Só consigo pensar escrevendo. De outro jeito, me confundo toda. Os pensamentos vêm em ondas e se misturam uns com os outros e, no final, morrem na praia. Por isso criei esse blog. Para todos que só conseguem pensar escrevendo. Ou, pelo menos, só assim conseguem dar precisão ao que pensam.
quinta-feira, maio 17, 2007
Missão quase impossível
Enquanto dirigia de um lugar para outro da cidade, fiquei ouvindo rádio, para ver se captava algum sinal que me desse uma pista do que estava acontecendo. Nada. O dólar minguado, obviamente, não agrada os setores exportadores. Todo o esforço que fazem para colocar um made in brazil no mercadão do mundo é cada vez menos recompensado. Eles percebem isso muito claramente quando chegam na boca do caixa para trocar, por reais tupiniquins, as verdinhas que conseguiram juntar no final da feira.
Well, isso acontece. Mas, com certeza, os setores importadores e nossos criativos empreendedores, que adoram um made in china para vender a 1,90 nas portinhas dos centros comerciais, estão nadando de braçada. Não estão. As baixas cotações do dólar ainda não se tornaram uma razão suficientemente forte para incentivá-los a comprar mais e mais e mais. Poderiam, mas estão me saindo uns bons munhecas de samambaia. Até deveriam, mas devem estar ocupados com outros negócios e não atentaram para a possibilidade de modernizar suas plantas industriais, importando máquinas e equipamentos baratinhos.
Então, até aqui ninguém se beneficiou desse regime forçado. Se é assim, por que o mercado não reage logo e sai da moita, para socorrer nossos heróicos empresários? Esse é o mistério. Hoje, na hora do almoço, alguém disse ao Sardenberg que o dólar barato beneficia o trabalhador brasileiro. Será? Não vou duvidar, mas também não acredito que o mercado tenha resolvido, assim, de uma hora para outra, finalmente se compadecer com o drama dos infortunados. Não é essa sua missão, pelo contrário. É da sua natureza criar desigualdades e mantê-las assim equilibradamente desiguais. Se os trabalhadores estão ganhando alguma migalha, não tenha dúvida, é só por distração.
Mas deve haver algum setor da nossa complexa economia que está tirando vantagens dessa situação. E muita, não é pouca não. Aí fui consultar o meu assessor para assuntos esotéricos. Perguntei pra ele porque o mercado não encontrava logo um ponto de equilibro pra essa porcaria do dólar, liberando os jornais pra falar de outro assunto? O meu assessor ficou pensativo. Depois de alguns minutos de reflexão falou pausadamente alguma coisa que acho que entendi. Ele é um sábio, mas, às vezes, sabe ser didático também.
Foi assim
- Olhe bem nos meus olhos, moça. Preste atenção, porque não vou repetir. O mercado é volátil, muda de acordo com a correnteza. Mas ele também tem suas preferências. Vamos lá. Os valorosos especuladores financeiros globalizados estão generosamente trazendo suas verdinhas para aplicar no Brasil. Dizem que é porque a nossa economia vai muito bem obrigado.
- Francamente, eu disse pra ele, estamos caminhando, com certeza, mas bem devagarzinho, né?
- Concordo. Mas outros argumentam que esses senhores apostam no Brasil, porque nossos juros são muito melhores do que os de qualquer outra parte do mundo.
- De fato, eu concordei, mas eles também vêm caindo de forma persistente. Por que não afetaram ainda o entusiasmo das viúvas que bancam os coitados dos especuladores?
Nessa hora, achei que meu assessor tinha virado zenbudista e me respondido com um novo mistério. Mas ele não judia de mim e continuou:
- Vamos fazer uma suposição. Um especulador traz US$10 para aplicar no Brasil. O dólar está cotado em R$ 2 reais. Quando ele chega no caixa para converter o seu rico dinheirinho em reais e jogar no nosso mercado, quantos reais o nosso especulador irá obter?
- Fácil, R$ 20.
- Mas, vamos supor que, durante o período da sua aplicação, o dólar tenha se desvalorizado (ou o real se valorizado, o que dá na mesma) e estivesse, na data do vencimento da operação, cotado a R$ 1, 00. Quantos dólares o nosso especulador terá para levar para casa?
- Essa já é mais difícil. Deve ter alguma pegadinha, hem?
Puxei minha calculadora, para não cair em nenhuma armação, mas o resultado exato foi surpreendente. Ele terá exatamente US$ 20. Ou seja, sem fazer nada e sem nem considerar a taxa de juros, o nosso especulador simplesmente dobrou o seu capital. Sacaram?
Pronto, missão cumprida. Podemos mudar de assunto.
Uma sexta-feira regada a bons vinhos importados, canapés de caviar e contidos rendimentos nos fundos de renda fixa.
segunda-feira, maio 14, 2007
Com sentido
Por isso, reconheço, para nós, provisoriamente imortais, é mais conveniente acompanhá-lo com uma pauta pronta nas mãos. Depois, com uma cópia do seu pronunciamento na mesa, basta jogar um google, buscar as palavras mágicas e a matéria estará pronta. Mas o que foi mesmo que Bento disse? Não importa. Pauta cumprida. E vamos em frente. Eu estranho, mas entendo.
Não acompanhei toda a agenda de Bento XVI, mas ouvi, e “convidei” os meninos a escutarem também o seu pronunciamento para os jovens. Não obriguei ninguém a ficar na sala, mas argumentei que iriam perder uma boa oportunidade de serem testemunhas da história. Acho que eles acharam isso bacana e ficaram. Fiz isso porque confiei que Bento, certamente, falaria alguma coisa que valeria a pena.
E, tirando a programação cultural da solenidade, a fala foi, de fato, muito proveitosa. Não
me refiro à pauta dos jornais, cumprida disciplinadamente, mas ao pronunciamento original. Claro, depois precisei buscar uma cópia no google para ter certeza de que não me enganará. Tive de ler mais de uma vez, para ter certeza de que o que eu pensava ter entendido era o que estava escrito.
Ainda assim, admito, posso estar enganada. Mas até onde consegui me abstrair da pauta, Bento XVI falou aos jovens sobre o sentido da vida. O que devo fazer para que minha vida tenha sentido? O que devo fazer para que minha vida não transcorra inutilmente? Os jovens não pensam nisso toda hora, mas, se me lembro bem, essas questões eram o pano de fundo de todas as nossas inquietações. Acho que isso não mudou muito hoje. Por isso é bom que alguém os lembre dessas perguntinhas básicas de vez em quando.
Além disso, hoje estamos repletos de conhecimento sobre as nossas exterioridades, mas distantes do nosso labirinto interior e essas questões nos obrigam a um mergulho mais profundo nas águas agitadas da nossa alma. Mesmo que nos deixe sem chão e sem ar por alguns momentos, um mergulho sempre vale a pena. Acho que os jovens precisavam fazer isso. Só que santo de casa não faz milagre. O convite vindo de fora, quem sabe eles fiquem tentados.
Quando ando na rua, também vejo nos olhos dos meninos um enorme déficit de esperança: medo de morrer, medo de sobrar, medo de ficar desconectado, medo de não encontrar um sentido para a vida. E Bento XVI também já viu isso. E sugeriu aos meninos uma ordem para o caos. Se é a que eles escolherão, dependerá de cada um. Mas Bento XVI fez o que tinha de fazer. Alguém, um dias desses, acho que foi o Cony, disse que a Igreja deve ser uma referência para a sociedade e não o contrário. O que Bento ofereceu aos meninos foi isso, uma possibilidade de referência.
Minha avó também tinha um jeito de organizar o caos do mundo. Ela desenhava numa folha de papel uma tabela com quatro colunas. Na primeira, escrevia o nome de suas amigas; na segunda o telefone; na terceira, a última data que falara com elas ou que as visitara, isso, para planejar novas ligações e visitas; e, na última coluna, registrava as baixas, desenhando uma cruzinha. Quando perdia uma amiga, renovava a lista incluindo o nome das filhas da falecida, que passavam a ser suas novas amigas e assim por diante. A mídia já tem outro jeito de organizar o caos. Divide o mundo da vida em editorias e define critérios aleatórios para dizer o que é ou não importante. Enfim, cada um tem seu jeito para dar um sentido a vida.
Mas concordo, não podemos é desperdiçar a vida. E tomara que esses meninos não desperdicem, como tenho certeza de que não irão.
Uma semana plena de sentidos para todos.
terça-feira, maio 08, 2007
Cenas da cidade
domingo, maio 06, 2007
Deus é pai
Ufa! Pelo menos isso. Ainda acreditamos em deus. Se não fosse o Datafolha, ficaria desconfiada de que nem nele acreditávamos mais. Se bem que basta olharmos a cidade mais devagar para chegarmos a essa mesma conclusão. Basta conversarmos com algumas poucas pessoas, mais próximas ou não, para constatarmos a mesma coisa. Continuamos apostando em nossos santos e santas, apelando para o boss quando a situação fica muito preta e rezando pelos nossos meninos, todas as madrugadas, enquanto esperamos que eles retornem para casa.
Sinceramente, sem nenhuma ironia, não era preciso uma pesquisa inteira para constatar o que está evidente. Nem gastar uma página standart de jornal para fazer uma análise de elevador sobre a nossa fé: subiu tanto, desceu tanto, agora subiu de novo, desceu. Pra que serve isso? E de que nos adianta saber que 86% da população acredita que Maria deu à luz a Jesus! Qual o significado dessa revelação? Me digam, meninas! E o que nos diz essa informação bombástica de que 93% acreditam que Jesus ressuscitou após morrer na cruz?
Será que a pesquisa foi encomendada pela produção do filme Código Da Vinci? Se não é para traçar o perfil do mercado, pois não é esse o caso aqui, deus não está a venda, em que me ajuda saber que as mulheres são mais crentes do que os homens e que a idade média dos católicos é de 40 anos? E seria muito diferente disso, do perfil mesmo da nossa sociedade? Seria diferente, considerando ainda que os menores de 16 anos foram excluídos? E por que foram excluídos? Vou brigar agora pela maioridade espiritual! Mas meninas, me digam, como essas informações vão ajudar Bento XVI a compreender a nossa religiosidade?
Aí é que está. Vou confessar. Com a minha burrice dinâmica, eu também acredito em pesquisa. Também acho que ela nos ajuda a mapear, no conjunto de uma sociedade, os nossos objetos de estudo. Mas para avançarmos na compreensão desses fenômenos, desconfio que precisamos ir mais além. Não só nos porquês e nas conclusões, mas com o próprio instrumento que escolhemos para sondar o universo a ser pesquisado. Não seremos salvos por um dilúvio qualquer de estatísticas. Carecemos menos de percentuais e mais de conteúdos. Necessitamos urgentemente das perguntas certas para chegarmos naquelas respostas que irão nos informar para além do óbvio.
E, fico pensando, precisamos aprender a ser tão complexos como é complexa hoje a nossa sociedade. Importa menos saber o que um sujeito pensa, mas como ele pensa determinados assuntos, para compreendermos, de forma mais radical, as razões que o levam a agir assim e não assado. Dependemos mais disso do que dos percentuais, para construirmos uma rede bem costurada de informações que nos diga alguma coisa que valha a pena.
Fico, humildemente pensando, que o questionário aplicado pelo Datafolha era bastante adequado para mapearmos os perfis de um mercado consumidor, mas não para compreendermos o papel da religiosidade na nossa sociedade. Recolhida na minha insignificância, fico matutando que essas informações são muito boas para formatar infográficos coloridos e ilustrados, mas não para nos desvendar uma realidade desconhecida.
Olhem só, meninas: até um tempo atrás, nos apegávamos a deus para escaparmos da morte absoluta. O nada, eternamente. Mas num mundo descartável, quem ainda pensa numa vida para sempre? Submetidos à hegemonia da ciência, quem ainda confia numa reza, mesmo que vinda do fundo da alma, se esta não vier acompanhada de aspirina, azitromicina e outros inas em doses certas e cavalares? Concordo que ainda temos os olhos voltados para o céu, mas não estamos agora procurando deus, estamos atrás de novos planetas habitáveis, que é para onde vamos escapar se, um dia, a terra nos faltar.
Nesse mundo tão diferente do que já foi, porque ainda cultivamos a nossa religiosidade? Qual a sua influência nas escolhas que fazemos? Qual o seu peso nas decisões que tomamos? O que esperamos de nossa fé, quando enfrentamos dificuldades? Quais as respostas que buscamos nela, quando estamos afogados num poço de dúvidas? Por que ainda precisamos da fé? E em que medida essa fé nos torna melhores ou piores? Em que medida ela nos torna capaz ou não de mudar o mundo? De, através dela, construírmos um mundo mais fraterno? Essas eram algumas das perguntas que gostaria de ver respondidas nessa pesquisa da Datafolha. Mas, parece, vai ficar para uma outra vez.
Um finzinho de domingo iluminado para todos, porque isso é sempre bom, mesmo sem sabermos para quê.
Buenas
quinta-feira, maio 03, 2007
Depressa, mas bem devagar
Agora, mais uma vez, eles vêm nos socorrer. Meninas, não era só impressão não, estamos andando, de fato, mais depressa. O ritmo de vida nas grandes cidades aumentou, em média, 10%, nos últimos dez anos. O trem da vida está descarrilado. Quero ir para Malauí. Nos povoados de lá os dias ainda correm mais devagar. Ou para Manama, as duas regiões onde estão situadas as cidades mais lentas entre as 32 pesquisadas por um grupo de ingleses desorientados. No estudo, eles mediram o tempo que 35 adultos levavam para percorrer a pé, em cada uma dessas cidades, a distância de 18,3 metros. Por que não 20 metros? Esses ingleses, hem?
De cronômetro na mão, concluíram que as três cidades mais rápidas do planeta são Cingapura (10,55s), Copenhague (10,82s) e Madri (10,89s). No Brasil, os danados escolheram, para fazer suas medições, a cidade de Curitiba. Quem me explica isso? Temos uma oferta inesgotável de cidades, mais de 5 mil, e os pesquisadores sempre escolhem Curitiba para fazer seus experimentos. Por que?
Uma vez até tentaram me responder, mas não me convenceram. Disseram-me que é porque Curitiba abriga a maior densidade de famílias da classe média, entre todas as cidades brasileiras. Isso significa que as diferenças entre os grupos sociais são menos significativas e produziria comportamentos mais uniformes. Uma pesquisa em Curitiba, portanto, expressaria um resultado mais próximo da realidade. Nunca fui conferir, mas desconfio se esta seria uma boa razão.
Bom, mas isso não vem ao caso. O fato é que os pesquisadores ingleses também escolheram Curitiba e lá os brasileiros gastaram 11,3 segundos para percorrer os 18,3 metros. Tá certo que em Pedra Azul levaríamos mais tempo, mas em São Paulo, por exemplo, acredito que o nosso desempenho não ficaria muito diferente daquele das primeiras no ranking. Deus me livre! Quero ir para Malauí! Lá, os malauienses levaram 31,60 segundos para atravessar essa longa distância!
Mas se não podemos, meninas, deveríamos pelo menos adotar algumas terapias para reduzir esse ritmo. Poderíamos criar o PID - Programa Intensivo de Desaceleração. A primeira medida a ser adotada seria a Terapia do Não. Já estamos testando-a, mas o resultado ainda não pode ser avaliado. A metodologia que adotamos é bastante simples. Ao longo do dia, uma de nós pergunta para outra alguma coisa qualquer. Por exemplo: você quer dançar um tango em San Telmo? Não, claro que não, agora estou ocupada. Passado um tempo, alguém faz outra pergunta: vamos tomar um sorvete de cupuaçu com maracujá? Cruzes! Não! Mais um tempinho, e outra: que tal cem abdominais antes de uma caminhada forçada na Lagoa Seca? Nunca, não! E assim vai. O dia passa e teremos tido oportunidade de falar várias vezes não! Foi a Dani que inventou essa e ela diz que os primeiros resultados têm sido favoráveis, embora ainda não conclusivos.
Parece bobagem, mas, de fato, com o tempo vamos nos acostumando a dizer não e ele passa a sair naturalmente. Mas o grande lance dessa terapia é que ela funciona muito bem também quando estamos no automático. Por exemplo: se estivermos distraídas e alguém vier nos perguntar, assim como quem não quer nada, se poderíamos fazer alguma coisa, mais uma entre tantas outras da nossa agenda superlotada, o Não! sai sem nem percebermos. Mas esse exercício exige persistência. Não é com três ou quatro nãozinhos de nada que vamos recobrar o hábito saudável de dizer não. É preciso muita força de vontade, mesmo porque, ainda não aprendemos a elaborar perguntas que tenham obrigatoriamente respostas negativas. Para algumas, ainda ficamos tentadas a dizer sim. Então, está claro que essa é uma boa terapia, que poderá nos ajudar a andar mais devagar na vida, mas ainda precisa ser muito aprimorada.
Vamos pensando nisso, mas sem pressa, por favor.
Para todos, uma sexta-feira sem compromissos, assim ninguém precisará dizer não, que, cá pra nós, é uma coisa muito desagradável, apesar de saudável.
PS: Se quiserem aproveitar para vadiar por aí, caminhando no meio de uma paisagem deslumbrante, fantástica, enebriante, criada por Don Hong-Oai, um chinês muito, muito sensível e viajandão, entrem aqui
segunda-feira, abril 30, 2007
Outra verdade inconveniente
Mas Ogle ainda é inacessível, está a 22 mil anos-luz distante de nós e, sinceramente, não sei se faria diferença. Prefiro manter os meus pés no chão e tentar, mesmo que desse jeito desajeitado, entender o que está acontecendo a minha volta. Vou juntando informações, mentiras e verdades, como se fossem peças de um quebra-cabeça, e vou formando possibilidades para entender o mundo onde vivo. Às vezes as imagens são um pouco atrapalhadas demais, preciso desmontar tudo e recomeçar. Outra vezes, me satisfazem, ainda que desagradem a outros. Mas assim vou levando.
Outro dia li o artigo de Edgar Morin, que me fez ver um mundo que me agrada. Um mundo que é possível, se assim quisermos. Hoje li outro artigo. Esse agora não me faz feliz, mas me acalma sabe-lo, pois me dá a certeza de que tem mais alguém, na verdade muitos mais, também pensando nesse mundo e tentando entende-lo. Me dá a certeza de que não somos só um bando de desatinados, imaginando teorias conspiratórias de toda ordem, para tentar compreender os descaminhos que temos percorrido nesses últimos anos.
O artigo é da pensadora norte-americana Naomi Wolf, principal nome do feminismo contemporâneo e referência em filosofia política progressista nos Estados Unidos. Também é consultora informal de Hilary Clinton. Ela publicou um artigo no jornal The Guardian e também concedeu uma entrevista ao jornalista Daniel Buarque, do site G1, falando sobre o tema do seu próximo livro, que deverá ser lançado no segundo semestre: O fim da América – Uma carta alerta a um jovem patriota.
Meninas, não percam esse aperitivo. Tanto no artigo, quanto na entrevista, ela resume o seu diagnóstico sobre a democracia americana. E, olhem, a situação não é nada boa. A democracia americana está com sintomas graves de debilidade e corre sério risco de sucumbir a qualquer momento. Meu caçula diria que não há nada de excepcional nisso. Esse é o destino e a trajetória de todos os grandes impérios. Eles fazem uma longa caminhada até atingir o auge da sua influência; depois, do alto da sua prepotência, tentam assumir o controle do mundo e, para isso, se assim for necessário, abrem mão de todas as suas convicções e princípios. Finalmente, derrotados pela natureza plural da humanidade, degringolam ladeira abaixo, num movimento de conseqüências nem sempre previsíveis. Ele aprendeu isso nos seus livros de história do ensino fundamental, mas sempre me surpreende pela sua facilidade de conectar a literatura com a vida real.
Pra mim isso é bem mais difícil. Sempre acho que uma coisa não tem nada a ver com outra. Literatura é literatura e vida é vida. Custo a conectar. Mas para Naomi e para o meu caçula isso é natural. Naomi observa que os Estados Unidos estão seguindo a mesma trilha de todos os outros regimes que abandonaram a democracia e se tornaram ditaduras, de direita ou de esquerda. Para identificar o traçado dessa trilha, Naomi usou um texto de Umberto Eco, publicado no New York Review of Books, em junho de 1995, no qual o filósofo italiano lista as 14 características fundamentais de todos os regimes fascistas da história.
Ela analisou e identificou na democracia americana dez dessas características: a referência a uma ameaça permanente (no caso, o terrorismo); criação de um gulag (a prisão de Guantánamo); formação de uma casta violenta (republicanos radicais); montagem de um sistema de vigilância interno (espionagem de cidadãos); opressão de grupos cidadãos (grupos contra a guerra são ameaçados); perseguição e permissão de prisões arbitrárias; ameaça a cidadãos; controle da imprensa; tratamento de dissidência como traição; suspensão do Estado de Direito.
Não vou ficar repetindo aqui o que já está dito. Os links estão no texto, naveguem à vontade. Depois durmam tranqüilos se for possível. bush, aquele de sempre, dorme. Nem percebe que estamos percebendo tudo que ele está fazendo. Depois de ler os textos de Naomi, leiam o livro de Al Gore ou vejam o documentário. Estou lendo o livro e tenho uma pena danada dos americanos. Eles devem estar se lamentando desesperadamente por terem deixado as eleições de 2000 terminarem como terminou.
Boa mais vadia para todos vocês no Dia do Trabalho!
quarta-feira, abril 25, 2007
Terra pátria
Pelos exames laboratoriais, os pesquisadores do Museu de História Natural de Londres observaram que a fórmula do material encontrado inclui quase todos os elementos da criptonita original. Quase, mas não todos. Como as rochas de Krypton, o planeta natal do Super-Homem, a mostra encontrada pelos ingleses tem rastros de sódio, lítio, boro, silicato e hidróxido. Mas falta o flúor, que é o que faz a criptonita brilhar. Logo mais, os pesquisadores deverão explicar o porquê dessa deformação. E, acho, vamos entender.
Vencida, então, essa primeira etapa, podemos passar para o segundo grande desafio: encontrar o super-homem. Meninas, acho que essa será uma tarefa insana. Até temos alguns super-homens, mas hoje, exatamente hoje, estamos em falta. Os nossos líderes e ídolos atuais são pessoas tão normais, tão cheias de pecados, de limitações, vícios, defeitos, que acho difícil esconderem na alma um exemplar de super-homem.
Na falta dele, o que nos resta? Sugiro nos virar com o que temos. E olhem, descobri que temos, no meio desse mar de homos normales, uma espécie muito especial, de homos-cuorationes, que é muito melhor do que super homem. Um representante deles, por sinal, escreveu um artigo ontem, publicado no Le Monde, que me deixou em estado de encantamento puro. Ele tem um plano. Não nos oferece a salvação, como advertiu, pois precisaremos percorrer um caminho longo e difícil, mas se toparmos a empreitada, teremos boas chances de encontrarmos uma saída.
Esse homo-cuoratione é Edgar Morin. Não preciso falar mais nada, não é? Acho que nem devo. Voltemos ao que ele disse, que é o que interessa. Então, Morin afirma, de cara, que o sistema planetário está condenado à morte ou à transformação. Ele faz a segunda opção e propõe um plano para a França, que se estende a todos nós, de uma mudança de padrão civilizatório, para alcançarmos a Terra Pátria e uma Sociedade Mundo.
Vou imitar o Clóvis Rossi, que comentou o artigo hoje, na Folha de São Paulo, e preferiu não resumi-lo, mas indicar o link. Só não resisto a dar dois pitacos. Um: Morin defende, já nas primeiras linhas, uma ampla reforma da ONU, para garantir a ela, plenamente, um papel de liderança mundial. Isso é tão óbvio, tão claro, que fico pasma de ainda precisarmos ter de dizer isso. Fico pasma, mas até entendo. Com um bush na cola e um bando de empresas desterritorializadas, com poderes de Estado, como fortalecer um organismo supranacional, democrático, multi e pluri cultural? É difícil, mas acho uma pobreza ainda não termos sido capaz de transformá-la nesse organismo desejado por Morin.
Dois: Morin resgata da história um dos bons refrões que já fomos capaz de inventar. Já inspirou até muito samba enredo nos carnavais brasileiros: liberdade-igualdade-fraternidade. Lembram? Pois é, mas desta trilogia republicana, Morin destaca apenas um de seus elementos, o menos valorizado deles: a fraternidade, e propõe construir um sistema até relativamente simples, de caráter solidário, para a redenção da nossa humanidade.
Torcerei por ele, todos os dias. Mesmo que alguns amigos me digam que esse é apenas um texto literário e que outros me garantam que é um poço de ingenuidade. Prefiro concordar com a Rutinha. Nós nos constituimos é através da palavra e, se queremos mesmo um mundo melhor, primeiro é preciso que alguém diga isso. Então, pronto, está dito. E, todos os dias, continuarei torcendo pelo plano de Morin.
Um dia de inspirações fraternais para todos.
domingo, abril 22, 2007
Do nada ao nada
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
(Chico e Gil)
Tem dias que acordo pretensiosa. Muito mais do que poderia. Acordo me achando mesmo. Senhora de todas as palavras. Crente de que serei capaz de transformar em pedra o que é, por natureza, fugaz e efêmero. Mais grave, crente de que serei capaz de transformar em pensamento, razoavelmente coerente, as idéias que vagueiam distraidamente pela minha cabeça. Criar um caso, histórias, a partir de uma única palavra, que se acende dentro de mim exatamente naquele momento, entre o sono e o despertar, entre o escuro da noite e a luz ainda mansa da manhã.
Vazio. Essa foi a palavra que me despertou essa manhã. Sei de onde ela brotou. Saiu do rótulo de uma garrafa de coca-cola que comprei no supermercado. Coca-cola Zero, que interpretei como sendo vazia. É daí que queria tirar uma história, inventar um pensamento qualquer. Mas o dia foi passando, veio a chuva, veio o vento e, quando me sentei para por as idéias em ordem, elas já tinham ido embora. Ou pior, continuam aqui, mas não dou conta delas. Não como gostaria.
Um dia li em algum lugar que estamos nos especializando no consumo do vazio. Assinamos um e-mail com memória gigapotente, que nunca vamos esgotar. Mas queremos assim mesmo e continuamos querendo mais. Ainda que seja para ficar vazio. Assim como também vai ficar em boa parte vazia a memória do aparelhinho que compramos para guardar músicas. Vinte mil músicas! Claro que o homem já foi capaz de produzir muito mais do que isso, mas não seria capaz de listar mais do que cem, com algum significado para mim, para salvar nesse aparelhinho. O resto seria silêncio.
E seguimos querendo mais qualquer coisa, principalmente, se estiver cheio de nada. Um carro que corra a uma velocidade de até 260 quilômetros por hora, mesmo que nunca tenhamos a oportunidade de um dia pisar fundo no acelerador. Um celular que seja tudo junto, mas que vamos usar apenas para discar eventualmente para alguns poucos amigos e deles receber ligações também esporádicas. Um google, que tenha todas as informações sobre tudo, mas que nunca seremos capaz de juntá-las, para formar um conhecimento que dê conta de nos explicar o que é esse mundo onde estamos vivendo. Uma cafeteira que ainda esquenta o leite, torra o pão, passa a geléia e nos deseja bom dia! Não sei se existe, mas bem que poderia, mesmo que só fossemos usá-la para passar o café. Querendo.
Acho que estou me lembrando de como foi que tudo isso começou. Acho que estou: foi com a durex dupla face! Naquela época nossas ambições eram bem mais modestas e até que funcionavam bem. Mas acho que agora exageramos. O vazio que consumimos diariamente já nem se limita mais apenas às coisas. Estamos nos tornando especialistas nessa generalidade. Lembrei agora de um texto de Norval Baitello Jr., que li um dia não sei a troco de quê. Ele falava das infinitas possibilidades que temos hoje de nos comunicarmos com o mundo. Mas chamava a atenção para o fato de que, ao mesmo tempo em que crescem e diversificam-se essas possibilidades, cresce também, em idêntica proporção, os riscos de incomunicação com o mundo, com os outros homens e dele consigo mesmo. Comunicação e incomunicação andam juntas, de mãos dadas. A possibilidade e a impossibilidade com todas as suas lacunas e boicotes, como se fossem uma.
E, ainda assim, buscamos. Buscamos o tudo, o todo, o mais alto, o mais distante, embora ali não iremos encontrar grandes coisas além do vazio, do nada, porque o que procuramos está é bem dentro de nós e o que precisamos está é bem ao nosso alcance. Mas buscamos. Como busco agora transformar em pensamento, um sentimento que não se expressa em palavras. Não toquei nem tangenciando a idéia que me passou pela cabeça, hoje cedo, quando acordei. E vou deitar com a mesma palavra retumbando na cabeça. Um texto cheio de nada, foi o que consegui fazer. Vou deitar com as mesmas perguntas, da mesma forma sem resposta. Talvez porque também estejam cheias de nada.
Mas, ainda assim, pergunto. Com o que haveremos de preencher os vazios da nossa existência pós-moderna? Ou será que viramos um imenso plástico bolha? Estaremos todos, irremediavelmente, atados a um complexo sistema de redes globalmente conectadas, através de pontos cheios de nada? Ou será que esse vazio ganhou significado? Intransigência. Ou tornou-se o sentido explícito da nossa existência, nesse mundo caótico de deus? Diz agora tanto quanto um copo vazio, cheio de ar?
Uma semana de agenda cheia para todos, assim não sobra tempo para ficarmos esperdiçando pensando em nada.
Buenas.
quinta-feira, abril 19, 2007
Vagarosa mente
E se vou ficar só vagando pelas notícias que rolam na tela, pelas manchetes dos jornais, que saltam sobre meus olhos e embaçam a minha visão de mundo e me confundem sobre o certo e o errado, então, se vou só divagar mesmo, que seja sobre nada.
Não vou nem me permitir distrair com as besteiras que às vezes me divertem. Fazer perguntas sem resposta, por exemplo. Qual é a capital do Brasil? Se continua sendo Brasília, por que bush, aquele, e o papa, que não é mais pop, vão é a São Paulo? E o que o papa vem fazer no Brasil? Vem rezar ou comer? Por que os jornais, então, só falam do cardápio que ele terá na sua passagem pelo país?
Nhoque com mandioquinha, sopa de palmito, broinha de fubá, bombons de todo tipo, nozes fingida, vinhos e águas e massas variadas. Então, o que o papa pensa sobre o papa? O que pensa sobre Boff, Casaldáglia e tantos betos e marcelos, não o padre, mas o Picolo? O que o papa pensa sobre o que pensa?
Mas nem! Não vou me permitir dar risadas hoje. Também, porque daria? Recapitulando: segunda, 31 muertos; terça, quase isso, quarta, mais de 200. É a obesa estatística da violência. Três manchetes seguidas, de diferentes lugares do planeta, por razões que também não coincidem, mas que estão sincronizadas, sintonizadas, alinhadas, irmanadas no mesmo jargão: bang-bang. A cultura contemporânea é assim. É dark, é dura, é crua.
Mas nem! Também já disse que não vou pensar nem por ordem nas idéias, ops, as idéias em ordem e assim por diante. Amanhã, quem sabe, quando elas se dissolverem no ar, virarem poeira no vento e vierem pousar aqui, nas teclas desse computador, quem sabe, encontre as melhores letras que combinem com minhas melhores idéias.
Um dia ao vento, sem amarras nem conexões.
Inté, porque hoje já é amanhã e levanto cedo, aconteça o que acontecer.
sábado, abril 14, 2007
Mais menos, se é possivel
Até ontem, não tínhamos dúvida de que se conseguíssemos mudar o nosso comportamento nos shoppings e diminuir nossas idas ao supermercado, além de boicotar a indústria de marcas, o mercado da moda e desmascarar o país das maravilhas da publicidade e assim por diante, nós conseguiríamos conter o nosso desejo desenfreado de consumo. Querendo menos, cada vez menos, alcançaríamos o ideal de reduzir os nossos gastos apenas ao necessário, somente o necessário e, vitoriosas, estaríamos contribuindo de uma forma absolutamente fundamental, para restabelecer os padrões sustentáveis de consumo e produção do nosso planeta. Estão lembradas?
Pois é. Agora esqueçam tudo isso. Não temos a menor chance. Me falaram de um livro, que já é até bem antigo, mas que demonstra que não há a menor possibilidade de um dia isso vir a acontecer. Pelo menos, não no ritmo e na intensidade que precisaríamos para que nossos objetivos fossem alcançados. E é melhor assim. Ainda não li, mas uma hora vou ler, porque já gostei muito do comentário que me fizeram sobre ele. Foi o suficiente para que eu concordasse com o autor e me voltasse aquela vontadezinha danada de comprar mais um livro para colocar na cabeceira da minha cama. Ai ai.
Mas vamos lá. O livro é de Néstor García Canclini e chama-se Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Nem sei se o que comentávamos, quando Canclini foi citado, resume mesmo a idéia central do livro, mas deve estar presente em algum momento do texto. Naquela hora nós falávamos de identidade. É óbvio que todos nós precisamos de uma. Quem vive sem uma identidade? Isso é nosso mesmo, o sentimento de pertencimento, de fazer parte de uma tribo qualquer, é como o ar que respiramos. Sem isso, nem existimos. Ou pelo menos pensamos que não.
Bem resumidamente, Canclini entrou na história porque, no livro, ele cita esse processo, de construção da identidade, e o relaciona exatamente com o consumo. A idéia dele, se captei direitinho, é a seguinte: quando vivíamos nas comunidades rurais, nossa identidade nos era dada pelos parentescos que herdávamos. Sou fulana, filha de beltrana e do seu beltrano. Era assim até ficarmos velhinhos. E se nossos avós e pais eram pessoas do bem, melhor ainda, porque isso só abria portas para nós. E essa identidade nos bastava. Nessa época, também, tínhamos uma necessidade de consumo muito básica. Às vezes, nem queríamos. Eram as coisas que chegavam lá. E isso não nos fazia infeliz.
Nas sociedades modernas, altamente urbanizadas, a construção da nossa identidade tornou-se um pouco mais complexa. É claro que o filho de Abílio Diniz, continua sendo o filho de Abílio Diniz, herdando uma identidade que abre portas. Mas isso só não é mais suficiente. Nem para ele nem para todos nós, que nos misturamos no meio da multidão. De que adianta falarmos que somos fulaninha, filha de beltrana e seu beltrano? Quem são esses dois ilustres desconhecidos? Então, o que Canclini fala é que, a partir daí, esse processo tornou-se mais complicado. Hoje, precisamos construir a nossa identidade a todo momento. E se ela não se revela mais no sobrenome que carregamos, temos de buscar substitutos.
Aí é que a história começa a se complicar e nossa estratégia maquiavélica começa a rolar ladeira abaixo. Para ele, a saída que encontramos, ou que nos deram, sei lá, foi a de compor a nossa identidade através do consumo, principalmente, do consumo de supérfluos, já que o básico hoje, praticamente todo mundo tem. Vocês não chegariam num lugar qualquer e se apresentariam assim: eu sou fulana, tenho um par de sapatos, um relógio, uma bolsa tiracolo e uns óculos de grau? Não iriam, não é mesmo? Dependendo da sua tribo, vocês estariam usando um sapato determinado, um relógio que é o relógio e assim por diante.
Os personagens que vão surgindo nesse processo são construídos, então, influenciados por diversos fatores, mas um é determinante. É sempre assim, temos várias opções, mas uma sempre é mais forte que a outra. É determinante. No nosso caso, esse fator é a televisão e, mais ainda, a publicidade. É ela quem dá significado para esse mundo de coisas que jogam no mercado todos os dias. É ela quem me diz qual xampu devo usar para me sentir bem loura, bem linda, bem sexy e tal. É ela quem me diz que devo ser cliente daquele banco, porque, nele, todas as clientes são muito inteligentes, cultas, articuladas e modernas. Então é assim, vou vendo na televisão, olhando para a minha turma, percebendo o meu espaço e compondo a minha identidade. Uma ou várias, dependendo da minha ansiedade.
Aí vem a parte mais dramática dessa história. Deixar 80% dessa moçada toda, que está por aí, fora do consumo é um perigo inimaginável, conforme alerta Canclini. Se eles não puderem comprar os adereços que irão compor sua identidade, não tenham dúvida, eles vão tomá-los de alguém. E não é porque são maus, ou porque estão passando fome, ou porque querem se vingar de quem tem, ou porque são doentes, loucos, bárbaros. Vão tomar, porque precisam disso como precisam do ar. Eles, como nós, querem uma identidade. Estão atrás dos significados que inventamos no país das maravilhas da publicidade. E se fosse só isso, estava bom. Mas estão atrás de todos os significados disseminados pelo mundo afora. E a violência, não tenham dúvida, é um deles. Basta abrir o jornal, ligar a televisão, ir ao cinema, andar na rua. Então, eles querem o mizzuno e, se possível, respingando sangue. Querem fazer sentido também. Pertencer.
Sentiram o drama? Acho que nem o capitalismo 3.0, em versão atualizada, pode dar conta disso. A situação ficou muito complicada, meninas. Precisamos nos encontrar novamente e rever nossas estratégias. Talvez, além do bolsa família, Lula precisará distribuir também bolsas consumo supérfluo. Enquanto isso, nossos planos vão pras cucuias. Já viram, não é?
Para todos, um domingo quietinhos dentro de casa, olhinhos fechados, ouvidos tampados, para não ter nenhuma vontade de nada. Mas antes, um fim de sabadinho ao som do Uakti para todos. Eu vou.
Inté. Agora, só quando der mesmo. Estão lembrando dos dias mínimos, não é?
domingo, abril 08, 2007
Feira livre
Olha se não tenho razão. Sempre leio o jornal de baixo pra cima, para não deixar me influenciar pela manchete e perder as outras notícias relevantes. Depois da primeira página, também pulo para a última e leio o jornal de trás pra frente. Acho que é por isso que o mundo, às vezes, me parece sempre meio esquisito e confuso. Mas hoje não consegui passar da primeira página.
Vi lá, num cantinho, uma foto à meia luz, quase na penumbra, e a chamadinha em letras brancas e puras: Edemar culpa BC pela quebra do Banco Santos. Puxa vida, como é que esse cara ainda encontra espaço na mídia, para falar o que pensa? Tanta gente boa por aí com coisas interessantes para contar, vão me desenterrar Edemar! E o Zé Mané que bateu a carteira de um fulaninho na Paulista? Onde é que ele vai contar sua versão?
E tô ferrada! Já tinha me dado por satisfeita de envelhecer do jeito que deus quer. A Dove me ajudou a tomar essa decisão. Embora seus produtos também me dêem alergia, a Dove me garantia que é possível ser bonita do jeito mesmo que somos. Agora vem a Folha me contar que uma psicóloga de Harvard - ai os avanços da ciência! - descobriu que a beleza não só existe, como é injusta mesmo. Duvidei. Fui lá conferir e quebrei a cara. É isso mesmo. Beleza é para poucos e não adianta querermos democratizar o conceito. Pra ficar mais ou menos na foto, tem de usar sim todos os cremes que anunciam, beber muita água, comer alface, dormir cedo e tudo mais que já nos disseram um dia. Ave! Mas continuarei na minha jornada solitária, porque não tenho outro jeito. Um dia conto essa história.
E outra: a manchetinha do Cotidiano. Quase deprimi o resto do domingo. Mães no climatério e filhos na puberdade deixam maridos entre dois fogos. Pode isso, meninas? Agora a culpa é nossa, outra vez. Mãe não tem perdão. Nem na menopausa eles têm complacência com nós outras. E o maridão lá, vítima das circunstâncias. Ô coitado, hem? Mas na hora que o bicho pega pra valer, me respondam meninas, quem é que aparece para apaziguar os ânimos e encontrar um meio termo que atenda a todos? Quem é? Não somos nós? Como são eles que ficam entre dois fogos?! Merecemos, não merecemos?
Não quis nem entrar em detalhes, mas fiquei intrigada, querendo mesmo entender o que é que a Folha está pretendendo com isso? Cresce o apoio à pena de morte, diz Datafolha. Sinceramente, isso me intriga. Lá em 88, já existia uma maioria que se dizia favorável à pena de morte, mas nem por isso perderam o bom senso. Rejeitaram qualquer mudança na Constituição brasileira que tornasse essa prática legal. Agora não deve ser muito diferente. Continua sendo feio aplicar a pena de morte, embora, no caos em que estamos metidos e na falta de políticas públicas mais criativas, seja razoável alguém defender a pena de morte, ainda que em tese. Mesmo porque, seria inócuo ter a possibilidade de aplicá-la. Com a agilidade da nossa Justiça é mais certo o condenado morrer de velhice, do que numa cadeira elétrica ou o que for. E tem mais, questionário de pesquisa o povo responde o que esperam que ele responda, porque ninguém quer pagar mico com a menina da entrevista, né? Minha professora que me disse isso e eu concordo. Então, resultado de pesquisa tem de ser lido com mais cuidado e não virar manchete de domingo, mesmo que secundária. Por isso me intriga.
E o relatório da Federação Internacional das Associações dos Controladores de Tráfego Aéreo? Sem comentários. Muito isento, esse relatório. Tudo bem, o Cindacta-1 já é quase um quarentão mesmo, mas está em plena forma, não é não? Diria até mais: está na flor da juventude! Os Estados Unidos possuem uma rede de radar que é ainda mais antiga que a brasileira. Boa parte do país está coberta com unidades construídas entre 1960 e 1970. E, até hoje, isso não mudou muito, apesar dos problemas que o país enfrentou durante o 11 de setembro. Depois disso, o que as Forças Armadas norte-americanas fizeram foi visitar o Brasil para conhecer o nosso sistema integrado e, com base no que viram, prepararam um relatório pedindo, explicitamente, a adoção de um sistema integrado, usando como modelo a solução brasileira. Mas não mencionou a necessidade da troca de radares. Pelo menos foi isso que o Correio Braziliense noticiou no dia 16 de julho de 2002. Então? O que a Ifacta está querendo agora? Vender consultoria? E desde quando psicólogos entendem de controle aéreo? Se muito, dão conta de descontrole emocional.
E, por fim, uma notícia velha. Transformaram o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática num novelão. Essa é de sábado, mas ficou na minha cabeça, como uma enxurrada depois da chuva. Então, estão divulgando o relatório em capítulos, cada um mais dramático que o outro. Isso me preocupa muito. Essa estratégia não tem dado muito certo com as novelas da Globo. O ibope delas só vem caindo. Do relatório, não sei, mas já estou sentindo um certo desinteresse. As notícias já estão caindo no tititi mundano. Fulano disse isso, sicrano falou aquilo, alguém exagerou, beltrano abrandou as conclusões do relatório para atender interesses políticos e assim vai. Daqui há pouco, na cobertura do próximo capítulo, vão chamar o repórter da Contigo ou de Caras para fazer a matéria.
E chega de feira livre por hoje. Tenho dois escorredores cheios de louças e cristais para guardar. Divagar agora, só se for na cozinha!
terça-feira, abril 03, 2007
No susto
Já disse que não estou dando conta desses dias mínimos, que não acolhem nada além da agenda. Já disse, não disse? Agora, para complicar ainda mais o meio de campo, inventei de me especializar novamente. É estranha essa opção, num mundo cada vez mais genérico. Até eu fiquei pasma, mas cansei de ficar pensando no que seria melhor e no susto topei. É assim. No susto a gente faz coisas que não faria se tivesse mais alguns segundos para pensar.
No susto, por exemplo, o Lula mandou seu pessoal evitar a intervenção militar no movimento dos operadores de vôo do último final de semana. Depois, conseguiu alguns minutos para pensar e a ficha caiu. Voltou atrás. Mas demorou e virou o centro da crise. Enquanto isso, continuamos sem saber o que se passa nos bastidores. Só nos mostram o palco da crise. Aeroportos lotados, vôos atrasados, gente reclamando, brigando, chorando, como se tivessem sido apanhadas no susto. Se tivessem parado para pensar um pouco, teriam ficado em casa, feito reunião pelo viva voz, pela internet, videoconferência ou o que for, até mesmo adiado um compromisso inadiável. Afinal, na vida tudo é provisório. Não há nadica de nada que seja definitivo e irremediável. Só o fim.
Mas no susto, outros 193 mil* potenciais passageiros da aviação comercial brasileira desistiram de enfrentar fila nos aeroportos e compraram um carrinho zero para fazerem seu percurso por terra mesmo. A indústria automobilística brasileira agradece sensibilizada. Teve o melhor março da sua história, com um aumento nas vendas de 31.8% em relação ao mês de fevereiro. Os novos felizes proprietários de um carro zero ainda não tiveram tempo para pensar, mas, quando chegar a primeira prestação, se não levarem outro susto, encontrarão alguns minutos no seu dia para chorar sobre o leite derramado e fazer uma profunda reflexão sobre essa decisão que, desconfio, foi precipitada.
Ainda no susto, 15 marinheiros britânicos, capturados pelo governo iraniano, ultrapassaram a fronteira móvel que divide as águas territoriais entre o Iraque e o Irã no Golfo Pérsico. Se tivessem tido tempo para pensar, teriam adentrado o rio Eufrates ou o Tigre, em vez de ficar brincando de mãe da rua em área de contestado. Não que, subindo o rio, fossem encontrar um clima menos beligerante, mas, pelo menos neles as linhas são mais bem traçadas e não criam margem sem leito. Lá não haveria risco de serem colados numa polêmica como a que estamos sendo obrigados a assistir agora.
No susto também, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que a Agência de Proteção Ambiental americana tem a autoridade para regular as emissões de gases-estufa por automóveis. A corte decidiu ainda que a agência não pode dispensar sua autoridade para controlar esses gases, que contribuem para a mudança climática, a não ser que forneça argumentos científicos para a recusa. Ainda bem que a Corte não teve tempo para pensar e decidiu de supetão. Se parasse um minuto e avaliasse o tamanho da briga que estava comprando, teria repensado sua decisão. bush, aquele que não precisa mais assinar o Tratado de Kioto, ainda não se recuperou do susto. Mantém-se em silêncio sepulcral. Eu dispenso seus comentários. Agora só quero ação impulsiva.
E assim, de susto em susto, caminha a humanidade. Eu vou junto, mas não sei se vou dar conta de chegar ao fim. Se, de repente, no meio do caminho, um trem qualquer me assustar, me deixo levar sem nem pensar. Qualquer trem, desde que seja mais atraente, mais divertido e menos maçante do que quatro aulas numa noite de sexta-feira, seguida de mais tantas outras num sábado inteiro. Qualquer trem mesmo e, principalmente, se for um que me deixe divagar sem fronteiras, o jeito que mais gosto de pensar. Se for assim e for no susto, acho que me deixo levar sim. Ou será que não?
Que nossos anjinhos da guarda não nos preguem nenhuma peça nessa noite e que amanhã o sol amanheça no mesmo leste de sempre.
Inté mais ver. No susto.* Exagerei. Tinha postado 490 mil e lá vai pedrada. Mas esse número refere-se ao total de vendas do setor automobilístico no período de janeiro a março. Aí, ouvi no CBN Brasil, que as vendas de março ficaram em 193 mil, o que corresponde a um crescimento de 31,8% em relação à fevereiro. É isso. Agora tudo está mais preciso.
quinta-feira, março 29, 2007
E se
Fico com uma pena danada de não termos mais as quatro estações do ano como sempre tivemos. Se tivéssemos, hoje estaríamos tirando do maleiro os nossos twin-set de cores variadas, para enfrentarmos as tardes mais friinhas do outono. Se tivéssemos, era hora de escovarmos nossas botas de cano curto, pois fatalmente estaríamos precisando delas para nos proteger da friagem nos pés. É gripe na certa, concordam? Se tivéssemos, teríamos de correr para fechar as janelas antes do anoitecer, pois o vento encanado é outra receita infalível para gripes com os mais variados sintomas.
Se ainda tivéssemos as quatro estações do ano, pegaria um livro do Manoel de Barros, a manta azul que uma vez ganhei de presente de aniversário e me deitaria no sofá da sala para ler poesias. Se ainda tivéssemos, abriria uma barra de chocolate da Lindt e a devoraria inteira, para não deixar rastros. Ou então, em vez de coca-cola com gelo e limão, faria um chá de damasco, daquele que comprei numa loja do shopping Eldorado, uma vez que fui
Já que não temos mais as quatros estações do ano. Já que está um calor do cão, que não deixa ninguém dormir. Já que o vento está parado e que o ar está seco de tudo e me faz tossir sem querer. Já que não há previsão de chuvas para amanhã nem para depois de amanhã. Já que nos tiraram o murinho do jardim, onde sentávamos para ficar olhando a rua e as pessoas passando. Já que do outono que tivemos sobrou apenas esse céu azul-azul. Já que tudo isso e nada mais, vou mudar de assunto. Vou ver o Jornal das 10 e outra hora eu volto.
Buenas
segunda-feira, março 26, 2007
Sem mais ilusões
Desisto. Vou envelhecer como deus quer. Outro dia, resolvi enfrentar os sinais do tempo, apelando para os avanços da farmacologia moderna. Comprei dois cremes fantásticos, último lançamento da linha de neurocosméticos. A vendedora, uma entendida, me garantiu que os produtos eram dermatologicamente testados e que eu ficaria impressionada com os resultados.
Francamente, acho difícil me impressionar com isso. Primeiro, porque sempre que me olho no espelho tiro os óculos e aí só me vejo muito vagamente. Não me enxergando em detalhes, acho pouco provável que me encontre em condições de avaliar o resultado dessas poções milagrosas. Depois, porque as coisas que me impressionam genuinamente são de outra grandeza. Fico estarrecida é com as manchetes de jornais, com as histórias de vida que capto no ar, com as gracinhas dos meus meninos e assim por diante.
Claro, não vou dizer que uma ruga a mais ou uma ruga a menos não mexa com o meu humor. Tem dias que saio de casa mais satisfeita com o que não vi no meu rosto. E tem dias que saio de mal com o mundo, ainda que conformada e passiva diante do poder imbatível do tempo. Mas tem dias também que fico pensando no que vem primeiro: se a mudança de humor ou se as rugas que querem redesenhar meu rosto. É uma dúvida e trago-a sempre comigo como um conforto para os dias que virão.
Mas comprei os cremes. Os potinhos são maravilhosos, parecem duas caixinhas de jóia e eu amo caixinhas. Mesmo vazias. Em casa, tirei-os logo da embalagem e deixei os dois potinhos bem à vista, na bancada do banheiro, para não me esquecer de usá-los assim que fosse possível. Nisso, foram dois ou três dias, até que finalmente me animei a experimentá-los. Vai que funcionem bem.
Primeiro, lavei o rosto com um sabonete especial. Pois é. Tive de comprá-lo também. Já disse que a vendedora é uma especialista, não disse? E ela me explicou que é assim que devo fazer. Primeiro lavar o rosto com esse sabonete, depois enxugá-lo com uma toalha branca e bem macia e, só então, passar os cremes. Em movimentos circulares de baixo para cima. Parece até simpatia, mas segui todas as recomendações.
Não precisei de mais de uma sessão vaidade para ver que isso não ia dar certo. No dia seguinte, acordei com os olhos coçando, depois o rosto, depois o pescoço e depois os braços e, antes do meio dia, já tinha certeza absoluta de que o que estava sentindo era uma reação alérgica aos cremes dermatologicamente testados e da última geração dos neurocosméticos. Claro.
Tem dias que fico impressionada é com a minha teimosia. Já passei por essa mesma situação umas quinhentas vezes: quando quis usar um esmalte cor de vinho, de marca comercial, que vinha numa embalagem fascinante, de vidro opaco com tampa de aço escovado; quando quis passar um batom rosa choque com ingredientes naturais; um brilho labial importado, que uma amiga me deu de presente; um protetor solar fator 30 não oleoso; perfumes das mais variadas fragrâncias e assim por diante. Tudo me dá alergia. Por isso só compro cosméticos numa farmácia de manipulação, vendidos em embalagens de remédio. Não têm o menor charme.
Por isso também, desisto. Vou envelhecer do jeito que deus quer, mas com bastante discrição, igual D. Mariza, não a do Lula, mas a do vice José Alencar. Vou envelhecer sem adjetivos, fazer o quê? Agora, cá pra nós, maldita lei da gravidade! No Brasil temos tantas leis que não pegam, precisava ser justamente essa para colar assim com tanta ênfase? Meninas, deveríamos fazer um movimento, uma campanha com abaixo-assinado e blog na internet, para exigir dos nossos parlamentares a revogação de pelo menos alguns dos artigos dessa lei. E aí, topam?
Uma noite sem fantasias nem maquiagens nem ilusões. Mas que seja bem estrelada para continuar iluminando nossos sonhos.
Até de repente outra vez.
quinta-feira, março 22, 2007
Tabuleiro de damas
Ontem, voltando para casa, no auge do horário de pique e em plena avenida do Contorno, flagramos um carro novo da Fiat, discretamente camuflado. Um não, três de uma vez, mas conseguimos registrar apenas este que aí está. De cara, estranhei um pouco a estampa, agora já me acostumei e estou achando-a até moderninha. Pode colar para coleção inverno. Mas, do que esse protótipo deixou escapar, a sua forma basicamente, ela me pareceu a mesma de todos os últimos modelos lançados por qualquer uma de todas as marcas. Mas qual será a verdade que essa realidade esconde? O que virá a ser esse carro camuflado de tabuleiro de damas?
Lembrei de Fernando Sabino. Ainda não fui ver a exposição em sua homenagem, montada no Palácio das Artes. Março já está por um fio e ainda não arrumei tempo para passear. Ó céus! Esses dias mínimos que não acolhem nada! Mas lembrei de Fernando Sabino por outra razão. Ele tinha uma metáfora para falar da realidade e da verdade que, quando li, me encantei. Ele dizia que a realidade serve, entre outras coisas, para encobrir a verdade. E exemplificava com um tabuleiro de damas. Seria branco ou preto? Nem uma coisa nem outra, em sua opinião. Para Sabino, a outra cor que ele é de fato, encoberta pela realidade, é que é a verdade. E para Sabino, como é quase impossível vê-la ou alcançá-la, a verdade só pode ser experimentada pelas vias da fantasia. E é o que fazia com as suas crônicas do cotidiano. Ave Sabino!
Mas não vou gastar maionese para viajar nesse tabuleiro de damas. Já disse que suas formas não sugerem nada de novo, embora deus more nos detalhes. Mas agora estou ocupada com outras coisas. Fiquei pensando no nosso PIB, agora em nova edição, novo formato também e com valores recalculados. Qual será a verdade que essa realidade de números e percentuais esconde? Seja qual for, sempre penso que o Produto Interno Bruto de um país, apresentado também como o indicador de suas riquezas, é absolutamente insuficiente. A verdade é muito maior e, nesse caso, está visível ou, pelo menos, de algum jeito perceptível, nas imagens que retratam nossa realidade. Escapa pelos poros, se esconde nas entranhas dela, mas se insinua no seu relevo e, por isso, é bem mais fácil de ser imaginada.
Fico pensando, que a riqueza de um país deve ser também calculada anualmente e ter o seu próprio indicador, um Riqueza Interna Bruta (RIB), representado pela soma do PIB mais o valor estimado de suas riquezas naturais. Aí sim, o Brasil estaria tendo uma avaliação mais verdadeira e não apenas realista, da sua grande riqueza. E, quem sabe, pularia do 11° para os cinco primeiros lugares entre todos os países do mundo.
Um dia real e pleno de verdades para todos.
Inté
Trilha alternativa: Escravos de Jó, de ninguém...mas é sempre uma boa lembrança.
domingo, março 18, 2007
Por um triz
Sábado, mais de 50 mil americanos, agasalhados até o pescoço, foram às ruas para protestar contra a guerra do Iraque. Cá pra nós, é muita gente! Para mim, é até muito mais do que muita, considerando o frio que estava fazendo lá. Só estando muito bravo mesmo para cometer essa insanidade, não é não? E 50 mil, venhamos e convenhamos, qualquer criança sabe disso, é muito mais que 2 mil, - o total de ex-combatentes e ainda partidários da guerra que também foram às ruas, defender a permanência dos americanos no Iraque.
E 2 mil é menos ainda, porque, além dos 50 mil americanos que protestaram em Washington, houve manifestações em várias outras cidades americanas, inclusive hoje, e em vários outros países, como Bélgica, Malásia, Japão, Espanha, França,Turquia e Grécia. Não tive notícias de protestos no Brasil, mas eu entendo. Primeiro, não temos a mesma facilidade dos americanos para ficarmos bravos e, depois, estamos muito ocupados com a nossa guerra particular. Ainda não ficamos bravo o suficiente para irmos às ruas. Levamos mais algum tempo para isso. Mas já estamos reagindo bem. Ontem, no Rio de Janeiro, palco da nossa guerra civil, foram fixadas 700 cruzes na praia de Copacabana, representando cada uma das vítimas da violência naquela cidade, desde o início de janeiro. Isso é um começo, não é não?
Mas voltando aos americanos, eles estão começando a ficar também impacientes com bush, aquele que não precisa mais assinar o Tratado de Kioto, pois teremos coisa melhor pela frente. Eles estão perdendo a confiança em bush, sabe como é? Isso é a pior coisa que pode acontecer a qualquer pessoa. O que dirá a um presidente! E a última vez que os americanos perderam a paciência com um presidente, eles o mandaram de volta para casa mais cedo. Lembra do Nixon? E a última vez que os americanos ficaram bravos com um presidente belicoso, o mesmo Nixon, por coincidência, ele teve de chamar a tropa de volta para casa mais cedo, antes do final da guerra, ou melhor, antes de vencerem a guerra, se é que alguém acreditava que isso ainda era possível naquela época. Assim como hoje, né? No Vietnan, como no Iraque.
Eu vi. Finalmente eu vi, neste domingo, dia 18 de março de 2007, alguém em Washington, segurando um cartaz, pedindo o impeachment de bush. Estão ficando impacientes, não disse? Mais do que isso, eu li, numa das infinitas páginas da internet, a notícia de que o procurador-geral do Tribunal Penal Internacional, Luiz Moreno Ocampo, um argentino, reconhecer, ainda que hipoteticamente, a possibilidade de um dia o primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair e o presidente dos Estados Unidos, bush, serem processados pelos crimes cometidos no Iraque. Não estou dizendo? Está pintando um clima nessa novela.
E não são apenas os americanos e o mundo que estão ficando cheios dessa guerra não. Os próprios iraquianos estão por um triz e com muito mais razão. Nove em cada 10 deles dizem viver sob o domínio do medo. Temem, sabiamente, que a violência da guerra, mais dia menos dia, alcance a eles ou às pessoas com quem convivem muito proximamente. Respondendo à mesma pesquisa, realizada pelo jornal USA Today, pela rede de televisão ABC, pela BBC de Londres e pela rede de TV alemã ARD, 82% confirmaram não confiar nas tropas de coalizão, e mais de dois terços, disseram preferir a proteção das próprias forças de segurança iraquiana. Isso é um sinal de exaustão. Será que bush vai entender?
Segunda-feira, quando chegar à Casa Branca, bush terá nas mãos uma ótima justificativa para retirar as tropas americanas do Iraque. Não terá outra oportunidade como essa. Não encontrará outra saída mais honrosa do que essa: o desejo do povo americano. Vai? Mas será que bush vai entender isso? Será que a indústria armamentista americana e suas subsidiárias pelo resto do mundo terão ouvidos para captar esses sinais?
E, voltando à nossa guerra civil particular, será que vamos aprender a ficar bravos também, a subir nas tamancas e a rodar a baiana? Será que vamos dar sinais da nossa exaustão diante das estatísticas, cada vez mais gordas, da violência não só no Rio, mas em todas as grandes cidades do país? Será que vamos ser capaz de nos mobilizarmos para, juntos, buscarmos saídas mais consistentes da barbárie em que nos metemos?
Será? Será? Será?
Uma semana de suspenses pela frente.....
Mas que seja plena de luz e paz para todos e sempre.
Inté.
PS: Ia me esquecendo:
Trilha alternativa: Tá com medo?, de Arnaldo Antunes. Não é a que gostaria, preferia Da aurora ao luar, mas é a que está sendo possível hoje.
quarta-feira, março 14, 2007
Cenas da cidade
Queria ver o pôr do sol lá de cima, do topo do mundo. Mas não tem dado tempo. O jeito é arrumar brechas na cidade e descobrí-lo no meio dos prédios, postes e antenas. Ainda assim, é lindo. A fartura de cores no céu esconde a cidade no meio da penumbra e, por alguns instantes, nos faz esquecer das buzinas, da correria do dia, do zum-zum-zum do rádio e dos verbos imperativos, gritando dos três mil quinhentos e tantos out-doors espalhados pelas ruas. Por alguns segundos, durante aquele pôr do sol, mergulhamos no silêncio e isso é o suficiente.
Um pôr de sol para todos, farto de cores e luzes, nos espiando por uma brecha da cidade.
Inté, até quando der
segunda-feira, março 12, 2007
Previsão dos ventos
Só sei que o que existe de vivo dentro de nós é sopro. É vento puro que nos empurra pra frente e pronto. Tem vez que rodopia e nos leva para um lado ou para um outro, até bem diferente daquele que imaginávamos. Tem vez que é furacão. Nos joga fundo, mas é de um lado para o outro. Joga com vontade mesmo e, onde damos de cair, entramos de cabeça e alma seja lá no que for. É a variação que mais gosto e a que tenho mais receio também, porque é nessas horas que a gente costuma também quebrar a cara. E aí, esse sopro que é vento dentro da gente pode virar um ciclone e nos fazer ficar rodando sem direção alguma. Aí já não gosto. Prefiro a calmaria. Quando o vento vira sopro de novo, e fica só aquela brisa. A gente dando tempo ao tempo. Mas seja qual for a previsão dos ventos, o que existe de vivo dentro da gente é sopro. É fugaz. É instante. Não mais que isso. A gente é que se ilude e acha que é história. Mas não é. É quase nada no tempo do mundo. É segundo, se muito. E se está aqui, não está mais. O que existe de vivo dentro de nós é tão ligeiro que nos escapa. Mas se foge das nossas mãos é porque tem de ir mesmo. É o rumo que deu de seguir. Só isso.
Um dia de calmaria para todos. Se quiserem, furacão.
Buenas
quarta-feira, março 07, 2007
Sempre alerta!
Não tenho nada contra George W. Bush. É só um homem, que no final vai morrer como todos nós. Quem me aborrece profundamente é a sua personagem, o presidente bush, aquele que não assina o Tratado de Kioto, mas agora, já quase. É, sem dúvida, o pior desempenho no pior momento da história dos Estados Unidos. Se fosse possível, o melhor seria descer o pano rapidamente, mas estamos condenados a assistir ao seu espetáculo até o final e sem direito a pipoca nem jujuba. Ai de nós!
Também não temo George W. Bush, um homem patético, que tropeça nas escadas, engasga comendo pretzel, troca nome de pessoas, de lugares, erra na conta, no copo, e não sabe onde estão guardadas as suas meias. Ele não me assusta. Temo é sua representação e a limitada visão de mundo da sua personagem. Tenho pavor do seu jeito impulsivo de tomar decisões. Tremo quando a vejo na tevê, com seus olhinhos apertados e seu sorriso de banda, anunciando alguma novidade. E temo, radicalmente e principalmente, todos aqueles que pensam por ela.
Como George W. Bush, que já foi sócio fundador de uma empresa petrolífera, vendida para a Harken Oil & Gas, pouco antes de se eleger presidente, todos os seus maiores colaboradores são oriundos do mesmo setor. Dick Cheney, conforme informou Eduardo Galeano no seu artigo Humor Negro, acumulou sua fortuna pessoal na empresa petrolífera Halliburton. Condoleeza Rice integrou a diretoria da empresa petrolífera Chevron entre 1991 e 2000. E assim por diante. Agora, a trupe mambembe desce ladeira abaixo, para matar dois coelhos numa cajadada só.
Dizem que bush vem discutir com o Brasil uma parceria na produção do novo combustível verde e amarelo: o etanol. Eu acredito. Os americanos amam de paixão qualquer coisa que tenha quatro rodas, um volante e um espelho retrovisor. O maior pesadelo para eles é, um dia, ficar sem combustível para passear on the road ou off road, que seja. Acho que é uma boa razão. Mas os entendidos, que sabem ler nas entrelinhas, dizem que ele vem provocar o poder de Hugo Chávez. Não vou nem tomar conhecimento, porque seja lá o que for que ele venha fazer aqui, me dá é medo. bush, a personagem, tem o poder incontrolável de transformar em munição pesada, com um simples toque de mão, todo ouro e toda lata que encontra pelo caminho.
Como se não bastasse a nossa guerra particular! Ai, ai. Só o Rio de Janeiro já acumula 310 mortes anunciadas nos jornais, desde o dia 1º de fevereiro. Só um pouco menos que as 785 mortes ocorridas em todo o Iraque e noticiadas pela Folha de São Paulo, no mesmo período. Desde o início da invasão americana, em março de 2003, a história do fim do Iraque se confunde cada vez mais com uma história da barbárie moderna.
Li num estudo que pesquei na internet, que a taxa de mortalidade no Iraque, antes da chegada de bush, era de 5,5 para cada grupo de mil pessoas, durante o período de um ano. Depois da invasão, esse indicador subiu para 13,2. Ainda segundo esse estudo, até junho de 2006, o número de mortos no Iraque atingiu a casa de 654 mil 965 pessoas. Dessas, 601.027 foram provocadas por causas violentas. Guerra é guerra. E burrice também mata.
Pois se continuássemos passeando no mapa mundi, descobriríamos outros tantos iraques, com estatísticas mais magras, mas não menos assustadoras, que enfrentam, nesse exato momento, o mesmo poder de fogo da máquina mortífera de bush. E é só por isso que temo sua visita ao Brasil e aos países vizinhos. O clima já não está bom e vem ele transformar mais lata em munição? Vou fingir que não o vi por aqui. Quem sabe ele também passa e não nos vê?
Um sonho leve e sempre alerta para todos! E que os anjinhos da guarda redobrem a sentinela nestas próximas noites.
Até mais ver.
domingo, março 04, 2007
Cálice
Trilha sonora: Vou de Chico. Censurado
Estava distraindo o tempo e resolvi reler algumas fábulas fabulosas de Millôr. Dei de cair, justamente, naquela: Os perigos da filosofia. Resumidamente, a história é a seguinte: cinco amigos estão reunidos numa sala vazia, se escondendo da polícia. Eram subversivos, como se dizia naquela época, não ladrões. Para passar o tempo, o mais velho deles propôs um desafio. Os outros quatros teriam de responder qual o jeito mais rápido e fácil de preencher o vazio daquela sala de maneira compacta.
O primeiro sugeriu encher a sala de palha. Foi uma boa resposta, mas a palha não preencheria o espaço de maneira compacta. O segundo escolheu a areia, mas, também a areia não ocuparia todo o espaço e, além disso, os cinco amigos teriam de abandonar a sala para levar a cabo esse projeto. O terceiro propôs ocupar o espaço com água. Dwârr...morreriam todos afogados! Por fim, o último levantou-se de onde estava e apertando o interruptor, encheu a sala de luz. Foi a melhor solução, além do que, a luz é um elemento cheio de nobres significados.
Mas, ao acender a luz, a polícia, que estava na espreita do lado de fora, confirmou a presença dos suspeitos, invadiu a sala e metralhou os cinco subversivos! Moral da história, segundo Millôr: quem está na merda não filosofa.
Ele foi cruel, admito. Talvez eu seja cruel também no que estou pensando aqui agora. Mas há momentos em que é muito complicado mesmo manter a compostura em nome das aparências ou da imagem que o outro constrói de nós. Estou pensando que Renato Janine Ribeiro, quando escreveu seu artigo na FSP de uns dias atrás, comentando a morte do menino João Hélio, e que provocou tanta polêmica, pode ter se lembrado do conselho de Millôr. Renunciou à filosofia e escolheu expor a sua perplexidade. Não o recrimino por isso e me solidarizo com ele.
Que seja Rouseau, como sugere Janine Ribeiro. Que seja Platão. Que seja quem for, mas que seja capaz de nos oferecer mais uma oportunidade para refletirmos sobre o valor da vida e, quem sabe, reencontrá-lo. Até Nietzche é melhor que nada. Opa! Lembrei uma frase. Uma frase que o Cláudio um dia já havia se lembrado: vou fazer coisas grandiosas nessa vida. Não sei quais são, mas elas serão o terror da terra. Nietzche.
Será isso o que esses meninos desestruturados e desamparados estão procurando? Deixar a sua marca na terra? Ter os seus quinze minutos de fama? Será que se apropriaram da violência como uma forma de expressão? Como um pintor que joga a tinta numa tela em branco para ver no que vai dar? Um poeta que desenha uma palavra no papel vazio, para dela brotar um verso? O que será que esses meninos estão gritando que não conseguimos, ou não queremos, ouvir? Será que estão incomunicáveis? Ou será que pedem socorro? Será que pedem limites? Ou será que não estão nem aí?
Um dia de luz e paz, sempre.
Inté.
quinta-feira, março 01, 2007
Cenas da cidade
Tiau
PS: Meu adola falou que, no mercado financeiro, uma grande crise se forma a partir de repetidas pequenas crises. Os investidores vão se desgastando, estressando, perdendo a paciência, ficando impulsivos e, de repente, pronto, o caldo entorna. Avi!
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
Quem me explica?
Caí num poço de dúvidas!
Por que o novo garoto-propaganda da Net é um coronel russo?
Por que só nas propagandas as crianças são tão obedientes, tranqüilas, sorridentes, alegres, felizes e boazinhas?
Por que no anúncio da cerveja Sol, eles cantam um refrão para a brahma? brahma agora que o verão já começou!
Por que o Unibanco nem parece banco? É ruim ser banco?
Por que Bill Gates controla o acesso de seus filhos ao computador, inclusive internet, limitando-o a 45 minutos por semana?
Por que os meninos só escrevem em código no msn?
Por que meus arquivos às vezes desaparecem?
Por que meus arquivos às vezes reaparecem quando desligo e ligo o computador novamente?
Por que não temos um chip-google na cabeça?
Por que bush marcou sua visita ao Brasil para o dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher?
Por que bush não assina o Tratado de Kioto?
Por que bush está criando clima com o Irã?
Por que bush gosta de comprar briga e vender arma?
Por que bush resolveu bater pé no Iraque?
Por que bush não nos deixa em paz?
Por que o governo Lula não pode gastar parte de suas reservas bilionárias em dólares em projetos e políticas públicas que demandam recursos urgentes?
Por que os índices de inflação na era Lula são tão baixos se o preço de quase tudo está subindo?
Por que o Lula não desembucha e anuncia logo seu ministério?
Por que Lulalá e não aqui?
Por que os partidos políticos estão trocando de nome, logo agora que já estávamos nos familiarizando com todos eles?
Por que as meninas de hoje querem ser tão magras e frágeis e os meninos tão fortes e bombados?
Por que as mulheres de hoje preferem botox a bombom?
Por que as companhias de telefonia celular gastam tanto dinheiro em publicidade?
Por que as publicidades das companhias de telefonia celular são tão bonitas e esses aparelhinhos tão irritantes?
Por que as companhias de telefonia celular oferecem tantas promoções e planos especiais que até nos confundem e nos fazem perder todas as oportunidades?
Por que as companhias de telefonia celular resistem tanto a cancelar a assinatura de um número que, na prática, já está inativo há tempos?
Por que as companhias de telefonia celular não nos deixam em paz?
Por que Tony Barbie está batendo em retirada do Iraque?
Por que Tony Barbie está preocupado com o que os Estados Unidos podem fazer com o Irã? O que ele sabe que nós não sabemos?
Por que Omo lava mais branco? (essa dúvida é velha)
Por que não deixo vocês em paz?
Tenho mais um poço reserva de dúvidas inexplorado. Mas vou deixar para outro dia, então.
Uma noite povoada de estrelas para todos. E um despertar com o sol quente, graças a deus!, e passarinhos piando na janela.
Até.
Só mais uma perguntinha. Por que esse cara toca violão com a colher? Tá bom, tá bom, retiro minha pergunta. Mesmo porque, gostei dessa música, parece comigo pensando, sempre a mesma ladainha.
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
A última flor do lácio
Ah, neeem! Era só o que faltava. Além da calça jeans, das sandálias havayanas, dos bermudões caindo, dos óculos de armação preta, dos cabelos desestruturados, vestidinhos floridos de alcinha, das microssaias, das cinturas nos quadris e camisetas babylook tamanho pp, vamos ter de aturar no futuro mais essa mesmice? Não bastam também os trezentos e vinte e sete programas realityshows, todos a mesma bobagem, que somos obrigados a ver nos 99 canais da tevê a cabo? As mesmas músicas, as mesmas notícias, as mesmas histórias que se repetem em várias versões? Neemm! Essa globalização está nos matando. Mais essa, será o golpe mortal.
Outro dia, li no portal G1 que, de agora pra frente, entre as várias extinções que vamos assistir, como a das canetas bics, carros movidos à gasolina, pcs de todas as marcas, dvds, cds, tvs, dinheiro em espécie, lobo guará, mico de circo, leão faminto entre outras raças, vamos ser testemunhas oculares do extermínio em massa de milhares de línguas. Olha só? É o fim da babel que, diferente do filme e ao contrário do que muitos pensam, tanto nos diverte e tanto nos aproxima.
Segundo a notícia, a Associação Americana para o Progresso da Ciência está anunciando o desaparecimento de quase todos os 6 mil idiomas que hoje são falados no mundo. O professor Michael Krauss, da Universidade do Alaska em Fairbanks, que não é doido nem bate a cabeça, alertou que essa possibilidade deve ser vista como algo tão assustador quanto a perda de 90% das espécies biológicas do planeta. Para Krauss o valor de um idioma vai muito além do mundo acadêmico. A linguagem de um povo guarda a sabedoria intelectual de sua gente, as suas observações e as suas adaptações ao mundo.
Palavras bastante sensatas do professor Michael Krauss.
Pois é, já os ingleses não são assim. Não são pessoas que poderíamos chamar de muito sensatas. Já concordamos sobre isso. São uns loucos, eles, não são? No mesmo jornal onde li o artigo do professor Renato Janine Ribeiro, li uma denúncia e um desabafo do professor Luiz Costa Lima, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, sobre mais uma presepada dos ingleses.
A gloriosa Universidade de Cambridge acabou de anunciar o encerramento da licenciatura em português, reduzindo o ensino das atuais cadeiras de língua, lingüística e literaturas portuguesa, brasileira e moçambicana e angolana a uma única cadeira, combinando, segundo suas palavras, com pequenos componentes adicionais inseridos em cadeiras de espanhol, em nível de licenciatura e mestrado. Permanecerão apenas os estudos em nível de licenciatura para o alemão, espanhol, francês, grego contemporâneo, italiano, holandês e russo, além do inglês, claro, que está em outro departamento.
Sentiu o drama. Está traçado o mapa da sobrevivência. E a primeira vítima fomos nós, apesar do português ter sido selecionado para especial louvor entre todas as disciplinas de licenciatura da Faculdade de Línguas Modernas e Medievais de Cambridge nas duas últimas avaliações externas da Faculdade. Apesar de sermos 210 milhões de pessoas, em quatro continentes, recorrendo a ela para se comunicar. Apesar da Mangueira, nossa eterna campeã verde e rosa, que este ano escolheu como tema do seu samba enredo a nossa língua pátria. Apesar de Machado, de Bandeira, de Oswald, João Cabral, Guimarães, Drummond, de Cecília, Clarice e de todos os outros que deixei de citar por falta de espaço e ainda mais, muito humildemente, apesar de todos nós e desta que aqui está.
A gravidade dessa notícia parece, no entanto, não afetar o humor das autoridades competentes. Nem uma reação foi registrada. O professor Luiz Costa Lima acredita, sabiamente, que se houvesse um embargo no mercado internacional para algum produto brasileiro, aí sim, o governo reagiria prontamente. Mas uma restrição à nossa língua, cá pra nós, hem? Não rende nem uma notinha de pé de página nos jornais, não é não? Aposto que alguém deve ter até comentado: bobagem. Nem nós estamos mais apostando no português, olha os meninos como andam escrevendo! Ai! não dou conta dessa visão estreita do mundo!
Como o professor Luiz Costa Lima, espero que esteja enganada. Espero que nossos intelectuais de plantão estejam atentos. Espero que estejam planejando uma grande reação. Espero que lutem com todas as armas (acentos, vírgulas, hífens, conjugações verbais, regências nominais e etc) em defesa da nossa língua. Espero, fervorosamente, que amanhã e todos os outros dias que se seguirão, ainda possa continuar, até ficar velhinha e gagá, escrevendo e pensando em português, a única língua que dei conta, mal-mal, de aprender.
Um dicionário de palavras portuguesas, lindas, sonoras e coloridas para todos.
Até mais um dia, que o trabalho me aguarda...
Segue, conforme o prometido, um tesouro nacional e uma obra prima do cinema mundial!





