quarta-feira, setembro 07, 2005

Qual é a nossa turma?

Estava andando e pensando na alegria dos pobres, aí trupiquei no relatório do PNUD sobre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), divulgado hoje, 7 de setembro! O Brasil subiu 14 posições de 1990 a 2003. Apenas quatro países nos superaram neste ranking, alcançando algumas posições a mais do que nós, nesse mesmo período: China, Nepal (!), Albânia (!!) e Omã (!!!).

O Brasil ocupa agora a 63ª posição e está na sala, junto com outros 32 países, a sala dos que apresentam desenvolvimento humano médio. Somos colegas da China, Rússia, Líbia, Macedônia, entre outros. Isso até que não seria mal. Mas, quando giramos a lente e focamos apenas o indicador que calcula o grau de desigualdade social de uma população, o tal do coeficiente de Gini, a nossa turma muda.

Passamos para a sala dos países mais desiguais do planeta. Nossa pontuação é equivalente apenas à da Guatemala, Botsuana, Suazilândia, Lesoto, República Centro-Africana, Serra Leoa e Namíbia. Se nos olharmos no espelho, muito provavelmente, são eles que iremos ver. Não se espantem. Ou melhor, se espantem, pois é mesmo muito chocante!

E fica ainda mais estarrecedor, quando ficamos sabendo que nossos colegas de sala estão onde estão porque enfrentam epidemias de AIDs ( o Brasil tem um bom programa de controle dessa doença, reconhecido mundialmente!); ou porque passaram recentemente por guerra civil (nossa violência urbana não é reconhecida como tal, apesar de fazer tantas vítimas quanto!) ou ainda sofreram alguma desestruturação econômica recente (estamos com 11 anos de estabilidade econômica!). Então, o que estamos fazendo nessa turma?

Aí me lembrei de um artigo que li na FSP de domingo passado, no caderno Mais, assinado pelo jornalista português João Pereira Coutinho. Ele analisa a personalidade e o comportamento das elites brasileiras e conclui que a afirmação de identidade dos ricos no Brasil funda-se na humilhação dos pobres. É leitura obrigatória para quem estiver pensando em montar um programa de responsabilidade social ou de educação para cidadania, destinado às elites brasileiras.

Um parêntese. Eu estou pensando. Por dois motivos. O primeiro é que o mercado dos excluídos está saturado, por mais contraditório que isso possa parecer. Para cada causa relevante que identificamos na cesta de carências da população pobre do Brasil, encontramos pelo menos duas dúzias de ongs disputando recursos junto às organizações internacionais ou grandes empresas brasileiras, com projetos cada um mais mirabolante que o outro, quando não são meras brincadeiras de marqueteiros. É a vida. É muito difícil disputar espaço nessa praia. Segundo motivo: o artigo de Coutinho demonstra que o segmento mais carente da população brasileira é mesmo o das nossas elites. Fechando o parêntese.

Então, Coutinho define as elites como sendo aqueles que, " prescindindo de seus interesses particulares, contribuem para o todo social depois de uma educação longa e virtuosa.Uma educação que permite olhar para a cidade como realidade coletiva, não como possibilidade de enriquecimento, ou engrandecimento pessoal". (Huuummmmm!!!) E conclui: "...o problema do Brasil não está nas suas elites porque, ironicamente, o Brasil não tem elites. Tem antielites, incapazes de pensar o país como espaço comum". (Huuummmmm!!!! - de novo!)

Talvez aí esteja a explicação do porquê estamos na sala dos reprovados, no que diz respeito à distribuição de renda. E Coutinho encerra seu artigo lembrando uma frase de outro jornalista, Samuel Wainer, quando passava de carro por uma das avenidas da orla carioca. Ao ver um grupo de populares chutando uma bola de meia na areia, ele suspirou e comentou: "Eles querem tão pouco, e lhes negamos". É isso aí Coutinho! É isso Wainer!.

Bom descanso cívico para todos!

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