sábado, outubro 15, 2011

Caro mercado,

Vejam mais fotos aqui


Que o Brasil importa muito lixo, já sabíamos. Quem nunca entrou em um desses centros comerciais populares que estão espalhados por todo o país ou fez uma incursão a uma 25 de março de qualquer capital brasileira ou mesmo passou no centro da cidade e parou na banca de um camelô especializado em variedades - isqueiros, sombrinhas e outros importados chineses? Todos nós já passamos por essa tentação e não resistimos. Por isso sabemos muito bem que o Brasil importa muito lixo. Gasta seus dólares com muita bobagem.

Disso já sabíamos, mas nunca pensei que chegaríamos ao ponto que chegamos: importar lixo, literalmente, e não lixo reciclável, que estaria dentro de uma lógica comercial razoável, embora já tenhamos fornecedores locais muito eficientes. Não, nada disso. O que importamos foi lixo hospitalar, contaminado sabe-se lá de quê. E, como informa a imprensa paulista, importamos lixo para vendê-lo diretamente ao consumidor, sem nenhum beneficiamento.


Lençóis hospitalares, semelhantes àqueles apreendidos no Porto de Suape, em Pernambuco, são vendidos a quilo em uma das principais vias de Santa Cruz do Capibaribe e, provavelmente, são comprados para forrar a cama dos beneficiários do Bolsa Família de algum distrito da região. O mercado, o grande senhor da vida, chegou no seu limite. Rompeu as barreiras territoriais com a globalização e agora extrapolou as barreiras da ética, transformando as misérias particulares em produtos comercializáveis em qualquer carrefour do planeta. Tudo bem, isso não foi agora, já vem desde sempre.


Já acompanhamos denúncias contra empresas que utilizavam na sua linha de produção mão de obra infantil; empresas que utilizavam mão de obra escrava, preferencialmente feminina; que comercializavam produtos de baixa qualidade, maqueados como sendo de primeira e assim por diante. Produtos industrializados ou não. Sob o domínio do capital financeiro, o mercado reproduz essa mesma lógica junto às empresas que operam nesse cassino. A bolha imobiliária que provocou a crise financeira americana de 2008 (!!!) não é fruto dessas mesmas práticas?


Mas a hegemonia da lógica mercantilista nas relações humanas pode estar se esgotando. Desconfio que está. Estou cismada com isso desde que li as primeiras notícias da Primavera Árabe e antes ou ao mesmo tempo, não me lembro mais, sobre os movimentos grevistas na Grécia, que estão em assembleia permanente há quase quatro anos. Agora, mais recentemente, essa cisma voltou com o notíciário sobre os movimentos dos indignados e, em especial, sobre o Ocupe Wall Street que está se multiplicando em outras ocupações pelos estados americanos.


Os doutores sociólogos, antropólogos, psicólogos e outros logos americanos estão perplexos e desorientados. Para eles, o Ocupe não tem significado, porque não existe uma causa que os una. Como assim? Pois é, foi isso mesmo que li em alguns jornais ao passar os olhos no noticiário. Cada manifestante fala uma coisa, defende uma causa, apoia uma bandeira. Lá nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. O que eles não entendem é que existe uma vontade comum, expressa por todos os manifestantes, independentemente da sua origem.


Existe a vontade de buscar, coletivamente, novos caminhos para um mundo que está se deteriorando de podre. Existe uma vontade comum de abrir um debate, um debate público, sobre todos as grandes questões que afetam a vida de todos os indivíduos em particular. Estão convocando a ágora. Estão reivindicando a participação direta na discussão das questões que interferem no cotidiando de todos nós e que vinham sendo discutidas e decididas por meia dúzia de 10, 100, pode ser, grandes empresas mundiais.


Neste sábado, algumas lideranças espalhadas pelo mundo estão prevendo que haverá manifestações em quase mil cidades de 82 países, inspiradas no Ocupe Wall Street. Hong Kong, Taiwan, Japão e Austrália, Itália, Bósnia, Romênia e Holanda já saíram às ruas e, ao longo do dia, pode haver protestos na Espanha, Inglaterra e Grécia.


Isso, minhas amigas, é política e política, caro mercado, não tem preço!

quarta-feira, maio 18, 2011

Cidadãos do mundo, dispersemos!

Já estamos todos carecas de saber que a globalização favoreceu, especialmente, a integração dos mercados, transformando o mundo num grande balcão de negócios. Vende-se qualquer coisa, de bananas a mulheres, crianças, trabalhadores, gorilas, mudas de ervas aromáticas, alucinógenos e qualquer droga que possa ser precificada, ou seja, todas e tudo. Mas como as ondas, que inevitavelmente acabam se espalhando na areia, a globalização também respingou em outras praias. A indústria cultural, impulsionada pelo avanço das tecnologias de informação e comunicação, se apossou das manifestações mais singelas de todos os povos e transformou-as em produtos de consumo de massa dando-nos a ilusão de termos nos tornado cidadãos do mundo.

Admito que gosto de pensar que o planeta é a nossa casa; que estamos todos no mesmo barco; que somos gaia, partes de um todo absoluto; que somos todos irmãos e formamos juntos uma grande e única família. Mas basta ler uma vez só, em um dia qualquer, as manchetes de capa de um jornal escolhido aleatoriamente, entre os milhares que circulam pelo mundo, que escapamos sãos e salvos dessa doce ilusão. Mais do que isso. Ainda que as grandes mídias e o mercadão do mundo desconstruam diariamente nossas identidades regionais, tentando nos transformar em meros consumidores das classes A, B, C,. D ou E, sobrevivemos à pasteurização da vida e preservamos nossos vínculos locais, cultivando, longe das câmeras, nossas preferências musicais, gastronômicas, literárias e assim por diante.

Por mais que navegue pelo mundo e por mais que esse mundo tenha se tornado um ovo, continuo curtindo adoidado tomar café com pão de queijo, traçar um prato de arroz com feijão e bife de panela e, de sobremesa, queijo com goiabada. Continuo me divertindo com as festas de São João, as brincadeiras de rua – pula maré, rouba-bandeira, queimada, passa anel e pegador. Gosto de ouvir a música que vem dos cafundós de Minas, de sentar na porta da cozinha, de jogar conversa fora e de tudo mais que me torna inconfundivelmente mineira de corpo e alma. Sempre estarei em Minas, para sempre terei vindo de Minas e jamais sairei de Minas, porque não sou eu que estou aqui, é Minas que está em mim, à revelia da grande mídia e dos esforços da indústria cultural.

Estou divagando sobre tudo isso por uma razão, aparentemente, muito banal. Hoje cedo, quando abri o jornal dos mineiros, li o comentário de um jornalista do caderno SuperEsporte que me deixou estarrecida. Sem nenhuma cerimônia e em meia linha, o colunista desqualificou o campeonato regional de futebol, recém encerrado, desmerecendo o título conquistado pela equipe vitoriosa, título que ele considera inexpressivo. E qual título será que ele gostaria que os times mineiros perseguissem? O do campeonado espanhol?

Mas não importa muito quem saiu vitorioso nas dezenas de campeonatos que se desenrolaram por esse Brasil a dentro nos últimos meses. Quer dizer, não importa para o que estou pensando aqui e agora. É claro que todos os campeões são merecedores das justas homenagens. Mas o que torna esses campeonatos formidáveis é, justamente, o que o colunista do jornal dos mineiros ignora solenemente. São as oportunidades que eles criam para centenas de pequenos times locais se apresentarem dignamente a suas torcidas. Escancararem, a cada jogo, a sua identidade, as suas cores, o seu grito, os seus talentos, muitos, inclusive, cobiçados pelos grandes times e alguns até já transferidos para os novos clubes.

O que é bárbaro nesses campeonatos e, no mineiro foi assim também, é que eles são um momento muito especial também para os torcedores. É claro que torci cegamente para o meu time em todos os jogos, mas me emocionava também a torcida adversária. Nessa hora, somos todos iguais. Torcemos com a mesma alegria, o mesmo entusiasmo, a mesma garra, a mesma fidelidade à camisa que escolhemos. A paixão das torcidas do América de Teófilo Otoni, do Ipatinga, do Caldense, do Democratas e de tantos outros é uma prova de que ainda não estamos perdidos.

Assistimos sim, via cabo, o campeonato espanhol, o italiano, o francês e sei lá mais qual. Assistimos sim os grandes times brasileiros disputando vagas no Brasileirão, na Libertadores. Mas o sangue ferve mesmo é quando entramos em campo junto com o time. É quando temos a chance de ir pra rua, de carregar bandeira, de gritar até perder a voz, de rir, de chorar, de zoar, de bater boca e voltar pra casa com a alma lavada. E isso só acontece, para todos nós torcedores deste Brasil a dentro, é quando chega o campeonato regional. Por isso, viva os campeonatos regionais! Quem dera tívessemos também uma imprensa regional, capaz de reconhecer o valor do nosso glorioso campeonato mineiro!

Lá vai Xico, estou voltando. Até quando der novamente.


Foto: Site lapisraro.com.br

domingo, novembro 14, 2010

Vida que segue


E a vida continua. Aung San Suu Kyl foi solta ontem, após mais de sete anos presa em casa. A companhia estatal de trens francesa SNCF desculpou-se pelo seu papel na deportação de judeus para campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra. Infecção hospitalar mata 11 bebês no Distrito Federal. Mais um sindicalista é morto a tiros em São Paulo. Começou a temporada das festas de formatura, com direito a uma esticada ao Mercado Central. José Alencar sofre um infarto, recupera e mantém o bom humor. É um santo! Tiririca prova que é alfabetizado. Decifra bem o beabá, mas será que está entendendo? Eu, confesso, muitas vezes tenho dificuldades para entender. O que está acontecendo com o Enem, por exemplo, quem explica? Não quero crer que seja incompetência do Ministério. Mas aí o que será?

E tome mais vida. O zagueiro da Inter de Milão, Marco Materazzi, deixa o estádio Giuseppe Meazza de ambulância durante o clássico contra o Milan. Ele foi atingido no rosto numa dividida de bola com Zlatan Ibrahimovic no segundo tempo da partida. Merapi, na Indonésia, entra em erupção mais uma vez. Trezentos e noventa mil pessoas já foram obrigadas a abandonar suas casas na região próxima do vulcão. Os mortos, até agora, já chegam a duzentas e quarenta pessoas. Uruguai e Argentina fecharam acordo para o controle da fábrica de celulose da UPM. O Partido Socialista da Grécia, de Giorgos Papandreou, venceu o segundo turno das eleições regionais. Cruzeiro vai à CBF protestar contra arbitragem. Não vai adiantar, mas espero que Perrella não deixe mesmo de ir.

É vida que segue, como diria Adilson. Sabrina Sato é a nova rainha de bateria da Vila Isabel. Estudo desvenda mistério de como gatos bebem leite sem se lambuzarem. Está confirmado: férias são importante para a saúde mental. Gamova derrota as meninas do vôlei brasileiro na final do Mundial. Jovens da classe C gastam 71% de seus ganhos com roupas e acessórios. Papa Bento 16 pede uma "reforma profunda" da economia mundial. Se fôssemos espertos como acreditamos que somos nem precisava pedir. E assim vamos caminhando, entre um cafezinho e outro.
Foto: minha

domingo, setembro 26, 2010

Caixinha de surpresa


Preferiria não ter visto, mas vi. Vi o Cruzeiro ser derrotado desnecessariamente pelo Santos. O Cruzeiro poderia ter jogado com mais vontade e garra, mas preferiu um jogo morno e disperso. Parecia outra equipe em campo. Cuca parecia outro técnico a orientar os jogadores. Mas ao mesmo tempo, parecia o mesmo Cruzeiro de sempre que, a qualquer momento, poderia reagir e ao menos empatar. Por isso torci até o último minuto, inutilmente. Mas tudo isso são coisas do futebol. Mesmo quando um jogo ou um campeonato, como o Brasileirão, começam a se tornar previsíveis, mesmo quando os resultados vão sendo forjados sutilmente pelos erros e desatenções da arbitragem, pela catimba dos adversários, pela alma vira-lata dos times fora do eixo, mesmo assim, o futebol é um jogo imprevisível. No campo, tudo pode acontecer.

O craque do time pode acordar de mau humor, o perna de pau acordar inspirado, a equipe desentrosada, por alguma razão inexplicável, pode entrar em sintonia e a equipe sempre afinada perder as conexões e correr perdida de um lado para o outro do campo até o apito final. E é disso que eu gosto no futebol: da caixinha de surpresa. Eu gosto dos gols finalizados na prorrogação, dos perebas que surpreendem com jogadas insuportavelmente belas, dos jogadores invisíveis que se materializam no lugar certo quando ninguém espera, das vitórias de virada e de todos os lances únicos, daqueles que não podem nunca ser programados, porque são inventados ali, naquele exato instante em que a bola cai no pé do jogador e ele olha pra frente e enxerga uma oportunidade qualquer.

É claro que, fora de campo, a vida reserva outros momentos caixinha de surpresa. As eleições, por exemplo. Por mais que as pesquisas de opinião, cada vez mais sofisticadas, ajudem a dar previsibilidade aos resultados, ainda assim é possível sermos surpreendidos pelas urnas. O segundo turno das eleições de 2006 foi um desses momentos. Lula e Alckmin caminhavam juntos em todas as enquetes e até o final do primeiro turno. No segundo, Lula disparou e deixou Alckmin para trás, contrariando a expectativa de boa parte dos analistas, que apostavam num resultado apertado.

Já as eleições proporcionais, estas sempre reservam surpresas, porque é quase impossível tentar antecipar seus resultados usando as ferramentas convencionais de pesquisas de opinião. Em Minas Gerais são 553 candidatos a deputado federal e 977 a deputado estadual e um eleitorado próximo de 15 milhões de pessoas, espalhadas por 853 municípios com as mais diferentes histórias. Uma bela caixinha de surpresa. E se isso não bastasse, o fato das eleições proporcionais serem coincidentes com as eleições majoritárias, que mobilizam mais as atenções dos eleitores, poucos são os que já escolheram seus candidatos para o Parlamento. Muitos só se decidem na beira da urna.

Neste ano, espero, mais uma vez, um momento caixinha de surpresa nas eleições. Torço para que seus resultados nos façam recuperar a crença de que a política ainda pode ser o espaço do encontro. O espaço do diálogo verdadeiro e sincero, para troca de ideias e construção coletiva de soluções e alternativas que garantam uma vida boa para todos. Sonhar não é defeito.

Inté
Foto: minha

sábado, setembro 18, 2010

Nua e crua

Brotos de bolas de flores

A primavera está chegando. Já não era sem tempo. Não aguentava mais a mesmice de tudo desde sempre. Vamos ver se agora florescem novas ideias. Não quero nada requentado, reprogramado, repaginado. Quero é o que ainda nem existe nem foi inventado. Quero o que eu nem sei o que é, mas ainda assim é o que eu quero. E na primavera eu posso. Ou penso que posso.

Estou enfarada da vida com photoshop. Dos sorrisos perfeitos; das medidas precisas; das vanguardas moldadas em qualis; dos improvisos cuidadosamente elaborados; das falas absolutamente previsíveis, exaustivamente ensaiadas para responder exatamente aquilo que quero ouvir.

Estou exausta. Cansada das soluções mágicas que não deixam escapar saídas, a não ser aquelas devidamente sinalizadas; das promessas vazias, das promessas improváveis, das promessas razoáveis, das promessas; dos deuses, dos heróis, dos bandidos, de todas as personagens que não conseguem se reinventar e no mais de tudo que finge mudar para continuar como está.

Mas na primavera eu posso. Posso querer um amarelo como nunca antes existiu. Posso querer um bando de maritacas falando pelos cotovelos coisas que ninguém nunca nem ouviu falar. Com palavras que nunca foram ditas. Posso querer pedras no caminho para tropeçar, casca de banana para escorregar. Na primavera eu posso. Posso querer sorvete de araça azul, igual aquele que vi um dia na capa de um disco do Caetano e nunca mais vi. Posso querer um sorriso banguela, uma gargalhada dissonante, fora de hora, fora de lugar. Um discurso desconexo, desarticulado, desafinado.

Posso. Posso querer uma terra nua e crua. Um papel sem pauta, um livro sem letras, uma música sem notas. Posso querer uma foto sem cor, uma imagem sem formas, um filme sem movimento. Acho que na primavera eu posso. Posso até mais, um dia sem horas, uma vida sem destino, um vento, um ciclone, um tufão, um tornado. Acho que posso.

Inté

domingo, maio 16, 2010

Quem está vivo sempre aparece

Vista da cidade, num final de tarde

Depois do chá de sumiço, tento recolher os farelos de pão e renovar a mesa para novas degustações. De lá pra cá, o mundo não mudou muito, mas a vida ficou diferente. O tempo ficou mais curto, tudo acontece muito rápido e quase nada é digerido. As coisas ficam pra trás, passam e pronto. E a gente segue em frente. Só isso que importa: seguir. Seguir sem volta, porque atrás já vem alguém e outro alguém e mais um e outro mais.

Os espaços, parece, também ficaram menores. Eu, por exemplo, não estou mais cabendo no meu quadrado. Parece que virei Alice e, de repente, cresci de uma forma tão descabida e exagerada que não existe mais lugar no mundo que me comporte. Eu, minhas circunstâncias e minhas memórias. De uma hora para outra, não cabemos mais dentro de casa. Tem um mês que a única coisa que faço é doar roupas, brinquedos, bugigangas e lembranças para quem ainda tem espaço vago ou necessidades carentes. Passo meus fins de semana rasgando papel e tentando me desfazer de livros que já li ou que nunca vou ler só para abrir vazios que possam nos acolher.

De tudo isso, o mais difícil tem sido me desapegar dos livros. Mesmo quando consigo exercitar o desapego, não é nada fácil desfazer-se de livros. Hoje os sebos escolhem muito. Não aceitam qualquer coisa só porque é um livro. Querem saber o título, o nome do autor e selecionam obra por obra, para não ficar com estoque parado. Já falei da dificuldade de um amigo para se livrar dos seis volumes de O Capital. Não conseguiu nem a pau que o sebo comprasse a sua relíquia.

Eu estou apenas começando. Já passei uma Barsa pra frente; a Britânica está prometida para a professora de inglês do meu filho; a coleção de Históra Geral de Will Durant, para o amigo de meu outro filho e assim por diante. Mas os livros mais difíceis de nos desfazermos deles são os livros técnicos. Apesar de serem verdadeiros tesouros, pois trazem conhecimentos especializados sobre temas muito específicos, ninguém quer e você não tem coragem de jogar no lixo. Perto desses, a coleção de O Capital será moleza. Mas seja qual for a dificuldade que encontrarei pela frente, vou enfrentá-la, pois terei de cortar pela metade o nosso acervo de livro. São eles ou nós.

Mas não é só a minha casa que ficou pequena, as ruas da minha cidade também estão mais estreitas. Estão. Em algum momento que não sei precisar qual foi, as ruas da minha cidade encolheram. Só pode ser isso. Antes das férias de janeiro, gastava em média de 15 a 20 minutos para percorrer qualquer um dos meus percursos diários. Hoje preciso de, no mínimo, 45 minutos e, em alguns casos, gasto até uma hora. E não é porque as distâncias espicharam, é porque as ruas estão mais estreitas e não comportam mais o volume de carros que circula pela cidade. Ou será que tem mais carros nas ruas?

Ou será que tem mais gente na cidade? Porque também não sobra mais mesa vazia nos bares, nem cadeiras no cinema. Os hospitais estão superlotados, as igrejas estão abarrotadas, os ônibus circulam com passageiros saindo pelas janelas. É fila pra comprar pão, para pagar uma conta no banco, para ganhar um brinde, para ser atendido no consultório. Hoje, até pra ler jornal tenho de entrar na fila. É fácil?

Por isso resolvi voltar para o mundo virtual. Aqui, apesar de todos os espaços estarem ocupados, sempre tem vaguinha para mais um. Aqui posso duplicar minhas palavras, triplicar, quadruplicar, que ninguém se importa. E ninguém se importa, porque cada um só lê o que lhe interessa, o que não interessa, control/delete nele. Eu mesma, quando acho que estou abusando, dou um control/delete e me livro de tudo que está sobrando no meu espaço em poucos segundos.
Aqui a vida parece mais fácil. Menos emocionante, mais fluida ainda que a vida real, mas sobra mais espaço para todos nós.

Inté.

(Foto: minha)

sábado, março 06, 2010

Meninas, eu vi!


Eu vi, da janela da minha casa, o mundo mudando. Vi as ruas de terra do meu bairro sendo calçadas e depois asfaltadas. Vi o rio, onde pescávamos piabinhas, ser canalizado e, sobre seu leito, surgir uma larga avenida. Eu vi, andando pelas ruas da cidade, os pés de mamona, que nasciam soberanos em lotes vagos, serem cortados e lá brotarem casas. Depois vi essas casas serem derrubadas para novas semeaduras. Vi o lote onde fazíamos festas juninas ser ocupado por um prédio de seis andares! Vi as casas mudarem de cor, de fachada, de dono. Vi os jardins serem cimentados para abrigar mais um carro. Vi pés de goiaba, de jabuticaba, de abacate, que faziam nossos quintais parecerem bem maiores do que de fato eram, serem cortados um a um para dar lugar a mais um puxadinho.

Puxa vida, já vi mudando muita coisa nesse mundo. Vi o armazém do seu Fausto fechar e, junto com ele, meia dúzia de outros para dar lugar a supermercados. Vi as cadernetas serem aposentadas e substituídas por cartões fidelidade. Vi os cinemas do meu bairro desaparecerem e, no seu lugar, multiplicarem igrejas evangélicas de diferentes facções. Vi os armarinhos às moscas, até fecharem as portas para não surgir nada em seu lugar. Ninguém mais compra botão, ziper, fitinhas, lantejoulas e linhas coloridas para levar para casa e, muito menos, agulhas e alfinetes.

Vi as ruas escuras serem iluminadas, os buracos, onde nem a pé chegávamos, com o trânsito engarrafado. Vi e vejo todos os dias, os prédios, onde funcionavam faculdades, abandonados, sendo depredados por quem nem tem onde morar. Já vi, mas não vejo mais, os doidos do meu bairro, os vizinhos que sentavam nas varandas para tomar a fresca, os meninos que jogavam rouba bandeira no meio da rua, as meninas que brincavam de pique-esconde e os cachorros amarelos que vagavam pela cidade.

Vi tudo isso, mas não reparava como o mundo estava mudando. Todo dia, toda hora. Achava que era eu. Agora que a terra está tremendo, arredando de um lado para o outro, descartando ilhas, fazendo surgir novos mares, lagoas, redesenhando seu relevo, reconfigurando seu clima, refazendo o contorno dos continentes, para se adaptar aos novos tempos, confesso, não estou preparada para tantas mudanças!

Inté.

quinta-feira, março 04, 2010

Well...

Norman Rockwell

Esse mundo está muito doido. Tudo bem, vou ser politicamente incorreta, mas é quase óbvio que todos seremos. A terra treme no Chile, destrói casas, abre valas de fora a fora no meio das ruas, soterra famílias inteiras, arrebenta encanações, derruba a rede elétrica, arrasa plantações e não deixa quase nada de pé. A terra ainda treme outras trinta e tantas vezes e espalha um auê pelo país. Aí, o que acontece? Hillary Clinton, consternada, aporta em Santiago levando na malinha uma ajuda para o povo chileno: 25 telefones satelitais! Vinte cinco celulares, para resumir!

Ela mesma ficou sem graça e justificou-se: era a única coisa que poderia vir dentro do avião. Que falta de imaginação, hem? Um cheque, por exemplo! Não poderia vir dentro do avião? Algumas notinhas de dólares, não poderia? Elas cabem até dentro de uma meia, não caberiam dentro de um avião? Sinceramente, sem comentários.

Foi um mico, mas a oferta de Hillary para o povo chileno serviu para alguma coisa. Foi a mostra mais bem acabada do mundo em que vivemos. Entre as nossas necessidades, que se tornaram básicas nos dias atuais, a mais necessária de todas é o celular, porque precisamos, não sei pra quê, mas precisamos estar ligados 24 horas por dia.

Aí eu até entendo Hillary. Sua intenção foi boa. Um dia sem celular é quase como um dia sem água ou sem oxigênio. Volta e meia me pego pensando como é que minha mãe conseguiu criar seis filhos sem celular. Os meus, eu acho, prefeririam não tê-los. Ou melhor, prefeririam que pais fossem proibidos de usar celulares. Mas, como nós, eles também precisam desesperadamente de celulares, para falar nada, mas precisam.

O dia que esqueço de carregar meu celular, fico de pés e mãos atados. E, engraçadamente, são os dias em que mais preciso do celular. Ou não. Mas são os dias que percebo com mais clareza como preciso deles, mesmo odiando tê-los dentro da minha bolsa. E, como nós, os chilenos devem sentir falta também de seus celulares, perdidos no meio de escombros. Talvez Hillary tenha acertado. A fome, uma hora passa, o frio vai embora, a tristeza com as perdas irreparáveis, acaba que nos conformamos, mas a necessidade de pertencermos a esse mundo nunca nos abandona.

Inté

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

O espetáculo tem de continuar

Estava escrito num muro qualquer do mundo (Foto: minha)

Hoje está o ó! Não tem jornal, não tem café na mesa, não tem pão, não tinha internet até poucos minutos atrás. Só resta faltar a brisa fresquinha que bate pela manhã, por pouco mais de 30 minutos, aliviando o calor da madrugada adentro e o que virá no resto do dia. A chuva parou São Paulo, a greve dos motoristas de ônibus está parando Belo Horizonte. Não me espanto com os problemas que estamos enfrentando para lidar com esse nosso dia a dia insano. Me espanta como, em dias normais, tudo isso funciona harmonicamente, fluindo como a água de um rio serpenteando o vale.

Ontem, estava parada num congestionamento e fiquei olhando o formigueiro de pessoas correndo de um lado para outro, entrando na padaria, comprando pão, que, milagrosamente, aparecia prontinho no cesto; comprando o leite que, magicamente, também surgia embalado na prateleira ou uma coca que, da mesma forma, como se fosse geração espontânea, saia engarrafada e geladinha de outro freezer. Fiquei olhando as luzes dos postes se acendendo como um efeito photoshop na paisagem da cidade.

Na pracinha, o zelador aproveitava o sumiço do sol para molhar as plantas que, até elas, andam amarelando com o calor insuportável desse fevereiro. E a água saia na mangueira como se sempre estivesse ali, bastando abrir a torneira. Todos os dias até o fim do mundo. E uma mulher entrando devagar na farmácia, provavelmente procurando alguma pílula que a faça dormir apesar do mormaço sufocante das noites desse verão. E ela entra e, com certeza, vai encontrar a sua pílula, já forjada e dourada, numa prateleira qualquer. Vai encontrá-la, porque também sempre esteve ali, só esperando a chegada de alguém para buscá-la.

Ao mesmo tempo, em qualquer canto da cidade, alguém vai ligar a televisão e as imagens vão aparecer na tela como se fossem sonhos que vagueiam perdidos na nossa mente e, de repente, se materializam em novelas, jornais, filmes e anúncios de qualquer besteira. No momento mesmo em que estava ali, engarrafada no trânsito, alguém em algum lugar, dava descarga no banheiro, alguém acendia o fogão, alguém ligava para outro alguém, alguém tirava dinheiro no caixa eletrônico, alguém procurava um médico no pronto socorro, alguém comprava uma revista na banca, alguém parava no sinal fechado e tudo funcionava, mal ou bem, mas funcionava, porque fazem parte desse mundo mágico em que vivemos onde tudo funciona como deveria funcionar sem que ninguém nos obrigue a levantar às quatro horas da manhã e nos ordene a por em marcha essa complexa engrenagem que faz a vida rolar, um pouco mais ou um pouco menos, mas rolar em qualquer biboca do mundo.

Tudo funciona, como se as cidades abrigassem batalhões e batalhões de anjos invísíveis, operários incansáveis dessa louca invenção dos homens, que são as cidades. Por isso, quando alguém decide, seja por qualquer razão que for, interromper esse fluxo contínuo do fazer-fazer, o que me espanta não é que tenham parado, mas porque só agora pararam!

Inté de repente, quando a vida voltar a fluir!

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Sete vidas

O melhor de não ter nada para fazer é poder ver o por do sol.
(Foto minha)


Onde é mesmo que nós estávamos? Ah, sim! Por aí. Outro dia mesmo, por exemplo, estava andando na areia e, enquanto isso, a terra tremia oitenta e tantas vezes no Haiti. Outra hora, estava lá, escondida debaixo de uma sombra, e, enquanto isso, a chuva despencava em São Paulo. Estava tomando uma coca gelada e, do outro lado, a anistia ampla, geral e irrestrita torrava na frigideira. Mais tarde, caçava nuvens no céu, e os Estados Unidos desistia da lua para concentrar seus investimentos apenas no transporte espacial comercial. Cochilava no sofá e ouvia, de longe, muito longe, a voz de Pedro Bial e a musiquinha do BBB. Definitivamente, enquanto andava por aí, não recebi nenhuma boa notícia, mas não me senti culpada por nada disso. É a roda da vida.

Além disso, estava fechada para balanço. 2009 não foi um ano, digamos assim, normal. Os dias galoparam, como sempre. Mas, em vez de correr atrás, que era o que andava fazendo nesses últimos tempos, entrei no clima do horóscopo chinês. No ano do Boi, preferi ficar ruminando no pasto. Resultado: tudo que estava para ser feito ou não foi feito ou ficou pela metade. Num caso ou no outro, não importa, fiquei devedora, mas não me senti culpada por nada disso. Não foi só eu que preferiu passar um ano pastando. Muita gente boa também gostou da ideia. Resultado: virei credora de outras tantas pessoas que, da mesma forma, deixaram coisas por fazer em 2009. Estamos quites.

Mas se essa mesma premissa prevalecer para 2010, acho que já estou atrasada. Segundo meu consultor para assuntos aleatórios, no horóscopo chinês, 2010 é o ano do Tigre, representa a coragem, a potência, a ousadia e a paixão. As previsões são péssimas e fantásticas. Aliás, essa é a principal característica do Tigre: nada é pequeno ou pouco. Tudo tem dimensões avassaladoras. Será um ano explosivo, para o bem e para o mal. Pelo que já vimos, até agora, o melhor é não duvidar, mas também não vou ficar impressionada com essas previsões.

O que imagino é um pouco diferente disso. Para mim, o tigre é um gato grande. É esperto, ágil, veloz, independente e sabe se defender muito bem. Até admito, às vezes é traiçoeiro e feroz, mas não é por acaso. Antes disso, como um gato grande, é dengoso, dócil e leal com aqueles com quem se afina . Mas, especialmente, o tigre, como os gatos, tem sete vidonas. O que isso significa? Significa que pode errar sete vezes mais do que nós, pois terá sete novas oportunidades para começar de novo.

No ano do Tigre, acho que poderemos ousar mais, fazendo tudo diferente do que já fizemos. Poderemos inventar outros jeitos de estar no mundo, inverter as listas de prioridades, experimentar novas cores, novos sabores, novos sons, novas paisagens. Poderemos refazer o que já fizemos, mudando tudo de lugar, inovando, recriando, concebendo novas formas, novas conexões, novos planos. Se der errado, não tem problema, faremos tudo de novo e de novo e de novo, sete vezes, se for necessário.

Por isso, acho que já estou atrasada. Faltam apenas duas semanitas para o carnaval e eu ainda nem comecei a pensar e, muito menos a traçar, meus planos para 2010. É melhor não perder mais tempo, vamos lá 2010! Que venha o Tigre! Vamos todos errar um pouco, quem sabe assim a gente acaba acertando, né?

Até de repente.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Um jeito de ser


Queria mesmo é falar de futebol. No mundo em que estamos vivendo, neste pleno século XXI que nos arrumaram, muito meio embromador, o futebol ainda é um dos poucos acontecimentos que conseguem mobilizar com paixão populações de todos os cantos do planeta. Se ainda é um esporte para poucas estrelas; um esporte que movimenta uma riqueza incalculável para vários paisitos desse mundão afora; que vive da política, como todos nós; na prática, continua sendo um esporte genuinamente democrático. Jogam brancos, negros e amarelos. Meninas, vocês sabiam que a China é o país com o maior número de jogadores de futebol do mundo! China, ah! a China, vai roubar de todos o posto de liderança de qualquer ranking mundial. Daqui a pouco, será o maior país de língua portuguesa do mundo!

Não vou voltar a esse assunto. Mesmo querendo muito falar de futebol, vou falar de mudança climática, porque hoje é o Blog Action Day, um mob-blog para demonstrar a força de mobilização das redes sociais no ambiente virtual. Ainda acho que futebol mobiliza mais, mas tudo bem, vou fazer a minha parte.

Já cansei de falar sobre o risco que estamos correndo. O planeta está ficando velho, ranzinza, temperamental, implicante, impertinente, birrento mesmo. Com o passar do tempo, não somos nem um pouco diferentes disso. É claro que tem as exceções. Eu mesma acho que melhoro dia a dia. Cada vez menos as coisas me irritam, me incomodam ou me chateiam. E se aparece alguma que me aborrece um pouco mais, faço como uma amiga, mando pra tonga da mironga do cabuletê.

Esse envelhecer, do qual ninguém escapa, nem o planeta, é, talvez, o maior responsável por essas mudanças que estamos assistindo. Pelos dilúvios, tsunamis, terremotos, secas, desertificações absurdas, vulcões, furacões e outros ões. Não tenho dúvida disso. É muita pretensão nossa achar que somos os autores dessa tragédia. Mas também não tiro nossa responsabilidade. Acho que o jeito, o mal jeito que escolhemos para estar no mundo acelera o nosso envelhecimento. Mudar esse jeito predador de ser pode conter um pouco esse movimento inexorável de vida e morte a que estamos todos submetidos nesse universo de deus e, quem sabe, nos dar a chance de descobrir a fórmula da vida eterna. Duvido, mas vá lá.

Não estou sendo pessimista, mas pragmática. Temos de encontrar um jeito de estar sustentável, num mundo que envelhece a nossa revelia, habitado por nós, que também estamos envelhecendo a nossa revelia. Um mundo que irá perder boa parte da sua fauna e flora, porque é assim que é desde o início de todos os tempos. Um mundo que terá de abrigar outras espécies da fauna e flora do mundo que virá. Um mundo com um jeito de funcionar que já está mais pra lá do que pra cá de tão caduco que ficou.

Talvez essa seja a única variável que podemos, de fato, alterar, com nossas intenções e ações. Encontrar um jeito diferente de fazer a roda da vida girar, menos big, menos plus, menos super, menos hiper, menos mais, poderá ser uma saída. Inventar um jeito mais simples de estar no mundo, possível de ser compartilhado com todo o planeta, sem exceções, poderá ser uma solução. É mais ou menos isso que dei conta de pensar.

Inté moçada.
Foto: minha

domingo, agosto 30, 2009

Um mundo de tralhas


Tem isso. Quando as coisas estão no seu lugar nem percebemos como elas se acumulam. Elas vão chegando, se espremendo, cavando espaço até encontrar uma vaga. Se instalam ali e pronto. Aquele pedaço de vazio vira o lugar delas. Só quando precisamos remover tudo de um cômodo para outro é que percebemos a tralha que juntamos na vida. Um mundo inteiramente dispensável, mas que insistimos em preservar acreditando que tem algum significado. Ter até tem, porque damos um a qualquer besteira que caia nas nossas mãos. Um pedaço de papel com um risco torto varando o espaço branco de um canto a outro vira um dragão de fogo invadindo a Terra-Média. O dragão nem é tão importante, mas foi meu menino que rabiscou. Nem tinha dois anos. E foi num dia em que estava chovendo e ele estava febril, com o nariz entupido, para variar, e não podia sair da cama, porque estava sem meias e muito cansado para encontrá-las perdidas debaixo da estante. Passou a manhã deitado, rabiscando papéis e inventando histórias. E eu deixei porque era melhor assim.

Mas os papéis são apenas uma parte das tralhas que juntamos. Tem ainda as roupas que não vestimos mais, porque não nos servem, porque crescemos, engordamos, porque saíram de moda, porque estão gastas ou por qualquer outra razão que nem nos lembramos mais. Mas juntamos um guarda roupa inteiro de pagãozinhos bordados, moletons de mickey, macacãozinhos de bichinhos, saias indianas, um blusão dupla face, twin set de todas as cores, três calças lee desbotadas e rasgadas na barra, um terno cinza com colete e tudo, uma roupa de anjo de alguém que nem sabemos quem, uma camisa listrada, uma fantasia de índio, uma de chaplin, quatro quimonos e meia dúzia de faixas de cores variadas e assim por diante. Tudo dobrado dentro de malas, sacolas, mochilas, tudo escondido nos maleiros. Só porque, em algum momento, conquistaram a glória de ter um significado.

Mas quando temos de tirar tudo isso e mais, muito mais, como uma máquina de retrato polaroid, uma olivetti portátil, uma espada de jedi, um quadro a óleo da Igrejinha do Ó, a coleção do Pasquim e assim por diante, não podemos deixar de ficar brutalmente pasmos com a nossa capacidade em atribuir significados quase eternos para coisas que pertencem, inquestionavelmente, ao mundo das utilidades passageiras. E vamos revirando caixas para esvaziar o cômodo. Aí encontramos a coleção de pedras, de tampinhas, de figurinhas das seleções do mundo inteiro, de dinossauros, de cobras, de bichos esquisitos, de chaveiros, de canetas, de clips recolhidos nas ruas, de papéis laminados que embrulhavam todos os sonhos de valsa que já devoramos desde a nossa adolescência, de papel de carta, de caleidoscópios, de recortes de jornais com notícias bizarras e um sem fim de coleções.

Mas aí tem outra coisa. Como nos desfazermos de tudo isso? Quem será o merecedor desse patrimônio tão valioso? Quem vai querer ganhar de presente uma colcha de crochet, trançada em linha de meia fina desfiada, pacientemente confeccionada por uma vó de mais de 90 anos? Duvido que encontre essa pessoa por aí. Ela não existe. E se existe alguém que queira, irá usá-la como se fosse uma colcha qualquer, sem nenhum significado, pois esse irá se perder para sempre da nossa memória, quando já não pudermos mais encontrar, escondida no fundo de alguma mala, a colcha de crochet de meia fina desfiada que uma dia a vó de quase 90 anos crochetou incansavelmente, para ajudar o tempo a passar. Não. Melhor guardá-la.

Melhor guardar tudo, devolver todas as coisas ao seu lugar. Guardar a colcha, as coleções, as roupas que um dia tiveram um significado muito especial, os papéis, os cadernos, os pedaços de fitas, as caixas de jogos, os relógios, as armações de óculos e toda essa tralha que juntamos na vida. Voltar com tudo para dentro das caixas e desocupar o cômodo o mais rápido possível, porque o pintor já está terminando o corredor e antes que a manhã termine, ele vai entrar no quarto e precisa de tudo liberado. Vai pintar as paredes de branco e a do fundo de verde kiwi para quebrar a monotonia. Vai ficar bárbaro!

Inté.
Foto: do Dani. Um mosquito de Évora.

sábado, junho 20, 2009

Viva a comunidade alternativa!


Blogs, twitters, wikis, celulares, mídias móveis, interativas, livres, amigáveis, superativas e o escambau. É nesse mundo, da sociedade da informação e da comunicação, que sobrevivemos. Para o bem e para o mal. Para o nosso bem ou para o nosso mal. Não faz muito sentido mesmo falar em reserva de mercado, em exigência de diploma para se exercer o ato mais banal da nossa existência que é a comunicação, a expressão das nossas angústias, constatações, aflições, indignações, espantos, admirações, alegrias e tristezas. Mais do que compartilhar uma visão de mundo, hoje necessitamos desesperadamente compartilhar um mundo de visões, múltiplas, diversas, plurais, para desse conjunto, dessa construção coletiva, extrair a nossa percepção da vida, clarear o nosso olhar sobre o mundo das coisas, das pessoas, dos movimentos e desse olhar estruturar o nosso jeito de estar por aqui. Só nosso ou de todos nós.

Não faz sentido reservar essa possibilidade, hoje ao alcance de cada um, apenas para alguns. Isso, evidentemente, não quer dizer que a função do jornalismo e a prática do jornalista estejam superadas. Pelo contrário, estão se tornando mais complexas. Não nos satisfaz mais ter as informações nas mãos uma vez por dia ou duas ou três. Já as temos multiplicadas pelo infinito no google e nas nossas redes virtuais. Queremos mais, muito mais. Queremos um jornalismo e um jornalista que nos ajudem a compreender os movimentos da vida e não só dos fatos, a perceber suas complexidades, suas conexões com o que já passou e com o que virá. Queremos um jornalismo de opinião, posicionado, argumentativo, investigativo, adulto e não a banalidade das manchetes e dos disse que disse. Queremos contrapor nossas múltiplas visões de mundo, a uma outra, refletida, amadurecida, também múltipla na sua origem e construída menos a partir das certezas, da objetividade dos fatos, mas das dúvidas, das inquietações, das subjetividades que esses fatos escondem. Um jornalismo de gente grande e não pueril como esse que aí está.

É evidente que, para isso, não basta revogar a exigência de um diploma. Para multiplicar as vozes nesse mundo midiático, é preciso liberá-las. É preciso, por exemplo, urgentemente, inadiavelmente, que haja o reconhecimento das mídias comunitárias, para que possamos conhecê-las. Queimar toneladas de equipamentos de rádio sob a alegação de que são ilegais não contribui para a liberdade de expressão. É preciso deixar as ondas comunitárias navegarem nesse espaço público, sempre dominado pelas grandes mídias. É preciso conectar os milhões de analfabetos tecnológicos. Mais. É preciso democratizar as redações, permitir a livre circulação de idéias, de pontos de vista diferentes, deixar aflorar as contradições do discurso pronto, estimular o debate interno, controlar as vaidades e revogar as arrogâncias. É preciso rever os currículos das escolas de jornalismo, aprofundar seus conteúdos, torná-los mais complexos, mais arrojados, para que os profissionais ali formados saiam maduros para a vida. É preciso responsabilizar os donos da mídia pelos seus atos de desinformação, de incomunicação, de restrição à liberdade de expressão.

Como vêem, esse não é um mundo de facilidades. Mais, muito mais do que revogar a exigência do diploma de jornalismo, é preciso revogar a pretensão de se ter no mundo um discurso único para explicar toda a nossa diversidade. Como jornalista, é mais ou menos isso que espero.

E espero mais. Que se revogue a exigência de diplomas e carteirinhas de outras categorias. Sinto limitada a minha cidadania, quando, para defender meus direitos, sou obrigada a constituir um advogado, com diploma de bacharel e carteirinha da OAB. Por que? O Direito, assim como o Jornalismo, é uma atividade intelectual, do ramo do conhecimento humano. Senso de justiça e bom senso não são monopólio dos juristas e advogados e o conhecimento da lei, é meu dever como cidadã. Jamais posso alegar, em minha defesa, o desconhecimento dela. Ousando, defenderia até o nosso direito de atuar como juízes não togados, sem a exigência de diplomas. Seria até mesmo uma solução para desencalhar os milhares e milhares de processos que estão mofando nas prateleiras dos tribunais.

E mais, que se repense também as exigências ou as restrições que se impõem, por exemplo, aos loucos dos estudantes de Medicina. Depois de concluírem um curso de seis, sete anos de estudo integral - manhã, tarde e noite - para obter as credenciais de especialistas, são ainda obrigados a disputar novo vestibular, com apenas uma ou duas vagas disponíveis por ano, e cumprir mais um ou dois anos de residência, para aí sim, estarem autorizados a usar um título. A dermatologia, por exemplo, abre uma vaga por ano. Isso não é reserva de mercado? Não é uma restrição grave ao desenvolvimento e expressão de novos talentos? E viva a homeopatia, a acupultura, do in, chi kong, chás, garrafadas, pajelanças, a confissão e a eucaristia. Não vivemos mesmo num mundo de facilidades. Por isso espero mais, muito mais. Espero muito de tudo isso.

Inté quando der, pois ando muito ocupada me especializando, especializando, especializando, para alguma coisa muito boa que só pode estar por vir, para justificar tanto esforço. E quando não, estou vivendo.

sábado, maio 23, 2009

Janelas abertas


Sempre prefiro janelas abertas. Se estão fechadas, quando chego em casa, abro todas elas. Prefiro ainda mais as janelas escancaradas, sugando a vida que corre lá fora e despejando-a no meio da casa. Latidos de cachorro misturados à voz rouca da cozinheira, desfiando suas histórias na beira do fogão; o ronco de um motor de carro abafando o grito dos meninos num quintal qualquer da vizinhança; e a luz entrando pela casa, mudando a cor esfumaçada do sofá, iluminando os cantos empoeirados do escritório; e o vento varrendo o corredor, espalhando mais outros sons que saem não sei de onde para se abrigarem dentro da minha casa. De um violão dedilhado que escapa de algum quarto do prédio dos fundos; de um rádio no talo anunciando mais uma desgraça no mundo; do assobio dos lixeiros subindo a rua para recolher nossas sobras desperdiçadas dentro de sacos azuis; de uma torneira aberta, deixando a água jorrar e escorrer ralo a fora; e de um choro, um consolo, um riso e o passou, passou, que alguém repete como se fosse um emplasto embebido em mel, doce, doce, encharcando de esperança a hora que vem depois de outra hora, depois de outra, depois de outra e assim um dia, outro dia e mais outro e um mês, um semestre, um ano, uma vida. Adoro janelas abertas, de par em par, bem escancaradas para deixar a vida entrar com força. Adoro.
Inté

domingo, maio 03, 2009

Que bom, que ruim!

Os pensamentos fragmentados em mil planos

Não sei se penso ou não penso. As ideias ainda estão embaralhadas e, certamente, não irão se ordenar numa escrita solitária, mas só num amplo debate que não tenho esperança que se dê tão cedo. É exagero admitir que gostei, mas é embaraçoso reconhecer que também não gostei. Concordamos todas que a Lei de Imprensa tinha um ranço de coisa velha. Seu texto refletia as preocupações do momento mesmo em que foi editada, preocupações que, em alguma dose, já foram superadas. Em outros trechos, trata de questões que já caducaram. Um exemplo, até simplório, é a multa que estabelece para quem vender ou distribuir jornais, periódicos, impressos cuja entrada no país tenha sido proibida. O dito terá de pagar 10 mil cruzeiros por exemplar apreendido. Nem sei mais quanto isso vale e nem sei se alguém sabe.

E qual o significado dessa restrição no mundo de hoje? Um mundo globalmente conectado, no qual as informações circulam em tempo real e estão acessíveis de qualquer parte do planeta? Meus filhos, por exemplo. Eles tem o hábito de ler jornais, mas não a versão em papel, que deixam para nós, viciados em café com notícia, todas as manhãs. Eles preferem a versão eletrônica, que acessam por meio dos portais da grande imprensa e sites do mundo inteiro, atualizados ao longo do dia. Azar o nosso, que temos de esperar 24 horas, se não quisermos nos dar ao trabalho de acompanhar on line todo o noticiário, como eles fazem. É claro que nada é tão simples assim. Ainda temos uma China, por exemplo, para desqualificar esse argumento. Mas não tenho dúvidas de que vivemos um outro momento e que esse tipo de restrição é de difícil compreensão para as novas gerações.

E seja como for, o fato é que se existe um consenso, é o de que essa lei não dava mais conta da nossa realidade, que ficou ainda muito maior, e precisava mesmo ser revogada. O que me incomoda, portanto, não é a sua revogação, mas a forma como foi tornada letra morta e, com igual incômodo, a meia verdade que essa notícia enseja. Amanhecemos sendo convencidos de que agora sim, agora sim, temos plena liberdade de imprensa. Como se não houvessem outras leis, hoje muito mais fortes, exercendo o controle da informação nos meios de comunicação. Que eu saiba, as leis de mercado, essas sim, hoje poderosas, continuam em pleno vigor. Ou não? Sei que não é tão simples assim detectar a influência do poder econômico no processo de edição de um jornal, mas seria ingenuidade acreditar que não exista. Da mesma forma, o poder político também abre suas asas sobre as informações que circulam na mídia. Se é legítimo ou não, é outra discussão, mas que existe uma guerra surda nas redações quando determinados assuntos entram em pauta, não tenham dúvida.

E agora? Revogada a lei, sem um amplo debate que antecedesse essa decisão e permitisse a formulação coletiva de um novo texto para apreciação do Parlamento, caímos num vácuo legal, onde tudo é permitido. Na prática, pode até não ser assim, mas, em tese, é. Ainda que uma Folha de S. Paulo anuncie uma nova reforma editorial, prometendo mundos e fundos, será que a autoregulamentação alcança toda a complexidade que esse assunto abrange? E agora? - de novo. Agora, dizem, caberá ao Parlamento discutir o texto de uma nova lei, que virá definir os novos parâmetros para a atividade jornalística. Mas qual Parlamento? Esse mesmo que aí está. Esse mesmo, que tem sido incansavelmente bombardeado por essa mesma mídia que aí está. Não vou entrar no mérito das críticas que viram manchete de jornais todos os dias, algumas muito justas, outras nem tanto. Algumas saídas de nem sei onde, outras fruto do trabalho investigativo de jornalistas responsáveis. Aqui não vem ao caso. O fato é que, depois desse bombardeio, teremos um Parlamento em forma para conduzir essa discussão? Não sei.

E, claro, isso é preocupante. Um Parlamento enfraquecido poderá enfrentar o poder de uma mídia que, agora, atua sem nenhum limite? E será que essa mídia que aí está, não tem também, lá no fundo, bem no fundo mesmo, uma pontinha de pretensão de vir a substituir esse Parlamento enfraquecido na representação dos interesses da sociedade e na fiscalização do Poder Público? E será que essa mídia é mais competente para representar a pluralidade de interesses que permeia a nossa sociedade, mais do que um Parlamento, ainda que com toda a precariedade que o nosso ainda sofre? Também não sei, mas, na dúvida, prefiro o Parlamento, que pode ser renovado a cada quatro anos.

Eu avisei: minhas ideias ainda estão embaralhadas e viraram uma grande salada, mas é mais ou menos por aí que vou continuar pensando. E tomara que esse debate, que não tenho esperança de tão cedo poder acompanhar, aconteça bem antes do que o meu pessimismo tem permitido.

Inté.
Foto: minha. De uma exposição no Palácio das Artes.


domingo, abril 19, 2009

Vamos passear, meu bem

Ainda continuo por aqui, embora muito mais por aí. É a vida. Mal me distraio com algum pensamento e lá vem ela me chamar. Como não sei dizer não, largo o que estou pensando de lado e, cegamente, sigo por onde ela me leva. E assim vou indo. Mas tem dia que a vida me esquece e aí consigo escapar dos afazeres demorando um pouco mais no meio do caminho. Ando mais devagar de propósito; topo os engarrafamentos sem aborrecimento; e ainda estico os trajetos, inventando saídas novas e mais longas.

Foi numa oportunidade dessas que me reencontrei com Adélia Prado. Estava tentando subir a Antônio Aleixo, mas a rua estava entupida de carros. Já ia ligar o rádio, para ajudar a passar o tempo, mas resolvi fazer diferente. Em vez de notícias, preferi ligar o som e seguir com Adélia recitando seus poemas. Fomos passeando pela cidade, cortando a Praça da Liberdade, descendo Cláudio Manoel, virando Pernambuco, Santa Rita Durão e tomando o caminho de volta para casa.

O que gosto em Adélia é do seu jeito caseiro de falar das coisas mais complicadas da vida. Sem nenhum requinte, sem nenhum excesso, ela torna essa nossa experiência cotidiana e banal na coisa mais importante do mundo. Redimensiona nossa rotina e a torna divina e sagrada. Escamar um peixe no meio da noite deixa de ser desaforo e torna-se um ritual de amor. Também gosto do jeito que ela trata as nossas doidices, sem nenhuma cerimônia. Mulher tem disso mesmo, divaga, viaja, desliga sem mais nem menos, estranha as coisas mais comuns do mundo e faz loucuras como se fossem absolutamente naturais. E temos mesmo de ser doidas ou santas, como ela diz, para darmos conta dessa nossa inconstância.

Mas, principalmente, preciso de algumas doses de Adélia Prado, de tempos em tempos, é para recuperar o sentido da vida. Ela é muito boa nisso. Nem falo da sua poesia nem da sua prosa. Falo dela mesma. Da sua sabedoria, da sua generosidade para lidar com a nossa pequenez diante das coisas que realmente valem a pena nesse mundão. Ela nos consola e nos conforta ao se igualar a todas nós, mesmo sendo tão especial. Por isso é muito bom passear com Adélia Prado. Experimentem.
Sobre o significado da arte/vida


Adélia recitando poesias



Duas doses, bem dosadas.

Inté outro dia.

domingo, março 29, 2009

O apagão

Por uma boa causa

É claro que ficamos no escuro. De oito e trinta da noite até nove e trinta do último sábado, ficamos no breu. Eu participei do apagão! Entrei no clima. Estou no clima faz tempo! Não é de hoje que dei um apagão no mundo. Me afastei. Desliguei todos os contatos para não me deixar contaminar pelo falatório desorientado dos analistas que tentam, sem sucesso, entender para onde essa crise está nos empurrando.

Que esse mundo, do jeito que vinha vindo, ia dar errado, todas nós já sabíamos. Que agora precisamos, com urgência, escapar do centro desse ciclone, também sabemos. Que, para isso, precisamos reiventar o nosso jeito de estar no mundo, mais uma vez concordamos. Só que é exatamente aí que mora o problema. Que jeito é esse que vamos inventar? Nem Anthony Giddens, o arquiteto da terceira via, nos ajudou muito com sua entrevista à Folha de São Paulo, neste domingo.

Que a crise financeira global está exigindo uma redifinição radical da sociedade em que vivemos, sabemos. Que esse mundo novo terá de inventar um modelo de desenvolvimento auto sustentável, mais igualitário, solidário e tolerante, também sabemos. Que será diferente de tudo o que já aprendemos até hoje, já imaginávamos. Mas tudo isso em nada nos ajuda a avançar. Fazem parte do mesmo falatório nosso de todos os dias.

O que urgimos nesse momento, sem demora mesmo, são das práticas que tornarão possível a retomada da nossa história na Terra. E para enxergá-las com nitidez, precisamos, sim, dar um apagão no mundo, desaprender a lógica que nos fez entendê-lo até aqui, buscar alcançar novos pontos de vista para reabrir os olhos de frente para novas paisagens, novas possibilidades. Aí sim, quem sabe, conseguiremos ver essas práticas inovadoras de que tanto precisamos.

Mas, por enquanto, ainda estamos na escuridão. Num apagão criativo, para não embarcarmos no pessimismo alheio.

Inté

Foto: minha, no últmo sábado, do escritório nas escuras.

quinta-feira, março 26, 2009

??????????


O que exatamente significa éon? Qual a medida exata de um éon? E antonomásia? De onde vem? Será que dói? Será que epizêuxis nos salvaria das grandes tragédias? Onde fica Ougadougou? E Eritréia? Quantas pessoas já conseguiram alcançar o topo do Monte Everest ou Monte Chomolangma ou Qomolangma, em bom tibetano? Quem vai enfrentar a Belamcanda chimemsis, essa herbácea rizomatoza que ameaça o meio ambiente tanto quanto nós? Como vamos derrotar as plantas exóticas invasoras? E quanto é um trilhão de dólares? Qual a medida exata em linha reta de um trilhão de notas de um dólar? Seria suficiente para dar a volta em torno da terra? Sobrariam notas para mais algumas voltas? Ou não?

Se minhas dúvidas fossem só essas, estaria feita. Mesmo se fossem outras, mas da mesma natureza, estaria com sorte. O google resolveria todos os meus problemas. Mas a minha ignorância é muito maior e engorda dúvidas muito mais indigestas. Enquanto a terra gira à nossa revelia, o mundo vira de pernas para o ar. Nem que estivesse com tempo para ler os jornais todas as manhãs, ouvir o noticiário das rádios e da televisão, desconfio que não conseguiria entender niente de nada. E não vou nem tentar provar, porque estou na correria de sempre e, pior, sem carro. Hoje fazem 20 dias que renovei minha carteira de habilitação e até hoje não a recebi em casa, como me prometeram. Dá para entender? Também não.

Se a ignorância é inevitável, vou desfrutá-la. Quando o céu ficar mais claro, o mar estiver para peixes novamente e o vento soprando a favor, vou me deitar numa rede, com todos os jornais do dia, e devorá-los letra por letra. Vou ouvir todos os noticiários, das rádios e da televisão, e ver se pego no tranco. Hoje não, porque já é amanhã e tenho de levantar muito mais cedo do que gostaria.

Inté.
Foto: Pesquei na internet. Da AFP/Ahmad Zamroni

quarta-feira, março 11, 2009

Persistir, é preciso

Quem quer ser milionário?
Persistência. É sobre isso que estou pensando. Mas não vou me arriscar a dar uma de entendida, porque não sou besta. Ainda mais que nem tive tempo de ler as críticas e, para ser sincera, foi melhor assim. Agora, a única certeza que arrisco é de que gosto de bons filmes. Gosto tanto quanto gosto de filmes ruins e, admito, alguns até execráveis. Mas gosto. Gosto, por exemplo, de todos os filmes ruins de Adam Sandler, desde 1996, indicado oito vezes como pior ator do ano. E daí? Se me fez rir, me ganhou. E tem mais, para o meu caçula, Adam Sandler é o cara. Não vou discordar. Gostei até de Idiocracy, de Michale Judge. Esbarrou no meu limite, mas gostei. Me deu medo, porque é muito verossímil. Caminhamos muito rapidamente para o cenário montado por Judge. Deus me livre!

É claro que, podendo escolher, prefiro os melhores. Se vou sair de casa, pegar esse trânsito infernal e entrar numa fila para comprar o ingresso e em outra para entrar na sala de cinema, prefiro os melhores. Filme ruim, vejo na televisão. E nesse final de semana sai de casa. Depois de passar 15 horas num curso de atualização para renovar minha carteira de motorista, achei que merecia ver o melhor dos melhores. Sem ler as críticas, como já disse, segui a indicação da academia e fui assistir ao filme de Danny Boyle: Quem quer ser milionário?. Tinha uma vaga idéia da história. Jamal, um menino pobre, que trabalhava servindo chá em uma companhia de telemarketing, por algum acaso desses da vida, cai num programa de auditório, concorrendo a um prêmio milionário, respondendo perguntas disparatadas sobre qualquer assunto.

Também ouvi dizer que o filme guardava alguma semelhança com Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Esse detalhe quase me fez desistir. Não porque não tenha gostado de Cidade de Deus. É fantástico. Mas já estava suficientemente encharcada de realidade, depois de passar 15 horas num cubículo mal ventilado, com 26 desconhecidos, de idade média de 55 anos, mal humorados e descrentes, esculhambando com o governo, que é sempre o culpado pelas nossas falhas, e nem podendo polemizar, para não perder o foco. Isso, num final de semana! Considerei minha missão mais do que cumprida e, portanto, estava liberada para buscar apenas distração. Mas venci a preguiça e o preconceito e segui a indicação da academia.

O filme de Boyle me pegou na contramão. Não me lembro mais de detalhes de Cidade de Deus, a não ser da cena de abertura, com os meninos correndo atrás de uma galinha. Quem quer ser milionário? também começa com uma corrida, da polícia atrás dos meninos. Pode ter sido até intencional, uma homenagem, mas tirando isso, nada me fez lembrar de Cidade de Deus. Também não li o livro Sua resposta vale um bilhão, de Vikas Swarup, que inspirou o filme. Assim, plenamente desinformada, não me dei nem ao trabalho de querer captar fielmente a mensagem que Boyle pretendia passar com a sua recriação. Deixei fluir.

Depois de um tempo, deixei a história de lado, passei de liso pelas cenas mais chocantes e me concentrei em Jamal. Segui-o como se o espionasse. Me pus no lugar do inspetor que o interrogava. Queria entender as razões de Jamal. Mas foi Salim quem me ajudou. Quando entrou na sala para entregar a chave do carro a Latika e ajudá-la a fugir, Salim resumiu tudo: Jamal não desisti. Nunca. E foi isso que ficou. O filme me fez pensar na persistência, que é quase igual teimosia, mas é bem diferente e muito mais difícil de praticar. Persistir é perseverar, mas sem embirrar, sem empacar. É correr atrás, fazer acontecer, não por intransigência, mas porque está escrito. Porque é nisso que se acredita.

Desconfio que hoje nos falta algumas doses a mais de persistência e, por isso, estamos atolados na teimosia de uns poucos. O mundo acabou, mas uns poucos insistem em remendá-lo, tentando mantê-lo como sempre esteve. Ficamos empacados na virada. Talvez nos falte uma Latika para fazer brilhar os nossos olhos, inspirar os vôos da nossa imaginação e nos fazer sonhar o outro mundo possível. Talvez nos falte persistência, porque esse outro mundo ainda não está escrito. Talvez, ou não. Vai saber.

Inté quando tiver tempo.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Viva a era ecozóide!

De volta ao começo

Meninas, agora que o mundo acabou era para estarmos bem eufóricas ou totalmente destruídas. Estranhamente, não estamos. Nem uma coisa nem outra. Mas temos de admitir, essa chegada meio intempestiva e inesperada do fim do mundo nos deixou perplexas. Ficamos no ar. Suspensas. Nós e nosotros. Nada se resolve. Tudo que é decidido num dia, na manhã do outro se desfaz e é preciso recomeçar do zero outra vez. As certezas desceram ralo abaixo e ninguém está seguro o suficiente para indicar caminho algum. Uma amiga disse que a culpa não é do fim do mundo, mas de Nossa Senhora Desatadora de Nós. Rezamos tanto para ela, que nossas preces foram atendidas. Todos os nós foram desfeitos ao mesmo tempo e tudo flui ininterruptamente sem se fixar em nada. A única solução é encontrarmos outra santa, ou santo que seja, que se disponha a atar pelo menos alguns nós, para nos dar um pouco de descanso.

Pode ser. Pode ser até que São Paulo seja uma boa opção, como ela sugeriu. Mas pode ser também que Nossa Senhora Desatadora de Nós não tenha nada a ver com isso. E desconfio que não. Apesar da controvérsia que existe sobre o tema, acho que estamos é vivendo as turbulências naturais da entrada de uma nova era. No último sábado, dia 14, exatamente às 7 horas e 45 minutos da manhã, com a Lua bem posicionada na Sétima Casa, ou seja, a 24 graus e 45 minutos de Libra, Júpiter e Marte finalmente se alinharam, anunciando, para alguns entendidos, a chegada da tão esperada Era de Aquário. É verdade que Carl Jung, por exemplo, não compartilha dessa celebração. Além de não estar mais aqui, pelos seus cálculos, a Era de Aquário só deverá ocorrer em 2600 d.c., mas isso não tem importância. Temos pressa e, ultimamente, o mundo tem andado muito mais rápido do que ele poderia prever. Portanto, é bem plausível que os novos cálculos estejam corretos.

Ou não? Para nós, que lemos jornais, assistimos TV, ouvimos rádio e navegamos na internet, tudo isso nos parece bastante contraditório, afinal, esse poderoso alinhamento de astros no céu anunciaria uma era de paz e amor e não de guerras, ódio e outras bizarrices mais, como as que temos visto. Pelo menos foi o que nos ensinaram, quando ainda éramos criancinhas. Tudo bem, nem tão crianças assim, mas bem jovens. Lembram daquela música de Hair? Não ousaria cantá-la, mas dizia com todas as letras: quando a Lua estiver na sétima casa, e Júpiter se alinhar com Marte, então, a paz irá guiar os planetas e o amor varrerá as estrelas. Propaganda enganosa? Meninas, não vamos nos precipitar. O que pode, aparentemente, ser contraditório, pode, sob um outro olhar, ser absolutamente necessário. Para construir o novo, às vezes, é preciso primeiro destruir o velho.

Não vamos nos dispersar nem perder a esperança. Agora que o mundo acabou, vamos começar de novo, quantas vezes for necessário, e ver se dessa vez fazemos do jeito certo. Se não certo, pelo menos de um jeito melhor do que aquele que fizemos até hoje. Ou fizeram, já que não somos meninas tão poderosas assim. Mas façamos a nossa parte. Quem sabe, quando os nós forem atados novamente, o mundo volta a funcionar. Ave São Paulo e viva a Era de Aquário!

Ai ai, acho que vou virar uma otimista pra variar.

Inté.
Foto: Minha. O mar de Natal.