passando por uma crise de identidade. Já pensei nisso, quando tentava entender o caso brasileiro. Pensei até em sugerir um divã coletivo, para resgatar a nossa trajetória histórica . Mas agora a crise está mais brava, porque rompeu fronteiras. Como no Brasil, os governantes de outras partes do mundo já não sabem mais para onde conduzir seus governados. Os governados, muito menos, não têm nem idéia de para onde querem ir. E ninguém mais sabe quem é quem e muito menos o que é que está fazendo por aqui.

A política, que ajudava a dar esse rumo, perdeu seu norte e ficou presa numa luta de foice dentro de um quarto escuro, onde alguns poucos, que se dizem representantes de alguns muitos, disputam espaços minguados dentro de estruturas de poder que não têm mais nenhuma relevância, a não ser garantir um mensalão para seus donos. Num Estado mínimo, incapaz de atender às demandas básicas de uma sociedade, para que serve a política? Numa sociedade com interesses totalmente fragmentados, reduzidos a causas particulares, pra que serve a política?

Quando a vida era menos complicada, a política ajudava a organizar esses interesses e encaminhá-los aos governantes que, com bom senso, estabeleciam prioridades e atendiam-nas conforme essa ordem. Hoje esses interesses são múltiplos, dispersos e muitos brigam entre si. Não há também assim mais partidos políticos que dêem conta de representá-los e nem espaços democráticos onde cada grupo possa, por si só, defender suas causas. E aí, para que serve a política, se o encontro é improvável ou impossível?

O mercado, com sua mão invisível, que anunciava ser capaz de sozinho comandar o espetáculo da construção humana, hoje é um ator secundário, sem prestígio. Não dá conta nem de gerar riqueza suficiente para distribuí-la, se não de forma igual, ao menos de forma justa, entre todos os figurantes. Hoje, tem mais gente no banco de reserva do que no campo jogando, como diria Lula. E eu acho é que tem mais gente na geral, só assistindo ao jogo de longe, do que preparado para entrar em campo. Hoje o mercado atende basicamente 10% da população. Os demais são atendidos pela pirataria que navega em mar aberto, sem nenhum controle, vendendo até remédio falsificado!

As oportunidades iguais, que o mercado um dia prometeu criar, para que cada um, de seu próprio jeito, encontrasse diferentes caminhos para se afirmar nesse mundão, foram distribuídas só para os amigos do rei. Os demais estão aí, jogando coquetel molotov no carro dos outros ou encostando caco de vidro no pescoço alheio, quando não um trezoitão, por conta de uns cinquentinhas ou um celular com microchip. Os velhos, eles nem querem saber. Outro dia, tomaram o celular do Daniel. Viram que era um modelo antigo, chamaram ele de volta e devolveram. Acharam ruim ainda. Ói só!

Então, não é a barbárie moderna, sob o comando dos barões da ciranda financeira? Estes sim, são poderosos! Donos, no entanto, de um império virtual, nunca se esqueçam disso!

Mas o que eu fiquei mesmo pensando hoje é se não estaríamos patinando na lama de velhas soluções. Tudo bem, nossos problemas também já estão bem batidos. Não fomos criativos ao propormos novos desafios. Mas o mundo em que estamos vivendo hoje é muito diferente daquele de trinta anos atrás. Isso eu sei que é. Sou testemunha ocular da história (rs). Pois não estamos num mundo, agora sim, globalizado? As informações hoje não circulam o planeta todo em poucos segundos? Uma borboleta que bate as asas no Japão não provoca um furacão nas ilhas da américa central? Não falamos todos a mesma língua do querer mais? Então, não é natural que um argelino se ache francês? Um indiano seja confundido com um mineiro de Governador Valadares? Uma canedense seja parecida com uma chinezinha? E assim por diante?

Será que não teríamos, então, de estar buscando soluções planetárias? Fortalecendo instituições globalizadas, capazes de dar conta da nossa diversidade cultural, mas legitimadas para falar em nome da República Terra? Fiquei pensando nisso, enquando o liquidificador girava na velocidade máxima.

Sonhos estratosféricos para todos.

sábado, novembro 12, 2005

Here we go!!!

Sexta-feira topei foi com a futura geração brasileira. Bem na porta do prédio onde trabalho. Tive de abrir caminho entre bombetas e moletons, dim dim dom. Tênis all star de cano longo do oi, pedacinhos de saia, bolinhas coloridas em cabelos de trancinha e okiscuros no nariz.

A futura geração brasileira não parecia levar coquetel molotov na mochila. Muito pelo contrário, estava armada de uma boa dose de paciência. Passou o dia inteiro em salas sem janela, parlando, parlando, parlando. Inventando um jeito de cair fora do destino que estamos embrulhando para ela. Embrulhando e enfeitando, com laço de fita vermelha e cartãozinho: Bem vinda ao nada!

Depois de traçar uma quentinha no corredor cultural que leva ao auditório, a futura geração brasileira ainda rendeu mais tempo para aprovar um novo enredo para essa história. As minas e os manos da Gerais vão defender em Brasília a inclusão, no Plano Nacional de Juventude, de um programa de capacitação profissional e políticas públicas que incentivem o primeiro emprego. Bunitinhos eles!

Por enquanto, estão acreditando que estão convidados para o grande espetáculo da construção humana. Tomara que não estejam errados. Não eram muitos, talvez uns 250 membros filiados de carteirinha da futura geração. Mas se cada um tem uma turma de dez amigos e conversa com ela sobre as batatinhas do seu dia, são mais de dois mil que estiveram ali representados. Um bom começo.

Quando foram embora, fiquei pensando: haja paciência histórica! O Brasil ainda não é um primor de participação cidadã. Por coincidência, na mesma sexta, recebi pelo correio o resultado de uma pesquisa da Rede Interamericana para a Democracia, com os novos números do IPC. Não o Índice de Preços ao Consumidor, mas o Índice de Participação Cidadã de sete países da América Latina. O Brasil conseguiu segurar a lanterninha. Ficou em último lugar. O primeiro é a República Dominicana, seguida do Chile, Peru, Argentina, México e Costa Rica.

Na República Dominicana, a maior participação é em atividades políticas, por meio de organizações religiosas. No Brasil, o canal de participação também são essas organizações, mas o envolvimento das pessoas é mais em torno de questões da comunidade, do bairro e da cidade. Engraçadamente, os homens participam mais que as mulheres, menos no Peru e na Argentina, onde os dois marcam presença juntos.

Nesses países, a participação cidadã tem significados diferentes. Para 66,3% da população militante da República Dominicana, a participação significa comprometer-se com uma causa, com um ideal: é atuar. Para 61,8% dos brasileiros que estão mobilizados em alguma atividade cidadã, significa ajudar, colaborar. É o nosso espírito cristão enraizado até a alma. Para 41,8% dos chilenos, atuar dá o sentido de pertencer a um grupo.

Já a não-participação é percebida na República Dominicana como omissão, por falta de interesse ou egoísmo. No Brasil, como somos mais tolerantes em tudo, a desculpa é falta de tempo. No máximo, falta de informação. Nos sete países, o engajamento é maior entre os adultos, na faixa de 36 a 55 anos, e menor, entre os jovens, de 18 a 25 anos.

O que vi na sexta-feira, portanto, não foi um fato banal. Foi um momento histórico. Pois eram ainda crianças, entre 16 e 20 anos, talvez. Enforcaram a sexta-feira, mas em vez de ir bombar no shopping, foram trocar figurinhas numa sala sem janela. Foram correr atrás do prejuízo.

São bunitinhos ou não são? Eu acho. Foi uma história de feliz que eles me contaram e, por isso, enquanto abria caminho entre aqueles meninos e meninas, estendi a minha mão para quantos deram e cumprimentei-os alegremente. Toquei nas mãos espalmadas de outros, pra ver também se essa tal de esperança pega que nem gripe, só no contato. Acho que fui contaminada, mas segunda-feira já estarei melhor. Hehehe.

Demorou.
Até mais ver, amigos!

quarta-feira, novembro 09, 2005

Ideologia, eu quero uma pra viver

Desde que 73% dos franceses se manifestaram, numa pesquisa de opinião pública, realizada no início da semana, favoráveis à adoção do toque de recolher, achei melhor não tocar mais nesse assunto. Fazer o quê? Se eles que são eles aceitaram abrir mão do estado de direito, nós que estamos aqui, na periferia da perifeira, vamos questionar? Eu, hem? Tô fora. Villepin e Sarkozy, claro, já sabiam da pesquisa quando anunciaram as medidas e se apoiaram no choix collectif du couvre-feu, para confirmá-lo à sociedade.

Mas aí, olhem só, há controvérsias em relação à opinião dos franceses. O Le Monde, que é um jornal francês importante, uma voz nem muito conservadora nem muito revolucionária, criticou hoje, duramente, as autoridades francesas e, em particular, Dominique de Villepin, o primeiro-ministro. Para o jornal, que fala com certeza em nome de uma parcela significativa da população francesa, a "exumação de uma legislação de 1955 envia aos jovens dos subúrbios uma mensagem de uma brutalidade incomensurável: 50 anos depois, a França os quer tratar como tratou seus avós". E mais, Colombani (parece o nome do meu avô Columbano, rs), diretor do jornal e autor do editorial de hoje, lembra que "essa engrenagem de incompreensão e destempero marcial" foi responsável pelos piores momentos da República Francesa. Ainda sobrevivem alguns corações sensíveis nesse mundão sem porteira, hem?

Tô voltando ao assunto também, porque me incomoda por demais a sonseira das autoridades francesas e dos que estão comentando esse episódio dos meninos de Paris. Eles arregalam os olhos, encolhem os ombros e se espantam até onde não podem mais, quando tentam entender a agilidade e a mobilidade da futura geração nas suas investidas noturnas. "Este é um movimento sem líderes; os incendiários franceses são senhores de seus atos, não seguem nenhuma entidade, nem nenhum guia, como é que eles se organizam???" e, por aí afora vai.

Tudo bem, Manuel Castells não é francês, mas Pierre Levi acho que é. Agora bateu uma dúvida, Rutinha. Ele é francês e judeu ou é judeu e austríaco? De onde tirei isso, hem? Bom, seja lá de onde forem, todos dois já falam das sociedades em rede há décadas. O tráfico de drogas se organiza em redes, isso é óbvio. Os terroristas fazem isso também. O exército americano adotou uma estratégia de redes na última invasão ao Iraque. As empresas ainda não sabem disso, ou fingem não saber, mas, dentro das organizações, as informações também circulam é em rede e não pelos corredores da hierarquia. O Cláudio conhece bem isso e sabe que o conhecimento é repassado pelas equipes por meio de redes informais e não necessariamente via gerente. Pois é assim que nos movimentamos no mundo de hoje, em rede. Não é isso que estamos fazendo aqui?


E a força da interação dessas redes, que vão se formando num universo virtual, quase imaginário, de mentirinha, é tão poderosa quanto um sinal de alarme num prédio em fogo. Todos agem imediatamente, rapidamente e confiantemente, porque o que tem de ser feito é ruminado, mastigado, digerido lentamente, em diferentes praças, até virar uma idéia e saltar da tela para o mundo real. E depois que um diz Go!, a notícia se espalha como numa rede neural, as sinapses vão se fazendo uma a uma e os comandos são transmitidos instântaneamente.

Olhem só, para o bem e para o mal, depende da situação, né? O Daniel, por exemplo, participa de várias redes que, às vezes, se interagem e às vezes não. Mas cada uma em particular, já tem uma força impensável. Ele participa de fóruns de case mod, por exemplo, e dali, de um espaço virtual, eles trocam informações sobre como modificar os computadores, como operar as ferramentas e assim por diante; eles organizam encontros nacionais (agora no final de novembro vai ter um no Rio, com meninos do Brasil inteiro!), regionais e locais. Tudo isso, sem nunca terem se visto antes. O Dani tem amigos do Rio Grande do Sul até o Amazonas. Com um clique ele fala com todos eles. É assim, gente! Há muito tempo! Tão estranhando o quê? Dwããr!

Lembrei-me de outra coisa hoje, não quero esquecer. A angústia dos meninos de Paris já foi cantada até por Cazuza. Já faz tempo também, não é não? Ideologia, quero uma pra viver, lembram-se? Vou copiar a letra para não esquecermos.

Já vou tarde, eu sei
Fiquem com a voz cortante de Cazuza...

Ideologia

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Ah, eu nem acredito
Que aquele garoto que ia mudar o mundo
Frequenta agora as festas do "Grand Monde "

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver

O meu prazer
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock 'n' roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem eu sou
Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
(Mudar o mundo)
Agora assiste a tudo em cima do muro

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Pra viver

terça-feira, novembro 08, 2005

Cinema, aspirinas e urubus

Voltei, não disse. Pois é, estava na CBN, ouvindo o Sardenberg, e tive uma boa notícia. O filme Cinema, aspirinas e urubus, do pernambucano Marcelo Gomes, produzido pela mineira Vânia Catani (rsrsrs), está sendo exibido no Festival de Cinema de Manaus. Em maio, ele foi apresentado no Festival de Cannes e ganhou o prêmio da Educação Nacional, concedido pelo Ministério da Educação da França. No início do mês, ganhou o Troféu Bandeira Paulista,da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Foi a primeira vez que um diretor brasileiro levou o troféu. Como vêem, é um filme já viajado e premiado. Só nós que ainda não vimos.

Eu pelo menos não vi, mas tenho certeza de que é coisa boa, se não a Vânia não estaria metida nessa história, né Juju? Achei um resumo da história na internet e vou adiantar um pouco o assunto para o público potencial, nós mesmos, pobres mortais. Eu pelo menos gosto de saber do que se trata, antes de sair de casa para ir assistir a um filme. Então, Cinema, aspirinas e urubus conta a viagem, pelo Nordeste do Brasil, de dois homens: um alemão que fugiu da guerra e um brasileiro que tenta escapar da miséria do sertão e da seca. A dupla, montada num caminhão, passa a exibir, para uma platéia absolutamente atônita e faminta de cultura, filmes patrocinados pela fabricante da aspirina. Contei o quê, agora o como só vendo, né? Deve ser muito bacana, como foi Narradores de Javé.

Quem quiser ler uma entrevista do diretor Marcelo Gomes, vou colar o link em algum canto desse poste. Descubram, se forem capazes!

Vinho de Rosas
Esse eu vi e recomendo, mas continuo na fila de espera para ver de novo. Os paulistas também já viram, há umas duas semanas atrás, durante 29ª Mostra BR de Cinema e a Mostra Internacional de Cinema. E aqui, mais uma vez, tem o dedo de Minas: na direção e no roteiro, pra não falar nos atores. Vinho de Rosas, de Elza Cataldo, conta a história de Joaquina, filha única e legítima de Tiradentes, que foi separada da mãe quando tinha apenas três anos. O filme consumiu sete anos de pesquisas, estudos e muita paixão, além de trabalho, trabalho, trabalho. É fascinante! A fotografia é belíssima! E juntando tudo isso com o jeito delicado como Elza contou a história, entra pra lista dos imperdíveis também. Eu não perco.

PS: Não vou falar dos meninos franceses, que agora estão trancafiados dentro de casa. Não vou falar da decisão de Villepin de recorrer a uma lei de 1955 e decretar estado de emergência na França. Não vou falar que, além do toque de recolher, essa lei permite as buscas domiciliares sem mandado judicial, sempre que a autoridade policial desconfiar de que ali, naquela casa, alguém esconde uma arma! Isso é lá com os franceses. Eles é que devem se entender. Mas fico temendo e desconfiada de que o que a futura geração, o que os meninos de Paris estão pedindo é outra coisa. Sei não.

Tô indo de novo.
Com certeza, volto. Mas só de repente, no susto.

beijins

Toque de recolher

Ou Mansos Delírios II

Sarkosy não lê blogs e Clóvis Rossi não lê a Folha de São Paulo. O primeiro acha que a futura geração é a escória da sociedade francesa. O segundo acha que é o exército da violência, recrutado pelos chefes da droga, no caso brasileiro, e/ou dos líderes islamistas radicais, no caso francês. De um incerto ponto de vista, eles até podem ter razão. Mas é, por isso mesmo, que a futura geração ateia fogo nos carros. Muito mais que mc donalds, o automóvel é o símbolo mais forte da nossa modernidade: é a máquina da velocidade, a marca do poder.

Olhando de um incerto jeito, Sarkosy e Rossi até devem ter razão de achar que esse é mais um caso de polícia do que de política social, pois a onda de violência, que agora se espalha como erva daninha para outras cidades européias, passa apenas de raspão pela segurança dos que estão no andar de cima. Assusta muito mais os vizinhos da futura geração do que aqueles que a puseram ali onde ela está hoje. Isso vale tanto para França, quanto para o Brasil, onde a violência é muito maior nos bairros da periferia do que em Jardins ou no São Bento. São os filhos da pobreza que estão morrendo com tiros na cabeça, golpes de foice, chutes e pauladas, além de fome e diarréia, claro.

Mas quem lê Folha de São Paulo ou escuta a CBN, distraidamente, sabe que a futura geração, assim como uma criança birrenta, carente de pai e mãe, está esperneando é para ver se consegue alguns minutos de atenção. Inconformada com a sua condição de desprezível, descartável, desnecessária e de tudo destituída, está chutando o balde é para mostrar que está presente, incluidíssima. Que está vendo tudo, que está sabendo das coisas e o que não quer mais é brincar de estatística nos relatórios da ONU, do PNUD, do Bird, da Unesco e de outras instituições relevantes dos G-7 ou G-8 da vida.

É claro que agora a futura geração não está brigando por liberdade, igualdade e fraternidade. Liberdade para vadiar? Igualdade para vestir uma velha calça jeans azul e desbotada? Fraternidade para dividir as tralhas? Qualé, mano? A futura geração está brigando é por um lugar ao sol. Não é por ideologia, pela causa ou por dinheiro. No mesmo caderno da Folha de São Paulo, onde saiu hoje o artigo de Clóvis Rossi, um jovem francês, membro da futura geração, promete continuar queimando tudo, até ser respeitado. São palavras dele:

Não tenho trabalho, respeito, não tenho nada. Então queimo mesmo, vou continuar queimando tudo. Tudo o que for do Estado, do governo ou das empresas vai ser queimado.

Dá medo? Claro que dá. Eu tenho. Hoje o mundo é todo muito desigual. Os bolsões de pobreza estão espalhados por todo canto. Igualdade só mesmo para os que já nasceram iguais. Por isso, a França não é diferente da Alemanha, que não é diferente da Bélgica, que não é diferente da Inglaterra, que não é diferente dos Estados Unidos, que não é diferente da Argentina, que não é diferente do Brasil e assim por diante. O que falta lá, falta em todos os lugares: emprego, ou que outro nome terá nesse nosso tempo presente, a oportunidade de realizarmos nosso potencial criativo e alcançarmos nossa autonomia.

Mas já faz tempo que o sr. emprego morreu. Depois vou procurar estatísticas na internet sobre isso. Nem precisava, pois hoje, isso sabemos todos, o que as empresas estão produzindo são marcas, conceitos, idéias - os famosos intangíveis - que dão algum emprego, mas para poucos. No mais, gera é subemprego. O lucro mesmo vem é das aplicações financeiras. Riqueza virtual, que está girando em alta velocidade pelo mundo inteiro. Para se ter uma idéia, nos últimos cinco anos, o imenso volume de comércio mundial, que beira os US$ 4 trilhões por ano, é responsável por menos de 10% dos fluxos financeiros a cada vinte e quatro horas, movimentação que soma US$ 1, 5 trilhões todos os dias. Se entendi, de toda a grana que passeia pelo mundo durante um dia, só 10% estão relacionados com business, negócios. O restante é papel que viaja entre bytes em busca de melhores taxas de remuneração. É dinheiro de mentira e que só vemos de passagem. Tô certa?

Olhem só. Na mesma Folha de São Paulo de hoje, bem ao lado da notícia sobre a violência na França, tem uma notinha bem pequena, na coluna da esquerda, anunciando o resultado do trimestre do Bradesco. Lucrou R$ 4,05 bilhões, 102% a mais que em 2004, enquanto a nossa economia está crescendo a índices não superiores a 4%. Tem alguma coisa errada? Não seria hora de sugerirmos um toque de recolher para essa turminha de baderneiros que anda freqüentando o cassino da especulação financeira, desviando, ou melhor, sequestrando o dinheiro das empresas, tão necessário para novos investimentos e para geração de futuros empregos?

Tô indo. Mas volto, de repente.

domingo, novembro 06, 2005

Louvado seja

Ufa! Até que enfim eles chegaram. Pensava que estávamos, o mundo todo, condenados eternamente a esse delírio manso, que está nos tirando o chão, a intervalos cada vez menores. Mas, parece que agora poderemos contar com ajuda externa para sairmos dessa encrenca toda em que nos metemos. Com distanciamento crítico, acho que eles terão condições de nos apontar alguns caminhos. Estamos salvos!

Li no site da UOL que foram vistas, na última sexta-feira, no céu de várias regiões da Alemanha e da Holanda "bolas de fogo" (hanrran) que "pareciam coisa saída de um filme de terror e ficção científica". É claro que a Nasa correu para dizer que as tais bolas tratavam-se de "uma bizarra temporada anual de meteoros". Temporada anual? Como assim? Não sabia que tínhamos essa temporada. Já ouvi falar de temporada de verão, temporada de inverno, temporada de ópera e assim por diante. Mas temporada de meteoros é a primeira vez que escuto.

Ainda segundo o site da Nasa, essas bolas de fogo "foram vistas em outros lugares do mundo, talvez pelo fato de que a órbita da Terra esteja atravessando uma zona de destroços espaciais". Talvez? Me desculpem, mas talvez é muito para Nasa, né? Ou estamos ou não estamos. Será que os cientistas da Nasa não têm competência para afirmar isso ou será que eles também estão desconfiados de que as bolas de fogo são objetos não-identificados, vulgo naves extraterrestres, chegando com ordens expressas para intervir no pedaço?

Prefiro engrossar a lista dos que acreditam que são OVNIS. Já acreditei em tanta coisa esse ano que essa nova crença não vai ser tão estranha assim.

Bem vindos seres inter-galáticos e bom trabalho!

Agora que uma luz se acende no fim do túnel, que a calmaria nos ameaça e que o universo começa a conspirar a nosso favor, vamos sentar, conversar direitinho e começar tudo de novo. Do zero. Que tal, bush?


Para vocês, um soninho bom e um despertar com o canto dos bem-te-vis.

Mansos delírios

Quer saber? Enquanto o bush se prepara pra esquentar uma carninha no chapadão do planalto, vou passear no parque. Vou fazer só um desvio para não me esquecer da histórinha que o Cláudio me contou. Ele estava conversando com um motorista de táxi. Pois é, o carro dele continua comigo, hehehe. E não é que as danadas das pastilhas de freio deram de acabar logo quando a jipeira estava na minha mão? Já viram, né? De quem é a culpa? De quem? Que posso eu fazer? Durante a semana não dá para ficar dirigindo, só mesmo pilotando pra não perder a hora. Então freio com vontade mesmo. Mas não acredito que tenha sido meu jeito estranho de dirigir que estragou as pastilhas. Sinceramente, não. O que estava dizendo mesmo?

Ah, sim. Então. O Cláudio estava conversando com o motorista de táxi e os dois comentavam a vinda de bush ao Brasil. bush mesmo, aquele que não assinou o Protocolo de Kioto. E vai daí que um falou mal do moço, o outro criticou também, o um endossou e o papo rolou. Nessa engrenada, um deixou escapar que bush seria o líder mundial. E é, né? Mas que líder que nada, desqualificou o outro. Líder que é líder de fato não sai por aí afora distribuindo a morte pra seus vizinhos, oferece é um ombro, a mão, um lugar na mesa, alimento para fomes diversas e outras cositas más, pero desde de que não façam mal a ninguém, pelo contrário, elevem é os pontos de vida dos parceiros de jogo. Ponto, parágrafo.

Então fui. Vamos passear no parque, wôu wôu. Fui andar. Vichi! Houston, temos problemas. Ainda não tinha contado essa, mas acontece que tenho outra mania. Quando preciso pensar alguma coisa e não estou me concentrando bem, gosto de sair andando por aí. Ajuda muito. Então, já viram, né? Na virada da primeira travessa, algumas idéias foram se juntando a outras e formaram um pensamento do porte de uma tsunami. Quase me jogou de cara no tronco de uma árvore que, distraída, não vi.

Foi assim, ó: estava andando e ouvindo George Moustaki. Avec ma guele de métèque/De juif errant de pâtre grec/Et mes cheveux aus quatre vents/Avec mes yeux tout délavès/Que me donnent l’air de rêver/Moi qui ne rêve plus souvent...Aí pensei nas ruas de Paris, por onde gosto de passear, quando estou plugada. Imediatamente, me afastei do centro e acabei saindo pela periferia e caindo no coração de Seine-Saint-Deni.

Foi daí que dei de cara com a futura geração. Ela me olhava com olhos estatelados, como alguém que não enxerga mais nada a sua frente. Estendia as mãos vazias bem debaixo do meu nariz, como se esperasse que dele escorresse algum projeto de vida mais digno do que este que traz acorrentado a seus pés. Balançava a cabeça de um lado para o outro, como que tentando se enquadrar no foco dos meus olhos. Agitava os braços e pulava na forma de polichinelos, bem ritmados, como alguém que pede encarecidamente para ser visto. E eu via, só não enxergava. Exausta, a futura geração se afastou e depois não vi mais nada.

Vai que o que me veio à cabeça foi só uma seqüência de números: 70, 180, 240, 700, 900 e assim por diante. Tantos quantos foram os carros incendiados nas ruas de Paris e entorno, nos últimos 10 dias. Não foram vândalos. Acho que não. Preciso avisar Villepin. Acho que vi quem foi. Foi a futura geração dando um toque para ser lembrada. Foram só meninos, crianças ainda, filhos dos relegados, dos repudiados, dos banidos, também chamados excluídos, mas que, de uma forma mesmo que meio desajeitada, estão sim tão dentro quanto todos os demais. Incluídos até a medula. Ainda que alguns não os vejam e garantam que eles estão é de um lado de fora, se isso existe.

Antes de ouvir as vozes de Dani e Rafael – olha, que vai bater! – ainda tive tempo de me lembrar de Viviane Forrester. Acho que ela também viu a futura geração destrambelada, andando solta por aí. Bem antes de mim, claro, lá pelos idos de 1996. Ela terminou o seu Horror Econômico com uma perguntinha básica: seria insensato esperar, enfim, não um pouco de amor, tão vago, tão fácil de declarar, tão satisfeito de si, e que se autoriza a fazer uso de todos os castigos, mas a audácia de um sentimento áspero, ingrato, de um rigor intratável e que se recusa a qualquer exceção: o respeito?

E aí parei, a menos de um palmo do tronco da árvore. De volta para casa, não sei porquê, me deu uma vontade danada de implicar por implicar. Implicar que nem a Bibizinha da piada. Tava ela lá, na porta do colégio. Aí viu o sorveteiro e foi lá: tem sorvete de jiló? Tem não minina! Ói só! No outro dia, terminou a aula e lá estava a Bibizinha de novo: tem sorvete de jiló? Tem não minina, já falei! Mais um dia e a mesma coisa. Na sexta-feira, o sorveteiro pensou: vou fazer uma criança feliz! Daí a pouco chega a Bibizinha: tem sorvete de jiló? Tem sim. E a Bibizinha: Eeeeca!

Sonhos atormentados, mas um alegre despertar para todos!
E, ainda assim, gracias a la vida!

quarta-feira, novembro 02, 2005

Universo paralelo

george busch vem aí! Larálaralálará! Nem vou falar nada, porque depois vão dizer que é implicância. De mais a mais, aprendi com minha mãe que, na casa da gente, até inimigo deve ser bem tratado, pra não ter o que falar. Então, me rendo. Mas, se vacilarem, vou enfeitar a bandeja de canapés com uma cópia reduzida do Protocolo de Kioto. Não custa, né?

Enquanto isso, vou me teletransportar para o universo paralelo, onde estão os portadores da não-existência. Vou evitar tentações. Vou me juntar aos 5 mil delegados de 600 organizações não-governamentais, que se materializaram em Mar del Plata, para realizar a 3ª Cúpula dos Povos. É muita gente, hem? Apesar de barulhentos, essa turma continua, lamentavelmente, invisível aos olhos daqueles que estão do outro lado do portal, no comando da nave terra.

Mas vou para Mar del Plata só para ouvir Sílvio Rodrigues, um cantor cubano que tem a voz mais bonita que já ouvi na minha vida. Tenho uma gravação dele interpretando a canção Mi Unicórnio, que é chocante. Não deve ser difícil de ouví-la por aí, na rede. É também a canção com uma das melodias mais lindas que já ouvi. Hoje estou exagerando, hem? Mas é uma avaliação sincera. Não tenho culpa se não ouvi tantas outras canções assim que pudessem se igualar a Mi Unicórnio. (Fui ouvir a tal gravação e a voz do Sílvio Rodrigues é muito bonita mesmo, mas a mais bonita pra valer é a do Pablo Milanez. Acho que tenho uma gravação com ele também. Vou procurar. Foi mal, hem...)

Um dia, tivemos a graça de ouvir, ao vivo e a cores, essa mesma música, interpretada por dois outros cubanos, os nestores, e foi o paraíso. Um no piano e o outro só na voz. Era inacreditável. Ninguém piscava. Quando terminaram, ficamos olhando uns para os outros, como que esperando que alguma coisa mágica fosse acontecer. Sei lá, baixar um anjo na sala, soprar uma brisa iluminada, varrendo os maus sentimentos, qualquer coisa. Não aconteceu nada disso. Mas ninguém, dos que estavam lá, na sala do apartamento de um dos nestores, se esqueceu daquela noite. Isso eu sei. Foi muito bom. Até hoje comentamos sobre esse momento.

Eles nos explicaram, com os olhos tristes, que o unicórnio representa, para os cubanos, a esperança. A letra, então, é meio que um lamento mesmo, porque o unicórnio some, desaparece ou está perdido. E seu dono está a sua procura. Depois, conversamos mais e eles nos falaram que o unicórnio azul é a esperança de muitos cubanos, de um dia poder voltar à ilha. Eles saíram de lá por diferentes razões, não por motivos políticos, mas agora não conseguem voltar e choram de saudades. Por isso buscam desesperadamente seu unicórnio azul, para ajudá-los a suportar a espera do retorno. Um dia.

Não sei se Sílvio Rodrigues vai cantar essa música, no estádio de Mar del Plata. Nem sei bem o dia, se na sexta ou no sábado. Só sei que estão prevendo um público de mais 40 mil pessoas. Até Hugo Chávez vai falar, enquanto bush discute não sei o quê com os demais chefes de estado. Mas não sei se Sílvio Rodrigues vai cantar Mi Unicórnio. De qualquer forma, estarei presente de espírito e alma para acompanhar.

Hasta la vista amiiigos!

Se quiserem conhecer a letra, vou copiá-la logo abaixo:

Mi Unicornio
Letra e Música: Sílvio Rodrigues

Mi unicornio azul ayer se me perdió
Pastando lo dejé y desapareció
Cualquier información bien la voy a pagar
Las flores que dejo, no me hen querido hablar

Mi unicornio azul ayer se me perdió
No se si se me fué, no se si se extravió
Y yo no tengo más que um unicornio azul
Si alguien sabe de él, le ruego información
Cien mil o un millón yo pagaré

Mi unicornio azul, se me pedido ayer,
Se fue ... ... ...

Mi unicornio azul y yo hicimos amistad
Un poco com amor, un poco com verdad
Com su cuerno de anil pescaba una canción,
Saberla conpartir era su vocación.

Mi unicornio azul ayer se me perdió
Y puede parecer acaso una obsesión
Pero no tengo más que un unicornio azul
Y aunque tuviera dos, yo solo quiero aquel
Cualquier información la pagaré

Mi unicornio azul se me ha perdido ayer,
Se fue ... ... ...


PS: Mas que o bush poderia aproveitar e anunciar sua adesão ao Protocolo de Kioto, ah podia. Se podia, né? Olhem só, ia deixar todos nós sem ter o que falar por vários dias. Quer coisa melhor? Ele é bobo de tudo.

terça-feira, novembro 01, 2005

Soltando os cachorros

Qui coisa siô! Hoje tô chutando até minha sombra. Então, é melhor ir circulando! Eu vou ficar por aqui pra soltar os cachorros. Tava até de bem com a vida, mas cai na besteira de ler jornal logo cedo e me envenenei. Li, juro que li, que alguém vai dar uma surra em alguém, quando descobrir quem. Li que esse alguém, que bate até pessoalmente, se for preciso, é um inimigo inesquecível. Li essas palavras todas na boca de um senador da República.

Êêêta nóis! Eu costumo ficar brava, mas não saio por aí armando barraco. Fico é quieta no meu canto e ainda aviso para manterem distância. Aí não preciso ficar pedindo desculpa toda hora, né? Então, estou aqui, tricotando palavras para dar tempo ao tempo. E não é que me lembrei dos loucos dos ingleses? Acho que fui tremendamente injusta com eles. Os ingleses estão certos quando pedem moderação. Quando tiram as palavrinhas mágicas do fundo do baú e plantam-nas de novo no jardim da praça.

Me lembrei também do Jornal Nacional. Ontem fui ver as notícias, porque estava com preguiça de ler e precisava de uma resposta rápida para a pergunta que o Daniel me fez. Pergunta banal, que ele me fez enquanto devorava um cachorro quente: mas afinal, o que está acontecendo? Bonner e Fátima não me ajudaram muito, mas fiquei por dentro do noticiário policial, o que já é muita coisa hoje em dia. E vi uma escola de Porto Alegre, que instalou detector de metal para inibir a entrada de alunos armados em sala de aula. E vi as professoras falando com muita naturalidade que essa é a escola real. E vi os alunos rindo e concordando com isso. Como diria Henfil, vichi, que país foi este?

Uma linha puxa outra linha e fui dar num outro novelo: um artigo da Dra. Gro Harlem Brundtland, diretora da Organização Mundial de Saúde. Ela fala sobre a violência, sobre as sociedades sitiadas e os custos humanos, políticos e econômicos da violência urbana e social. Arregalei os olhos, quando li esse artigo. Ela demonstra como a violência urbana está minando as bases do sistema democrático; drenando uma enome quantidade de recursos públicos e privados, que são indispensáveis para o desenvolvimento e para o crescimento com igualdade; criando instabilidade política; e deteriorando as instituições que deveriam ser os pilares fundamentais para conter e erradicar a violência.

Mas arregalei os olhos foi quando li, em outro trecho do artigo, a descrição que ela faz do cenário da violência nas sociedades latinoamericanas. É claro que ela faz referência à violência social e ao aumento das atividades criminais, mas chama atenção para outro aspecto pouco considerado nesses estudos. Gro Harlem detectou, nas sociedades latinoamericanas, a crescente falta de observância de muitas das normas de convivência civil, expressadas nas boas práticas de integração social, como o uso das palavrinhas mágicas, a tolerância no trânsito, nos transportes urbanos, nas filas e assim por diante.

Para ela, esse fenômeno contém em si o germe da violência urbana. Mas como não é um fato espetacular, não jorra sangue e nem espirra miolos, se instala é de forma quase imperceptível no tecido social, ninguém leva em consideração, com exceção dos ingleses, claro! Então, esse germenzinho de violência vai se espalhando, se instalando sorrateiramente no nosso cotidiano e nos espaços que, tradicionalmente, funcionavam como lugares de contenção e educação, espaços próprios para o diálogo, como o Parlamento e a escola. Olhem só! Cês viram? Arregalei os olhos!

Mas acho que ninguém está vendo nada. Tudo é muito natural, pois que é real. Então, quando assustarmos, vamos acordar dentro de um pesadelo, se é que não já estamos, né? Por isso, turminha, hoje vou chamar os anjinhos de novo, quando for dormir. Quem sabe amanhã eu melhoro.

Brigadinha pela tolerância

E até de repente