sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Olhar é perigoso

Trilha alternativa: Tema para Joaquina, de Caxi Rajão para o filme Vinho de Rosas

Olhar é muito perigoso. Vai que você vê? Quando criança, aprendi que até mesmo sem ver, olhar é perigoso. Se o outro cisma que você está olhando de um jeito esquisito, isso vira briga na certa. Aí rola no chão e troca puxão de cabelo e chute na canela e mordida e chama mãe e chama pai e vai saber o porquê: é porque fulano estava me olhando de um jeito esquisito. Então. De qualquer maneira, olhar é perigoso e tem hora ainda que você vê até sem olhar. É quase inevitável. E dá problema do mesmo jeito.

Foi isso que aconteceu. Outro dia ouvi, ou vi, alguém falando sobre o assuntão. Aquela história de que precisamos fazer alguma coisa para preservar o planeta, que se não tomarmos providências imediatas, em 2050 as mudanças climáticas tornarão a vida na terra um inferno, que isso e que aquilo. Os sobreviventes, uma horda de famintos e miseráveis, estarão condenados a perambular por desertos e alagados, habitados por animais de novas espécies, ferozes e devoradores, e sem nehuma vegetação que ofereça sombra e água fresca para pobres mortais. Nos territórios ainda ocupados, o dia estará sempre anoitecendo e o amanhã será como o hoje, como foi o ontem e sem nenhuma perspectiva de um dia vir a ser. Um cenário bem blade runer.

Me deu medo, por mim, que já nem estarei mais aqui, e por meus filhos e netos que, certamente, estarão lutando em algum lugar para se protegerem das catástrofes. Ainda assim, me acalmei, porque me pareceu um futuro bem distante e porque acredito que o homem não se coloca problemas que não possa resolver. Ouvi isso em algum lugar, gostei e sempre me lembro dessa frase quando estou no sufoco. Mas aí, olha o perigo, resolvi dar uma espiada, para ver exatamente como estamos caminhando neste cenário.

Dei uma panorâmica só em 2005, minha memória recente ainda está em forma. E vi os tufões e vendavais nas Américas Central e do Norte. Vi as inundações na Europa e na Ásia. Vi os verões tórridos que estamos enfrentando aqui no Sul, acompanhados de tempestades devastadoras, que deixam centenas de desabrigados. Vi as nevascas na Europa e América do Norte. Vi notícias sobre a descoberta de novos vírus, letais para os homens. Vi notícias sobre o derretimento de geleiras na Antártida, no Ártico e na Groenlândia. Nos picos gelados do Himalaia, dos Alpes e até do Kilimanjaro, em plena África.

Olhei sem querer, mas não pude deixar de ver e agora fiquei preocupada. Será que é preciso esperar até 2050? Esperar aquele dia, talvez depois do carnaval, quem sabe uma tarde chuvosa de um domingo preguiçoso, quando, então, de repente, as mudanças climáticas vão começar a mudar a vida no planeta? Sei não. Tudo está chegando muito rápido. Aí estava andando e pensando, ainda mantenho esse hábito, e vi na banca um exemplar da Scientific American, bem a vista de todo mundo, tratando exatamente destas questões: A terra na estufa. Comprei, claro, e fui dar uma olhada.

Um dos desafios mais sérios que já enfrentamos, no hoje, no agora-agora, diz respeito mesmo à questão energética. Como encontrar um substituto para os combustíveis fósseis, responsáveis por 78% da geração de energia no planeta. Leia-se principalmente petróleo, fonte de gases de efeito estufa poderosíssimos. Um substituto de fonte renovável e não poluente, que contribua para desacelerar o ritmo do aquecimento global. O artigo de Rogério Cerqueira Leite discute exatamente isso. E ele não é muito otimista, embora aponte um cenário bem favorável para o Brasil. Um pouco com o álcool, a nova mania nacional, mas principalmente com as nossas velhas conhecidas hidrelétricas, pois temos ainda um potencial hídrico inventariado que é o dobro do instalado.

Cerqueira Leite vai fazendo conta, fazendo conta e descartando uma a uma as alternativas românticas que construímos no nosso ingênuo imaginário. Energia Solar: para produzirmos energia solar equivalente à capacidade de um poço médio de petróleo, que ocupa cerca de 100 metros quadrados e produz mais ou menos 50 mil barris/dia, precisaríamos de 7 mil anos. Não dá para esperar, né? Ele analisa ainda outras fontes mais exóticas e vai detonando todas elas, pelo menos como substitutas para o petróleo. Podem, quando muito, ser complementares em regiões bem localizadas.

E ele vai até chegar à biomassa, entre elas, o álcool. Fazendo as contas e as devidas projeções para 2050, ele mostra que seriam necessários entre 30 a 35 milhões de metros quadrados de cultivo de biomassa para substituir o petróleo. Ou seja, quatro vezes a superfície total do Brasil. Com muito esforço e ocupando toda a terra disponível e adequada ao cultivo de cana-de-açúcar no Brasil, cerca de 90 milhões de hectares, seríamos capazes de substituir não mais do que 10% do petróleo consumido mundialmente.

Fiquei preocupada de novo. Tudo bem que o Brasil invista no álcool como uma fonte complementar de energia, principalmente para o mercado interno, mas querer torná-lo o ouro verde para redenção do planeta, vai uma grande distância. Não quero terminar os meus dias chupando cana, tendo de guardar o bagaço para devolvê-lo à usina e ainda assoviar o está chegando a hora. É melhor pensarmos mais um pouco. Investirmos mais em pesquisa e encontrarmos outras soluções que garantam a maior diversificação da nossa matriz energética, sem comprometer perigosamente as terras destinadas ao cultivo de alimentos. É melhor pensarmos um jeito também de mudarmos nossos hábitos, mesmo que isso seja muito difícil e doloroso. É melhor pensarmos ainda em novos modelos de cidade e em meios de transporte coletivos, que reduzam nossa dependência do automóvel. E outras cositas más, que não vou ficar listando aqui, mas tudo em concomitância, aquela palavrinha danada que parece pajelança.

Enquanto isso, temos de nos acostumarmos com o calor e com as tempestades. Enquanto isso também, é mesmo o que o jornalista Carlos Alberto Sardenberg disse outro dia na CBN: temos de nos acostumarmos com o combustível caro. Daqui pra frente, o preço só vai aumentar, pois 2050 é hoje.

Raios de sol e ventos para todos, fontes de energia complementares e baratas.

Até de repente

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Chuchu com camarão é bão também!

Trilha alternativa: Due, com Renato Russo

Não vi nada. Nem ao vivo nem na televisão. Um milhão e trezentas mil pessoas! Tô fora. É como se juntasse metade de Belo Horizonte na praia. Até acontece. Em janeiro, metade da cidade vai pro litoral, mas fazemos isso de forma desconcentrada, pra não parecer invasão. Agora, um milhão e trezentos mil mineiros numa praia só, nunca vi. São duas Juiz de Fora. Já pensou? Ou uma Recife inteira. Não dou conta. Pra mim, juntou mais de 20 é multidão, já tenho de tomar medidas de precaução. Um milhão e trezentas mil pessoas é um mundão.

Não vi nada mesmo, mas estava sabendo. E Rolling Stones rolou na mesa, como cascalho na ribanceira. Como todo assunto, esse também foi polêmico e só conseguimos entrar num acordo quando surgiu o se. E se fosse o show de Tom Zé? Nesse, iríamos todos. Assistiríamos de joelhos, se preciso fosse, venerando a antena da raça. Mas aí, com certeza, não seriam 1 milhão e 300 mil pessoas. Talvez trezentas, não mil, trezentos sozinho. E já seria uma boa conta. Trinta! Aí seria o máximo. A diversidade estaria representada, mas sem a opressão das multidões. Três, seria maldade, embora, admito, fosse o ideal.

Daí que eu entenda perfeitamente a dificuldade do partido dos baulistas de abrir a cúpula à participação das bases. Para escolher o candidato da sigla, preferem fazer pesquisa de opinião a ter de convocar uma prévia. Juntar aquele povão todo num ginásio. Aquele calorão danado. Aquela mulherada falando, uma musquitada infernal. A rapaziada querendo puxar um sambinha de roda, hem? Marmitas espalhadas pelas arquibancadas. Banheiro cheio. Afi!

Então. Normal, gente. Pesquisa é uma forma de ouvir a voz do povo como outra qualquer. A diferença está só na metodologia. E metodologia, cá pra nós, se não existe a gente inventa, e modela até ela chegar na forma que mais nos apetece, se não o resultado pode surpreender, não é mesmo? Por exemplo, ouvir o lado divergente e chamá-lo de facilitador. Isso é uma invencionice. É um jeito de modelar a forma para adequá-la às necessidades do momento. Mas não tem importância. Fazer uma quali ouvindo as lideranças do partido e chamá-la de prévia amostral, é uma invencionice também. Mas não tem importância.

E olha aqui, escolha é sempre uma coisa muito difícil mesmo. Ainda mais pra quem. Ói só, não tem nada de errado Sun Paulo querer puxar o tom da conversa. Nesse caso, sou igual Tom Zé: porém, com todo defeito, te carrego no meu peito! Mas escolhas, dependendo do que se escolher, faz diferença. Na maioria dos casos. Só que fico pensando que, nesse caso de novo, a escolha é um falso dilema. O PSDB não tem escolha. Só tem um candidato e, olha, que até é um bom candidato. Chuchu com camarão é muito bom! O que o PSDB precisa ter é um bom discurso, um bom programa, um bom plano de ação. O resto é perfumaria. Então, que se faça mesmo uma prévia amostral, porque botar um 1 milhão e 300 mil dentro de um megaespaço e esperar que cheguem num consenso, só Mick Jagger, meus amigos.

That's all, folks!

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Esquece, bush

Trilha alternativa: Madeleine Peyroux, cantando La vie en rose (Gracias, Betinho, mais uma vez - Natal 2005)

Tem muito tempo que não atormento bush. Também não precisei. Bastava Blair, que ele já daria conta do recado sozinho, mas contou ainda com a ajuda de Chavez, Julia Sweig, Fidel, São Pedro, Elizabeth Holtzman, Cherloff, o Hamas, São Pedro, Evo, James Hansen, Almadinejad, Chuck Hagel, entre outros congressistas americanos, São Pedro e assim por diante. Mas como boa ex-fadinha, estou sempre alerta. Tô de olho e agora preciso retomar o meu posto. Sorry, periferia.

Nesta quinta-feira, o Protocolo de Kioto completou um aninho em vigor e bush – tá ligado? – ainda não sacou a canetinha para assinar esse famigerado acordo. Esse é o cara. Lento no gatilho ele, hem? Pois é. E se ele não assina, não tem graça. Para ser sincera, esse assunto está ficando até chato. Mas acontece que os Estados Unidos é o país que mais polui o planeta. É responsável, sozinho, sem ajuda de ninguém, por 25% das emissões mundiais de carbono.

Tudo bem, a nossa cota parte também não é pequena, mas se o exemplo vem de cima, aprendemos a lição mais rápido. É ou não é? Só que bush não pensa assim. Nem sei se pensa. O negócio dele é fazer barulho. É que nem aqueles meninos que estão crescendo e ficam parados do seu lado fazendo barulhos com a boca o tempo todo: cleck, cleck, cleck...brrruummm, brrruuummm...tium, tium, tium....poooouw!!! E não adianta mandar parar.

Olha só, em meados de janeiro, bush, que não vai assinar o Protocolo de Kioto, chamou sua turma e anunciou a criação de um fundo para o desenvolvimento de tecnologias energéticas limpas. Estavam lá, China, que tem síndrome de gigantismo e já está despontando também como um dos maiores poluidores do mundo; Índia, traira; Japão e Coréia do Sul. Ai, ai, viu. Então tá. Não é que a idéia seja ruim, mas os danados não se comprometeram com nada e ainda admitiram, em público, que são dependentes do petróleo e serão ainda por um bom tempo.

Só barulho. Já desconfio que bush, ô cara, está apenas querendo ganhar tempo. Ele sabe que a ciência hoje é um poço de incerteza. É praticamente impossível obter um mínimo de consenso sobre qualquer coisa relativa ao conhecimento, inclusive sobre o aquecimento global. Mais cedo ou mais tarde um cientista destes quaisquer, talvez um inglês, quem sabe, vai provar que não são as indústrias, os automóveis, as grandes concentrações urbanas, as explorações predatórias, as guerras, que são os maiores responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa. Nessa, os Estados Unidos podem acabar se safando.

Aliás, mais cedo do que tarde. Outro dia desses, vi uma entrevista com um pesquisador - um inglês, claro! -, na qual ele afirmava categoricamente que as vacas holandesas eram responsáveis por emissões significativas de gás metano, liberado através de seus arrotos e gases intestinais. O metano é um dos vilões mais cruéis entre os gases de efeito estufa. Bom, o tal pesquisador já estava, inclusive, envolvido em outro projeto, pesquisando uma nova dieta para os ruminantes, que venha minimizar a produção de gases. Essa é boa, hem?

Mas não são apenas os ingleses, coitados. Vi também uma reportagem com pesquisadores do Instituto Max-Planck de Física Nuclear, da Alemanha, denunciando que até 30% das 600 milhões de toneladas do tal gás metano, lançadas anualmente na atmosfera, vêm das plantas vivas. Das nossas plantinhas, inocentemente cultivadas em vasinhos, jardineiras, quintais e até em latinhas vazias de molho de tomate.

Pomba, qui coisa siô! Ninguém nunca antes tinha pensado nisso? Ninguém nunca antes viu as plantinhas lá, soltando gás metano! Que falha, hem? O pesquisador chefe do instituto, Frank Keppler, disse ainda que a emissão de metano pelas plantas dobra a cada 10°C de aumento na temperatura. Que horror! Nesse verão brabo que estamos, a Amazônia deve ter virado uma usina de metano. E é com isso mesmo que Keppler está preocupado. Ele disse que vai ficar de olho na Amazônia. Nós também.

Mas isso não é tudo. Na verdade, de pouco adianta agora saber de onde vem os gases que provocam o efeito estufa. Nem bush precisa mais assinar o Protocolo de Kioto. Esquece, bush. Estava passando os olhos em jornais vencidos e vi uma outra notícia mais chocante. O cientista James Lovelock, autor da teoria de Gaia, aquela em que ele diz que a Terra é um organismo vivo, capaz de se auto regular para garantir as condições de vida, anunciou que as mudanças climáticas já alcançaram um ponto irreversível.

Para ele, dificilmente a nossa civilização sobreviverá. Bilhões de pessoas morrerão e os seres humanos que sobrarem estarão no Ártico, onde o clima permanecerá ainda tolerável. Ele arrasa. Diz que ao longo dos próximos anos, a agricultura se tornará inviável e o aumento do nível do mar produzirá milhões de refugiados. A única coisa que nos resta fazer agora é nos prepararmos para sobreviver ao inevitável! Como diz Palocci, acabou a era do stop and go. Só vamos.

Lovelock está lançando um livro, intitulado “A vingança de Gaia”, onde explica essas coisas todas e nos dá algumas dicas sobre como enfrentar o caos. Além de poupar energia e outras recomendações, ele nos sugere, por exemplo, estocar alimentos e criar estratégias contra a elevação do nível do mar. Tá certo. Acho que prefiro uma casa no Ártico. Vamos contar com bush? Esquece.

Achei Lovelock muito pessimista. Que o mar não está pra peixe, todo mundo tá sabendo. E o calor que estamos passando? E as tempestades repentinas? E a cadeia de furacões? E as nevascas? Tudo em concomitância (hehehehe, ouvi isso hoje na CBN: concomitância! Que palavra estranha! Parece pajelança.)! Mas se Gaia é um ser vivo, tem tratamento. Não tem cura, mas tem tratamento. Pensando bem, bush, não esquece não. Tendo um tempinho, passa lá e assina esse Protocolo, siô! Não custa.

Uma casinha no Ártico para todos nós!

Durmam tranqüilos e sonhem com nossas irmãs, as estrelas, que ainda guardam um pouquinho da nossa matéria prima, para qualquer emergência.

domingo, fevereiro 12, 2006

Fica para outra vez

Fui jogar boliche. Foi na sexta-feira. Fui ver meus irmãos. Antes minha mãe fazia almoço todo sábado e era lá que a gente se encontrava. Agora, ela se livrou dessa obrigação. Só faz quando dá na telha. Já não era sem tempo. Acho justo. Mas fui jogar boliche. Fui ver qual é também. De cara, não gostei dessa história de trocar os sapatos. Preferi jogar descalça. Tenho problema com sapatos. Aquele que eu acho bonito, incomoda. O que é confortável, não é bonito. Quando encontro um que combina o gosto com o gostar, uso até furar. Por isso não acumulo pares de sapatos no armário. E sapato de boliche tem um problema: é feio feito o cão.

Um dia, estava jogando Enciclopédia e caiu essa pergunta: Por que sapato de boliche é feio? Arrisquei que era porque o conforto deveria prevalecer sobre a estética. Teve gente que concordou. Mas a resposta certa é outra. É a seguinte: pra ninguém roubar! Eita! Mas jogar boliche é divertido. É um jogo cheio de manha. Me fez lembrar do Fred e do Barney. O Fred tinha um estilo próprio para lançar as bolas. Ele corria na ponta dos dedos. Tentei, mas não consigo ficar na ponta dos dedos e, menos ainda, correr. Mas tenho força no braço. Isso é o que vale.

E tem também a surpresa. Tam nanm! Quando você lança a bola, tudo pode acontecer, até nada. É que nem na política: tudo pode acontecer, até nada. Olha só, outra vez, não tem muito tempo, vi um deputado aqui da terra relatando a uma repórter o seu encontro com o vice-presidente José Alencar. E Zé Alencar é bobo de conversar tudo que tinha para ser conversado num encontro pra inglês ver? E o deputado é bobo de contar tudo que aconteceu ao vivo e a cores, sem edição? Em vez disso, contou um caso.

Era a história de dois compadres. O primeiro queria vender um boi. O segundo queria comprar um boi. E se encontraram. Mas o primeiro, temendo que o outro percebesse que ele queria vender o boi e oferecesse um preço muito baixo, não tocou no assunto. O segundo, com medo também que o primeiro desconfiasse que ele queria comprar o boi e colocasse o preço muito alto, só jogou conversa fora a tarde inteira. Na hora de ir embora, o segundo gritou lá da porteira: ô cumpadre, e o boi? E o primeiro respondeu: o boi? Fica pra depois!

Nas entrelinhas, leia-se: os dois não conversaram sobre nada que fosse realmente importante. Se conversaram, não tomaram nenhuma decisão que fosse realmente importante. Se decidiram, ainda não está na hora de divulgar.

Não é outra coisa o que o PSDB vem fazendo desde o final do ano passado. FHC reúne-se com Serra. Serra se encontra com Aecinho. Alckmin vai no Nordeste falar com Jereissati. Depois vem a Belo Horizonte e reúne-se com Aécio. Aécio vai a São Paulo e se encontra com FHC. No final de cada encontro, a conversa é a mesma. Canditado? Qui candidato?! Isso fica para depois. Não sei se esse é um jeito mineiro de fazer política. Acho que não. É um jeito estranho de resolver problema que ainda não tem solução.

Olha só, todo mundo faz isso, mais cedo ou mais tarde. Eu faço toda hora. Me encontro pelo menos umas três vezes por dia com meu amigo imaginário, herança da infância que preservo, e discuto com ele desde as miudezas do dia a dia até questões mais relevantes. No final, divagamos sobre a vida e deixamos a pauta pra depois. É um jeito meio estranho mesmo de não resolver os problemas, mas dar a impressão de que estamos resolvendo. Estamos resolvendo. Quando as circunstâncias, com o peso da sua interferência, tornam uma decisão qualquer praticamente inevitável, aí decidimos com elas e tudo se resolve. Eita!

Tancredo Neves também era mestre nisso. Eu vi ele usando essa manha. Era dureza arrancar uma informação dele enquanto não chegasse a hora certa. Tancredo não marcava reunião antes de tudo estar resolvido mas era de jeito nenhum. Quando a solução já estava encaminhada, convocava os interessados e, em seguida, a imprensa. A reunião era só para referendar, mas, para os jornalistas, Tancredo anunciava como se fosse a decisão do dia. Até lá, a conversa era: esse assunto ainda não entrou na pauta, ficou pra depois.

E a política tem mais uma coisa parecida com o boliche. Se não com o boliche, mas com o jeito que nós amadores jogamos boliche. Às vezes, na maioria, miramos num canto ou numa garrafinha e a bola vai que vai até o meio da pista e, de repente, muda de rumo e acerta o outro canto. O pessoal do PSDB corre o risco de cair numa jogada dessas. Está mirando muito, fazendo muita cena. De repente, a bola sai com efeito e, sem que percebam, muda o alvo e deixa todo mundo no meio do caminho.

Olha só, à medida que Lula recupera sua popularidade, fica cada vez mais díficil para o PSDB definir o nome do seu candidato. O Serra vai deixar a prefeitura, que é certa, para fazer papelão nas urnas? É ruim, hem? Ele está certo. Só sai candidato se estiver sendo ovacionado nas ruas. Alckmin está no fim do mandato, tem mais chance de ir para o sacrifício. Fora os dois, tem o Aécio e o Jereissati. O Jereissati, eu não sei. O Aécio, bom, o Aécio acho que ele vai deixar essa conversa para depois... hehehehe.

Choveu, ufa! Mas já passou. A brisa fresca ficou para depois.

Ainda assim, um pôr do sol iluminado para todos. Esse vem, é inevitável.

PS: Dani arrumou o pau que estava dando no blogviajeiro. Agora só falta incluir espaço para comentários e outros detalhes. Mas isso vai ficar para depois (rsrsrs). Pra sábado que vem! Enquanto isso....




Equipe do blogviajeiro
Foto: tia Ni

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Tantos

Trilha alternativa: Velvet Underground em Pale blue eyes (Gracias Betinho! Natal 2005)

Fui atrás do fio da meada. Para encontrá-lo é preciso pescar a palavra certa. A palavra chave. O enter que nos abre novos significados. Outro dia, meu pai me contou que sonhou com palavras. Olha que estranho. Sonhar com palavras. Já sonhei com números. Acordei de madrugada e vaguei pela casa atrás de lápis e papel. Anotei-os rapidamente e voltei a dormir. No dia seguinte esqueci de jogá-los na sena, depois conferi, por puro masoquismo. Não deu nada. Ótimo! Economizei um real para o Lorivaldo. Sonhei com números, mas ainda não tinha sonhado com palavras.

Meu pai sonhou com duas bem estranhas, tanto quanto o sonho. Paralaxe, que quer dizer deslocamento aparente de um objeto quando se muda o ponto de observação e azimute, ângulo medido no plano horizontal entre o meridiano do lugar do observador e o plano vertical que contém o plano observado. A primeira, ele já conhecia, pois entende um pouco de fotografia, onde paralaxe representa o ajuste entre a imagem vista no visor e aquela captada pela lente. A outra, ele tinha alguma idéia, mas não tinha certeza. O estranho é isso. Duas palavras tão pouco usuais e com significados tão semelhantes, tudo num sonho só. Mas essas não são as minhas palavras chaves. São dele. O que significam, só ele mesmo poderá desvendar.

Depois dessa conversa, sonhei pela primeira vez com uma palavra: formidável! Essa foi a palavra, não o sonho. Até sei porque sonhei com ela. Além da motivação da conversa com meu pai, nesses últimos dias estive envolvida na remontagem da exposição de JK, que apresentamos originalmente em setembro de 2002, data de comemoração do centenário do seu nascimento. Na exposição, incluimos uma frase de JK que eu adoro. Ele comentava o trabalho de Niemeyer e dizia: Esse negócio de rampas é formidável! Acho essa frase fantástica. Ela transmite todo o entusiasmo que JK tinha pelo novo e é uma frase contagiante, tanto quanto o seu entusiasmo.

Fiquei pensando se a minha palavra chave seria essa: formidável! Eu bem que gostaria. Mas não senti o click. Não encaixou com outras que tinha na gaveta. Ficou solta, fora da meada. Fechei os olhos e tentei me lembrar do sonho novamente. Não teriam outras palavras rondando essa que gosto de repetir? E me lembrei, bem vagamente, que no sonho alguém - alguém que sabia ser eu mesma – disse, logo depois de ouvir a deliciosa formidável, duas outras palavras que não me chamaram atenção no primeiro momento, mas que agora me são mais expressivas. Esse alguém que eu sou ou que era eu disse: vim ver. Foi isso que disse. Ou pensei dizer? Sei lá.

Mas essas sim, me pareceram ser palavras chaves: vim ver. Ao repeti-las, consegui ainda reduzi-las a uma só palavra e única: viver. Todas duas versões me deixaram satisfeitas, tanto quanto me deixaria exultante, se meu enter fosse formidável que, na minha tradução, quer dizer: uma forma notável. Uma forma que não passa desapercebida. Que não pode deixar de ser vista ou, melhor, uma forma que veio para ser vista. Essa é a terceira versão que acabo de inventar. Vim ver o que está aí para ser visto. O formidável! Assim já tenho três palavras chaves. Adoro opções, porque me perco na escolha e sempre descubro outras possibilidades ainda mais interessantes.

Desvendado o mistério, saí para ver. E vi no site no mínimo um livro de alguém, acho que é Ricardo Neves, que se encaixa como luva nas minhas palavras chaves. O livro chama-se Pegando no tranco: o Brasil do jeito que você nunca pensou. Entre outras coisas ele liquidificou as estatísticas sobre miséria no Brasil e provou que somos bem menos pobres do que dizem os homens de boa vontade. Vou ver esse livro. Mais que isso, se der, vou ler esse livro.

Fiquei pensando que temos mesmo mania de sofrimento. Antigamente, disso eu me lembro muito bem, era super chique, até charmoso mesmo, ficar na fossa. Assim, meio triste, meio descrente, desiludido. Aí, essa moda passou. Depois veio o PT e inventou esse negócio de que não precisávamos ter medo de ser feliz. E pegou. Mas no acostamento, vigorava outra moda, que já vinha de um bom tempo e já tinha feito escola, que ditava para sermos felizes, mas lembrando sempre do nosso miserê. E aí lá íamos nós, carregando nossas bandeiras, cantando e dançando, rindo e gritando: somos tantos milhões de miseráveis, tantos milhões de analfabetos, tantos milhões de natimortos, tantos milhões de desempregados, tantos milhões de fora da escola, tantos milhões de tuberculosos, tantos milhões de sem-terra, tantos milhões de sem-teto, tantos e tantos e tantos....

Mas agora, pegando no tranco, quem sabe não somos tantos assim em tantas coisas quanto acreditávamos que fôssemos? Vou ver, vou ver. E olha só como palavra chave ajuda. Vou sugerir essa para o Paulo Coelho. Hehehehe. Na segunda-feira, estava lendo um artigo do jornalista Carlos Alberto Sardenberg que discutia exatamente sobre o nosso parco salário mínimo. Não sei onde pus o recorte, mas o artigo deve estar disponível por aí, na internet. Então, falava do nosso salário mínimo, tão mísero para quem recebe e tão caro para quem paga. Mas olha só, ele viu o que eu não tinha visto ainda. Ele comparou o nosso salário mínimo com o PIB per capita do Brasil e depois fez o mesmo com o salário mínimo dos Estados Unidos e o PIB per capita dos americanos. E sabe o resultado? Nessa relação, o Brasil conseguiu um indicador bem melhor que o de bush! Huahuahuahua. Parece que Ricardo Neves tem razão!

Vi também, por sugestão da CBN, as fotos dos haitianos votando. Uma foto é formidável! Um mundo de gente com títulos de eleitor nas mãos, balançando-os no ar como bandeiras! Acho que vou procurar meu título, que escondi não sei onde, para não ficar tentada a usá-lo neste ano. Pensando bem, é muito melhor usá-lo. E balançá-lo no ar, como fizeram os haitianos!

Então. Já vou indo. Vou ver. Volver, para ir vendo. Vivendo.

Belas vistas para todos!

sábado, fevereiro 04, 2006

O MAC e as mamonas assassinas

Ói só! Não ia nem tocar neste assunto, porque faz parte daqueles que estão na caixinha, trancados a sete chaves. Mas num guento. Tô sabendo. Ouvi na CBN que a cúpula do partido só dá baulistas está melindrada por conta da lista de Furnas. Ói só! O povo, nem tomamos mais conhecimento dessa história. Generalizamos, lá pelo final de meados de 2005, e tudo se banalizou desde então.

Agora, para sair dessa barafunda, não vejo outra alternativa. Vamos ter de solicitar ao Tribunal Superior Eleitoral um MAC Emergencial para os partidos políticos. O MAC é um Mecanismo de Adaptação Competitiva que os argentinos empurraram goela abaixo dos brasileiros. Pode parecer estranho, mas acho justo. O que os carros brasileiros estão fazendo com os argentinos é uma maldade. Vocês já devem conhecer essa, porque está rolando por aí faz tempo, mas não vou transcrevê-la porque, apesar de bonitinha, é muito politicamente incorreta e não vou cair nessa depois de Maomé, né?

Mas voltando ao MAC Emergencial, a solução é o TSE acionar esse mecanismo para dar aos partidos um novo tempo de adaptação às regras da competição eleitoral. Se formos deixar a carruagem andar no ritmo que lá vai, essa eleição será reduzida à trocas de chumbo grosso e não vamos conseguir discutir um projeto para o país, que é o que estamos urgindo. Depois suspende o MAC Emergencial e retoma as investigações. Enquanto isso, deixa as urnas darem o troco.

Essa também não é uma idéia politicamente muito correta. Tô sabendo, mas é que essa história não tem fim e conheço bem esse tipo de literatura, a gente sempre acaba voltando ao começo. É igual filme emendado. Não termina. E nós precisamos andar.

Falando em andar, e o Requião, hem? Queria comer mamonas?! Tô boba. Vai dizer que nunca fez guerra de mamonas na infância? Nunca entrou em lote vago para catar munição? Jisuis! Por aqui, mamona é praga. Dá à tôa, em qualquer terreno baldio. E a maior diversão dos meninos era fazer guerra com as bolinhas de espinhos da mamona. Já catei mamona até pros meus meninos. Só que eles fizeram suas guerras na escola, não no meio da rua, né? Era atividade de educação física: jogos e brincadeiras antigas. Huahuahua. Mas ninguém comia mamona, nem meus meninos, porque sabíamos: mamona tem toxinas! Huahuahua.

No mais, bolinhas de mamonas para todos. Vai que amanhã a gente precise.
Vou fazer uma revisão no teclado do computador. Perdi o fio da meada.

Durmam com os anjinhos.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Nem tudo que cai no chão é lixo


Ilustração: Google!
Photoshop: eu mesma

Esse era o título de um ensaio fotográfico, publicado em um dos primeiros números do jornal De Fato, que circulou em Belo Horizonte em meados dos anos 70. Desde que passei os olhos naquela foto-reportagem, não consigo mais andar pela cidade sem pensar de novo e sempre nessa frase: nem tudo que cai no chão é lixo.

Agora, ainda nesta semana, estava ouvindo o noticiário e, mais uma vez, ela me veio à cabeça. Perdi a graça completamente. O povo está pirando de vez ou a vida é que está mesmo, de fato, esvaziada de qualquer significado? Olha que já vi muita coisa danada pelas calçadas de Belo Horizonte. Quando era pequena, ou melhor, menina, já que não posso dizer que cresci muito daquele tempo pra cá; mas quando era menina, me impressionava muito as calçadas das ruas Tamoios com São Paulo e avenida Amazonas.

Nesse entroncamento de ruas, ficavam expostas todas as nossas feridas. A pobreza, os velhos abandonados, crianças catarrentas, mulheres descabeladas e toda sorte do que hoje chamamos de excluídos. Era um alívio para os pecadores, que encontravam ali uma boa oportunidade para reduzir suas penas, distribuindo esmolas a torto e a direito. Era um prato cheio também para os sádicos, que passavam por lá para tripudiar das dores alheias.

E me impressionava, particularmente, um senhor já de idade, que tinha vaga cativa bem na virada da rua São Paulo com Amazonas, entrando para a Tamoios. Ele não se contentava de apenas ficar ali, com sua caneca de alumínio, pronta para receber um donativo. Expunha aos nossos olhos distraídos uma enorme ferida na perna, que estava sempre aberta. Um dia, alguém me disse que aquele pobre era uma farsa. A ferida dele era um bife de contra-filet que, com habilidade artística, ele colava em sua perna. Como as mulheres, que se enfeitavam para ir ao Centro, ele se maquiava todos os dias, antes de descer para a luta.

Fiquei mais impressionada ainda. Um bife de contra-filet! Me lembro que ainda voltei àquela esquina algumas vezes para tentar confirmar essa versão. Mas toda vez, quando chegava perto do tal sujeito, não tinha coragem de olhar para a perna pestilenta. Na verdade, ele tinha uma estratégia bem eficaz para desviar nossa atenção. Assim que alguém se aproximava dele, e isso eu vi, ele começava a gemer, a falar, a contar sua triste história e a balançar a canequinha de alumínio, fazendo as pratinhas tilitarem na lata. Aí nossos olhos logo se desviavam da perna para os olhos dele. Nessa hora, meu espírito cristão sempre falava mais alto e ele levava mais algumas das minhas moedas para o seu cofrinho. Nunca consegui saber se ele era um pobre coitado ou um coitado danado de esperto.

Já cansei de ver também muito bebum amanhecer nas calçadas da cidade. Encharcavam a cara à noite inteira e, de repente, pumba!, ali caiam, ali ficavam. Já gastei tempo pensando neles também. Por que bebem tanto? Será que é por amor? Ou desamor? Será que é desespero? Destempero? Loucura? Teve uma madrugada, que um desses bateu o interfone lá em casa. Cheguei! Abre aí pai! É o Zé Mário. Qui Zé Mário, siô? E não tinha quem convencesse o rapaz que ali não era a casa dele. Foi assim até o amanhecer, quando ele, cansado, evidentemente, mas convicto de que estava em casa, deitou e dormiu ali mesmo, em frente ao portão da garagem. Tem isso.

Mas agora, parece que as coisas estão fora de controle. Outro dia, ouvi na CBN que os pobres de São Paulo cansaram de esperar ajuda. Também ninguém mais abre a carteira na rua, para tirar dinheiro, com medo de ser assaltado. Então, eles estão se virando como podem, fazendo das calçadas terreno baldio, onde constróem suas casas e criam suas famílias. Mas estes ainda sonham com a vida. Ainda não viraram lixo.

Então. O que me fez pensar naquela frase outras vez, foram as crianças abandonadas dentro de sacos de lixo, como se lixo fossem. Não usaram esse recurso como uma estratégia de sobrevivência. Não foram parar ali por amor, desamor ou qualquer outro tipo de desilusão. Não escolheram a rua para exibir suas tragédias. Foram postas. Dispensadas, despejadas, deletadas. Parece que a vida tornou-se um bem descartável. Está adquirindo um valor virtual, que você pode apagar sem qualquer remorso, pois não vale mesmo nada num universo paralelo. Virou um produto qualquer e, pior, está sobrando na prateleira. Será que não tá na hora de nos desconectarmos e cairmos na real? Queria pensar nessas crianças, mas, sinceramente, não dou conta.

Inté!

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Estão no ar

A série Pôr do Sol, como prometi


Um dia se foi...
Foto: Minha


E outro dia
Foto: Rafael


E mais um
Foto: Daniel




E outro mais
Fotos: Minhas

A série da lua, que estou só começando...



Quando Ismália enlouqueceu, pôs-se na torre a sonhar...viu uma lua no céu, viu outra lua no mar. (Alphonsus de Guimaraens)
Foto: Minha (tinha outra melhor, mas é vertical e está de cabeça pra baixo. Não consegui inverter. Quando conseguir, posto também. Rsrsrs.. Consegui!)

E o blogviajeiro, tan naamm!
Tentei colar o endereço aqui, mas não consegui. Quem quiser nos visitar pode usar o atalho que tem aqui nessa praça. É só entrar no perfil e lá vai ter uma porta para o blogviajeiro

Advertência: As fotos aqui publicadas são todas originais e não agregam nenhum recurso de photoshop ou de que programa for! Não aceite imitações! Exija sempre as legítimas! Não descoram, não soltam a tinta e não engordam!

Boa viagem!
Divirtam-se, sem moderação (hehehe).

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Deu branco

Voltei à vida escrava. Caí na lida. Doer não doeu, mas que deu vontade de estapear alguém quando o despertador tocou, isso deu. Que vale é que a gente se acostuma com tudo na vida. Daqui há pouco já vou estar me levantando antes do alarme disparar. Até lá, começo o dia com a sensação de que estou perdendo tempo. Fico só correndo atrás do prejuízo até chegar a hora de deitar novamente.

Mas isso nem é o que pega mesmo. O que me deixa com ar de isaura é ter de voltar a carregar a tralha na bolsa. Crachá, carteira de motorista, agenda, canetas, canetas, canetas, caderneta de anotações (vai que eu penso alguma coisa!), chaves, chaves, radinho de pilha (huahuahua!!), escova de cabelo, espelho e tudo mais que cabe dentro de uma bolsa.

Minha amiga levava até uma lanterna, para ajudá-la a encontrar as coisas que ficavam perdidas dentro de sua bolsa. Ainda não cheguei a esse ponto, mas quando fiz o check-list, já na véspera de voltar ao trabalho, confesso que encontrei dentro da minha bolsa uma lista de presente de natal de 2004, um convite para exposição de fotografias no Museu Abílio Barreto, que aconteceu no início de 2005 e até um pedaço de placa de computador tinha lá dentro. Foi o Dani que me pediu para guardar, acho que no início do ano passado também, não sei pra quê. E eu guardei, né?

Da lista de tralhas tinha eliminado o celular. No final de 2004, um pivete quebrou o vidro do carro para tirar o aparelho que estava esquecido no banco de passageiro. Deu um prejuízo razoável e, pior, uma trabalheira do cão. Além de ter de procurar uma oficina para substituir o vidro quebrado, tive de fazer contato com a telefônica para cancelar o número do meu aparelho. O máximo que consegui, depois de idas e vindas num posto policial e numa das lojas da empresa, foi bloquear o número, mas até hoje continuo pagando R$ 12,50 por mês para manter o tal número. Já tentei de tudo para cancelar essa cobrança também, mas desisti.

Desde então decidi que não ia mais usar celular. Não ia comprar outro aparelho, para pivete me roubar. Boicote aos ladrões de celular! Mas querer não é poder, como diz o Rafa e, por isso, reinclui na lista de tralhas o celular sequestrado do Cláudio. Mas uso o telefone com muita parcimônia. Além de ter uma certa birra desse negócio, de qualquer pessoa me encontrar em qualquer lugar a qualquer hora do dia ou da noite, eu tenho medo de celular. Estou no grupo daqueles que acham que celular dá câncer na cabeça. Se usado sem disciplina, né? Também não sou tosca desse tanto.

Agora, tenho mais uma boa desculpa. Os ingleses, sempre eles, descobriram que celular vicia. Já estou penando para me livrar do único vício que alimento, o cigarro, não vou querer mais um, concorda? Então, olha só, a pesquisa foi conduzida pelo especialista em vício do Hospital Priory de Southampton, do Sul da Inglaterra, David Nott. Ele ouviu duas mil pessoas e 90% (!) delas disseram que não conseguiam deixar de consultar seu celular pelo menos uma vez por hora. Vichi! Eu não fumo um cigarro por hora! Nunca! Meu vício é bem mais light, são cinco ou seis por dia, no máximo!

Tô é boba! Eles não são viciados, são doidos! Também são ingleses, né? Quatro a cada cinco pessoas disseram que chegam a se sentir mal quando percebem que o celular está fora de alcance e que não poderão tê-lo em mão rapidamente. E como reagiriam se tivessem de ir para um fim de mundo, que por aqui fica sempre bem perto de nós, e o celular ficasse sem serviço? Piravam.

E tem mais. Para 60% dos entrevistados, perder o celular é pior do que perder a carteira ou as chaves de casa. As chaves de casa! Êita nóis! Nunca perdi as chaves de casa, mas se perdesse ficaria paranóica. E se um pivete as encontrasse e se descobrisse meu endereço e se entrasse na minha casa e se prendesse a minha família no banheiro e se e se e se....

Bom, desse vício estou livre. Só uso celular dos outros e, por isso, não crio dependência. Eu acho. Mas a matéria que noticiou essa pesquisa trouxe outra informação que enfraquece a minha posição. Pesquisa, também de uma universidade inglesa, demonstrou que não existe relação entre o uso de celular e o risco de tumor no cérebro. Ainda bem, né? De qualquer forma, vamos aguardar um próximo estudo, poderá trazer conclusões diferentes. Esses cientistas custam a entrar num acordo.

Ai, ai. Isso é que é falta de assunto, né? Desde que voltei para labuta, me deu um branco. Estou sentindo falta das pilhas de jornais velhos que mantinha no escritório. Dei tudo pro Lorivaldo, morador de rua e catador de papel que, toda manhã, passa aqui em casa para tomar café. Eu me alimentava de notícias velhas. O distanciamento crítico dos fatos me inspirava. Agora estou sem munição.

Estou meio paralisada também com essa história de dois blogs. Acho que não vou dar conta. Paro para pensar e lá vem a dúvida. Vou pensar para qual blog? Vou pensar isso ou aquilo? O que é mais urgente? São tantas perguntas que começam a pinicar minha cabeça que desisto e vou lavar prato, ver televisão, arrumar gaveta, assistir uma comédia para prevenir cardiopatias (rsrsrs), estudar mandarim, não fazer nada. Ai ai, acho que isso vai passar. Espero.

Pensamentos coloridos para todos.
Me liguem! Tenho medo de celular, mas falo no telefone direitinho e, às vezes, até gosto!

PS: Nesse final de semana acho que vou conseguir postar no Viajeiro. Já conversei com o Dani e com o Artur e estamos com um texto pronto na cabeça. Vou ver se passo pro papel! Depois para o word, depois para o blogger, depois pro blog e assim por diante.

sábado, janeiro 21, 2006

O armário de Evo Morales

Meninas, voltei! Mas ainda estou fora do ar. Nestes últimos dois dias estou por conta de fazer o que havia me prometido no final do ano passado: a limpa! Só que, até agora, consegui arrumar apenas um mísero armário e me desfazer de apenas duas ou três sacolas de inutilidades. Na maioria roupas, as quais não tenho o menor apego. Mas arrumar armário é mais do que esvaziá-lo de roupas que não nos servem mais. É uma tarefa árdua, silenciosa e, no mais das vezes, solitária. Exige paciência e, mais que tudo, desprendimento.

Mas é impossível revirar nossas lembranças de olhos fechados e jogar tudo fora como se fosse lixo. No máximo, o que consigo, a duras penas, é me desvencilhar, pouco a pouco, de alguns, apenas alguns objetos que encontro no fundo de gavetas ou prateleiras. Dentro de caixas que estão dentro de outras caixas, escondidas atrás de mais caixas, no alto do maleiro. Apenas alguns. Aqueles que já deletamos de nossas histórias.

E não sem antes avaliar cuidadosamente o seu real significado. É tarefa para mais de dias. Uma caixinha de fósforos fiat lux vazia! O que pode ser uma caixinha de fósforos embrulhada num papel fantasia verde, com um losango amarelo no meio e um pedaço de palito colado com durex num de seus lados? Heemm? Definitivamente não é uma caixinha vazia de fósforos. Seria óbvio demais.

Claro, né gente! Aquela caixinha é ninguém mais e ninguém menos que Taffarel! Pois então, o goleiro da seleção brasileira de 98, mais tarde escalado para também defender o gol de Rafadani, num campeonato de futebol de botões. Isso foi no aniversário de seis anos do Rafael. Tudo bem, o Rafadani nem teve um desempenho assim muito brilhante. Talvez, e talvez com certeza, nem tenha se classificado para as semifinais. Mas o time representava a civilização de Rafaenglalândia, que sobreviveu por longos cinco anos nas fantásticas viagens de Rafael.

Como vocês podem perceber, ele nunca se contentou com pouco. Toda criança tem um amigo invisível. É com ele que dividem seus medos, angústias e ansiedades, além das brincadeiras. Dani tinha o Leinad, que vivia atrás do espelho e um dia foi embora, escapando por um cano do esgoto. Rafael tinha uma civilização inteira. Com deuses, imperadores, guerreiros, inimigos, manifestações culturais próprias, além de fauna e flora bem caracterizadas. Tudo documentado em mapas, desenhos e histórias que estão bem guardadas em outro armário.

Portanto, aquela não era uma simples caixa de fósforos vazia, pronta para ir pro lixo. É patrimônio de Rafaenglalândia, que deve ser preservado junto com outros registros desta civilização, pois fazem parte da história verdadeira de Rafael. Aliás, é ele quem futuramente deverá decidir sobre o que vai ou não para o lixo. O que pode ou não escapar pelo cano do esgoto. Ou o que precisa ser guardado, para que ele se reconheça, quando já tiver mudado de fase. O que ficará, como se fosse uma carteira de identidade ou o seu passaporte para percorrer a longa estrada da vida.

Pelo menos é assim que eu penso. Por isso também guardo a minha caixa com um monte de clips enferrujados, rótulos de garrafas de cerveja, pedaços de frases escritas em guardanapos de papel, cacos de vidro coloridos, fitinhas, cartõezinhos, santinhos, recortes de jornais, bottons (Quero votar para presidente! - vocês se lembram? hehehe) e outras bugigangas que parecem lixo. Mas só parecem.

Então. Estava nessa missão ingrata, de deletar arquivos alheios, e sem querer me lembrei de Evo Morales. Sem querer, não. Fui provocada. No meio dessa mexida, encontrei uma boneca de pano, que meu irmão me daria se tivesse voltado de Cochabomba (com ó mesmo!). Uma boneca que deve ter sido feita por uma índia quíchua ou aimará. E ela me fez lembrar de muitas coisas, porque uma história puxa outra. Me fez lembrar inclusive de Evo Morales e sua chompa. A Folha de São Paulo, na última edição de sábado, dedicou quase uma página do jornal para comentar a chompa de Evo e falar de como essa blusa de lã está virando moda na Europa. Tinha coisa mais importante pra dizer, não é não? Mas, vá lá, moda também é cultura.

Aí, fiquei pensando que Evo Morales não deve ter usado a sua velha chompa listrada só de charme, para criar uma nova tendência nas coleções de inverno. Evo está é remexendo o armário que guarda a história do povo boliviano. A sua história. Está tirando de dentro das caixas, que se escondem dentro de outras caixas e de outras e de outras as lembranças, os sonhos, as esperanças, as histórias vividas e inventadas de 70% dos 9,2 milhões de bolivianos.

Filhos, netos, bisnetos, tetranetos de quíchuas e aimarás que, até ontem, inexistiam sob o domínio de uma minoria. Claro, minoria descendente de europeus-ibéricos brancos que ocuparam a região por volta do século XVI. Não é um novo tipo de preconceito, como diz Vargas Llosa. Isso é fato. Fazer o quê? Pensem bem, 70% de sobreviventes, que é o que são, também de fato, pois só vamos encontrá-los lá, abaixo da linha da pobreza, onde estão resistindo estes anos todos. Dá-lhe Almanaque Abril! (rsrsrs).

Evo está, portanto, remexendo sua história. São retalhos que, rejuntados e bem costurados, vão revelar a identidade do seu povo. Um povo que, solenemente, também nós fizemos questão de ignorar. Missão árdua essa! Terão de decidir sozinhos sobre o que vai ou não para o lixo, o que pode ou não escapar pelo cano do esgoto, o que deve ou não ser deletado. E o que precisa ser preservado, para que nele se reconheçam. É fácil?

Então, fiquei pensando que Evo Morales não está mesmo fazendo moda. Isto está claro que não. O que ele está buscando é construir um sentido coletivo de futuro para 70% dos bolivianos, como diria Bernardo Toro. Um sentido que ajude esse povo tornar-se uma nação para não continuar sendo meramente um território habitado.

Uma chompa listrada bem quentinha pra vocês. Ainda devemos ter muitos invernos pela frente. Temo que sim.

PS: Meninas, adorei a visita. Vou postar novas fotos um dia desses. Tenho uma série só de pôr do sol (rsrsrs). Maick, fui lá no opastrame conferir. Adorei! Aproveitei para pôr a leitura em dia. Foi uma tarde inteira. Valeu! Todos, estamos terminando de montar a equipe do novo blog. Queria que estivesse pronta para amanhã, mas não será possível. De qualquer forma, aguardem-nos!

terça-feira, janeiro 10, 2006

Fotoblog

Ainda das areias escaldantes da costa brasileira. Daqui de onde nem penso. Só olho, com meus olhos e com os olhos da sony cyber shot do Daniel. Pesquei alguns instantes de luz, de sol e de mar. Olha só!

Aprecie. Com moderação (rsrsrs!)



Ano Um chegou!
Foto: Tira a mão que são minhas!



O dia chegando de mansinho...

Foto: Minha também



A brisa do mar, para variar...
Foto: minha ainda.

Meu tempo está acabando. Só mais uma, para encerrar.



O sol indo embora.
Foto: Minha também.

O pôr do sol. Já estou quase me cansando de, todo os dias, parar para ver o sol se pôr, na beira do mar. Ai ai, que vida difícil, hem?

O computador está dando pau. Amanhã volto para arrumar.

Um vento salgado e um calor de sol para todos.

sábado, janeiro 07, 2006

Babel ambulante

E nisso já estamos em pleno 2006. Ói procê vê! E ainda das terras litorâneas. Daqui, de onde tentamos tapiar o tempo. Se ainda fosse possível. Não é mais. O delírio ambulante dos adolescentes divide as horas num ritmo alucinante. Eles chegam e vão e voltam e tornam a vazar o tempo todo.

Estão por aqui e querem ir logo ali, onde o mar tem mais onda. Estão por lá e querem vir pra cá, onde o mar é mais azul. Estão por perto e já estão saindo, porque essa noite vão bombar até amanhã. Estão no meio da muvuca e querem distância. Principalmente das xícaras e panelas que batem na pia. Querem sossego para não despertarem do tédio aborrecente que alimenta suas almas de rebeldes sem causa. E vai acompanhar essa turma!

Nisso, o dia passa num estalar de dedos. Nisso, bate uma onda e afunda meus pés na areia. Me deixo parar onde estou. E, enquanto fico, escuto vozes que caminham pelo vento. Sopra um brother, depois um hermano e voam consoantes indecifráveis e is e us que também não localizo de onde. Cruzes! Deve ser o tal do mundo globalizado. Ou o delírio ambulante virou epidemia e contagiou todos nós. E vão que vão!

Nisso, três pirralhos nativos despencam na água e esparramam onda pra tudo quanto é lado. Argh! Definitivamente, argh! Não vou me esforçar pra pensar.

Nisso, bate um vento contra o mar. Escuto um zezinho berrando bonés da Copa! Prefiro camarões à dorê! Brasil já virou hexa no marketing apressado do vendedor descalço. Merecer até que merece, né? Mas prefiro esperar pra torcer. Cê bobo? O Brasil vai à luta com a legião estrangeira. Vai que na hora do vamuvê a turma não se entrosa? Hem?

Não estou agourando, só exercitando 50% da minha desconfiança. Já faz tempo que os jogadores brasileiros foram atacados pelo delírio ambulante. Estão espalhados por todo canto do planeta. Se hoje você for na Moldávia, vai encontrar alguém falando português por lá. Se for no Cazaquistão, vai trombar com um mano desses também. Na Estônia, fácil, fácil. Omã idem e por aí afora tudo, até onde sua vista desejar. São milhares com o pé na estrada. No ano passado, saíram 878 atletas para tentar à sorte nesse mundão. Em 2004, 857. É só ir somando.

Mas nisso, de repente, eles têm de estar juntos de novo, como nos velhos tempos. Todos no mesmo lado do campo. E vai que eles não se reconheçam mais? Bobagem. É o que passa pela minha cabeça nesse agorinha mesmo.

Nisso, bate outra onda e solta meus pés. Saio andando e pensando. Como Leminsk. No andar. Não no pensar, que sei dos meus limites. Prinicpalmente na areia. E penso que não vai ser por falta de time que vamos deixar de torcer nessa Copa. Se a seleção internacional brasileira não der conta do recado, teremos pelo menos mais quatro ou cinco motivos para continuar ali, na labuta.

Acho que foi isso que ouvi na CBN dia desses. Agora, além de jogadores, exportamos técnicos também. Quatro ou cinco deles estarão dirigindo seleções adversárias nessa Copa de 2006. Tô me lembrando do Japão, de Portugal e de Costa Rica. Mas tem mais. Tá tudo dominado. Pode dar Brasil de um jeito ou de outro.

Na arquibancada, com certeza. Lá já somos vice antes de entrarmos em campo. Li outro dia, não sei onde, que o português é a segunda língua da Copa. Em primeiro, claro, está o inglês, com 378,5 milhões de torcedores. Isso muito por conta dos EUA. Eles bem que estão se esforçando pra entrar nesse mercado. Daniel já perdeu três colegas de sala por culpa desse esforço. Eles ganharam uma bolsa do Colégio Americano só porque são bons de bola. Dá pra nós? E lá a mensalidade é equivalente à renda de uma família de classe média. Média média ou baixa, não entendo o IBGE, mas média.Tudo bem, eles podem ganhar o torneio interescolar, mas a Copa, péra lá, né?

Então, se excluíssemos dessa panelinha os EUA, o português assumiria uma liderança inquestionável. Somos 205,9 milhões de torcedores fanáticos, gritando gol, gol, gol, gol!, golo, golo, golo! ou teto, teto, teto!, dependendo do sotaque.

Nisso, fui pensando, poderíamos melhorar ainda mais nossa performance, se incluíssemos o portunhol nessa babel esportiva. Ainda preferimos ficar de frente pro mar, esperando os velhos e mesmos descobridores predadores. Mas, desconfiados, já estamos olhando também pras montanhas. E se abrirmos as porteiras para a América Latina, o portunhol ganharia status de dialeto rapidim. Só está faltando uma forcinha, né? Aí seríamos 410 milhões redondos de torcedores gritando: gôle! gôle! gôle! Quê dyo espero sedjam todos do Brazili, cierto? hehehe.

Nisso, pensei bem, vou é pegar o meu boné da Copa já de uma vez.

Saudações verde-amarela e respingos de sol para todos!

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Papai Noel, saí da fila!

Olha só, Papai Noel, desisti. Enfrentei a fila do estacionamento com alguma impaciência, mas ainda tolerante. Enfrentei a fila da porta giratória fazendo piadinha para disfarçar o mau humor. Mas fila na pracinha do Papai Noel é demais pra mim! Desisti. Tinha até feito uma listinha de presentes. Pra mim e pra todos. Mas, ó, desisto!

E tem mais. Não é só por causa da fila não. Tô numa fase desconfiada. Tô achando que essa história de Papai Noel é propaganda enganosa. Foi o pai do meu bisavô que contou pro avô do meu pai, que confidenciou pro meu avô, que deu com a língua nos dentes pro meu pai e meu pai, que não guarda segredos, contou pra mim. É tudo lenda. Mas, como já vi o velhinho na tevê e achei-o até simpático, embora um pouco ingênuo, fiquei na dúvida. Agora estou mais é desconfiada. Tô achando que é mesmo conversa pra boi dormir.

E mais, estou adotando a simplicidade voluntária. Vou esvaziar os maleiros aqui de casa, jogar fora as caixas que estão amontoadas em cada quarto e as pilhas de jornais que estão se multiplicando no escritório. Ah, vou me desfazer também dos quilômetros de fios, conectores, placas e outros restos de computador que estão se acumulando num canto do armário do Daniel, para um dia serem reaproveitados num novo computador que ele um dia vai montar.

Os papéis velhos, contas quitadas, documentos antigos de carro que já nem tenho mais, apostilas de cursos vencidos, rascunhos de textos que nunca terminei, rascunhos de textos que terminei e ficaram uma droga, receitas médicas, crachás, contracheques do meu primeiro emprego, vai tudo pro lixo também. Só não jogo fora os desenhos dos meninos, mas um dia vão também, tenho certeza!

Vou criar espaços vazios. Tô precisando. Então, não vou cair mais nessa armadilha do Papai Noel. Quero nada! Só isso! Outra coisa. Também não quero amigo oculto em 2006. Quero um amigo presente. O ano inteiro. Daqueles da espécie para o que der e vier. Com um ombro bem largo e acolhedor. E que saiba olhar nos olhos quando precisar dizer a verdade. E com um coração bem grande, que possa ficar também à minha disposição, se eu precisar, né? Um sorriso farto, humor de sobra e doses e doses a mais de paciência. Enfim, perfeito! Só isso.

E vou fazer a tal faxina, nem que seja de olhos fechados, mas vou. Quero entrar 2006 mais leve, mais simples, menos enredada para seguir em frente. Vou mesmo. Vou fazer isso de todo ou de qualquer jeito. Quando voltar de férias, é claro! Iuhuuu! Na segunda já não precisaria mais trabalhar, mas vou ter de fazer uma concessão, para concluir tudo que assumi neste final de ano. Não me incomodo. Me odeio quando deixo as coisas pela metade. Mas, a partir de terça estou fora e de quarta, de volta ao paraíso tropical.

Lá, como já disse, é difícil pensar em qualquer coisa. Além do mais, estou levando três livros que pretendo ler até o final e, portanto, vão ocupar boa parte do meu tempo. Mas se tiver uma recaída, não tenham dúvida, entro na fila da lan house e disputo um computador até a tapa com o bando de adolescentes que fica por ali, na beira da bancada, voando e zoando até chegar sua vez. Ou dou outro jeito, que sempre tem.

Temos também outros planos para 2006. Daniel me fez uma proposta irrecusável. Ele tirou do fundo do baú um projeto antigo que iniciamos, lá pelos idos de 2002. Dani estava com 12 anos e já dominava os mares da internet. Juntos montamos o seu primeiro site: Viajeiros. Pretendia ser uma comunidade latino americana de mochileiros. Ficou lindo! Só que não conseguimos alimentá-lo de conteúdo. Eu não tinha tempo, disposição e inspiração. Ele não tinha paciência, experiência e controle da gramática. Hoje continuamos do mesmo jeito, só que ficamos mais atrevidos.

Então, outro dia desses, enquanto descansava dos estudos prolongados, (a quem interessar possa, ele passou! ufa!) Daniel montou um novo blog, recuperando o velho Viajeiro. E já está no ar, só que sem posts ainda. Mais uma vez, vamos ficar na América Latina. Vai ser emocionante, pois já sei que teremos eleições em quase todos os países e muitas mudanças à vista. É isso que vamos acompanhar ao longo do ano e tentar entender. Tinha até pensado em uma coisa diferente. Ia fazer um outro blog, que se chamaria Preciso ir!, mas não resisti ao convite do Dani. Então, nessas férias teremos mais uma tarefa, fazer um intensivo sobre a América Latina para pegar o fio da meada.

É claro que não vou abandonar essa praça daqui, né? Vai que me dá vontade de pensar? Mas vou tentar me dividir entre um e outro. Isso se o Daniel não mudar de idéia, coisa que ele faz de três em três minutos. Se isso acontecer, volto com o Preciso ir!.

Bom, é isso moçada. Tô indo. Se bater uma onda, volto em 2006!

Que a força esteja com vocês! E, do lado, um amigo presente o ano inteiro!

O enterro da Barbie

Meu control c – control v estão travados. Dou um passo à frente, depois volto e repito. Hoje vou voltar à história das barbies. Hehehe. A Ruthinha encontrou o texto de Rubem Alves. Data de janeiro de 1994, já é adolescente, e chama-se justamente Barbie. Diferente do que imaginei, naquela época, as meninas ainda não manifestavam o seu ódio contra essa boneca anoréxica. Mas Rubem Alves já identificava, no seu texto, os primeiros sintomas desse comportamento. As meninas daquela época perdiam o medo de dormir sozinhas no escuro quando estavam abraçadinhas a seus bebezinhos ou ursinhos de pelúcia, mas nunca com uma de suas barbies.

Isso, porque as barbies, sempre para Alves, não são bonecas, mas bruxas. Enfeitiçavam as meninas que, dominadas, passavam a pensar e fazer tudo aquilo que a lourinha magricela pudesse desejar. E Alves foi pensar sobre isso junto com Alvim Toffler, que no seu livro O choque do futuro, no capítulo A sociedade do joga-fora, começava sua reflexão justamente citando as barbies. Bem antes de 94, em 1971, já haviam 12 milhões de barbies circulando pelo mundo. Passados mais de 30 anos e ignorando qualquer movimento de crescimento, podemos dizer, sem medo de errar, que esse número hoje já deve estar próximo de 40 milhões!

É um universo paralelo mesmo! E o que Rubem Alves observa é mesmo aquilo que citamos. O segredo de sucesso da frágil bonequinha é que ela está sempre incompleta. Já vem com uma pitada de infelicidade, como diz o autor. E aí vai o pai ou a mãe comprar o que, imaginam, preencherá esse vazio: o carrinho da Barbie, a moto da Barbie, o guarda-roupa da Barbie e assim por diante. Só que isso, já sabemos, não é suficiente, pois se não existir mais nada na prateleira, os criadores de barbies tratarão logo de inventar mais um acessório que se tornará o mais novo sonho de consumo das meninas.

Além da frustração, Rubem Alves chama atenção para um outro sintoma importante, fundamental para entendermos a origem desse ódio mortal das inglesinhas contemporâneas. Nesse universo barbiano, as meninas descobrem um novo sentimento nada nada agradável para quem está sentindo: a inveja. Pois fulana tem o carrinho da Barbie e ela não tem. Sicrana tem o aviãozinho da Barbie e ela não tem. Eu tenho, você não tem! Hehehehe, a senha para despertar esse monstrinho que tentamos manter sempre trancafiados dentro de nós, porque ele faz muito mal mesmo.

É por isso que, no final do seu texto, Rubem Alves propõe uma saída para esse labirinto em que estão perdidas as nossas meninas. Ele sugere aos fabricantes de Barbie um último e definitivo complemento para a bruxa de plástico: uma urna funerária! Uau! Ele foi radical mesmo. Não sei ainda se apoio essa proposta. Fico pensando que uma outra solução seria convocar os soldados de bush para enfrentar este grupo terrorista, que atua de um universo paralelo, formado por milhões e milhões de barbies! Talvez bush tivesse mais sucesso nessa missão!

Uma beijoca para todos. Essas são da paz!

terça-feira, dezembro 20, 2005

Admito, eu odeio também!

Não tem jeito. Olhem que tenho me esforçado pra valer para me tornar uma pessoa assim, tipo bem séria mesmo. Bem do jeito que todo mundo me vê ou, se não todo mundo, pelo menos o meu amigo oculto das festas de final de ano. Foi assim que ele me descreveu para os demais convidados. Estou incorporando esse espírito nas mínimas coisas. Mas, aí vem os loucos dos ingleses e me tiram do sério novamente. Dãrw.

Olhem só, não é brincadeira. Pesquisadores da Universidade de Bath observaram, por um longo período, crianças de 7 a 11 anos, com o objetivo de analisar a influência das marcas nas suas vidas. Mas a pesquisa acabou sofrendo um desvio de foco, quando os acadêmicos começaram a investigar o comportamento das meninas com suas doces bonecas Barbies.

As meninas, ao invés de se divertirem com as lindas amiguinhas, levando-as para fazer feira, cuidar da casa, passear no parque e outras invencionices que nascem na cabeça de qualquer criança, elas transformaram suas loucas Barbies em objeto de tortura. Viram? Pasmem-se também! Os métodos de mutilação, segundo matéria que li no grande jornal dos mineiros, são variados e criativos, incluindo arrancar cabelos, decapitação e queimaduras.

Algumas bonecas são inclusive postas no microondas, mas, antes, têm suas pernas e braços removidos. Argh! Que horror! São as crianças inglesas, hem? Depois dizem que essa amizade de Tony Barbie com bush não tem problema, né? Os pesquisadores ficaram em pânico com esse comportamento. “Normalmente se espera que meninas adorem a Barbie, mas elas sentem é ódio” – disse abobalhada Agnes Naim, uma das pesquisadoras.

Os acadêmicos ingleses, envolvidos no projeto, estão atônitos! Não sabem de onde elas tiraram essa idéia. Uma psicóloga do grupo disse que é um rito de passagem, da infância para a adolescência. Mas, sinceramente, não me lembro de ter sentido nada disso em relação a nenhuma de minhas bonecas. Às vezes me desafazia de algumas delas, mas por absoluta indiferença, não por ódio. E uma, a preferida, claro, guardo até hoje! Também não me lembro de minhas amigas terem uma reação dessas. É muito esquisito. Será que elas estão vendo muita televisão, noticiário da guerra do Iraque, terremoto no Afeganistão, atentados no metrô de Londres, essas coisas banais que estão toda hora na tevê?

Acho que não. O ódio que elas sentem pela Barbie, pela caixa de barbies que todas têm, deve ter outra origem. Pode ser até um pouco de frustração. Nunca serão como essa magricela, de cintura fina, olhos azuis, cabelos lindamente longos e loiros e com roupas chiquerézimas! O que nos entristece - digo nós, mas nunca tive uma Barbie, embora, com certeza, já devo ter tido vontade de ter uma. Então, o que nos entristece, eu acho, é que Barbie nunca poderá ser verdadeiramente nossas filhas. Sua herança genética não está presente no sangue da maioria dos povos desse planeta. É um falso ideal. Abaixo essas bonecas horrorosas, magras, esqueléticas, idiotas, famintas, lindas, burras, famosas, encantadoras, fofoqueiras, fedorentas. burras, burras, burras...Ops! Acho que perdi o controle.

Mas acho que quem desvendou o mistério desse ódio gratuito pelas Barbies não foram esses pesquisadores ingleses, mas Rubem Alves. Segundo Ruthinha, ele tem um texto antigo que fala dessa rejeição natural que as meninas acabam nutrindo por essa boneca. Ter uma Barbie, no fundo, no fundo, é colecionar um mundo de frustrações, conforme explicou Rubem Alves. Porque não basta ter uma Barbie para ser feliz. É preciso ter as roupinhas da Barbie. Os sapatinhos da Barbie. A casinha da Barbie. O carro da Barbie. A moto da Barbie. O namorado da Barbie. O pianinho da Barbie. A sandalinha da Barbie. As bolsinhas da Barbie. O perfume da Barbie. As perucas da Barbie. O cachorrinho da Barbie. O avião da Barbie. As jóias da Barbie. O banheiro da Barbie. O parquinho da Barbie. O computador da Barbie. A escova de cabelo da Barbie. O fogãozinho da Barbie. O cavalinho da Barbie......infinitamente tudo e qualquer coisa da Barbie.

Não pode, né? Ninguém aguenta isso! Nem os pais, que têm de financiar esse universo paralelo chamado Barbie, nem as pobres meninas que nunca conseguem ser felizes com sua doce bonequinha, chamada Bibi.

Meninas! Atenção, meninas! Como diz o Rafa, não tentem fazer isso em casa. Tratem bem suas bonecas, se não Papai Noel não traz brinquedo novo, hem!

Escapei do trabalho um instante só, vocês perceberam, né? Mas não pude resistir. Esses ingleses me tiram do sério!

Até de repente!

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Olhos de caleidoscópio

Nada como uma hora depois da outra. Nada como uma onda mais mansa e silenciosa, depois de um mar de pensamentos incontrolável. Agorinha mesmo, enquanto esperava o forno esquentar para assar uns pães de queijo, passei os olhos no jornal que o Paulo me emprestou. Olhem só, vi um artigo que falava sobre os desafios do quadro eleitoral para 2006. Não olhava do mesmo lugar de onde olhei, mas de um outro ângulo, que me fez ver o mesmo que via antes, mas agora de um jeito bem diferente.

Gosto de ver o mundo com olhos de caleidoscópio. Cada movimento que você faz, por mínimo que seja, muda tudo na sua frente. Como é mesmo aquela frase? Um ponto de vista depende do ponto de onde você avista? É isso? Sei lá. O que sei é que você sempre pode olhar um ponto de vários pontos e, dependendo do ponto de onde você olha, o ponto se mostra de um jeito diferente. Acho que estou aumentando um ponto neste conto e vou acabar é embolando a linha.

Então, só para concluir o mar de pensamentos. O artigo que li agora, do jornalista Carlos Alberto Sardenberg, publicado no Estadão desta segunda, resume os processos eleitorais dos últimos anos, pós-redemocratização, e avalia os desafios para o pleito do ano que vem. Diferente do quadro de desânimo do eleitor que pintei para 2006, ele enxerga uma outra possibilidade.

Esgotadas as alternativas que tínhamos para exercitar com originalidade a alternância no poder, o que teremos pela frente agora é a opção de uma escolha mais madura. As forças políticas que estarão se enfrentando em 2006, já terão, todas elas, experimentado, de um jeito ou de outro, a dura batalha que é governar um país e aí, sem mais ilusões, estarão preparadas para um diálogo mais franco com seus eleitores. Pode não ser muito agradável, mas, quem sabe, permitirá um debate mais consistente sobre o país que queremos construir e nos fazer avançar a passos que se equivalem ao tamanho de nossas pernas. Sem megafantasias. Bom, pelo menos foi o que entendi.

É engraçado, mas nem sempre os sonhos, a esperança, a paixão são as melhores ferramentas mesmo para transformar o mundo, embora sejam imprenscindíveis em alguns momentos. Hoje mesmo nós falávamos sobre isso, quando avaliávamos nosso trabalho em 2005. E aqui também, quando fico pensando nas eleições do ano que vem, pode ser que o choque de realidade seja preferível aos encantamentos dos discursos vazios dos marqueteiros.

Inté, bons sonhos, mas durmam de olhos bem abertos!

domingo, dezembro 18, 2005

Somos todos suspeitos

Nem ia passar por aqui. Minha porção diária de sopa de letrinhas está temporariamente racionada e tudo que sei sobre o que se passa é só de ouvir falar. Também meu tempo para divagar foi drasticamente reduzido. Até o final do mês meu nome é só trabalho. Mas hoje, enquanto estava ali, adiantando serviço de segunda-feira, minha atenção foi dispersada por um mar de pensamentos incontrolável. Estava bem centrada, lendo um artigo sobre a crise política brasileira. Os autores estavam analisando as coalizões que foram formadas nos governos FHC e Lula para compreender as dificuldades que um e outro tiveram para governar. A partir daí, eles buscaram construir um entendimento mais coerente e menos novelesco da origem da crise que vivemos ao longo de todo esse ano.

Estava mergulhada no texto, mas bateu um pensamento no meio da leitura que foi me levando a outro que me levou a mais um e a outro mais e pronto, dispersei. Foi que nem uma onda vindo atrás da outra e mais uma e outra mais, até bater na areia e dispersar um mundão de água pra tudo quanto é lado. Foi um pensamento bobo que tirou minha atenção. Lembrei da pesquisa divulgada essa semana sobre intenção de votos, que dá a Serra a liderança na preferência do eleitorado para a disputa do ano que vem. Ficou com 36% dos votos contra 29% para Lula. Acho esse tipo de pesquisa uma bobagem. Parece jogo de aposta. Diz muito pouco do que o eleitorado poderá fazer quando for pra valer. Principalmente, levando-se em conta que estamos ainda no meio do caos.

E tem mais. Me cheira a manipulação marota das elites políticas paulistanas. Elas pensam que o Brasil mora em São Paulo. Só dá Serra e Alckmin nessas pesquisas. Então não temos outras opções nesse brasilzão? Parece que querem nos impôr uma falsa preferência, antecipando um quadro como se este já fosse dado. Eu, heim? Mas aí, fiquei pensando que esta será uma das eleições mais difíceis que teremos, desde o início da redemocratização. Jogamos as últimas fichas em 2002. E agora José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora José?

Além da falta de novas alternativas, vamos ter de enfrentar o descrédito na política. Tudo bem, a descrença nos políticos não é uma variável nova nos processos eleitorais. Não é de hoje que o povo desconfia de políticos. Mas ele não deixa de dar o seu voto, na hora em que é convocado às urnas. Só que agora essa desconfiança ficou concreta. Ganhou um, dois, três, dezenas de rostos. Um para cada gosto. Tem nome, tem história, tem versões, uma para cada finalidade. Então, continuei pensando, de duas, uma. Ou vai chover voto nulo na urnas ou então o brasileiro vai ficar mais exigente, mais criterioso, mais cuidadoso na hora de apertar a tecla. E aí, até que terá valido a pena que penamos. Mas será?

O sentimento de desconfiança se generalizou. Não se restringe mais apenas ao Parlamento, que é mesmo o poder mais exposto à avaliação do eleitorado. Contaminou também o Executivo, que tem um nome de plantão: Lula. Ele está se equilibrando na beirada do poço desde o início do segundo semestre. E nos últimos três meses, a confiança dos eleitores no presidente chegou ao seu pior nível desde o início do governo, segundo pesquisa do Ibope. Hoje, 53% dos brasileiros dizem que não confiam mais no presidente, contra 51% em setembro. Se considerarmos que Lula esteve e ainda está no paredão, até que esse não é um percentual muito ruim. Mas que ele sofreu uma queda, não resta a menor dúvida.

Até aí, no entanto, também não temos novidade. Isso acontece. Já passamos por situações semelhantes em outras eras. Só que, dessa vez, parece que o bicho pegou. O ânimo do eleitor vai estar contaminado ainda por outras descrenças. É uma desconfiança que está batendo fundo. Outro dia desses, enquanto tomava café, filei de rabo de olho uma notícia que saiu no jornal, sobre uma pesquisa do Fórum Econômico Mundial. Ela foi realizada em 20 países e mostra um quadro dramático de queda de confiança nas instituições. A descrença forte em relação aos políticos e aos governos já era de se esperar. A crise da representação vem desde o final dos anos 80. Mas agora essa desconfiança se estende com a mesma intensidade para as empresas e as próprias entidades da sociedade civil. Não escapou ninguém. Nem as Organizações das Nações Unidas (ONU), que eu acho o máximo! Foram os piores resultados desde o início dos levantamentos, em 2001.

No Brasil, esse índice de confiança sofreu uma retração de nove pontos entre 2004 e 2005, atingindo todas as instituições, incluindo as empresas globalizadas e locais e até as ongs de todas as bandeiras. E esse é o quadro novo. Só pai e mãe escaparam. Mas essa confiança se contrói e se limita para dentro da família. Pôs o pé na rua, todo mundo vira suspeito. Essa falta de confiança nas pessoas e instituições e o clima de competição acirrada e permanente que reina em todo o mundo é que me deixam desconfiada em relação às eleições do ano que vem. Acho que vai dar um desânimo do cão sair para votar. Fico pensando, o que vai motivar o eleitor a sair de casa para levar o seu voto até a seção eleitoral mais próxima?

A situação está tão periclitante, que acho que nem Deus escapa de uma oitiva. Olhem só, em outubro, se me lembro bem, li uma notinha que foi publicada no site do Terra que deixava o Todo Poderoso bem mal na foto. Um romeno, chamado Pavel M., que está preso, entrou com um processo na Justiça contra Deus. Ele acusa o Chefão lá de cima de traição, abuso e tráfico de influência. Huahuahuahua. Pave alega que seu batismo é um contrato entre ele e Deus, que teria por obrigação manter o Diabo afastado dele, assim como todos os problemas. E parece que Pavel está metido em vários, nessa sua passagem aqui pelo andar de baixo. Isso configuraria a quebra do contrato, gerando, portanto, uma quebra da confiança, né?

A reclamação foi enviada para a Corte de Timisoara e encaminhada para o escritório do Procurador. Hehehe. Só que o processo vai ser arquivado. Tão achando que o Todo Poderoso está assim à disposição, como Roberto Jefferson, Zé Dirceu, Delúbio, Marcos Valério e as CPIsnetes, musas das oitivas, entre outros reles mortais? Tão, é? Pois estão enganados. E como os procuradores não tem como convocar Deus para depor, o processo vai direto para a gaveta. Mas Pavel, pelo menos, já está olhando esquisito para Deus. E, se a moda pega, vai ter muito mais gente olhando de rabo de olho para o Poderoso.

Então, fiquem com os anjinhos, que, por enquanto, estão fora dessa encrenca.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Como quieres

Arte Fractal - Cláudio Duarte

Ai ai, mas tem chuvido, hem? Faz quatro dias que só chove em Belo Horizonte. Dá até vontade de chorar também. A cidade fica toda espelhada. Vejo faróis vindo de todos os lados em minha direção. Saem até de dentro do vidro do parabrisa. Cada gota que escorre, arrasta um feixo de luz e parece que alguma coisa vai bater bem dentro dos meus olhos. Só ando em sobressaltos. É muito emocionante, essa temporada de chuva!

Tem horas que até parece que vai parar. Mas aí despenca aquele aguaceiro danado de novo. Arre égua! Não pára nunca! Vou sair de fininho. Vou mudar de assunto. Vou só ouvir a chuva e pensar no sol. Tem uma semana, aliás, que o rádio só fala nisso. Um dia desses, estava ali, tentando me desviar de um não-farol e ouvi, na CBN, um médico falando sobre os malefícios do sol. Ai ai, de novo. E ele estava era bravo!

Passou a maior descompostura em quem fica com moderação na hora de usar o protetor solar. Nada de parcimônia. Sejamos generosos! – disse ele. Eca! E dá-lhe FPS 30 no rosto, protetor labial FPS 25 e, no corpo, FPS 15. Sempre e sempre. No clube ou na praia, FPSs variados e chapéu e boné e canga para cobrir os ombros e sombrinha, nem que seja de uma árvore, e não sei mais lá o quê. Então não seria melhor ficar em casa? Tá doido siô!

Eu e Ruthinha já concordamos sobre isso. Somos do tempo em que o sol fazia bem! Clareava o dia, secava a roupa, corava o rosto dos meninos, escancarava as janelas e punha cadeira na porta das casas. O sol era bom demais pra brincar na rua, andar descalça, cavar a terra, fazer um buraco enorme de grande pra nos levar pro Japão! Servia também para armar arapuca de caixa de sapato pra pegar passarinho e caçar minhoca pra jogar no canteiro de beijinhos. Farto era melhor ainda, porque aí a gente podia brincar de chuva com a mangueira do jardim.

O sol fazia bem o dia inteiro. De manhã, dava pique para correr do pegador. De tarde, dava era aquela preguiça preguiçosa de tanta preguiça. Daí, o jeito era todo mundo sentar no murinho da frente e ficar ali, esquentando a sombra da árvore e falando bobagem. Claro, até sair a primeira briga, né? Aí escapava menino pra tudo quanto é lado e só voltávamos no finalzinho mesmo da tarde. Naquela hora em que o dia fica laranja e o sol vira uma bola vermelha, enorme, na outra ponta da cidade.

Era só isso e era tudo. E, olhem só, não me lembro nunca da minha mãe gritar: sai do sol, menina!. Era só assim que ela se zangava: sai da chuva, menina! E mãe, sabem como é, elas nunca se enganam. Pra elas, era chuva que fazia mal, gripava e, pior, prendia meia duzia de espoletas dentro de casa o dia inteiro. Podia até enlouquecer! Sol é que fazia bem. Os meninos sumiam no mapa. Sol é que era bom. Passava o dia inteiro e ninguém via nem sombra de pai e mãe atrás de você mandando fazer isso, fazer aquilo, não fazer isso, não fazer aquilo.

Mas nem tudo está definitivamente condenado. Ainda bem! E ainda bem também que os médicos não são muito bons em criar consensos. Outro dia desses, antes de ouvir o doutor enfurecido na CBN, escutei outro especialista, na mesma rádio, que discordava do primeiro. Estava fechado era comigo e com a Ruth. Em poucos segundos, ele detonou com a moda FPS. Essa mania de passar protetor solar, até para ver se eu estou na esquina, está provocando uma verdadeira epidemia de osteoporose. Qui meda! Até homens, antes raro, já apresentam índices crescentes e significativos de osteoporose.

É óbvio, né? Se lambuzam todo de protetor solar e se esquecem de que precisamos também de raios de sol. Tanto quanto de água de chuva. É claro que ninguém vai se espichar, às duas horas da tarde, debaixo de uma lua daquelas e ficar lá que nem jacaré na lama, né? Mas o sol da manhã, sem pudor, sem receio, sem restrição, é básico. Sem ele, não tem cálcio que consiga se fixar nos ossos e, com o tempo, eles tendem a se desmanchar como um pedaço de giz.

Então? Sol ou chuva? Sol com ou sem protetor? Cheguei à conclusão de que é como quieres. Ou queiras. E basta o suficiente.

Raitos de sol para todos.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Protocolo de Serra Leoa

Hoje é hoje. E para bush isso não muda nada. Apesar de um em cada quatro senadores americanos estarem cobrando, pedindo, suplicando, implorando para que o país assine logo o tal Procolo de Kioto e acabe logo com essa lenga-lenga, bush não tá nem aí. Vai terminar a 11ª Conferência das Partes da Convenção do Clima das Nações Unidas e ele não passa nem perto de caneta, para não ficar tentado. Foge das velhas bics como se fugisse do diabo.

Não topa nem discutir o assunto. Ignorou solenemente até a petição dos esquimós contra os Estados Unidos, apresentada durante a conferência junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Os esquimós denunciam os estragos que as emissões americanas de dióxido de carbono e de outros gases estão fazendo nas geleiras do Ártico, ameaçando o modo de vida inuit. Parece inútil né?, mas não é, diz respeito à cultura dos povos árticos, dos esquimós.

Aí fiquei pensando que, nesse caso, até que bush está sendo estupidamente coerente. Defende interesses - imediatos que sejam - dos próprios americanos. O que significa o Protocolo de Kioto ou qualquer outra convenção que venha estabelecer limites para produção de gases poluentes? Na minha idiotice crônica, penso que significa impôr limites ao crescimento econômico e estabelecer novos modelos de desenvolvimento, compatíveis com a sobrevivência do planeta.

Êpa! Mas, pera lá! Quem é que está no comando? Quem é que manda no pedaço? Quem é o dono da bola? Isso é o que bush deve ficar pensando, quando deita a sua cabecinha no travesseiro. Que povo chato e pretensioso, ele deve pensar. Pois se somos nós que estamos no controle do manche, quem deve dizer o quê, o quanto e como vamos trabalhar, somos nós e não eles. Então, pra começo de conversa, não me venham com democratismos. Quem decide isso somo nós. Isso é o bush lá pensando, né?

E pra fim de conversa, impôr limites ao crescimento econômico é uma contratição inconcebível para o modus operandi capitalista. É uma facada nas costas. Ora essa, se esses terráqueos inconstantes, incoerentes e inconsequentes toparam aderir ao modelo de sociedade exportada pelos americanos, agora que agüentem. E tá lá o bush pensando! Os Estados Unidos nunca iludiu ninguém. Vendeu para o resto do mundo a sociedade do consumo ilimitado. E ninguém pode consumir o que não é produzido. Então, se virem!

Tudo é mesmo produzível na sociedade de consumo. Encontra-se de tudo no mercado: durex dupla-face; sapatos para diabéticos; moletons para safenados; brincos de brilhante para cãezinhos de estimação; cremes de beleza com magma de ouro para a eterna juventude; folhas de metal com memória, que tomam a forma desejada de acordo com a sua aplicação; relógio/cronometro/calendário/agenda/celular/computador, tudo junto numa só pulseira; mulheres em vários modelos e tamanho, com peito 100% silicone e cabelos de verdade e homens idem, tudo por módicos 6 mil dólares; pílulas para antes, durante e depois; amores descartáveis; amigos invisíveis e assim vai.

Uai, querem encontrar tudo isso na esquina - e ai se não encontram! É como se o céu despencasse sobre suas cabeças e aí, coitado é do dono da bodega, dá-lhe códigos de defesa do consumidor goela abaixo . E é assim mesmo que é. Ou não é? Ninguém tem mais um sonho de consumo, temos um hipermercado inteiro. Pra hoje, pra ontem. Então, é como a Rutinha costuma dizer, não adianta ficar gastando fosfato, tentando inventar soluções mirabolantes, serão sempre paliativas. O que é preciso fazer é descer ao fundo do poço, buscar as raízes do problema.

Então, fiquei pensando que, pra começo de conversa, temos de criar uma escala decrescente é para os nossos desejos de consumo. Simplicidade voluntária ou Protocolo Serra Leoa. Mesmo porque, já no curto prazo, não teremos outra opção. Já consumimos muito mais do que o planeta pode suportar. E isso tem gerado toneladas de problemas. O efeito estufa é só um detalhe.

Um exemplo: o lixo. Já nem sabemos o que fazer com a quantidade de entulho que produzimos. O Brasil - e, olhem só, por aqui o consumo está restrito quase que só aos 10% da população que detém a grana, a bufunfa mais gordinha, os outros 90% ajudam é a reciclar o que descartamos -, e, ainda assim, falta lote vago para tanta sobra de lixo. Li outro dia um texto da Fabiana que diz que, enquanto a população brasileira cresceu 16% entre 1989 e 2000, a quantidade de lixo gerada no mesmo período aumentou 46%. Como a pobreza não diminuiu no período, imagino que os mesmos estão consumindo cada vez mais e descartando na mesma proporção. É brincadeira?

Já estamos ficando sem espaço até para enterrar nossos mortos. Ói se pode! Li num desses jornais que em Biritiba-Mirim, cidade do interior de São Paulo!, está proibido morrer, porque não tem mais vaga no cemitério. Huahuahuahua! A Prefeitura encaminhou à Câmara Municipal um projeto de lei que proíbe os biritibanos mirins de partir dessa pra melhor e ainda estabelece que eles deverão cuidar da saúde para não falecer. Hehehehe. A matéria não diz se o projeto prevê penalidades para quem desobedecer. Mas deve ter. Se morir, vai pro inferno!

Vida eterna para todos!
A pão e água, claro!

Até a próxima.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

A terceira margem

Olhem só, outro dia desses aí pra trás, fomos caminhar com Guimarães. Não o Ulisses, o Rosa. Entramos só de passagem pela estória de Lélio e Lina e fomos direto para A Terceira Margem do Rio. Uau! Antes tinha na cabeça uma birra teimosa de Guimarães e do Mário de Andrade de Macunaíma. Era com o jeito estranho de eles escreverem. Achava que era pirraça, para atrapalhar nosso caminho nas histórias. E pra mim, me interessava muito mais as histórias. De como os personagens iam surgindo, se encontrando, se envolvendo, se movendo dentro dos cenários inventados e, às vezes, desaparecendo sem mais. Ainda me interessam. É o como de Lisbela.

Só que depois fui aprendendo que as palavras também são fundamentais, claro! Foi preciso dar muitas vezes com os burros n'água, aqui na vida real, para entender isso, que as palavras, mesmo que parecidas no dicionário, são sempre diferentes. Tem sempre a hora certa de se usar uma palavra. E tem também o lugar certo para ela entrar sem provocar ruídos. Elas são, portanto, como personagens da história. E assim é em Guimarães. Por isso só agora, recentemente, me animei a ler seus textos. Livrei-me da birra. Menos uma.

Então, lemos e relemos a história do homem que foi e não voltou, sem ter ido a lugar algum. Ficou se indo ali no seu barquinho, vagueando na terceira margem do rio. Dias depois, me deu um clique. Olhem só, se não estamos também numa canoinha, zanzando na terceira margem do rio. Desde que me entendo por gente, que o Brasil está indo. De repente, muda alguma coisa e a gente pensa, é agora que vai! E não vai. Nem para um lado, nem para o outro.

É claro que mudamos. Igual o homem do barco mudou, ficou velho, barbudo, minguou. Zoando ali no rio, parecia que o tempo não passava. Que só as águas corriam rio abaixo. Mas passava. E pra nós também, né? O Brasil multiplicou-se, isso é inevitável, principalmente nos trópicos (rs). Se espalhou e cresceu, mas sempre ali, na inércia da terceira margem. Foi se indo.

Agora, de novo, nós pensamos, dessa vez vai. Na nossa democracia roseana - não a de sarney, mas a de guimarães -, encontramos uma alternância que, acreditamos, levaria o nosso barco para algum lugar. Ou ia atracar numa das margens ou ia embora seguindo um destino novo, ainda não-encontrável. Não foi. Foi uma droga. Que coisa hem siô! E tamos nós lá de novo. Zanzando no meio do rio. Não fomos nem ficamos nem voltamos. Continuamos indo indo indo a lugar nenhum.

Aí li outro dia no jornal um comentário do brasilianista Kenneth Maxwell. Ele fez uma palestra, em Washington, sobre "Lula, PT e o futuro da democracia brasileira". Não sei se ele está certo, mas quem está de fora tem uma visão diferente de quem está dentro e que, às vezes, ajuda a entender o que rola aqui pertinho e ninguém percebe. E o carinha disse, lá em Washington!, que a nossa crise tem cheiro de boicote. Igual na Venezuela. Huahuahua! Tem "elementos de natureza conspiratória".

Vou copiar: "É curioso olhar para a história do Brasil e ver que, quando as reformas chegam até certo ponto...bingo! Acontece uma crise. É o que eu chamo de conspiração do sistema, não necessariamente de pessoas". É curioso mesmo. Por isso ficamos aqui, esquentando o sol na terceira margem do rio. Ficamos não indo a lugar nenhum. Parece que sofremos do "grave frio dos medos". Na hora que o bicho vai pegar mesmo, dá o desatino e corremos do pau. E nós rio abaixo, rio a fora, rio adentro.

Uma boa navegada pra todos.

Até o próximo porto!