domingo, fevereiro 12, 2006

Fica para outra vez

Fui jogar boliche. Foi na sexta-feira. Fui ver meus irmãos. Antes minha mãe fazia almoço todo sábado e era lá que a gente se encontrava. Agora, ela se livrou dessa obrigação. Só faz quando dá na telha. Já não era sem tempo. Acho justo. Mas fui jogar boliche. Fui ver qual é também. De cara, não gostei dessa história de trocar os sapatos. Preferi jogar descalça. Tenho problema com sapatos. Aquele que eu acho bonito, incomoda. O que é confortável, não é bonito. Quando encontro um que combina o gosto com o gostar, uso até furar. Por isso não acumulo pares de sapatos no armário. E sapato de boliche tem um problema: é feio feito o cão.

Um dia, estava jogando Enciclopédia e caiu essa pergunta: Por que sapato de boliche é feio? Arrisquei que era porque o conforto deveria prevalecer sobre a estética. Teve gente que concordou. Mas a resposta certa é outra. É a seguinte: pra ninguém roubar! Eita! Mas jogar boliche é divertido. É um jogo cheio de manha. Me fez lembrar do Fred e do Barney. O Fred tinha um estilo próprio para lançar as bolas. Ele corria na ponta dos dedos. Tentei, mas não consigo ficar na ponta dos dedos e, menos ainda, correr. Mas tenho força no braço. Isso é o que vale.

E tem também a surpresa. Tam nanm! Quando você lança a bola, tudo pode acontecer, até nada. É que nem na política: tudo pode acontecer, até nada. Olha só, outra vez, não tem muito tempo, vi um deputado aqui da terra relatando a uma repórter o seu encontro com o vice-presidente José Alencar. E Zé Alencar é bobo de conversar tudo que tinha para ser conversado num encontro pra inglês ver? E o deputado é bobo de contar tudo que aconteceu ao vivo e a cores, sem edição? Em vez disso, contou um caso.

Era a história de dois compadres. O primeiro queria vender um boi. O segundo queria comprar um boi. E se encontraram. Mas o primeiro, temendo que o outro percebesse que ele queria vender o boi e oferecesse um preço muito baixo, não tocou no assunto. O segundo, com medo também que o primeiro desconfiasse que ele queria comprar o boi e colocasse o preço muito alto, só jogou conversa fora a tarde inteira. Na hora de ir embora, o segundo gritou lá da porteira: ô cumpadre, e o boi? E o primeiro respondeu: o boi? Fica pra depois!

Nas entrelinhas, leia-se: os dois não conversaram sobre nada que fosse realmente importante. Se conversaram, não tomaram nenhuma decisão que fosse realmente importante. Se decidiram, ainda não está na hora de divulgar.

Não é outra coisa o que o PSDB vem fazendo desde o final do ano passado. FHC reúne-se com Serra. Serra se encontra com Aecinho. Alckmin vai no Nordeste falar com Jereissati. Depois vem a Belo Horizonte e reúne-se com Aécio. Aécio vai a São Paulo e se encontra com FHC. No final de cada encontro, a conversa é a mesma. Canditado? Qui candidato?! Isso fica para depois. Não sei se esse é um jeito mineiro de fazer política. Acho que não. É um jeito estranho de resolver problema que ainda não tem solução.

Olha só, todo mundo faz isso, mais cedo ou mais tarde. Eu faço toda hora. Me encontro pelo menos umas três vezes por dia com meu amigo imaginário, herança da infância que preservo, e discuto com ele desde as miudezas do dia a dia até questões mais relevantes. No final, divagamos sobre a vida e deixamos a pauta pra depois. É um jeito meio estranho mesmo de não resolver os problemas, mas dar a impressão de que estamos resolvendo. Estamos resolvendo. Quando as circunstâncias, com o peso da sua interferência, tornam uma decisão qualquer praticamente inevitável, aí decidimos com elas e tudo se resolve. Eita!

Tancredo Neves também era mestre nisso. Eu vi ele usando essa manha. Era dureza arrancar uma informação dele enquanto não chegasse a hora certa. Tancredo não marcava reunião antes de tudo estar resolvido mas era de jeito nenhum. Quando a solução já estava encaminhada, convocava os interessados e, em seguida, a imprensa. A reunião era só para referendar, mas, para os jornalistas, Tancredo anunciava como se fosse a decisão do dia. Até lá, a conversa era: esse assunto ainda não entrou na pauta, ficou pra depois.

E a política tem mais uma coisa parecida com o boliche. Se não com o boliche, mas com o jeito que nós amadores jogamos boliche. Às vezes, na maioria, miramos num canto ou numa garrafinha e a bola vai que vai até o meio da pista e, de repente, muda de rumo e acerta o outro canto. O pessoal do PSDB corre o risco de cair numa jogada dessas. Está mirando muito, fazendo muita cena. De repente, a bola sai com efeito e, sem que percebam, muda o alvo e deixa todo mundo no meio do caminho.

Olha só, à medida que Lula recupera sua popularidade, fica cada vez mais díficil para o PSDB definir o nome do seu candidato. O Serra vai deixar a prefeitura, que é certa, para fazer papelão nas urnas? É ruim, hem? Ele está certo. Só sai candidato se estiver sendo ovacionado nas ruas. Alckmin está no fim do mandato, tem mais chance de ir para o sacrifício. Fora os dois, tem o Aécio e o Jereissati. O Jereissati, eu não sei. O Aécio, bom, o Aécio acho que ele vai deixar essa conversa para depois... hehehehe.

Choveu, ufa! Mas já passou. A brisa fresca ficou para depois.

Ainda assim, um pôr do sol iluminado para todos. Esse vem, é inevitável.

PS: Dani arrumou o pau que estava dando no blogviajeiro. Agora só falta incluir espaço para comentários e outros detalhes. Mas isso vai ficar para depois (rsrsrs). Pra sábado que vem! Enquanto isso....




Equipe do blogviajeiro
Foto: tia Ni

2 comentários:

Anônimo disse...

Ótima a idéia de fotografar os meninos imitandos os macacos sábios: não ver, não falar, não ouvir o mal. Boa, Patrícia. Quanto aos sapatos do boliche: calçar sapato muito usado sei lá por quem, me dá uma aflição...

patricia duarte disse...

Também me deu aflição, embora fossem limpos e tivessem uma meia descartável para calçar. Tudo muito organizado, mas não me convenceu. E olha só, descalça, até que minha performance não foi das piores. Fui a segunda, da segunda divisão (rsrsrs).