sexta-feira, junho 09, 2006

A ignorância é maravilhosa! - Versão III (+rigorosa)

É a pergunta que nos impulsiona, Neo.
A ignorância é maravilhosa!
(Frases de Matrix)


Êita! Agora fiquei confusa! Não sei se posso perguntar, se devo responder ou se é melhor ficar calada. Decisão difícil essa, hem? Mas olha se não é para confundir. No início da semana ouvi o senador Marco Maciel comentar uma decisão do PFL de retirar do Tribunal Superior Eleitoral duas consultas do partido, relativas às eleições deste ano. Fazia isso logo depois do TSE responder ao PL questões sobre as regras da verticalização. Adotando uma interpretação mais rigorosa que a das últimas eleições, o Tribunal anunciou a nova versão, dizendo que, neste ano, as possibilidades de coligação partidária estariam mais restritas. Depois voltou atrás, mas anunciou e defendeu. Agora, acho, não muda mais nada. Mas antes disso, o senador explicava à CBN que retirava as consultas do partido porque têm momentos em que é melhor não perguntar. Vai que alguém responde!

Tendo a concordar com o senador. Tive uma amiga - agora não sei por onde ela anda - que era do tipo que respondia. O melhor era não perguntar, porque ela não media tempo quando pegava a palavra. Um dia me distraí e perguntei: Tudo bem Tê? E ela me respondeu. Começou: Bem? Bem? Claro que não estou bem! Acordei hoje com uma baita dor de cabeça, atrasei, perdi a carona, tive de descer de ônibus. Já viu alguém andar bem dentro de um ônibus às 7 horas da manhã? Em pé? Com a cabeça latejando? ..... e blá, blá, blá .... blá, blá, blá... e foi me respondendo, relatando seu dia até chegar às 18 horas, hora da pergunta distraída. Tô inventando, claro, não me lembro do que ela me respondeu na época, mas o estilo era esse. Então, pra Tê era melhor que ninguém perguntasse nada. Procurávamos sempre ser afirmativas. Oi Tê, você está ótima hoje, muito bem! E já engatávamos outros assuntos.

Esse tipo de gente existe mesmo. E se o Lula tivesse seguido o nosso exemplo e o do senador Marcos Maciel, ele não não teria perguntado nada. Mas tem um outro tipo de gente que é da família dos que perguntam por perguntar. O Lula, me parece, é um exemplar desse último grupo. Perguntou por perguntar, mas foi topar de frente logo com alguém da primeira família, daqueles que respondem quando perguntados. E pior, da espécie responde batendo. O presidente quis saber do Parreiras se o Ronaldo estava gordo mesmo ou se era onda da imprensa. Está gordo ou não está? - foi a pergunta por perguntar do Lula. O Parreiras saiu de manso. Acho que preferiu ficar calado. Mas Ronaldo respondeu. Nem sei se ouviu a pergunta, mas pra quem gosta, isso é só um detalhe. Respondeu de pronto. Gordo? Gordo? O presidente foi infeliz nessa pergunta. Não me foi dado o direito de perguntar, mas eu também tenho muitas perguntas para o presidente... e, no embalo, foi respondendo. O jornalista, percebendo a facilidade do outro para responder, continuou cutucando, perguntando mais uma vez e de outro jeito e outra vez mais, até Ronaldo responder. Responder perguntando, se o presidente bebe muito mesmo ou se é onda da imprensa.

Aí fiquei na dúvida. Foi uma resposta ou uma pergunta? Pelo teor da reação, parece que foi uma resposta. Ou não? Ops, acho melhor não perguntar. Retiro o que disse. Agora, quanto ao Lula, acho que ele não vai responder. Se é um exemplar puro da espécie dos que perguntam por perguntar, não vai responder. Vai passar por cima e fingir que não ouviu. Pelo menos, deveria. Esse é o comportamento típico deste grupo. Não querem respostas. Não sei se porque já conhecem a ladainha que vão escutar ou se é porque não estão mesmo interessados. Giram só em torno de seu próprio umbigo. Mas às vezes penso que não escutam é porque têm medo da resposta. Não gostam de ouvir, mesmo quando precisam. Outras vezes, percebo, eles escutam a resposta, mas fingem que não. Apertam os olhos e ficam olhando pro nada, como se estivessem ausentes, mas estão pensando. E de uma hora para outra, de repente, dão a entender que ouviram a resposta. São assim.

Estou pensando nisso tudo porque queria perguntar. Não por perguntar, mas pra saber. Tem esse tipo também. Mas o que eu queria mesmo era perguntar. É uma pergunta boba, só que está me incomodando. Não sei se devo, mas vou perguntar assim mesmo. Pelo menos me livro de um incômodo. O que o ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, um homem culto e educado e o diretor-financeiro da butique Daslu, Antônio Carlos Piva de Albuquerque, não sei se culto, mas educado, o que eles fizeram não foi uma violência? A gestão fraudulenta do dinheiro dos outros não é uma forma de violência? Sonegação fiscal não é um tipo de violência também? Violência branca, porque não sangra na hora, mas é, não é?

Por que estou perguntando isso? Vou responder como o Ronaldo, perguntando. Vocês leram os jornais nessa última semana? Ouviram os telejornais? Os jornais das rádios? Acompanharam a cobertura da imprensa sobre o quebra-quebra na Câmara dos Deputados? Antes que me devolvam mais perguntas e que eu fique tentada a continuar respondendo, já explico. Sou contra violência, seja de que tipo for, em defesa de qualquer causa, mesmo que das boas, e praticada por qualquer pessoa. Sou contra! Saio até pra briga se alguém disser que sou o contrário disso.

Mas voltando à Câmara dos Deputados. Tá certo que eles fizeram uma baderna. Coisa de gente sem tino. Colocaram em risco a vida de outras pessoas. Isso é abominável. E aí têm duas coisas: condenar a violência é uma atitude correta e louvável, mas não basta. Tanto que os movimentos pela paz têm crescido no mundo todo, mas, na mesma proporção, tem crescido a violência. E os ataques ao patrimônio público e privado têm se banalizado, como se banalizaram as passeatas, as manifestações pacíficas, as vigílias e outras formas saudáveis de expressão dos grupos minoritários da sociedade. Tornaram-se inócuas. E a baderna está indo para o mesmo caminho. Acho que porque não alcançam os ouvidores da República. Mas isso é outra história. Precisa ser melhor pensada.

O que eu queria dizer é que a cobertura da mídia, mais uma vez, limitou-se a constatar a violência e a desqualificá-la como um ato de bárbaros, sem procurar entendê-la. Por que mesmo os militantes do MLST foram à Câmara? O que é exatamente que estavam reivindicando? Por que estavam reivindicando com tanta fúria? O problema que denunciam existe mesmo? A reação do MLST é desproporcional? Enfim, qual é a do MLST? Da superfície, alguém deve ter esbarrado nessas questões, mas a notícia ficou enquadrada no quebra-quebra. Desqualificaram até os que se dispuseram a fazer o papel de advogado do diabo. E olha quem se prestou a isso: Dom Balduíno!

Quiseram relacionar a violência à estupidez, à ignorância, à falta de cultura de um bando de selvagens, extemporâneos e rudes da idéia. Mas a violência tá solta da avenida Paulista ao Cabrobó. Pronto, já estou começando a querer responder. Acho que vou fazer é igual ao senador Marcos Maciel. Vou retirar minhas perguntas. E igual ao Parreiras. Vou ficar calada. Sair de manso. Vou ver a reprise do jogo da Alemanha.

Sem perguntas e sem respostas. A ignorância é maravilhosa!

Um final de semana pleno de belas jogadas e muitos gols. E que vença sempre o futebol arte, sem pancadarias! Vou torcer para Gana na segunda, a pedido de Kofi Annan.

domingo, junho 04, 2006

Nosso herói foi pro espaço!

De noite ou de dia,
firme no volante,
vai pela rodovia,
bravo Vigilante!
(Música tema do seriado brasileiro O Vigilante Rodoviário)

Vichi, me lembrei de uma coisa muito antiga. Não sei se me lembrei de fato ou se outros é que se lembram e eu tenho é uma vaga lembrança da lembrança dos outros. Não sei. Mas eu tenho uma imagem e desconfio que não foi inventada, mas vivida mesmo. Vi-me vendo uma telefunken na sala, a primeira da rua. Vi os meninos em volta e, de algum lugar, de dentro da sala ou de fora dela, só de passagem, eu olhando para a tela da televisão. E vi-me vendo o simca chambord 1959 do Inspetor Carlos e depois o próprio Inspetor Carlos em pé ao lado do carro e, do lado dele, o Lobo, um baita pastor alemão, muito parecido com Rintintin.


Tive de ir fundo buscar essas lembranças, flashs em preto e branco do primeiro seriado nacional: O Vigilante Rodoviário. Mas foi por um bom motivo. Estava intrigada. O que aconteceu foi que assim que Aninha desligou o telefone, depois de comentar comigo, entre pasma e indignada, a notícia da aposentadoria do primeiro astronauta brasileiro, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a música do Inspetor Carlos – de noite ou de dia... E esse trecho de música, pedaço de nada, ficou rodando na minha cabeça como um long-play arranhado tocando numa vitrola Victor. Não parava nem ia pra frente. A solução era só uma: Google nela!

Já quase enlouquecida com o mantra ying-yang, me embrenhei pelo universo virtual atrás de informações mais precisas sobre a vida ilibada de Inspetor Carlos. Queria porque queria tentar descobrir o que esse personagem tão singelo teria a ver com o nosso astronauta brasileiro. Fui aos fatos. O Vigilante Rodoviário ficou no topo do sucesso durante mais de um ano, com 72% de audiência, mas foi cancelado em 1962 por falta de patrocínio. Foram 38 episódios, exibidos logo após o Repórter Esso, pela extinta TV Tupi. Bom, até aí, só um tema para um belo case, se é que ainda não foi feito por algum estudante de comunicação.

Continuei minha empreitada, atrás de mais informações sobre o personagem. O herói da nossa história era interpretado por um ator amador, Carlos Miranda. Imagina o susto que ele não levou quando recebeu o convite para fazer o personagem num seriado para TV!! E sabia lá o que era isso? Mas surpresa pouca é bobagem. Deve ter barbarizado mesmo foi com o sucesso de Inspetor Carlos. Tá certo, ele parecia um elvis, tinha um belo carro, uma bela harley davidson 1952, um belo cachorro e era totalmente do bem. Podia querer mais alguma coisa? Podia? Podia.

Depois de sair do anonimato, da noite para o dia, e de conhecer e se deleitar com a fama durante mais de um ano, Carlos Miranda queria mais. Não um outro personagem, não mais e mais sucesso, não uma aposentadoria muchocha da nascente televisão brasileira. Carlos Miranda queria mais só uma coisa: ser o Inspetor Carlos. Não o herói, mas um policial rodoviário de verdade. O ator fora contaminado pelo encanto de seu próprio personagem. E depois de um período de transição, largou o palco e entrou para a Academia de Polícia. Virou o que já era: o Inspetor Carlos. Abandonou a fantasia e foi à luta. De noite ou de dia, até se aposentar.

E daí? Daí pra frente foi o mantra ying-yang que me ajudou. A idéia de contrários que se aproximam, de apostos contidos um no outro é que me fizeram entender o link que inventei, inadvertidamente, ligando uma história a outra. Olha só. Ao contrário de Carlos Miranda, Marcos Pontes era um herói de verdade: o primeiro astronauta brasileiro! Um currículo imbatível em qualquer concurso de títulos. Um exemplo para nossos meninos e meninas, tão pobres de sonhos. A eles, só é dado sonhar ser jogador de futebol ou modelo de uma agência internacional. Ou só isso ou só aquilo.

Marcos Pontes, ainda que meio que aos trancos e barrancos, ainda que numa história meio que mal contada, abria uma picada nova entre as desoportunidades que se engalfinham e se entrelaçam pelo caminho dessa molecada. Agora podiam sonhar de ir à lua, de viajar pela galáxia, de encontrar novos mundos, de sei lá que bobagem mais. Podiam e podiam de verdade sonhar de virar astronauta, cientista, físico, químico, matemático e toda sorte de conhecimento que esse campo inspira. Eu podia dizer: vai estudar menino, um dia você vira Marcos Pontes!

Olha em que fria estava me metendo. Não deu nem meses, e o danado do astronauta brasileiro cansou de ser herói de verdade e virou personagem de suas histórias. Tá certo que essas decisões são muito pessoais, pelo menos para nós mortais. Mas não para um herói nacional. E sei lá o que isso significa na carreira de um militar, mas, para nós civis, ir pro banco de reserva é aposentar mesmo, é dependurar as chuteiras, vestir o pijama, mudar de rumo, de assunto, de meio. Concordo com Aninha, não é tão trivial quanto querem fazer parecer.

E mais, um bolsista brasileiro que sai do país, só do país, não do planeta, para fazer fora um mestrado ou doutorado, é obrigado, na sua volta, a dedicar pelo menos dois anos a uma instituição de ensino público superior, para compensar o investimento. Nós gastamos US$ 10 milhões com a viagem de Marcos Pontes, foi mais que uma penca de pós-doutorados. Aí o sujeito vai e joga a toalha?! Como é que nós ficamos nessa? E ainda diz que vai fazer palestra na inciativa privada?! Ôw, isso é ficção ou deu na Globo? Se deu na Globo, vou apoiar Aninha na ação de restituição do dinheiro da viagem aos cofres públicos. Vou ainda ficar de olho em quem vai ter a coragem, o desplante de contratá-lo pra palestras sobre planejamento estratégico nas fiesps da vida.

Ai ai, viu. Já não se fazem mais Inspetor Carlos como antigamente. O nosso astronauta está mais pra vampiro brasileiro do que para um valoroso vigilante interplanetário. Ou não?

Boa noite e bom dia!

quinta-feira, junho 01, 2006

Vai mudar, mas não muda.

Eu penso assim. Têm coisas que a gente não sabe e não tem importância. Uma hora a gente procura saber e acaba aprendendo. Copia de alguém que sabe, olha, escuta e acaba fazendo. Até na marra. Não que faz perfeito da primeira vez nem que vira um especialista, mas aprende de um jeito que fica bom. Satisfaz. Exemplo: não sabia fazer risoto. Daí, um dia, cismei. Que troço é esse? Li as instruções num livro, li outras versões em outros e topei fazer. Não ficou bonito nem excepcional, mas ficou com um gosto bom. Me pediram e eu repeti. Ficou melhor. Agora, continuo fazendo quando dá na telha. Não virei especialista, só faço quando tenho gosto e é assim. Aprendi.

Têm outras coisas que parece que a gente nasce sabendo. A gente nem sabia que sabia, mas quando chega a hora, a gente faz como se sempre tivesse feito. Não é muita coisa nem grandes coisas. São miudezas, até difíceis de a gente perceber mesmo, mas quem olha percebe e até comenta: puxa, parece que ela tem jeito pra isso. Não é jeito. É que já sabia. Exemplo: não costumo fazer trabalhos manuais. Acho que é porque não sei nem dei importância. Mas um dia precisei montar a maquete de um vilazinha. Tinha que ser eu mesma, porque uma criança de quatro anos não ia montar. Não sabia. E montei. Com ruas, casas, prédios, árvores, carros, postes e tudo. E foi como se sempre tivesse feito isso. Ficou bárbara. Ficamos até com pena de desmanchar e essa vilazinha durou quase quatro anos, até ir pro lixo. Fiz isso uma vez e nunca mais, mas se for preciso, acho que faço de novo. Já sabia.

Têm coisas ainda que a gente não sabe, mas também ninguém sabe. São aquelas da ordem do imponderável. Agora, têm coisas que a gente não sabe mesmo. Não sabe nem nasce pra saber e pronto. Não adianta querer nem querer muito. Não presta ser esforçado e se empenhar de corpo e alma. É gastar vontade à toa. Vai perder tempo querendo copiar, repetir e fazer outra vez, que não vai ficar de um jeito bom. E isso é fácil de perceber. Sobre essas coisas, sabemos apenas que não nascemos pra elas. E já é muito. Exemplo: inglês. Passei de ano, passei no vestibular, me especializei, mas nunca graças ao inglês. O que precisei, decorei. Entender, não entendo até hoje. Já tentei, sem nenhum compromisso nem vontade, assim como quem só brinca e também não funcionou. Não nasci pra falar ou ler inglês e pronto. Ponto final.

Então é assim que penso. E tem hora que as pessoas são como somos com as coisas que estão postas por aí. Tem gente que parece que nasce pronta. Tem jeito pra vida. Vive fácil, sem sofrimento, mesmo quando sofre. Não carrega o mundo nas costas nem carece. Segue passeando. Pelo menos parece. Tem outro tipo de gente que consegue mudar, parece que amadurece. É de um jeito e depois muda, sem mudar na aparência mas mudando na essência. Evolui. Mas tem outro tipo que não se emenda. É gente de um jeito difícil de ser e fica assim até o resto da vida. Pode passar o pão que o diabo amassou. Pode até alcançar o paraíso. E ainda pode dar a sorte de correr meio mundo, de conhecer todo tipo de gente boa para se copiar, mas não resolve. Parece que nasceu só para ser o que é. E pronto. Somos a maioria, admito. Mas é o tipo de gente que deveria virar pedra na virada. Exemplo exemplar: bush. Esse é o cara difícil do momento. Não se emenda.

Olha só. Ele ficou meio sumido do noticiário desde que Mahmoud Ahmadinejad lhe enviou uma carta, no início do mês passado. Que ele leu, é claro, mas não mostrou pra ninguém e sumiu. Nós, eu e minha santa ignorância, pensamos: está refletindo. Quem sabe vai amadurecer. Que nada. O diacho dessa gente é isso. Só é o que é. E bushit estava é arrumando confusão nos bastidores. Maquiando o mundo real mais uma vez, para vender no mercado. Que nem que fez quando não conseguiu entender o 11/9. Que nem que fez quando resolveu invadir o Iraque. E agora de novo, depois de outras tantas.

É a BBC que está mostrando o que é. Está exibindo as imagens de corpos de vários adultos e crianças iraquianas que, segundo a polícia local, integravam um grupo de 11 civis executados por tropas americanas em março passado. E o mais estranho é que não acontece nada com bush. Já teve época, nos Estados Unidos, em que uma mentirazinha de nada, corriqueira, já era motivo mais do que suficiente para derrubar um presidente. Agora, podem inventar o que vier, que Elvis não morreu, que o sonho não acabou, que os juros não vão subir e tudo cola. Será que os americanos também estão mais tolerantes? O que se passa?

Inté.

Sonhos supreendentes para todos. Tão reveladores que os inspirem novos jeitos de ser, mesmo continuando do jeito que são.

sábado, maio 27, 2006

Torcida descolada

Hoje sai para andar pela manhã, mas nem tão cedo assim. A rua já estava totalmente habitada. Aí, quando olhei, vi um bolinho no meio da praça. Um bando de meninos com papel e caneta nas mãos. Meninas, mocinhas, uns marmanjões, outros até de cabelos brancos e até vovó tinha no meio da confusão. Uai? O que se passa? Dei a meia volta, peguei um atalho e fui chegando, assim como quem está só de passagem, mas com as antenas ligadas. Dãwr! É claro, né? Mais um posto de troca.

A cidade está cheia disso. Um posto em cada esquina. Parece até aquela multicontinenal de cds piratas de música latinoamericana. Teve uma época que, em qualquer praça da cidade, você trombava com uma filial da música dos Andes. Você passava e aquela flautinha de bambu ficava ressoando no seu ouvido. Uma tristeza danada! Mas agora a mania é outra. São as figurinhas do álbum da Copa 2006. A matriz de troca fica na Lagoa Seca, mas tem sucursal pela cidade inteira.

O posto de troca da pracinha é novo. Até ontem ele não estava lá. Se soubesse da novidade tinha carregado também o bolão do meu adola para poder participar. A rodinha no meio da praça estava super animada. Tinha um marmanjão com um maço só de figurinhas brilhantes. Devia ter até uma da Alemanha naquele bolo. Ela é super difícil, mas a Ruthinha deu sorte e ganhou a sua num dos primeiros pacotinhos que comprou. Aliás, ela deu muita sorte. Acho que não falta nenhuma brilhante no seu álbum.

Esse negócio de colecionar figurinhas é engraçado. Todo mundo sabe como funciona: no começo tudo é novidade, depois dos 20 primeiros pacotinhos, começam a aparecer as repetidas. Aí, quem não está na brincadeira faz aquela cara de eu não disse que isso era golpe! e acha que aí vamos desistir. Mas é um engano bobo de não-iniciados, pois é aí que começa a brincadeira. Claro, porque você tem de trocar as repetidas e para isso precisa montar a sua rede de trocas e falar com um, com outro e daí surgem pessoas que você nunca tinha visto na vida e faz novas amizades. É um exercício social. Muito legal!

Mas tem gente que não vê essas coisas. Acha que é jogar dinheiro fora. Falta do que fazer. Doença infantil dos novos velhos. Outras ficam até com vontade, mas ainda não tem coragem. Aí inventam desculpas. Um amigo falou que não está colecionando as figurinhas da Copa, porque está economizando para o álbum das Mais belas mulheres que acompanham os jogadores. Quando ele disse isso, nós rimos, claro! Íamos desapontá-lo? Nunca. Queríamos era encorajá-lo. Mas temos certeza de que ele falou isso para zoar da nossa nova mania. Acho que ficou com ciúmes também, porque estávamos fazendo a votação da seleção das seleções. Estamos montando o time dos jogadores mais bonitos da Copa 2006 para fixar no mural.

Vou contar um negócio: está difícil. Nunca vi uma escassez de homens bonitos tão grande quanto nessa Copa. Tá certo, tem os engraçadinhos, bonitinhos, simpáticos, divertidos, como os Ronaldinhos e Cacás. E já tá muito bom. Mas bonito, bonito, tá difícil. Na minha vez de votar, fui direto na seleção da Itália, que historicamente tem o melhor plantel da Copa. Mas olha, dessa vez não achei nem um para fazer as honras da casa. Tive de buscar apoio na seleção da Espanha e da Alemanha, porque a da França também está desfalcada. Ainda estou devendo um voto. Vou aguardar o fim de semana para ver se a Ruthinha consegue uma leva de inéditas e nos faz alguma surpresa.

Já estou até vendo a cara de vocês. Quanta futilidade! Mas insisto, não é. Essa Copa ainda não conseguiu mobilizar as forças nacionais. O comércio está jorrando verde-amarelo pelo ladrão; o Brasil já venceu teoricamente em todas as simulações estatísticas, todo dia recebo um e-mail novo pelo correio, demonstrando que saíremos campeões; os bares estão enfeitados, os prédios, as casas, as ruas. Todo mundo está fazendo o dever de casa, mas aquela euforia, aquele cordão solidário de torcedores, aquele espírito despreendido, de coração aberto, sem nenhuma autocrítica, esse ainda não se formou. Tá todo mundo com o pé atrás. Todo mundo olhando desconfiado para o Parreira. Ói só, nem Parreira está com essa bola toda! Levou na bagagem até uma imagem de Santo Antônio! Eu hem? Vai escalar Santo Antônio para a lateral direita?

Então. Ficamos preocupadas com essa dispersão. Era preciso fazer alguma coisa bem rápido. Daí que resolvemos montar também o nosso álbum de figurinhas. Faz parte do esforço de mobilização. Assim como as pesquisas culinárias, para montar o cardápio da Copa, e as pesquisas de times vencedores de Copas passadas, para formar as seleções do I Campeonato Escolar de Futebol de Mesa. Se não tivermos um bom motivo para estarmos juntos, é bem capaz de esquecermos que tem jogo. Ou, pior, cada um vai pro seu canto, assistir o jogo no sossego do seu lar, e se desfaz a rede de torcedores unidos, jamais vencidos. Aí quero ver se a seleção internacional brasileira consegue se entrosar e fazer alguma coisa que preste. Fica difícil, né?

É isso tudo. E é bom que essa estratégia funcione, se não vamos ter de nos render à competência de Marcola e convocá-lo para liderar a nossa torcida. Já pensou que vexame!

Mudando de assunto, alguém aí tem a figurinha brilhante da Alemanha?

Estou trocando idéias, receitas da Croácia, do Japão e da Austrália, lentes velhas de relógio para montar a minha seleção de futebol de botão e, se me animar mais um pouco, troco até de partido.

Bolinhos animados e figurinhas inéditas para todos neste final de semana!

quinta-feira, maio 25, 2006

Tá na hora de fechar as porteiras

Vou contar o que aconteceu. Ontem, depois de pegar o baixinho no inglês e enfrentar o trânsito nervoso de fim de expediente, chegamos em casa beirando as oito horas da noite. Chegamos esbudegados pela correria do dia e ganindo de fome. Aí, tanannnn! Fomos abrir o portão da garagem e, adivinhem! Exatamente, a chave não rodava. Insisti uma vez, duas, três, e necas. Depois todo mundo quis tentar. Vai que um estivesse com sorte e a chave rodasse? Nos joguinhos eletrônicos acontece disso, mas, pra nosso desgosto, estávamos em plena vida real.

Vou poupá-los do relato sobre as duras negociações que tive de manter com o serviço 24 horas de chaveiros especializados. Foram muito cansativas. Além do mais, elas não importam muito. O que me deixou intrigada nesse episódio foi encontrar o portão trancado. Trancado de tal jeito, que foi impossível, pelo menos para nós leigos, desmontar a fechadura e simplesmente abrir o portão e assim deixá-lo até o dia seguinte, quando tudo seria mais fácil de se resolver.

Esses acontecimentos inexplicáveis sempre me deixam em alerta. Ao sair de casa, pela manhã, a chave abriu e fechou o portão sem nenhum problema. O que poderia ter acontecido ao longo do dia para que a fechadura emperrasse desta forma? Por que não conseguia mais abrir o portão? Achei que essa era uma questão bastante relevante para se pensar. Antes de ir dormir, sentei no computador. Mas ainda antes de pensar, entrei no Terra para ver o que rolava no resto do mundo. E vi. Vi exatamente o que estava acontecendo e entendi rapidamente porque deveria me manter alerta.

Meninas, o mundo está fechando suas porteiras. Estou desconfiada de que aquela idéia, às vezes perversa, às vezes bendita, de um mundo globalizado, está dando água. O que vi foi a foto de um barquinho lotado de imigrantes africanos, inclusive crianças, sendo interceptado por policiais espanhóis. Fui olhar melhor e percebi que este não foi um episódio isolado. Só neste ano, mais de 4 mil africanos deixaram suas terras para buscar abrigo nas margens vizinhas da Europa. Esse número é quase o mesmo de todo o ano de 2005. E neste total, poderiam se somar ainda mais mil pessoas, que ficaram pelo caminho. A maioria vítimas de afogamento.

Foto: Publicada no site Terra

Não sei se os africanos desistiram do futuro e resolveram, por conta própria, sair à caça de novos mundos. Não sei se foram seduzidos pelos encantos do mundo globalizado. Se acreditaram, piamente, que também eles poderiam ir e vir livremente, assim como fazem o capital financeiro e o capital industrial. Não sei se também se acharam no direito de buscar lugares que lhes oferecessem melhores oportunidades de vida. Não sei. Mas se pensaram isso, se estreparam. O mundo está fechando suas porteiras.

A Espanha está em alerta. A França está pondo catraca nas suas fronteiras. Na semana passada, a Assembléia Nacional aprovou uma dura lei de imigração que dificulta a entrada no país de trabalhadores sem qualificação e permite que órgãos públicos façam uma seleção rigorosa dos melhores e mais qualificados candidatos do exterior. A proposta ainda depende da aprovação no Senado, mas Nicolas Sarkozy espera que a nova lei entre em vigor ainda no início de julho.

Até a Holanda, famosa pela sua liberalidade, também está deixando de lado a sua tolerância e passou a exigir que imigrantes estudem até 375 horas da língua e cultura nacionais para obter permissão para ficar no país. Na Alemanha, uma lei de 2005 também pede aos candidatos à cidadania uma educação cultural e lingüística, que inclui 600 horas de aula do idioma e mais 30 de história e cultura. Mas a carteirinha de cidadania alemã só é concedida àqueles que forem aprovados num teste com 100 perguntas de vestibular. Enfim, uma restrição que afeta diretamente cidadãos de países pobres.

Mas não é só a União Européia que está passando o cadeado no portão. O Senado americano aprovou, no último dia 17 de maio, a construção de um muro com 595 quilômetros de extensão na fronteira com o México. É o equivalente a um pouco mais que a distância rodoviária entre São Paulo e Belo Horizonte. Vão construir o muro, que na verdade será uma cerca, e depois passar o cadeado. No mesmo texto, foi aprovada também a criação de barreiras para veículos, espalhadas por 805 quilômetros de fronteira.

Pois é. Olha só em que mundo estranho estamos vivendo. Hoje as palavras já não dizem mais o que diziam. Estão sem significado. Nos venderam esse peixe do mundo globalizado como se fosse um sushi de salmão. Quando já estamos com água na boca, prontos para abocanharmos um pedacinho dessa iguaria, vlapt! Alguém bate na nossa mão e o peixe sai voando para cair no prato dos mesmos. Dá pra entender?

Durmam tranqüilas, meninas, já passaram cadeado em todos os portões. Mas tenham um alegre despertar e que, em todo novo amanhecer, as porteiras se abram novamente.

sábado, maio 20, 2006

Trim, trim!!!

A onda revival continua em alta. Depois das cartas, agora é a vez de reabilitarmos o telefone fixo. Já não era sem tempo. Os celulares, assim como os relógios digitais, o ponto eletrônico, deliverys de um modo geral, serviços on line e em realtime, mbps, roupas que não amassam, instantâneos de todo tipo, forno de microondas e seus correlatos congelados, assim como botox, silicones, great lengths, escova progressiva e toda sorte de comodidade disponível nesse nosso mundinho pós-moderno estavam nos tornando seres desumanos e caóticos. É como diria minha vó: há males que vem para o bem. Estamos a um passo da simplicidade voluntária.

Esta semana vou desligar o celular do baixinho. Definitivamente e finalmente. Isto é, se conseguir dessa vez, né? Mas vou, se não chamo a Anatel pra eles. Já avisei o meu adola também que, por enquanto, nada de recarregar celular, mesmo porque, o risco de explosão anda muito alto. O meu, desde sexta-feira está desligado. Acho que é até uma atitude solidária para com os moradores de Presidente Venceslau, Avaré, Araraquara, São Vicente e Franco da Rocha. Tenho certeza de que, juntos, venceremos esse momento difícil e até descobriremos que é possível existir vida inteligente fora da rede GSM.

E celular tem outros agravantes. Além das propagandas, que já estão saturando a nossa paciência, e dos problemas da sua bateria, que pode explodir e emitir radiações que não sabemos ainda se serão prejudiciais à saúde, os celulares andam infernizando a vida de muita gente de bem. Não faz um mês, um conhecido nosso quase caiu no golpe do celular. Recebeu um telefonema dizendo que seu filho havia sofrido um acidente e que teria de depositar uma graninha numa certa conta, imediatamente. Foi preciso um segurança da empresa onde trabalha pular no seu pescoço e nocauteá-lo por alguns instantes, para que ele recobrasse o bom senso e percebesse que estava sendo vítima de um golpe. Outra amiga, que não embarcou nessa balela, passou a ser ameaçada de morte através de ligações para o seu celular. Teve de adotar uma medida preventiva e abrir mão do seu aparelho, antes mesmo do nosso 11 de setembro.

Então, tem isso tudo. Acho que mesmo que pareça uma medida precipitada, a aposentadoria precoce dos celulares só poderá nos fazer um grande bem. Eu apoio. Tanto que desde quarta-feira só estou usando o telefone fixo. Tá certo que, com isso, levei quatro dias para conseguir falar com uma amiga. Fiquei num sufoco danado, achando que poderia ter acontecido alguma coisa séria ou, então, imaginando que nada, ela deve ter é viajado. Passaram mil coisas pela minha cabeça. Olha só, se não é um exercício de criatividade? Depois, quando finalmente consegui falar com ela, foi um alívio e uma alegria redobrada. É isso. São pequenos prazeres, que estávamos privados de sentí-los, desde a invenção dos celulares.

Fiquei tão entusiasmada com essa história que hoje me deu vontade de ligar até para o Cláudio Lembo. Já sei que ele recebeu telefonemas de um mundo de gente, até do Alckmin, dois. O ex-governador ficou de ligar hoje de novo. Aí serão três. Nesse caso, sinceramente, achei uma grosseria e até um erro estratégico da campanha do PSDB. Alckmin era o único que não deveria ligar, deveria é estar ao lado de Cláudio Lembo. Primeiro, porque seria uma demonstração de responsabilidade, depois, por solidariedade e, por fim, porque o Brasil estava todo de olho em São Paulo e ele ganharia mais visibilidade nessa presença do que tomando cafézinho na Bahia. Mas, como diz a Ruthinha, preferiu se fazer de éguo.

E do mundo de gente que ligou, ficou faltando um: José Serra. Lamentável também e sem comentários. Eu vou tentar ligar para o Cláudio Lembo e parabenizá-lo por ter ainda resgatado
da poeira das estantes o livro O Alienista. Reli-o no final do ano passado, pegando carona na leitura obrigatória do meu adola. E nada mais oportuno do que um bom Machado para esse final de semana. É impressionante como as pessoas se fazem de bobas e desentendidas quando alguém resolve tocar na nossa ferida. Parecem mesmo loucas, elas sim. Até Bolívar Lamounier caiu nessa trama e preferiu fazer uma leitura ingênua do discurso de Lembo. Tudo bem, são palavras, mas é aquela velha história, se queremos dar um salto a frente, temos de dar um passo pra trás. E foi o que Lembo fez com bastante simplicidade, clareza e lucidez. Só não entendeu quem não quis.

Não sei se o governador de São Paulo agiu corretamente em todas as suas decisões. É muito difícil fazer essa avaliação. Mas discordo peremptoriamente daqueles que tentam desqualificar a sua fala. Foi um depoimento importante para quem quiser, a partir de agora, pensar uma solução para superarmos a insegurança que nos assombra.

Falei mais bobagem do que devia. Agora cansei e fiquei sem folego para ligar para São Paulo. Vai ficar é para outro dia. Vou também desocupar o computador porque já tem gente na fila.

Só um lembrete: se quiserem ter uma boa noite de sono, desliguem também o celular e tirem o telefone do gancho.

Bons sonhos e hasta la vista.

quinta-feira, maio 18, 2006

O cinismo nacional é que mata o Brasil

Ontem fui dormir tomada pelo espírito vonnegutiano: estava totalmente sem paciência com o ser humano. Mas aí, hoje cedo, antes de tomar café, abri o jornal e vi a entrevista do governador de São Paulo, Cláudio Lembo, e recuperei o meu otimismo. Foi um tratamento de choque, porque, de repente, já estava de novo querendo conversar com as pessoas, trocar figurinhas, ligar para alguém. Foi muito bom confirmar a minha certeza de que São Paulo não iria desligar suas antenas justamente agora, né? E olha só, como diz o Jorge, Cláudio Lembo não é presidente do PSTU, não lidera nenhuma organização social ou movimento popular e nem carimba seu nome em abaixo assinado do PT. É filiado ao PFL.

Não sei o que motivou Cláudio Lembo a falar assim com tanta honestidade, tanta sinceridade, tanta clareza. Não sei se foi a solidão. Ficou ali, no meio da troca de tiros, sem ter com quem conversar e aí pôde pensar melhor. Não sei se foi amargura, ressentimento pela desatenção dos aliados. Nem sei se ele tinha noção da repercussão de suas palavras e nem se vai levar adiante essa discussão. Não sei. Talvez ele seja assim mesmo. Não o conheço. O fato é que foi uma das melhores coisas que li nos jornais desde maio do ano passado.

Ia guardar pra pensar um pouco e postar alguma coisa aqui nessa praça mais à noite. Mas isso fica para outro dia. Hoje, o melhor que posso fazer por vocês, meninas e prezadíssimos, é reproduzir a entrevista de Lembo à Folha de São Paulo. A entrevista foi feita por Mônica Bergamo, a mesma que conversou com as lolitas e lolitos paulistas, no dia seguinte aos atentados, quando eles reclamavam de como esse acontecimento-bandido atrapalhou suas agendas, obrigando-os a cancelar todas as festas, inutilizando arranjos de flores e desperdiçando os buffets... ai, ai, viu?

Então. Aí vai. Não deixem de ler. Valeu São Paulo!

Burguesia terá de abrir a bolsa, diz Lembo

MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA

O governador de São Paulo, Cláudio Lembo, afirma que o problema de violência no Estado só será resolvido quando a "minoria branca" mudar sua mentalidade. "Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa", afirmou. "A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações."
Lembo criticou o ex-governador Geraldo Alckmin, que disse que aceitaria ajuda federal contra as ações do PCC se ainda estivesse no cargo, e o ex-presidente FHC, que atacou negociação entre o Estado e a facção criminosa para o fim dos ataques. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Folha - Os jornais estão noticiando hoje [ontem] que houve uma matança em São Paulo na madrugada de terça. A polícia está sob controle ou está partindo para uma vingança?
Cláudio Lembo -
A polícia está totalmente sob controle. Eu conversei muito longamente com o coronel Elizeu Eclair [comandante-geral da PM] e estou convicto de que ela está agindo dentro dos limites e com muita sobriedade. Todas as noites há confrontos nas ruas da cidade e esses conflitos foram exasperados nesses dias. Mas vingança, não. A polícia agiu para evitar o pior para a sociedade.

Folha - Foram 93 mortes. Elas estão dentro dos limites? O senhor tem segurança que todos que morreram estavam em confronto?
Lembo -
E o conflito que houve da cidade com a bandidagem? Foi violento. É possível que tenha havido tragédias, mas pelo que estou informado não houve nada que fosse além dos confrontos diretos.

Folha - Só no IML (Instituto Médico Legal) estão 40 mortos e não se sabe nem o nome dessas pessoas.
Lembo -
Os nomes vão ser revelados. Estamos resolvendo questões burocráticas, de identificação, mas vão ser revelados.

Folha - Jornalistas da Folha entraram no IML e viram fotos de pessoas mortas com tiros na cabeça. Que garantia a sociedade tem de que não morreram inocentes e de que o Estado, por meio da polícia, não está executando essas pessoas?
Lembo -
Não está, de maneira alguma. E digo a você: fui muito aconselhado a falar tolices como "aplique-se a lei do Talião". Fui totalmente contrário. Faremos tudo dentro da legalidade e do Estado de Direito.

Folha - O senhor não se assusta com o número de mortos?
Lembo -
Eu me assusto com toda a realidade social brasileira. Acho que tudo isso foi um grande alerta para o Brasil. A situação social e o câncer do crime é muito maior do que se imaginava. Este é o grande produto desses dias todos de conflito. Nós temos que começar a refletir sobre como resolver essa situação, que tem um componente social e um componente criminoso, ambos gravíssimos. O crime organizado trabalha com a droga. A droga é um produto caro, consumido por grandes segmentos da sociedade. Enquanto houver consumidor de drogas, haverá crime organizado no tráfico. É assim aqui, na Itália, nos EUA, na Espanha. O crime se alimenta do consumidor de drogas.

Folha - E da miséria...
Lembo -
Talvez no Brasil tenha esse componente também. O crime organizado destruiu valores. O Brasil está desintegrado. Temos que recompor a sociedade. A questão social é muito grave.

Folha - O senhor é um homem público há tantos anos, está num partido, o PFL, que está no poder desde que, dizem, Cabral chegou ao Brasil.
Lembo -
Essa piada é minha.

Folha - O que o senhor pode dizer para um jovem de 15 a 24 anos, que vive em ambientes violentos da periferia? Que ele vai ter escola? Saúde? Perspectivas de emprego? Como afastá-lo de organizações criminosas como o PCC?
Lembo -
Acho que você tem duas situações muito graves: a desintegração familiar que existe no Brasil, e a perda... Eu sou laico, é bom que fique claro para não dizerem que sou da Opus Dei. Mas falta qualquer regramento religioso. O Brasil está desintegrado e perdeu seus valores cívicos. É ridículo falar isso mas o Brasil só acredita na camisa da seleção, que é símbolo de vitória. É um país que só conheceu derrotas. Derrotas sociais...Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa.

Folha - Que ficou assustada nos últimos dia.
Lembo -
E que deu entrevistas geniais para o seu jornal. Não há nada mais dramático do que as entrevistas da Folha [com socialites, artistas, empresários e celebridades] desta quarta-feira. Na sua linda casa, dizem que vão sair às ruas fazendo protesto. Vai fazer protesto nada! Vai é para o melhor restaurante cinco estrelas junto com outras figuras da política brasileira fazer o bom jantar.

Folha - Tomar conhaque de R$ 900 [preço de uma única dose do conhaque Henessy no restaurante Fasano].
Lembo -
Nossa burguesia devia é ficar quietinha e pensar muito no que ela fez para este país.

Folha - O senhor acha que essas pessoas são responsáveis e não percebem?
Lembo -
O Brasil é o país do duplo pensar. Conhecemos a inquisição de 1500 até 1821. Então você tinha um comportamento na rua e um comportamento interior, na sua casa. Isso é o que está na sociedade hoje. Essas pessoas estão falando apenas para o público externo. É um país que é dúbio.

Folha - Onde o senhor responsabiliza essas pessoas?
Lembo -
Onde? Na formação histórica do Brasil. A casa grande e a senzala. A casa grande tinha tudo e a senzala não tinha nada. Então é um drama. É um país que quando os escravos foram libertados, quem recebeu indenização foi o senhor, e não os libertos, como aconteceu nos EUA. Então é um país cínico. É disso que nós temos que ter consciência. O cinismo nacional mata o Brasil. Este país tem que deixar de ser cínico. Vou falar a verdade, doa a quem doer, destrua a quem destruir, porque eu acho que só a verdade vai construir este país.

Folha - Mas qual é, objetivamente, a responsabilidade delas nos fatos que ocorreram na cidade?
Lembo -
O que eu vi [nas entrevistas para a Folha] foram dondocas de São Paulo dizendo coisinhas lindas. Não podiam dizer tanta tolice. Todos são bonzinhos publicamente. E depois exploram a sociedade, seus serviçais, exploram todos os serviços públicos. Querem estar sempre nos palácios dos governos porque querem ter benesses do governo. Isso não vai ter aqui nesses oito meses [prazo que resta para Lembo deixar o governo]. A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações.

Folha - O senhor diria que elas pensam que aquele rapaz de 15 a 24 anos, que vive perto da selvageria...
Lembo -
...pode ser o Bom Selvagem do Rosseau? Não pode.

Folha - O endurecimento na legislação pode resolver o problema?
Lembo -
Transitoriamente pode resolver. Mas se nós não mudarmos a mentalidade brasileira, o cerne da minoria branca brasileira, não vamos a lugar algum.

Folha - O senhor diz que muita gente falou besteira sobre os episódios. Dos EUA, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criticou a possibilidade de o governo ter feito acordo com os criminosos para cessar a violência.
Lembo -
Eu acho que o presidente Fernando Henrique poderia ter ficado silencioso. Ele deveria me conhecer e conhecer o governo de SP. Eu não posso admitir nem a hipótese de se pensar isso. Para opinar sobre um tema tão amargo, tão grave, ele teria que refletir, pensar. E se informar. Quanto ao presidente [FHC], pode ser que eventualmente ele tenha precedente sobre acordos. Eu não tenho.

Folha - Vimos o senhor dando muitas entrevistas na TV. Mas SP teve um outro governador [Alckmin], tem um candidato ao governo e ex-prefeito [Serra]. O senhor ficou sozinho?
Lembo -
No poder, um homem é absolutamente solitário. Houve momentos em que praticamente fiquei sozinho. Mas devo agradecer a Polícia Militar e a Polícia Civil também, que estiveram firmes ao meu lado.

Folha - O ex-governador Alckmin telefonou para o senhor em solidariedade?
Lembo -
Dois telefonemas.

Folha - O senhor achou pouco?
Lembo -
Eu acho normal. Os pulsos [telefônicos] são tão caros...

Folha - E o candidato José Serra?
Lembo -
Não telefonou. Eu recebi telefonema da governadora Rosinha [do Rio de Janeiro] e de Aécio Neves [governador de MG], que estava em Washington, ele foi muito elegante. Um ofício do governador Mendonça, de Pernambuco. Recebi muitos apoios, do Poder Judiciário, e a Assembléia Legislativa, deputados de todas as bancadas, nenhum partido faltou.

Folha - As autoridades paulistanas garantiram, nos últimos anos, que o PCC estava desmantelado, que era um dentinho aqui ou ali. Elas enganaram os paulistanos?
Lembo -
Não saberia responder. Eu não engano. Eu acho que nós ganhamos uma situação mas é um grande risco. Temos que ficar muito atentos.

Folha - Essas autoridades garantiram que o PCC tinha acabado. Ou elas enganaram...
Lembo -
Ou o dentinho era maior do que elas diziam.

Folha - Ou foram incompetentes. O senhor vê terceira alternativa?
Lembo -
Pode ser que tenham sido exageradas no momento de transferir segurança. Quiseram ser tranquilizadoras.

Folha - Então elas iludiram as pessoas?
Lembo -
É possível.

Folha - O senhor pode dizer que o PCC pode acabar até o fim de seu governo?
Lembo -
Só se eu fosse um louco. E ainda não estou com sinal de demência. Acho que o crime organizado é perigosíssimo. Ele se recompõe porque ele tem possibilidades enormes na sociedade.

Folha - O ex-presidente Fernando Henrique não telefonou?
Lembo -
Não, não. Ele estava em Nova York. O presidente Lula telefonou, foi muito elegante comigo. Conversei muito com o presidente, ele me deu muito apoio. E o Márcio [Thomaz Bastos] veio, conversamos firmemente, com lealdade. E ele chegou à conclusão que não era necessário nem Exército nem a guarda nacional. Tivemos uma conversa responsável, e o equilíbrio voltou. Mostrei que a Polícia Civil e a Polícia Militar tinham condições de fazer retornar a SP a ordem e a disciplina social.

Folha - O Datafolha mostrou que 73% acham que o senhor deveria ter aceitado ajuda federal. O governador Alckmin disse que não rejeitaria a ajuda.
Lembo -
Ele decidiria, se fosse governador, como achava melhor. Eu decidi da forma que achei melhor. Quanto às outras pessoas, faltou clareza de informação da minha parte. E aí me penitencio. Não é que não aceitei ajuda do governo. Ao contrário. Desde sempre houve vínculo forte entre o sistema de informação da polícia federal e a polícia de SP. A superintendência da PF em SP foi extremamente leal, solícita e dinâmica. Eu tinha uma Polícia Militar muito aparelhada. Eu não poderia tirar esse respeito e esse moral que a tropa tinha que ter naquele momento tão difícil aceitando tanques de guerra do Exército. E aí uma sociedade que gosta de paternalismo, como a brasileira, queria Exército, tropas americanas, tropas alemãs, tropas de todo o mundo aqui. Não é assim. Temos que ser fortes, saber decidir em momentos difíceis e dar valor ao que é nosso. Foi o que fiz. Em 48 horas liquidou-se o problema. O Exército é para matar o adversário. Eu queria recolher os adversários possíveis. Nós estávamos num conflito social.

terça-feira, maio 16, 2006

Tá dominado, tá tudo dominado!

São Paulo não é a vitrine do Brasil, como o Rio ainda é, apesar de tudo. Não tem a diversidade de Minas, embora seja pluri e multi em muitos momentos. São Paulo não é como as regiões litorâneas do nordeste brasileiro, que nos acolhem de coração e com bom humor, seja qual for o nosso sotaque. São Paulo não tem reserva de tempo para desperdiçar com o por do sol alaranjado dos jalapões brasileiros. Nem desapego, pra deixar tudo pra trás e sair por aí, como Caetano, sem lenço nem documento. São Paulo parece ser diferente de tudo que somos.

Mas é São Paulo quem nos mostra como seremos. É quem nos faz mudar e parecer com o resto do mundo. São Paulo é a nossa antena parabólica. É quem capta as tendências, as visões inovadoras do planeta e nos anuncia, sejam bons ou ruins, os cenários que esses movimentos delineiam. São Paulo é nosso link, por onde escapamos para conhecer o mundo. Por isso gosto de São Paulo.

Por isso fiquei preocupada de verdade quando vi, aqui de cima, as últimas notícias sobre São Paulo. Por isso fiquei meio que apreensiva, quando vi a avenida Paulista vazia numa plena segunda-feira. Por isso fiquei assustada, quando vi policiais, de armas na mão, revistando carros aparentemente insuspeitos. Por isso fiquei apavorada quando vi os presos torturando outros presos, dependurando-os de cabeça para baixo, do alto do telhado de um presídio. O que São Paulo está nos anunciando?

Liguei para um amigo, atrás de explicações. Fiquei só escutando.Ouvi ele me contar que estava preso em casa. Não pensei nisso antes, mas nós também. Ouvi ele desabafar, dizendo que sentia medo. Nós também. Ouvi ele reclamar que São Paulo sentia-se abandonada. Nós também.

Aí me lembrei de Fernandinho Beira Mar. Tá dominado, tá tudo dominado! Me lembrei do Rio e do roubo dos dez fuzis e uma pistola. Da ocupação da cidade pelos militares por mais de 10 dias. Do fiasco das investigações. Me lembrei do meu irmão, que foi abastecer o seu carro e acabou ficando sob a mira de um trezoitão, enquanto outro pivetão limpava os clientes, levando relógios, carteiras e celulares.

Fiquei pensando se o que São Paulo nos mostrou, de um jeito que agora não dá pra não ver, foi o cenário onde já estamos vivendo e nem nos demos conta disso. Tá tudo dominado mesmo. Quando passar o susto, se passar, vou pensar nisso.

Inté,
Durmam em paz e que os anjinhos mantenham a guarda nessa madrugada

terça-feira, maio 09, 2006

Da arte epistolar

Belo Horizonte, 09 de maio de 2006

Meninas e prezadíssimos,

Também vou escrever uma carta. Não posso perder essa oportunidade, de praticar a velha arte epistolar. Esses fenômenos revival ressurgem do nada e desaparecem da mesma forma e rapidinho. Passam como um vento, uma brisa que sopra, espanam um pouco a poeira e vão embora de novo. No sábado, é possível que já tenha passado. Os seres humanos são assim mesmo, muito estranhos. Olha só, além das cartas, também virou moda de novo os álbuns de figurinha. Pela madrugada (rs), isso é muito antigo! Mas a proximidade da Copa fez reviver essa mania. E não é que ainda funciona muito bem? Os meninos ficam loucos atrás de mais figurinhas e mais e mais, até caírem no golpe das avis raras. Essas são disputadas mesmo é no velho e bom tapão.

As cartas já são bem mais antigas, mas também deveriam funcionar. Só que não estão. No início do mês de abril, Lula enviou uma carta ao presidente da Bolívia, comentando diversos assuntos que deveriam compôr uma pauta de negociação entre os dois países. Isso foi bem antes de Evo Morales também embarcar noutra onda revival, tirando do fundo do baú a sua versão das reformas de base, requentando, como andam dizendo por aí, o velho mexidão populista-nacionalista. O Lula tentou, mas Evo não respondeu. Nem sei se leu a carta.

Os iranianos entraram de cabeça nessa onda. Aderiram, sem restrições, à mania revival. Parece até que estão fazendo uma corrente. No curto espaço de oito dias, já enviaram três cartas. A primeira foi assinada pelo embaixador do Irã na ONU, Mohammad Javad Zarid, e destinada ao secretário-geral da organização, Kofi Annan. A carta foi postada no dia 1°. de maio e denunciava as ameaças de bush contra o seu país. Não teve muita repercussão. A segunda, despachada seis dias depois, foi assinada pelo Parlamento iraniano e também remetida a Kofi Annan. Na carta, lida até na rádio oficial iraniana, os parlamentares comunicavam a intenção do país de se retirar do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, caso o Conselho de Segurança da ONU não encontre uma solução pacífica para essa encrenca toda que aí está. Não sei se Kofi Annan respondeu e nem se a carta vai surtir efeito. Por enquanto, temos de aguardar.

A última, despachada na segunda-feira, foi assinada pelo próprio presidente, Mahmoud Ahmadinejad, e destinada ao presidente americano, aquele que não vai assinar o Protocolo não sei de quê. Há controvérsias, mas dizem que esta foi a primeira carta escrita por um presidente iraniano ao presidente dos Estados Unidos, desde a Revolução Islâmica, em 1979. Ahmadinejad apresentou na sua missiva novas soluções para acabar com os problemas internacionais e a frágil situação do mundo. Essa teve uma boa repercussão, só que ninguém sabe o que o presidente iraniano está sugerindo para resolver todos os nossos problemas. Desconfio que tem a ver com a vaga na Casa Branca, porque bush nem triscou e mal terminou de ler, guardou a danadinha debaixo do travesseiro. Ele bem que podia quebrar o nosso galho e deixar um jornal desses aí publicá-la, não é não? Tá todo mundo curioso, pomba!

Ah, já estava até me esquecendo. O Suplicy também andou postando carta nos últimos dias. O senador enviou uma ao presidente Lula sugerindo a ele tomar a iniciativa de marcar uma visita ao Congresso Nacional para fazer uma exposição sobre as revelações divulgadas por Sílvio Pereira, em entrevista ao O Globo. Em outras palavras, ir ao Congresso para se explicar. O Planalto protocolou a carta, que agora deve estar tramitando de sala em sala no Palácio. Nesse compasso, antes mesmo de Lula ter a chance de abrí-la, a carta já virou chacota. Até o Herótodo, que é tão discreto, não conseguiu segurar o riso e quase teve de interromper a entrevista que fazia! Olha só, achei até um pouco desumano e fico pensando que sua intenção foi também a de desqualificar o meio utilizado pelo senador. Acho que cartas, se bem redigidas, ainda podem funcionar. Bom, mas essa, acho que vai ser difícil.

E foi só me distrair, tentando escrever essas mal traçadas linhas, e olha só, o Lula já soltou mais uma carta. Essa foi dirigida à presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Mas o Lula já está avacalhando, enviou a carta via fax, vê se pode? Bom, são os novos tempos. Na carta, Lula falou da crise política, das angústias e das dores que vem sentindo e reafirmou o compromisso do seu governo com os pobres. Também não sei se vai funcionar. Os padres estão aborrecidos de verdade com o presidente.

E isso tudo sem falar da carta do Garotinho, enviada à Organização dos Estados Americanos (OEA). Num tô dizendo que virou uma mania. Na carta, o Garotinho relata a perseguição política de que tem sido vítima e outras coisas que não me lembro. Ai, ai, menino, quando dá de escrever carta, é uma imaginação sem limites. Conheço bem desse babado. Não sei se essa carta vai funcionar, mas provocou mais uma corrente sem fim de cartas. Umas apoiando o ex-governador do Rio, outras criticando, outras descendo o pau, algumas enviadas pelo correio, outras pelo fax, outras por e-mail e tem até carta que não sei se foi enviada, mas foi lida no rádio. Enfim, é isso, a arte epistolar está de volta. Aproveitem!

Mas para desfrutarem bem dessa moda, é preciso relembrar alguns conselhos básicos dos grandes missivistas. Tenho um texto de Erasmo de Rotterdam que é a bíblia: Brevíssima e Muito Resumida Fórmula de Elaboração Epistolar. Só para dar vontade, vou citar um trechinho pra vocês. Lá vai:

"...o estilo epistolar deve ser simples e mesmo bastante descuidado, no sentido de um descuido estudado....em primeiro lugar, deve-se fugir das palavras artificiais, antigas, excessivamente afetadas e repetidas".

Se tiver tempo, paciência e a mania não tiver passado, volto ao tema numa próxima carta.

Lembranças aos familiares.

Bons sonhos, belas cartas, boas notícias e um alegre despertar para todos!

sábado, maio 06, 2006

Ninguém sabe, ninguém viu

Vou também fingir que não vi. Deu na Globo, mas vou considerar que não aconteceu. Nem Lula tomou conhecimento! Veio pra Minas passear de Maria Fumaça e filar a bóia na fazendinha do Walfrido. Não deve ser ruim. Um feijãozinho preparado em fogão de lenha é tudo de bom, não é não? Mas tem uma coisa, pra passar um fim de semana ao lado de um Mares Guia tem de ir preparado para ouvir, porque eles falam pelos cotovelos. Não sei se é genético e nem se a herança vem do pai ou da mãe, mas os irmãos Mares Guia falam pelos cotovelos. Falam muito bem, por sinal, mas pelos cotovelos.

O Walfrido, quando começa, pode esquecer, só vai concluir depois dos 50 minutos regimentais de uma aula. Aí dá um intervalo de quinze minutos e retoma com o mesmo fôlego. O Marcos era idem idem. Fui aluna dele de química e, mais tarde, quando ele se tornou um empresário bem sucedido do setor de biotecnologia, conversamos várias vezes, nunca por menos de uma hora. Eram conversas que não davam trabalho nenhum. Bastava chegar e apresentar uma primeira e única questão. A partir daí ele engatava uma quinta e ia embora. Era só acompanhá-lo. E eram sempre muito agradáveis, porque ele entendia muito bem do que falava. O João Batista foi deputado. Hoje não sei por onde anda, mas tem um arsenal também que garante munição para três, quatro horas de monólogo fácil, fácil. O mais novo, não conheço, parece que puxou outro lado da família, porque atua é no mercado financeiro. Mas deve ter também uma objetividade bastante prolixa com os números.

Então. É uma característica de família mesmo. Quando acontecia de estar ouvindo um deles, às vezes me desligava e ficava imaginando um almoço de domingo na casa dos pais dos irmãos Mares Guia. Um pegava a palavra e os outros ficavam ali, mexendo o arroz no prato, batendo pezinho, levantando o garfo, pedindo um aparte e nada. E nada. E nada. Até que um cutucava o pai e reclamava: ô paiê, agora sou eu, né? Pede pro fulano parar de falar um pouco. Eu também quero conversar. Ou então, outra cena que imaginava, era aquela mesa cheia de mares guiazinhos, todos falando ao mesmo tempo e a mãe ali, sentadinha, alisando a toalha da mesa com as mãos e balançando a cabeça: esses meninos, hem? não aprendem, falam todos ao mesmo tempo. Agora deixa, passou da hora de ensinar. E continuava ali balançando a cabeça, concordando e discordando de acordo com o que lhe era perguntado.

Olha só, se o Lula não foi preparado para ouvir, deve ter engolido seco várias vezes neste final de semana. Puxa vida, consegui me desviar bem do assunto. Viu? Já estou no quarto parágrafo e nem comentei que ontem foi inaugurada a primeira unidade brasileira de enriquecimento de urânio. Ops, foi mal, escapou. Mas hem, voltando à fronteira com a Bolívia e à assembléia geral do mundo globalizado para definir a futura matriz energética do planeta, fiquei intrigada com uma coisa. Porque a mídia dedicou tanto tempo e espaço à cobertura do julgamento do jornalista Antonio Pimenta Neves, que matou sua ex-namorada, também jornalista, Sandra Gomide? Foi corporativismo? Acerto de contas? Sinceramente, não entendi.

Também desentendi porque os diplomatas aposentados ficaram tão indóceis com a atuação do Itamaraty no episódio da Bolívia. Claro que estavam todos roendo as unhas de vontade de estar na ativa. Já pensou? Quando, na época deles, tiveram uma oportunidade dessas? Mas acho que os diplomatas em exercício agiram bem. Primeiro, fico pensando que, se o Brasil entrou numa fria, a Bolívia entrou numa fria maior ainda. Tudo bem que estamos numa situação periclitante, como comentou o Rafael, mas é certo também que os bolivianos se meteram numa grande enrascada. Não pela decisão que tomaram, já prevista na Lei de Hidrocarbonetos, aprovada em maio do ano passado, mas pela forma, no mínimo deselegante, como anunciaram a nova medida. E mais grave, foram muito evasivos mesmo no que pretendem fazer a partir de agora e isso gera insegurança para os dois lados: para a Bolívia e para seus ex–parceiros.

Evo anunciou que pretende negociar um aumento de 80 e tantos por cento no preço do gás boliviano. A Lei de Hidrocarbonetos, quando foi sancionada, permitiu a criação de um imposto não-dedutível de 32% sobre as empresas de exploração de petróleo, além dos 18% que já pagavam na forma de royalties. Somados, as empresas já recolhiam ao governo 50% em taxas e impostos. Agora Evo quer mais. Já falou em um aumento da alíquota de imposto para 45%, para 63%, para 82% (sic!). Essa última pretensão deve ser para o percentual totalizado de obrigações das empresas, né? Bom, eu já estou fazendo a maior confusão. Acho que esse percentual é para o reajuste dos preços e não dos impostos. Deve ser. Que zona. Já tive de reescrever essa parágrafo três vezes. Mais uma, quatro! Agora chega! O que interessa é que, seja o que for que Evo esteja querendo, terá de sentar-se à mesa para negociar e parar de anunciar pela imprensa. E a Petrobras terá de fazer o msmo. É assim que se faz, não é não? Pelo menos deveria ser.

É o que penso, na minha limitada maneira de ver o mundo. Isso tem a ver com o meu segundo argumento. O Brasil está numa encruzilhada e não dá para simplesmente chutar o despacho e tomar outro rumo. O mundo inteiro está se organizando em blocos há tempos, por razões que aqui não vem ao caso. E aí? Vai o Brasil se integrar à União Européia? Ficou doido? Então vai pedir carteirinha da Liga Árabe? Viajou na maionese? Estamos limitados por nossas circunstâncias geográficas. Vamos ter de dar as mãos é mesmo para nossos vizinhos latinos. E esse não vai ser um diálogo fácil. O Brasil sempre teve uma postura distante dos países da América Latina. Nossos olhos, desde o início dos tempos, estiveram sempre voltados para além do Atlântico. Mas agora, não temos opção. Nessa falta, temos até várias alternativas, mas com os mesmos parceiros. Por isso é importante manter e elevar o nível do diálogo. De uma forma ou de outra, mas sempre pelas vias democráticas, por onde as palavras correm mais livres. E ponto.

Não vai dar é tempo de olhar a evolução da futura matriz energética do planeta, tenho de fazer feira, porque no domingo é um porre. Mas uma hora volto e, se tiver paciência, abro essa janela. Só para não me esquecer: nessa matriz, conforme desconfiava, a participação da energia nuclear vai, de fato, dar um salto. Ela tem conquistado novos e importantes aliados. Além do cientista que concebeu a Teoria de Gaia, James Lovelock, um dos fundadores do Greenpeace, Patrick Moore escreveu um artigo, recentemente publicado pelo jornal americano Washington Post, defendendo enfaticamente a energia nuclear, como forma de minimizar o efeito estufa, responsável pelo aquecimento da atmosfera da Terra. Dá pra pensar, não é não? Eu vou. Isso me interessa, porque o Brasil tem um grande potencial nessa área e detém a sexta maior reserva de urânio do mundo. Não é nada, mas é alguma coisa.

Inté, se der eu volto.

Um fim de semana cheio de novas energias para todos.

segunda-feira, maio 01, 2006

Deu curto

Ops...agora o bicho pegou! É cada um por si e o não sei quem se habilita por todos. Evo Morales fez, neste 1° de maio, o que prometeu: nacionalizou o setor de hidrocarbonetos. Para garantir o abastecimento interno de petróleo e gás e o cumprimento dos contratos de fornecimento, está ocupando todas as refinarias de petróleo, inclusive as da Petrobras. Daqui pra frente, quem quiser continuar operando no país terá de sentar e renegociar seus contratos. Enquanto isso, tudo fica nas mãos da estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB).

Na semana passada, Hugo Chávez deixou escapar que vai aumentar os royalties e o imposto de renda cobrado das empresas que exploram petróleo pesado na Faixa do Orinoco. Os planos são de reajustar os royalties de 16,66% para 30%, e o imposto de renda de 34% para 50%. Antes disso, Lula anunciou que o Brasil tornou-se auto-suficiente em petróleo. Gastou um dinheirão pra contar isso pra todo mundo, mesmo sabendo que não é bem assim. Segundo os entendidos, inventamos uma nova categoria: a auto-suficiência relativa. Tá certo, mas isso é só um detalhe. Para nós, povão, a mensagem que ficou mesmo é a de que agora não dependeremos mais do petróleo dos outros.

Enquanto isso, na sala de espera, do outro lado do oceano, em Paris, diplomatas dos Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha aguardam uma reunião para estudar uma resposta a ser dada ao Irã, após sua decisão de prosseguir com o programa de enriquecimento de urânio. Vai ser amanhã, terça-feira. Tan nam! É claro que essa discussão em torno da capacidade ou não do Irã produzir uma bomba atômica é só uma manobra diversionista, não é? Os aliados estão preocupados mesmo é com as reservas de petróleo do Irã, a segunda maior do mundo e as que têm condições de dar uma resposta mais rápida a uma pressão de demanda, em função do maior crescimento da economia. Vide China, que mesmo já querendo desacelerar, continua galopando e consumindo petróleo a rodo.

Então. Os aliados não vão querer ver todo esse ouro, de que precisam para continuar crescendo, nas mãos de um carinha que ninguém sabe exatamente para onde pretende ir. Nem ver esse carinha se juntando com a China, para enfrentar o império ocidental. Além disso, fico pensando, os aliados devem estar preocupados também com a possibilidade do Irã se tornar um forte produtor de energia nuclear. Não entendo patavina disso e sei que essa é outra história, mas me parece bem óbvio que a energia nuclear deverá, num futuro até breve, tomar um lugar de destaque na matriz energética mundial. Então. O que bush jr. e seus amigos estão querendo é já definir quem vai e quem não vai ter o controle dessa energia. E por razões óbvias, né?

Bom, pelo menos é isso que estou entendendo. O mundo está entrando em assembléia geral para redefinir o controle sobre as reservas de combustíveis fósseis, já que tão cedo, se nunca mais, encontraremos petróleo barato no mundo. Vão tentar ainda, desconfio, já fazer a divisão do controle sobre a nova matriz energética do mundo. É claro que é bush jr. quem lidera esses interesses. Sabemos disso desde que ele foi eleito. E, se o espetáculo do crescimento vai continuar e, no mesmo ritmo, a necessidade, sempre cada vez maior, de energia, não poderíamos imaginar que bush jr. ficaria sentadinho, assistindo a reprise de Friends, enquanto o mundo se mexia. Never. Muito antes de abrirmos os olhos, ele já se movimentava no tabuleiro. Aliás, só faz isso desde que pôs o pezinho lá na Casa Branca.

Talvez por isso e temendo a gula de bush jr., os demais felizes proprietários de reservas petrolíferas estão procurando proteger seu patrimônio, suas riquezas. Podemos até não gostar, mas estão certos. Se não fizessem isso é que seria um espanto, não é não? Mas o que me apavora é passar por um momento tão fundamental como esse, tendo na cabeceira da mesa um exemplar de bush. O Júnior não consegue manter um diálogo amigável, por mais de cinco minutos, nem que a vaca tussa.

Sei muito bem que conselho nem quem pede segue, mas vou arriscar. Rapazes, não tentem imitar o exemplo de bush jr. para resolver nossos problemas domésticos. Nem levem Chávez ao pé da letra. O seu vocabulário é do tempo em que serviu o exército e sua mente tem uma lógica perigosamente belicosa. Considerem e reconsiderem sempre que ele extrapolar. Lembrem-se sempre também que prudência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém. E quem vai a guerra dá e leva. E olha aqui, nem pensem em desandar, se não chamo Helen Gracie pra vocês.


Tenham uma boa semana e comportem-se!

PS: Ah, já ia me esquecendo. bush jr. é aquele mesmo. O que não vai assinar o Protocolo ....Protocolo....Protocolo de quê mesmo? Já nem me lembro mais. Foi há tanto tempo...ah!, sim...de Kioto!


quinta-feira, abril 27, 2006

Agora é tudo

Meninas, menos. Menos. Já disse que nosso estilo está em desuso, não disse? Mas é mais grave. Caímos na obsolecência absoluta. Nós e mais todo mundo. Li isso na coluna do Merval Pereira, no O Globo do dia 21 de abril. No feriadão. Não estou brincando. Ele esteve em Baku, capital do Azerbaijão, um país que fica na região do Cáucaso, numa esquina entre a Europa e a Ásia. Pois então, Merval Pereira, que já se tornou obsoleto também, foi lá acompanhar um seminário da Academia da Latinidade sobre Cultura da diferença na Eurásia - Passado e presente no diálogo da civilização. Como isso foi parar lá, não me perguntem. Mas foi.

O que entendi, se entendi, é que essa Academia da Latinidade, criada em 1999 e ligada à Universidade Cândido Mendes ou coisa assim, está fazendo uma rodada destes seminários pelo mundo todo. O atual secretário-geral da Academia é o próprio Cândido Mendes, sociólogo e filósofo brasileiro e irmão de Dom Luciano Mendes. E o que pretendem com esses encontros é discutir a questão do multiculturalismo, contrariando o som monocórdio do império do discurso único. Então. Esse é apenas mais um giro da Academia.

Em Baku, entre vários temas e expositores muito famosos, mais ou menos famosos e alguns até muito desconhecidos, pelo menos para nós mortais dessas bandas de cá, a Academia reuniu duas feras do pensamento europeu do momento: o sociólogo Alain Touraine e o filósofo Jean Baudrillard. Quem anunciou a nossa obsolecência foi Baudrillard que, por sinal, me desculpem, também se tornou obsoleto. Tá certo que ele não é uma pessoa lá muito bem humorada, pelo menos é o que dizem, e nem pensa muito na vida como ela é, mas sim na vida como pensam que ela é. Nos universos construídos, nas realidades virtuais e nas vidas inventadas, com direito a 15 minutos de fama em qualquer mídia, em qualquer parte do mundo e assim por diante.

Então, olha só, Baudrillard não é nada otimista em relação ao nosso futuro. Não tem nada a ver com as promessas catastróficas do poderoso, com o aquecimento global ou com o destempero de bush Jr., que, além de não assinar o Protocolo de Kioto, agora está querendo comprar briga com o Irã. Segundo relato de Merval Pereira, para Baudrillard, é a perfeição e a hegemonia tecnológica que estão promovendo a desqualificação definitiva do homem. Diante da máquina (ops!, olha nós aqui!), estamos perdendo não apenas nossa liberdade, mas a imaginação que temos de nós mesmos. E ele vê, nas decisões tomadas cada vez mais pela lógica dos computadores do que pela decisão humana, um seqüestro da inteligência humana em benefício da inteligência artificial, que marca o ponto em que o homem renuncia definitivamente a seu destino em benefício da instância técnica, cuja superioridade reconhece. Meu pai também fala assim.

Mas Uau! Não era bem sobre isso, mas é claro que também era sobre isso que estávamos pensando outro dia. Olha se não era. Estávamos conversando sobre como é difícil hoje em dia pensar sobre o mundo. Uma coisa tanto pode ser uma quanto outra e seja qual delas for, para cada uma teremos uma argumentação lógica, precisa e racional que a justifica e legitima. É como o Clóvis Rossi disse hoje também na Folha. Ele toma, como exemplo, a situação do Irã. Tanto podemos assumir uma posição em sua defesa, quanto podemos condená-lo. Ou, pior, podemos assumir as duas posições ao mesmo tempo, sem sermos incoerentes. Pelo contrário, às vezes, sendo até mais coerentes. Ruthinha esclareceu, para nosso alívio, pois já estávamos afundando num mar de angústia, que isso é normal. Normal, gente! Faz parte da complexidade mesmo do mundo em que vivemos e é muito bom que seja assim. Não estamos mais limitados a duas opções: o bem e o mal, o bom e o mau, o preto e o branco. O mundo binário, lembra?

Quando temos de fazer nossas escolhas, encontramos é um hipermercado de idéias, de visões de mundo, tantas quantas cabem na diversidade desse nosso mundão. Mas, para Ruthinha, o que torna nossas escolhas mais difíceis não é essa diversidade. Sofremos é porque insistimos em acreditar que escolhemos com a razão. E isso não é verdade. Fazemos nossas escolhas é com o coração. Mas é claro! Como podemos nos esquecer disso toda hora, hem?

Pois é. Aqui e agora, tudo está me parecendo bem simples. Terminamos essa nossa conversa bem mais otimistas. E olha só, mesmo que não seja bem por aí, que o mundo seja um pouco mais perverso do que supõe a nossa vã imaginação, e que Baudrillard seja mais viável do que Ruthinha, ainda assim, não vou me aborrecer, nem me preocupar, sabia? Vou transferir o problema para os meninos da área de Desenvolvimento & Sistemas. Eles são novos, entendem bem do negócio, dominam a tecnologia e encontram solução pra tudo. Às vezes fazem gambiarras, mas funcionam. Se funcionam, tá bom, né?

Vou deixar tudo na mão desses meninos, desligar o computador, o celular, o palm, o i-pod, o teclado programável e todos os eletrônicos domésticos e fugir pra praia. Se estamos obsoletas, prefiro morrer na praia, né não? E esses meninos que se preparem para o duelo final. Um Mac de um lado e um nerd do outro. Se precisarem, poderemos fazer torcida. Se muito. Ou então, que chamem Neo e seus amigos.

Quero só olhar pra ver tudo.

Estou brincando. Eu puxo a torcida.

Hasta la vista e um belo dia para todos.

quinta-feira, abril 20, 2006

Onde mora o perigo?

Voltei do feriado com 24 horas de atraso. Quando vi que não ia ter jeito, perdi a pressa. E tô errada? Olha só. O Lula já disse: o Brasil não tem pressa de crescer. Li ou ouvi, não sei onde, que a economia anda morna. O Alkmim falou que vai pianinho nessas eleições. O PFL não vai correr pra indicar o vice. O PMDB só vai indo, explica pra confundir e não sai do lugar. A Justiça vai devagar há muito tempo e continua na mesma marcha. Trinta e tantos anos depois, inocentou Maluf, no episódio dos fusquinhas! Vou eu me descabelar? Ronaldo, o fenômeno, tá devagarinho desisitindo de correr atrás da bola. Rubinho, bom, esse a gente já sabe, né? E até a França, mesmo afundada em dificuldades, não quer sair destrambelhada por aí, só pra trocar de problema. Então. Não estou sozinha, estou?

De princípio, pensei que era preguiça. Isso pega mesmo. Quatro dias sem fazer nada, só vagando pela vida, são mais do que suficientes para criar um novo hábito. Mas não é preguiça. Não é rescaldo do feriado. O que aconteceu foi que, de repente, olhei e vi. Não adianta apressar o passo. Toda história tem seu ritmo. Tem um desenrolar que não desembaralha, se puxarmos o fio de uma vez só. Temos de, pacientemente, ir buscando um caminho no meio do novelo e no final tudo dá certo. Não é que acabe bem, mas dá certo. Quem tem de se encontrar, se encontra. Quem não tem, segue seu caminho e assim vai. Até que, numa determinada hora, esse desenredar torna-se suficiente para virar uma história. A história que estava sendo contada.

Vinha convicta, nesses últimos tempos, de que a história que estavam nos contando ia dar certo e acabar bem. Era uma história com tantos fios e tão embaralhados que parecia impossível se desenrolar. Mas puxaram um fio de cá, outro de lá, juntaram um com o outro e um novelo foi se formando com jeito de história. Pensei, tá pronta. Tá na hora de acabar. Daqui a pouco, vamos abrir uma folha em branco e começar um nova história. E tudo vai acabar bem. Foi uma crise formidável. Serviu para mostrar tudo que precisava ser visto. Aprendemos a lição. Agora vamos iniciar um história em linha reta, sem perpendiculares ou paralelas. Só uma linha de ponto a ponto. Clara e precisa.

Pensei isso, com a minha santa ignorância. Mas o desfecho que está surgindo para essa história não está batendo com o enredo que deram a ela. Parece que faltam capítulos nessa história. Ou puxaram o fio de uma vez só. Ou andamos mais depressa que deveríamos e saímos fora do ritmo. O fato é que estava convicta de que tudo ia acabar bem. Não estava nem preocupada. Mas agora preocupei. Olha se não é para preocupar. Collor está com mais de 60% de aprovação no seu Estado e deve voltar a Brasília brevemente. Lula continua com sua popularidade inabalada. A oposição, faminta, em vez de apresentar-se para o que veio e, com isso, conquistar seus votos, prefere garantir a derrota de seu adversário mor antes da disputa. Cada dia surge um fio novo, mais embaralhado que aqueles que já foram puxados, mas todos querendo chegar ao Palácio da Alvorada. Foi aí que perdi a pressa.

Foi aí que olhei e vi. Essa história ainda não está acabada. Faltam muitos capítulos nessa história. De um lado e de outro. Ninguém sabe, até hoje, o início dessa história. Porque resolveram jogar as cartas na mesa. Ficou sem começo e ainda não tem um fim. Alguém brigou com alguém, mas a troco de quê? Foi vingança? Foi traição? Maldição? De quem? Contra quem? Onde foi que o PT entrou nesse barco que agora afundou? Foi em Santo André? Foi em Ribeirão Preto? Foi antes? Foi durante? E onde Lula entra nessa história? Ele está em outro núcleo? Sempre esteve? Mudou agora? Se caixa 2 é crime, e é, porque os Tribunais Regionais Eleitorais nunca correram atrás e puniram quem tinha de ser punido desde sempre? Porque os TREs sempre fizeram vista grossa? Porque a oposição faz vista grossa, quando lhe interessa? O que interessa a oposição? Porque está mais preocupada em derrubar Lula, do que disputar uma eleição? Por que os alagoanos continuam votando em Collor? Por que o povo continua querendo Lula? Por que a síndrome conspiratória continua rendendo histórias? Quem tem medo das urnas? Quem teme as ruas? Qual perigo nos espreita? Onde mora esse perigo?

É nisso que estou pensando. Devagar e sem pressa. Vou aproveitar o feriado para manter o pé fora do acelerador por mais uns dias. Acho que vai ser bom.

Experimentem.

Tenham bons sonhos, em slowmotion, e um feriado preguiçoso pela frente!

terça-feira, abril 11, 2006

Quando crescer, não quero ser igual a ela

Hoje tomei coragem. Abri a janela e fui olhar a China. Olho no olho. Agora, com a licença de bush júnior, aquele mesmo, vou fazer um desabafo preventivo. Vou dar só uma paradinha, já que a CBF liberou geral, e depois chuto pro gol. Uns dias pra trás, ouvi na CBN a série de matérias do jornalista Carlos Alberto Sardenberg sobre o espantoso crescimento da China. Ouvi caladinha, e cheguei a conclusão de que, quando crescer, não quero ser igual a ela. Acho a China linda, faço Taichi duas vezes por semana e Chi kung todos os dias. Também gosto de carne de vaca desfiada com molho de ostra e tenho uma imagem de Buda em algum canto da casa. Mas, quando crescer, não quero ser igual à China.

Me acompanha. A China, todo mundo sabe, tem mania de grandeza. É a nação mais populosa do planeta, o terceiro maior país do mundo e a maior consumidora de alimentos e produtos da face da Terra. Os chineses, li isso em algum lugar, comem 51% da carne de porco produzida no mundo, pilotam 40% das motos que todos os países juntos produzem e possuem 32% dos televisores em funcionamento no mundo. Ah, e tem também a maior quantidade de celulares do planeta. E mais, produzem sapatos numa quantidade que dava para calçar o planeta inteiro, não é? Isso para ficar em poucos números. Exagerada, não é?

Mas é a sua vocação. Nasceu assim. Por isso é grande também nas estatísticas negativas. Não precisava, mas é. A China já é um dos países que mais polui o mundo. Ignorou as experiências passadas e optou por um crescimento selvagem, semelhante aos modelos da primeira fase da revolução industrial inglesa. Desconhece também novos conceitos, como o de desenvolvimento sustentável e preservação ambiental. Saiu com atraso e com pressa, deu nisso. A China paga ainda um dos mais baixos salários do mundo, aliados a precárias condições de trabalho. Não sou eu que acho, também ouvi os números na CBN, só que esqueci. Mas isso, evidentemente, dá a ela vantagens comparativas em qualquer um dos segmentos de manufaturados. Tudo o que ela produz é mais barato. Para competir com a China, o mundo inteiro está sendo forçado a abrir mão dos avanços nas relações de trabalho e a retroagir à informalidade. Vide França.

A China tem também uma das piores políticas para infância e adolescência do planeta. Não estou falando das restrições ao nascimento, isso é lá com eles. Falo das crianças que foram autorizadas a entrar na roda e estão submetidas à desassistência social sistemática. Não sei se são as maiores taxas do mundo, mas a China tem índices elevadíssimos de mortalidade infantil e materna; mais, 25% das crianças até 4 anos sofrem de raquitismo, em diversos graus de gravidade. Um quarto do total das crianças. Não é pouca coisa, ou é? E as meninas padecem um pouco mais, principalmente no que diz respeito à educação. Para não falar naquelas que são abandonadas no meio do caminho e precisam ser socorridas por organizações mundiais de assistência à infância.

Não vou me alongar mais, vou só lembrar outros dois pontos que estão relacionados: a questão da liberdade de expressão e dos direitos humanos. Idem, idem, ouvi na CBN e li mais em algum outro lugar. Não estou inventando. A China desconhece peremptoriamente os dois temas. Tá certo que o mundo inteiro não está levando isso muito a sério. Mas se a China quer ser a primeira em tudo, tem que zelar por todos os indicadores, não é não? Eu vou cobrar. Mas quando crescer não quero ser igual a ela.

Olhando, olho no olho, fiquei pensando que a entrada da China no mercado global provocou uma desordem desconcertante na ordem mundial. Está sendo como começar tudo de novo. Fico desconfiada de que estamos naquele momento da paradinha, do suspense. Tudo fica no ar, antes do jogador chutar pro gol. Então. Todas as vocações estão em xeque. Por isso a Europa está patinando igual pinguim nas geleiras, sem saber para onde vai. Só uma coisa é certa. Na nova divisão internacional do trabalho, a China já se decidiu, vai ser a nova produtora mundial de manufaturados. Quem quiser competir com ela vai dar com os burros n'água. Os Estados Unidos, acho, vai investir no setor da construção. Só pode ser, né? Sem assinar o Protocolo de Kioto e com as ofensivas belicosas, estão contribuindo de forma primorosa para a destruição do planeta. Como não podemos dizer que os EUA são burros, deve ser porque já estão pensando, com os olhinhos cheios de cifrão, na reconstrução disso tudo, né?

A Europa, não sei. Deveria ficar ali, produzindo filosofia, literatura de vanguarda, música romântica, vinhos, culinária sofisticada, design e outros intangíveis. Eles são bons nisso. Ásia também não sei, religião, combustíveis, sei lá. África, o mundo vai ter de pensar melhor o que está querendo desse pedacinho do planeta, né? E o Brasil? Fui conversar com o Olivé para ver se ele tinha alguma dica. Na sua visão de especialista, me garantiu que o que vai sobrar pra nós é a produção de grãos e mineração. Talvez, alguns focos de turismo, principalmente na orla e alguma coisa de turismo ecológico nas regiões da Amazônia e Pantanal. Mas pouca.

É ruim, hem? Voltaremos à condição de quintal. Mas se é pra ser assim, tenho uma proposta diferente. Vou chutar pro gol. Se for pra fora, paciência. Fiquei matutando e acho que deveríamos investir é na sombra e água fresca. Não faça nenhum juízo precipitado. Não estou fazendo apologia do ócio, apesar de gostar também de ficar à toa. Mas isso vai dar é um trabalho do cão. Vejamos: implantar uma política de desenvolvimento sustentável para toda a região da Amazônia; programas de preservação e recuperação das matas tropicais; revitalição das bacias hidrográficas, principalmente do São Francisco (tenho de vender meu peixe, né?); controle de qualidade das águas subterrâneas e, por aí afora vai. É brincadeira? É trabalho para gerações. Mas acho que não íamos nos dar mal. Agora, substituir floresta por grãos para alimentar esses marmanjões que estão por aí afora, tenha paciência, né? Nos poupem desse papel.

Sonhos mais doces e um belo dia para todos, com sombra e água fresca.

PS: Ia dizer um céu de brigadeiro também, mas o dia não está pra isso, né? Agora, cá pra nós, acho que o Lula deveria estatizar a Varig. A rainha da Inglaterra faz isso, de tempos em tempos, para salvar as ferrovias inglesas. A Varig é uma marca do Brasil. É um intangível importante para o país. Não deveriam deixar desaparecer assim. É duro construir um símbolo nacional.

terça-feira, abril 04, 2006

Êita nós!

Olha como são as coisas. Mal conseguimos uma carteirinha do restrito clube de chefes de governo e já começaram as retaliações. Não estou reclamando, só constatando. Nem estou tendo uma recaída feminista, pois nunca advoguei essa causa. Quando cheguei, as portas já estavam entreabertas e o que fiz e faço é só tocar o barco. Muitas vezes com dificuldade, outras mais devagar, às vezes com mais esforço, mas tocando. Em frente. Também não é pelo gosto de polemizar. Longe de mim tal prática. Mas deixar passar de liso, não posso, vai que a moda pega!

Pior é que, por aqui, isso já pegou, só não caiu ainda nas generalidades. Então. As universidades americanas estão adotando uma ação afirmativa para homens, reservando um percentual das inscrições nos cursos superiores aos alunos do sexo masculino. Em outras palavras, criaram um sistema de cotas para preservar a vaga de homens nas universidades. Não é lei, mas é como se fosse. É um acordão entre elas. Pronto. Deu pra entender, né? Embora seja difícil de acreditar. Mas tá lá, a Rutinha me mostrou com todas as letras. Vimos no O Globo do dia 2 de abril. Não é mentira.

Jennifer Britz, diretora de seleção do Kennyon College, uma tradicional faculdade americana, admitiu que, como em todas as demais escolas, ela também tem feito vista grossa às exigências de currículo dos candidatos homens que disputam uma vaga no ensino superior. Britz explicou que tem sido mais flexível, para manter uma paridade entre os sexos no campus: 50% homens e 50% mulheres. Ela confirmou que, se os critérios fossem igualmente rigorosos para os dois sexos, a maioria dos campus teria 60% de mulheres, ou mais, porque as candidatas são mais numerosas, mais bem preparadas e com projetos de estudos mais interessantes. Não estou acreditando no que estou escrevendo. Vou escrevendo, lendo, pensando e fico pasma! Pasma!

Não estou com tempo para fazer essa investigação agora, mas será que essa paridade se repete no conjunto da sociedade americana. Lá, a divisão é certinha assim mesmo, meio a meio? Aqui, por exemplo, desde o Censo de 80 que o número de mulheres é superior ao de homens e a diferença só vem crescendo. Como as oportunidades são iguais - elas se diferenciam é em outros quesitos e por outras razões - o número de universitárias também é maior do que o de universitários. Hoje, dos 4,2 milhões de alunos matriculados em curso superior, 2,4 milhões são mulheres e 1,8 milhão são homens. Fazer o quê? Vamos adotar também cotas para homens? Fala sério, né?

E esses números nem são muito importantes não, embora façam a diferença. Mas o que tem feito mulheres ocuparem um espaço cada vez maior nas escolas, em todos os níveis, e também no mercado de trabalho, é outra variável. Como disse a própria Britz, é porque elas são mais preparadas e seus projetos são mais interessantes. É claro que somos todas muito esforçadas. É claro que nossos cérebros são capazes de fazer um número de sinapses muito maior do que outros cérebros, como, por exemplo, os dos homens. Ou seja, é claro que somos mais inteligentes mesmo. Brincadeira! Brincandeira! Nem acredito nisso, só agora, que os números estão demonstrando, é que estou tendendo a crer que somos mesmo muito especiais.

Mas um amigo, mais sensato, e que também não leva a sério essas teorias, tem outro argumento para explicar o sucesso das mulheres nos estudos e no trabalho. Para ele isso é um complô de mães. Ele tem observado que as mulheres são muito mais rigorosas na educação de suas filhas mulheres do que na educação de seus filhos homens. Exigem delas mais disciplina, mais dedicação, persistência, compromisso e tudo isso que torna uma pessoa capaz de conquistar e exercer sua autonomia, mesmo num mundo habitado por maioria de marionetes, como esse em que estamos vivendo. Quanto aos meninos, bom, é melhor que eles fiquem na deles mesmo. Deixa eles fazerem do jeito que eles quiserem, se não vão emburrar e homem emburrado é muito aborrecido. Deixa eles, vamos ver no que vai dar. E como mão na cabeça não educa ninguém, taí o resultado. Mas, para o meu amigo, tudo isso foi de caso pensado, foi esperteza das mulheres para consolidar os espaços que conquistaram. Não concordo não, mas outro dia volto nisso.

Agora, numa coisa os administradores desses centros educacionais americanos têm razão. Eles têm um argumento a favor das cotas que tendo a considerar até imbatível. Para eles, a superpopulação feminina nos campus tornaria a vida nas universidades muito desinteressante, afugentando os alunos e levando as escolas à bancarrota. Não sei exatamente o que eles querem dizer com "desinteressante", mas reconheço que seria um tédio mortal. Já pensaram um campus repleto de legalmente louras? Aquela mulherada falando toda ao mesmo tempo, ou rindo, ou chorando, ou, pasmas de tudo, xingando, execrando, pleiteando todos os direitos que acham são merecedoras! Êita! Seria uma cansaço.

Claro, meninas, um campus repleto de mulheres como nós, sensatas, recatadas, discretas, abertas ao diálogo, já seria bem diferente, né? Mas não somos tantas assim para encher um campus, né? Nosso estilo está em desuso. Além do mais, acho que nenhuma de nós abre mão da agradável convivência com amigos como os que temos hoje, não é verdade? Então, vamos lá, peguem suas bandeiras, faixas, cartazes, megafone e vamos pra rua já! Vamos fazer uma manifestação preventiva: Abaixo o sistema de cotas para homens nas universidades públicas e privadas! Por escolas mistas com vagas proporcionais! E aproveitando: Xô bush, aquele que não assina o Protocolo de Kioto! E mais: Queremos voto aberto em todas as votações! Queremos o recall! Queremos o recall! Ai, ai, cansei!

Um fim de semana ameno para todos, ao som de Cantatas de Bach, sabiás e águas rolando na cachoeira, que ninguém é de ferro!

Inté.

sábado, abril 01, 2006

Yes or no

Motorista de táxi tem as manhas. Invariavelmente, sempre que oriento um deles a entrar à direita, ele vira à esquerda e dá certo. Eu só acerto quando antes simulo fazer uma anotação qualquer, aí fico sabendo, esse é o lado direito. Mas, nem sempre dá tempo e na maioria das vezes aposto é na intuição. Quebro a cara, claro. Uma noite dessas pra trás, ainda gripada e com preguiça de dirigir, deixei o carro em casa e fui de táxi a um compromisso inadiável. Na volta, já quase chegando, orientei o motorista a virar à direita. Era impossível. Ele percebeu logo a minha dificuldade e evitou a contramão, entrando à esquerda. No que ele fez muito bem. Andou mais alguns metros e já estávamos bem em frente à minha casa.

Confesso que, até ontem à noite, essa estupidez direcional me deixava constrangida. Mais que isso, intrigada, porque quando sou eu que estou no volante, domino muito bem todos os sentidos de direção e vou de um ponto a outro da cidade até com certa facilidade. Ontem, no entanto, percebi que essa dificuldade é bem mais comum do que poderia imaginar. Uma amiga me ligou, preocupada, porque não estava conseguindo avaliar se a saída de Palocci do Ministério da Fazenda seria uma oportunidade para Lula dar uma guinada à esquerda ou um risco que o levaria a entrar sem dó à direita.

Queria ter dito a ela que isso não tem muita importância, mas não tive chance. Minha amiga, diferente de mim, pensa falando. Quando me liga, a única coisa que espera é que eu a escute com atenção. E é o que faço. Mas agora, vou dizer: isso não é relevante, pelo menos não do jeito que ela pensa. Primeiro, porque governos, como já ouvi alguém dizer, são de direita. São conservadores. É assim que são e a prática tem nos demonstrado isso. Portanto, não vou ficar aqui discorrendo sobre a série de razões que os levam a agir desta forma.

Depois, porque essa discussão está superada, pelo menos da forma como minha amiga ainda insisti em apresentá-la. Olha só, há pouco tempo, um amigo foi a um sebo, tentar se desfazer de alguns livros que estavam empatando sua estante. Levou uma caixa repleta de clássicos para o Amadeo. O rapazinho que o atendeu foi avaliando, um por um, todos os livros. Depois, olhou para o meu amigo e concluiu: esses aqui, fico com eles. Esses outros, não vai dar não. Meu amigo não entendeu. Como assim? Estão bem conservados!? Aí o rapazinho apontou para o alto de uma estante e argumentou: já tenho cinco coleções do Capital de Marx encalhadas. Não vou pegar mais uma, vou?

Foi preciso muita lábia para convencer o rapaz a ficar com os livros. No final, meu amigo acabou cedendo e topou trocar os cinco volumes de O Capital por uma edição em dois volumes de Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. E ainda ouviu o rapaz resmungar: assim, ao menos, ficamos elas por elas. Coisa de comerciante, claro, mas ilustra bem em que pé essa discussão está hoje.

Por isso não estranhei quando minha amiga, no seu monólogo, citou pasma as críticas do nobilíssimo economista Joseph Stiglitz às políticas adotadas por países emergentes que reproduziram, preto no branco, o receituário do tal Consenso de Washington. Ele veio a Belo Horizonte participar do encontro do BID. Aliás, quase perdi a cobertura deste evento. Tive de migrar pra Band para ter alguma notícia. O sistema Globo ignorou solenemente tudo o que rolou por aqui esses dias. Não entendo a Globo. Será que ela pensa que o Brasil mora na ponte aérea Rio-São Paulo? Vai saber. Só sei que saiu fora dessa rota, a Globo só se interessa pelo que é esdrúxulo ou estapafúrdio. Não vi inteiro, desde o comecinho, mas o Jornal das 10 da Globo News, por exemplo, perdeu esse debate de Stiglitz. Perdeu as notícias do encontro, mas deu, até com imagens (logo estava lá!), o mico dos seguranças que confundiram com uma bomba, a mochila de um dos estagiários que prestava serviço de intérprete no encontro. Muito engraçadinho, viu?

Mas Stiglitz, que não é, vamos dizer assim, nenhum porta-voz de uma esquerda americana, se isso existe, confirmou tudo aquilo que já sabíamos. Os países que adotaram à risca o modelo do Consenso, deram com os burros n’água. A China e a Índia, que buscaram traçar um caminho próprio, estão crescendo loucamente. E não foi só Stiglitz que admitiu isso não. O próprio John Williamson, o arquiteto do Consenso de Washington, e que também esteve em Belo Horizonte, reconheceu que foi um erro querer transpor uma solução única para economias tão diferentes. Foi isso que deixou minha amiga pasma. Esses caras são de direita, conservadores, e estão mais à esquerda do que o Lula! Aliás, foi isso também que Clóvis Rossi concluiu no seu artigo de sábado, na Folha de São Paulo. Mas Williamson, não podemos esquecer, disse também que os países emergentes precisam de governos fortes (sic!). Não sei o que isso quer dizer, mas fiquei preocupada. De verdade. Então, ele está à esquerda e à direita ao mesmo tempo?

Tá vendo? Não tô dizendo que esse negócio de esquerda e de direita é difícil? Mas, pelo menos agora, já fico mais consolada. Não sou eu apenas que faço confusão. Só Ludus mesmo não se aflige com essas questões. Sábio filósofo, ele me explicou, inspirado em Hannah Arendt, que estão hoje à direita todos aqueles que, de uma certa forma, priorizam a liberdade e, à esquerda, os que defendem a igualdade. Aí quem ficou pasma, fui eu. Mas como, liberdade e igualdade não são compatíveis? A Revolução Francesa é propaganda enganosa? E ele, do alto da sua sabedoria: é isso aí. E o nosso desafio não é saber se devemos ir pra direita ou pra esquerda não, é o de encontrar o caminho do meio, o do equilíbrio. Aquele que nos permitirá alcançar a igualdade com liberdade. Disse isso e foi indo embora pra Patos. Vou aguardá-lo de volta para retomar essa conversa. Mas já gostei do que ele disse. Não vai resolver meu problema, mas me ajudará a entender melhor os rumos que estamos tomando.

Sonhos à direita ou à esquerda. Se ficarem na dúvida, façam como o menino do anúncio daquele carro total flex: sigam em frente e tenham um belo dia!