domingo, setembro 16, 2007

Uma versão livre

Foto: Isso mesmo: a de sempre.

Tem um mundo pairando sobre minha cabeça. Mesmo de olhos fechados, posso pressenti-lo. Tem um vento vindo de algum lugar. Tem um burburinho qualquer, mas de longe, só de bem longe. Desconfio que seja o mundo mudando. Ou girando, girando. E bate um pé de vento mais perto e espalha meus pensamentos. Não consigo mais alcançá-los. Nem tenho vontade. É melhor assim. Mas sei que o mundo continua lá. Pairando sobre minha cabeça. Se não despencar sobre ela, pode ficar, não tem problema.

Bate outro vento e traz novos pensamentos. Nem chegam a ser, são apenas palavras soltas, poeira de idéias, que vai baixando devagar e se acumulando aqui e ali. Juntei só algumas palavras que ainda estavam suspensas no ar e deu nisso: a vida não acaba mais em pizza como antes. Já desconfiava. Hoje tudo acaba em jogo. Quem perde e quem ganha. É só o que importa. É a mesma lógica que movimenta o mercado. Quanto vou ganhar e quem vai perder.

Deixei a poeira baixar mais um pouco. Algumas palavras se atraem. Quem sabe delas surja algum pensamento iluminado que me obrigue a abrir os olhos novamente? Houve um tempo em que preferíamos as palavras na sua forma mais substantiva. Na sua concretude, se bastavam. Democracia. Liberdade. Justiça. Igualdade. Mas algumas palavras se atraem. Aderem umas nas outras como os vagões que se encaixam um a um até formar um trem. E tudo ficou relativo. A culpa é de Einstein.

A vida substantiva tornou-se obsoleta. Nossas carências objetivas estão out. A obviedade tornou-se uma intrusa no mundo da complexidade. É a subjetividade quem está no comando. A realidade dos fatos não nos comove mais. Queremos as versões. Todas elas, se possível. Cada uma com a cor que melhor lhe convier. E quanto maior for a incoerência entre elas, mais nos deliciamos, crentes que ali habita a complexidade. Mas, quanto mais inconsistente as versões, apenas mais fluida a realidade. E assim, ela escapa das nossas mãos por entre os dedos e nos abandona perdidos entre as coisas pequenas da nossa própria vida.

Mas, agora-agora, só temo que o vento sopre mais forte e quebre esse equilibro instável da vida e rompa o fino fio que ainda sustenta o mundo. Se isso acontecer, ele vai se esborrachar todo bem em cima de nossas cabeças. Deus nos poupe.


Uma semana bem tranqüilinha, sem movimentos bruscos, para não corrermos muito risco.
Inté.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Sem comentários

Vou publicar um post secreto. Talvez fique um pouco difícil para ler, mas isso não tem a menor importância. É só um pensamento. O que é um pensamento diante do mundo da vida? Mas, refletindo melhor, um post secreto pode revelar mais do que se tem a dizer, do que as manchas pretas que distraidamente desenhamos num papel em branco. O que não está dito com todas as letras diz tanto ou mais do que se quer dizer do que aquilo que é dito.

Da mesma forma, o que é o mundo da vida diante das interpretações que inventamos para ele? O que é o mundo da vida diante do mundo das idéias que construímos em torno e sobre ele? O que é o mundo dos fatos diante das palavras que utilizamos para descrevê-lo?

Mesmo as palavras. Estamos encharcados de todas elas. São infinitas. Mas cada uma delas, de acordo com nossas escolhas, traz um pouco do tudo que somos. Mesmo quando optamos pelo silêncio, pela não-palavra, ela diz tudo o que temos a dizer. É do não-dito, do não-representável, que tiramos a força da nossa interpretação.

E, para radicalizar de uma vez, mesmo nós, o que somos? As sombras que se movimentam na parede do fundo de uma caverna ou aqueles que, do lado de fora, sob a luz do sol, caminham sobre a ponte? Ou tudo isso junto? Também não somos qualquer coisa muito simples, embora, para aqueles que nos espreitam, somos apenas nós e nossas circunstâncias.

Pois é, talvez não seja tão simples assim fazer um post secreto. Acho mesmo que é uma missão do tipo impossível. Vou desistir, até porque já está na hora de descer para trabalhar: ainda não inventaram o funcionário secreto.

Só para concluir, os franceses, apesar de carecerem do humor elegante dos ingleses, eles têm sempre boas saídas filosóficas para os nossos desatinos. Essa semana, por exemplo, eles instituíram um novo dia Livre de.... Já temos o Dia Livre do Cigarro; o Dia Livre do Carro; o Dia Livre da Cerveja; o Dia Livre do Supermercado; o Dia Livre dos Dias Livres e assim por diante. Agora, na França, o dia 30 de novembro será o Dia Livre de Sarkosy! Nesse dia a mídia estará proibida de falar, noticiar, comentar ou fofocar qualquer coisa sobre o presidente francês.

Achei a idéia muito válida. Acho que deveríamos instituir também um dia livre de qualquer coisa para nós. Por exemplo, poderíamos instituir não um dia, mas um final de semana, um sábado e um domingo livre de Renan. Sinceramente, tudo que precisava ser dito foi plenamente expresso na última quarta-feira, pelo não-dito da reunião e dos votos secretos. Agora, merecíamos um descanso. Ou não?

Um fim de semana cheio de emoções secretas para todos!
Inté.

domingo, setembro 09, 2007

Mundo, mundo, vasto mundo!

Meninas, vocês viram? Osama pintou a barba. Sinceramente, hem? Será que caiu na tentação? Deixou-se levar pelo canto da sereia? Perdeu-se nos encantos publicitários da Wella? Será que sua voz já não é a mesma ou só seus cabelos mudaram? Ou foi uma decisão estratégica? Será que pensou que podia despistar de alguém assim? Se pensou, faltou assessoria. Melhor seria tê-la raspado de uma vez, não é não? Mas pintar suas longas barbas brancas foi um despropósito. Um equívoco. Ou não? Será que em vez de despistar, de querer parecer diferente do que é, Osama quis justamente o contrário, quis parecer novamente com o que já foi? Com o que não é mais?

Será que passou noites em claro, como nós, pensando no que fazer para derrotar a força implacável do tempo? Em como destruir esse inimigo invisível, que não escolhe alvo certo, mas deixa sua marca incontestável na fisionomia de todos nós: brancos, negros, amarelos, pobres, ricos, remediados, homens e mulheres? Será? Será que, como nós, olhou-se no espelho e sentiu falta da sua juventude? Baixou a nostalgia? Sentiu saudades do Osama que assombrou o mundo no dia 11 de setembro de 2001? Será? Será que sentiu cansaço, mas reconsiderou? Será que remexeu suas lembranças do passado e quis trazer de volta o justiceiro perdido? Será que terá forças para isso? Será que sua barba esconde seus poderes?

É justamente disso que tenho medo. 11 de setembro está de volta, pontualmente. Já esqueci muitas coisas, desde 2001: esqueci, por exemplo, que naquele ano o Fórum Social Mundial se reuniu pela primeira vez, em Porto Alegre. Esqueci que foi naquele ano fatídico que bush, aquele, rechaçou definitivamente o Protocolo de Kyoto, criado pelo seu antecessor, Bill Clinton. Esqueci que, nesse mesmo mês de março de 2001, o Talebã destruiu sem dó estátuas gigantescas de buda, desafiando esforços internacionais para salvar os monumentos. Já tinha perdido na memória também a morte de Mário Covas, as CPIs, a ascensão e queda de Jader Barbalho entre outras deslembranças. Mas não esqueci, e acho que de resto todo mundo, não esquecemos mais o 11 de setembro.

Pode ser que seja pela força das imagens que Osama e sua turma conseguiram produzir naquele dia. Pode ser que seja pelo bombardeio de imagens a que fomos e ainda somos submetidos, incansavelmente, por uma mídia que idolatra todo e qualquer espetáculo de megaviolência. Pode ser. Mas de lá pra cá o mundo ficou mais desconfiado. Agora nos sentimos mais inseguros, mais temerosos, mais vulneráveis. Mesmo nós, que a princípio não tínhamos nada com isso, agora, num mundo globalizado, passamos também a temer o fantasma do terrorismo internacional. Pior, tememos os terroristas estrangeiros, os ladrões de rua, os assaltantes a mão armada, os bandidos de gravata, nossos vizinhos e tememos até a nossa própria sombra, se bobearmos. O fato mesmo é que ficamos todos mais neuróticos do que já éramos.

E se já estávamos nos esquecendo disso, 11 de setembro está de volta para nos lembrar de novo. E agora fico preocupada, porque além do bombardeio da mídia e das lembranças que vão ficar remoendo na minha cabeça a semana inteira, este 11 de setembro vai coincidir exatamente com o último eclipse do ano de 2007. No início da manhã de terça-feira, a partir das 8h45, se não chover, poderemos acompanhar passo a passo um eclipse parcial do sol. Se quiserem saber mais detalhes sobre esse fenômeno, entrem aqui, e rolem a tela até o final. Eu preferiria saber outra coisa, mas diferente de nossos antepassados, já não temos mais o dom de compreender a voz da natureza. Não sabemos mais decodificar os sinais que ela emite. O que poderia significar essa coincidência de datas? Um sinal de alerta ou de solidariedade? Uma ameaça ou um socorro? Ou será apenas isso mesmo que é, uma coincidência de datas?

Pra vocês, uma semana a média luz! Na vitrola velha, um long-play tocando um fado qualquer. Um vinho, um cigarrinho (só um!) e o mundo. Bem, o mundo, pensando bem, é melhor deixá-lo lá fora.

Até de repente.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Olhos nos olhos

Foto: adivinhem?

Cuidado, a cidade nos observa. Está de olhos abertos, arregalados, acompanhando de perto nossa estranha movimentação. Enquanto nos arrastamos lentamente, dentro de nossos possantes mastodontes, ou corremos desavisados pelos labirintos congestionados de suas entranhas, ela nos espreita pacientemente. Mas como um balão de gás, que vai inflando, inflando, inflando até muito além do seu limite e acaba estourando, a tolerância cordial da nossa cidade pode também se esgotar. De uma hora para outra, a fina teia que nos mantém mais ou menos unidos, poderá se romper, nos lançando no vácuo da inexistência social ou nos prensando dentro de pequenos bolsões de sobrevivência precária e marginal. Como se já não estivéssemos.

Cruzo a cidade todos os dias, nos mesmos e nos mais diferentes horários. Atravesso-a por caminhos variados e também pelos rotineiros, que me levam sempre aos mesmos lugares. E vejo de tudo um pouco. Mas das suas misérias cotidianas, muitos já se ocupam. Sobra para mim falar do luxo rabugento da nossa imbecilizada classe motorizada, eu inclusive. O traçado de Belo Horizonte foi idealizado para o trânsito de carroças. São ruas estreitas, o suficiente apenas para alguém seguir e outro voltar. Agora demos de fazer caber dentro delas quatro fileiras de carros, se movimentando numa mesma direção, e, ainda assim, não tem sido suficiente para fazer o trânsito fluir. Pelo contrário.

Fecham ruas, mudam a mão de direção, desviam os carros para um lado, para o outro, mas no final acabamos todos engarrafados na próxima esquina. É assim que tem sido. Trajetos que percorria facilmente em vinte minutos, hoje não consigo, nem com muita reza, fechá-lo em menos de cansativos 40 minutos. Me arrasto desesperadamente pelas ruas da cidade, de olho no relógio do painel do carro, piscando a cada segundo. Eu e todo mundo. Lado a lado, mas isolados dentro de nossas trincheiras. Lado a lado, como numa procissão, mas sem nenhuma fé a nos unir.

E não há nem esperança de melhora. Pelo contrário. Enquanto aguardava uma oportunidade para seguir em frente, ouvi no CBN Brasil que a indústria automobilística brasileira está vendendo carros feito bananas. Teve um crescimento recorde no último mês de agosto, de mais de 30% em relação a igual período do ano anterior. Isso significou mais quase 400 mil veículos rodando por aí. As cidades, coitadas, tentam se adaptar. Inventam soluções: rodízio, áreas interditadas ao trânsito de veículos particulares, viadutos, mão invertida e outras panacéias. Tudo em vão.

As cidades se tornaram depósitos de lixo para problemas gerados globalmente, como diz Zygmunt Bauman, no seu livro Amor Líquido - Sobre a fragilidade dos laços humanos. Tanto aqui como no resto do mundo, as cidades deixaram de ser espaços comunitários, de convivência social, para se tornarem meros abrigos, mais ou menos seguros, para um bando de estranhos, que sobrevivem na incomunicabilidade de suas torres, protegidos por câmaras ocultas, alarmes sonoros, muros e cercas elétricas. Fortalezas indevassáveis, monumentos mudos espalhados pelas cidades.

Tanto aqui como no resto do mundo, precisamos cada vez mais dos nossos veículos particulares para transitarmos de uma torre a outra, de uma forma mais ou menos segura. Nossos carros são túneis envidraçados que se movem cortando a cidade de ponta a ponta. Dentro deles estamos protegidos dos milhões de outros estranhos que se vêem obrigados a fazer o mesmo trajeto, seja em carros-túneis como os nossos, seja dependurados em portas de ônibus, amontoados num vagão de um metrô ou de um trem qualquer. Quem primeiro vai abrir mão do seu possante, para dar bom dia ao estranho que viaja ao seu lado? E o balão vai inflando, inflando, inflando...

Bauman cita Manuel Castells para lembrar o paradoxo em que nos metemos: para resolvermos nossos problemas cotidianos, buscamos políticas cada vez mais locais num mundo estruturado por processos cada vez mais globais. Mas a política local - e em particular a política urbana - tornou-se desesperadamente sobrecarregada, como diz Bauman, e impotente para resolver nossos problemas, já que estes têm raízes fincadas na ordem global. Indefesas diante do furacão global, as pessoas se agarram a si mesmas, como diz Castells, e ao fazerem isso, aprofundam ainda mais a gravidade dos problemas urbanos. E o balão vai inflando, inflando, inflando...

Por isso, atenção, a cidade está de olho na nossa estranha movimentação. Quem vai primeiro abrir mão do seu possante para se sentar ao lado deste ilustre anônimo passageiro?

Uma finalzinho de semana antecipado no mais doce conforto de nossas fortalezas e longe dos arrastados e enfadonhos engarrafamentos.

Inté.

domingo, setembro 02, 2007

Fortes emoções

Certos domingos são como lagos no meio de um bosque. Lagos de águas claras e calmas, que enchem nossos olhos de nada e silêncio. E ficamos ali, só olhando, sem pensar nem reagir. Às vezes, distraidamente, alguém lança uma pedrinha no meio do lago e formam-se pequenas ondas circulares naquele ponto. Durante longos minutos essas ondas se alastram por toda a superfície do lago. Mas só isso. E passa. As águas voltam à sua condição original e tudo silencia novamente. Nesses domingos, não dou de pensar, porque não é preciso. Deixo tudo por conta das emoções.


Um presente
A apresentação do Grupo Líbero, nos jardins do Museu Abílio Barreto. Música sem fronteira: um violoncelo, um violino, um piano e dois cantores líricos. Um sol, uma sombra, um sabiá cantando e o som se espalhando pelo ar que respiramos.


Fotos: todas minhas

Uma taça de champagne, um brinde e Sempre Líbera, uma ária de La Traviata, de Verdi. A voz de Eliseth Gomes subia aos céus.




Um sopro do vento e os dedos mágicos de Maria Lígia Becker. Três temas de Gershwin.



Fortes emoções. Um jeito de olhar para o público que percebe a alma de cada um. Uma voz que se solta no ar e encontra seu caminho e se aconchega dentro do coração de todos. Os corpos dançam na imaginação. Por una cabeza.

Um desconforto
Governo pretende alagar 100 mil hectares de terras em Minas Gerais. Não sou do contra. A transposição de rios é uma prática milenar. Mas até agora não encontrei ninguém que soubesse me explicar exatamente como será essa obra, qual seu impacto no meio ambiente e quais benefícios reais ela trará para as populações no seu entorno. Falta debate e transparência.

Uma ignorância
Sobre tudo que rola no mundo agora.

Uma perplexidade
A pesquisa sobre a cabeça dos brasileiros. Um amigo me disse que somos seres miméticos. Tendemos sempre a copiar os outros. E copiamos sempre de quem nos parece melhor do que nós mesmos. Se é assim e se nossa elite é tão boa, porque então haveríamos de ter um povo pior do que ela?

Uma alegria
Café com biscoito de queijo quentinho. E lá fora o vento espalhando folhas de árvores no chão.




Uma semana
Repleta de boas novas. Com fortes emoções. Vez ou outra, um lago de águas claras e calmas, no meio do turbilhão da floresta, porque a vida, como diz Chacal, é curta demais para ser pequena.
Inté

sábado, agosto 25, 2007

Quando eu crescer

Já decidi. Quando crescer, vou morar em São Paulo, o país menos violento do Brasil. Desconfio que não seja, mas que o Heródoto Barbeiro e o coronel José Vicente tentaram nos convencer disso outro dia, acho que tentaram. O coronel José Vicente é consultor em segurança pública e ex-secretário de Segurança de São Paulo, como Heródoto bem frisou, e conhece esse assunto até de trás pra frente. Não sei se conseguiram convencer todo mundo, mas estatisticamente nos provaram isso. Já é alguma coisa. Por isso, quando crescer vou morar em São Paulo.

O coronel José Vicente demonstrou que o número de homicídios por cada grupo de 100 mil pessoas em São Paulo é o menor do Brasil. Fica em torno de 10, próximo dos 6 ou qualquer coisa assim de Nova Iorque e bem abaixo dos 20 do Rio de Janeiro e quase 32 do Brasil. Não estou bem certa dos números, porque essa entrevista já foi há dias, só que estive viajando e não pude passar por aqui. Aí a gente esquece, não tem jeito. Mas a ordem de grandeza é essa mesma.

Como estava insegura com os números, resolvi pesquisar na internet para ver se encontrava alguma prova dessa tese e, de fato, encontrei um estudo do mesmo coronel José Vicente, sobre a violência no Rio de Janeiro, no qual dedica um capítulo só para São Paulo - O exemplo paulista - onde reafirma tudo que disse no ar. São Paulo, segundo o estudo, está se tornando referência internacional de sucesso na redução da violência pela queda significativa dos homicídios em quase todas as suas cidades. Segundo o coronel, isso não é natural num país violento como o Brasil e nem seria de se esperar numa cidade gigantesca como São Paulo.

Mas foi isso o que os números disseram. Na capital federal de São Paulo, onde foram registrados 2.864 homicídios dolosos em 1986, o total registrado 20 anos depois, em 2006, foi de 2.056, com um população acrescida de dois milhões de habitantes. Nuba! O índice de 31,5 mortos por cem mil habitantes em 1986 caiu para 19,6. No Estado esse coeficiente é menor ainda, de 15,2. Os mesmos indicadores aplicados no Rio de Janeiro são em torno de 150% maiores. Os números são diferentes do que ouvi no rádio, mas dão a mesma idéia.

Acho que em Minas Gerais estamos numa situação melhor, mas, como diz o meu consultor para assuntos aleatórios, proporcionalmente falando, São Paulo deve estar, de fato, numa condição mais favorável. Se considerarmos o tamanho da população de um Estado e outro e o número de registros violentos, São Paulo pode tranquilamente apresentar um desempenho melhor. É o milagre da estatística. Até me esqueci de todos aqueles episódios, no centro da capital federal de São Paulo, envolvendo polícia, bandidos e pacatos cidadãos. Esqueci do noticiário recente e das manchetes que li na internet, antes de começar a redigir esse texto.

Esqueci de tudo mesmo e por isso tive essa idéia: quando crescer, vou morar em São Paulo. Mas não vou para a capital federal, porque lá tem muito congestionamento de trânsito e isso me mata aos poucos. Vou para o interior. Para Bauru, por exemplo. Estive lá essa última semana e achei a cidade muito moderna, com ares de cidade grande. Bem mais plana que as cidades montanhosas de Minas. Me pareceu também uma cidade bem rica. Mas isso não muda sua condição de cidade do interior, só que sem os defeitos de uma metrópole. Tem largas avenidas, prédios de bom tamanho e um povo educado e acolhedor. Não hospitaleiro, como os mineiros do nosso interior, mas cordiais, sem dúvida.

Olhem se não estou dizendo a verdade:

Fotos: todas minhas.
Essá é a avenida Nações Unidas. Acho que é a principal da cidade.

E Bauru é também uma referência internacional. É lá que funciona o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo, mais conhecido como Centrinho. O hospital é referência na América Latina para o tratamento de crianças que nascem, por exemplo, com fenda lábio palatal. Não saberia listar todos os outros tipos de atendimento que são feitos no Centrinho, mas o número de pacientes matriculados no hospital nos últimos 40 anos já chega a mais de 65 mil. Segundo me informaram, são realizadas no Centrinho mais de 750 cirurgias por mês, boa parte delas de fechamento de fenda lábio palatal ou plásticas posteriores demandadas pelos mesmos pacientes. Não é pouca coisa, se pensarmos que atuam numa área de especialidade bem definida.

Um dos prédios do Centrinho. O mais fotogênico

O teto de um dos corredores do Centrinho.
O mais futurístico de todos.

E tem mais uma coisa que Bauru tem e nenhuma outra cidade do Brasil tem: o legítimo sanduíche bauru! É quase um pecado mortal ir até lá e não provar o verdadeiro bauru do Skinão. É engraçado, porque o sanduíche não é, vamos dizer assim, um fruto da terra. Foi inventado em 1934, em São Paulo. Mas foi um estudante de Direito bauruense, Casemiro Pinto Neto, que tinha o apelido de Bauru, que juntou os ingredientes e batizou a mistura de bauru. Um dia passou a receita para o cozinheiro do Ponto Chic, um restaurante de São Paulo, e o sanduíche fez tanto sucesso que entrou imediatamente para o cardápio do restaurante.

A partir daí surgiram várias versões do bauru, mas a verdadeira receita é bem simples: pão francês, bem fresquinho e crocante, sem miolo, rodelas de tomate, fatias de pepino em conserva, rosbife e queijo derretido em banho-maria. Já testei a receita em casa e deu certinho. Mas tive de perguntar tudo, porque alguns ingredientes deixam dúvidas. Rosbife, por exemplo. Conheço o rosbife de contra-filet, frito na frigideira, bem passado por fora e sangrando por dentro. Mas o rosbife do bauru é de lagarto e não sangra. O queijo também não é qualquer um. No susto, usaria queijo de Minas, que deve ficar bom também, mas o certo é a mussarela. Detalhe importante: tem de ser mussarela de qualidade, caso contrário não dá liga. Agora, o segredo mesmo é derreter o queijo em banho-maria. Mas, crianças, não tentem fazer isso em casa sozinhas, porque é muito perigoso.


O difícil aqui é arrumar mesa. Mas vale a espera.

Os mestres da cozinha, preparando o nosso verdadeiro bauru.


E o bauru chegou!
Não é muito fotogênico, falta um pouco de verde, mas é delicioso!

Bauru, com certeza, deve ter muitas outras qualidades, além dessas que citei. Fiquei sabendo, por exemplo, que lá tem uma fábrica da Tilibra. Como adoro cadernos, pensei até de encontrar uma loja com séries exclusivas da Tilibra, mas isso não vi por lá. O que vi e nunca vou me esquecer é um laranjal fantástico, no caminho do aeroporto. Quando passamos por ele, o carro ficou todo perfumado. Aquele cheirinho de flor de laranjeira durou todo o resto do trajeto. Foi uma experiência inesquecível!

O laranjal fica do outro lado da estrada, mas em frente a esse ipê florido.

Uma parede do aeroporto, azul da cor do céu de Bauru.

Por isso, quando crescer vou morar em São Paulo, mas não na capital federal. Vou para o interior, talvez Bauru. Quem sabe? Mas só quando eu crescer!

Um fim de semana perfumado para todos, com um lanchinho especial no fim do dia. Se quiserem experimentar, tentem o legítimo bauru. Vale a pena.

Inté de novo.

domingo, agosto 19, 2007

A rainha do lar

Meninas, desistam. Em menos de duas gerações, fizemos uma revolução nas nossas vidas, mas no mundo, nada mudou. A terra continua girando em torno do sol; o boi no pasto, ruminando o capim; o galo cocoricando no galinheiro; e o cachorro latindo no quintal. Isso para não falarmos do leite entornando no fogão, quando nos viramos para pegar a leiteira, que sempre esquecemos do outro lado da pia. Tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Não vou nem comentar a pesquisa do IBGE, divulgada essa semana, sobre a quantas anda a divisão do trabalho doméstico nos lares brasileiros. É discorrer sobre o óbvio. Mas uma coisa me deixou muito intrigada e outra revoltada. Mesmo trabalhando fora, cuidando da casa, da família e reservando oito horas de sono por dia, nós ainda dispomos, segundo o cálculo dos pesquisadores, de quatro horas livres, diariamente, só para cuidarmos de nós mesmas.

Ouvi esse dado no noticiário do CBN Brasil. Achei exagerado. Mas a repórter ainda se deu ao trabalho de explicar: são quatro horas por dia para cuidarmos da nossa higiene pessoal, para lermos um livro, um jornal, para ouvirmos música, cantarmos, dançarmos e essas coisas. Não disse? Como não podemos deixar de tomar banho, ir ao banheiro, escolher uma roupa para irmos trabalhar, pentear o cabelo e assim por diante, dessas quatro horas, descontaria, sem nenhuma cerimônia, pelo menos uma hora e meia. Ou seja, na prática, temos duas horas e meia livres de tudo.

Mas não é com isso que fiquei intrigada. De noite, quando cheguei em casa, fui conferir a notícia e os dados para ter certeza dos meus direitos. Duas horas e meia não são lá essas coisas, mas já é um tempinho bom para nos dedicarmos ao nobre ofício de fazer nada. Só que, aí sim, a surpresa! Não encontrei mais essa informação em lugar nenhum, nem no site do IBGE! Está certo que não baixei o arquivo da pesquisa, não ia gastar as minhas preciosas duas horas e meia fuçando o site do IBGE, atrás de planilhas de dados, né? Fui no texto publicado na página principal. E lá não está.

Vocês estão pensando o que eu estou pensando? Eu já estou é imaginando o complô dos pesquisadores. Eles ali, em volta da mesa, fazendo conta, refazendo, rodando planilha uma, duas, três vezes até as colunas ficarem certinhas e ali, naquele jogo pesado, doidinhos por uma latinha de coca-cola bem gelada e um hambúrguer chiando de tão quentinho, mas nada. Eles ali, fazendo conta e pensando na mulherzinha deles bem tranqüila, chegando em casa do trabalho, tirando o salto 5,5, jogando a bolsa no sofá e se esticando preguiçosamente na poltrona verde da sala, zen de tudo.

Claro que essa imagem não surgiria impunemente! Com um click, deletaram a informação do relatório. Quatro horas é um exagero! - concordaram todos. E em ato contínuo, um deles já pegou o celular, ligou para mulher e, com aquela vozinha de bichinho carente, foi convencendo a outra a passar no Eddie e levar quatro hamburguers e coquinha gelada para todos. E ela vai, não tenham dúvida, que vamos. Assim, lá se foram as duas horas e meia! Deve ter sido isso o que aconteceu.

E a revolta veio no dia seguinte. Abri a Folha de São Paulo e a pesquisa estava lá. As quatro horas nada! Sumiram misteriosamente. Acho que, para compensar, incluíram um quadro com dados de um outro estudo, de duas economistas da UFRJ, sobre os fatores que têm maior impacto na inserção profissional da mulher. Marido e filhos, segundo as pesquisadoras, são problemas. Não sei o que elas quiseram dizer com isso, mas, enfim, dão trabalho mesmo, só que as alegrias compensam.

Depois, citaram várias estatísticas sobre vários outros aspectos. Eu já estava me achando, né? Afinal, a luta não foi em vão. Estamos conseguindo nos manter no mercado de trabalho, mesmo com salários mais aviltados; estamos conseguindo tocar os afazeres domésticos, mesmo deixando o leite entornar quase todas as manhãs; estamos cuidando bem da família, mesmo que às vezes reclamem um pouco do nosso humor; e ainda arrumamos duas horas e meia para lermos, estudarmos, nos informarmos e assim por diante.

Mas aí veio a grande revelação! Vocês acham, meninas, que chegamos onde estamos por conta apenas do nosso esforço, do nosso empenho, das nossas múltiplas habilidades, da nossa inquestionável competência? Acham mesmo, meninas? Que ingenuidade a nossa! Como fomos ser tão vaidosas assim de acreditarmos nesse conto da carochinha? Nadica de nada disso, meninas! Segundo as pesquisadoras da UFRJ, o item de maior impacto no nosso bom desempenho profissional, aquele a quem ficamos devendo uma, pasmem!, é a máquina de lavar! Isso mesmo. A fantástica, a fabulosa, a insubstituível máquina de lavar!






Meninas, lamento, mas esse é um dado de pesquisa, é o resultado de um trabalho científico, deve estar corretíssimo. Vamos assumir a derrota, perdemos a nossa coroa e o manto de rainhas do lar e perdemos vergonhosamente para um amontoado de plásticos e engrenagens, fazer o quê? Agora, tem uma coisa. Quero ver eles ligarem para uma brastemp e pedir a ela para levar a coquinha e o hambúrguer lá no escritório, porque eles estão mortos de trabalhar e varados de fome! Quero ver!

Um domingão com 16 horas de sossego, além das oito de sono, para todas vocês. Se alguém tentar tirá-las do sossego, sugira docemente que procure a brastemp mais próxima!

Até de repente, mas não tão cedo!

sábado, agosto 11, 2007

Não creio em bush, mas que ele existe, existe!

Hora de bagunçar a cena. De por as informações em desordem. De espalhar os fatos sobre um tapete verde e depois sacudi-los na janela do mundo. O feng shui nos aconselha a não guardar notícia velha, especialmente as ruins, porque provocam reumatismo. Melhor soltá-las ao vento. Deixá-las flutuar sobre a cidade até que peguem uma corrente. Deixá-las subir até o topo de uma montanha para depois escorregar até o mar e por lá ficar. Bem fundo, no fundo mais fundo das águas do oceano.

Vi o bush, aquele que nunca assinou o tratado de Kioto. Agora quer patrocinar um acordão para vender tecnologia limpa aos países emergentes. Negócios, apenas negócios. Queria que alguém me respondesse qual o impacto da guerra no aquecimento global. Qual o impacto da explosão de um carro bomba, no centro de Bagdá, sobre a qualidade do ar. E de dez? E de cem? E de mil? Quantas bombas serão necessárias para levantar uma nuvem de poeira, contaminada por milhões de partículas envenenadas? Quantas árvores bush terá que plantar para compensar os estragos que está fazendo no Iraque? Mil? Cem mil? Uma floresta amazônica? bush não toma conhecimento disso, está ocupado agora em acalmar os investidores. Foi à TV para dizer ao mundo que está no comando, que podemos dormir em paz.

Quem leva bush a sério? Pelo visto, nem os mercados. Continuaram rolando ladeira abaixo. William Gann, o maior especulador da Bolsa de Nova Iorque do início do século passado, dizia que o mercado é movido por duas forças: o medo e a ganância. A gula voraz dos especuladores já conhecemos. O medo é o pesadelo que os atormenta nesta noite. Se tentarem fugir, quanto mais rápido correrem, mais intensa será a crise. Se fingirem de morto, ela virá em passos lentos, mas nem por isso menos avassaladora. Se tomarem de coragem e decidirem enfrentar o medo, o risco é nitroglicerina pura. O beco é sem saída.

Quem leva bush a sério? Pelo visto, nem ele mesmo. Ou será que é bush quem não nos leva a sério e vice-versa? Recapitulando: em março de 2003, contrariando o parecer do Conselho de Segurança da ONU, bush e seus asseclas invadiram o Iraque, com a desculpa esfarrapada de que precisavam investigar o arsenal de armas de destruição em massa que seria mantido por Saddam Hussein. Ninguém acreditou, mas não teve importância. Eles invadiram assim mesmo.

Passaram-se quatro anos. O saldo da brincadeira: US$ 300 bilhões do Tesouro americano jogados no lixo da história, isso considerando as estimativas mais contidas. 50 mil civis e cerca de 2 mil soldados com uniformes americanos, todos mortos. Onde estão as mães desses meninos fardados? Provavelmente, não nos Estados Unidos, mas espalhadas mundo afora, especialmente, nos países excluídos do mapa, pois não conseguimos nem ouvir o choro dessas mulheres. Nem delas, nem das mães iraquianas. O Iraque também não existe mais, mas, paradoxalmente, permanece de pé.

bush e sua turma armaram uma grande confusão, disseminaram a discórdia, espalharam o medo e o horror, o mais medonho de todos, e, agora, cansaram! Querem ir pra casa. Como? Simples. Chamaram a ONU de volta e deram a ela a nobre missão de por ordem na casa: reconciliar os grupos rivais no país e angariar apoio dos vizinhos, leia-se Irã, para ajudá-la a lidar com a crise humanitária que eles mesmo instalaram na região. E ainda tiveram o desplante de dizer, olhando nos olhos, que a ONU deveria assumir um papel mais determinante para trazer paz ao Iraque. Sacaram? Ontem mesmo, sexta-feira, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas já tinha aprovado, por unanimidade, a resolução que determina a expansão do papel da instituição no Iraque. Entrou num beco sem saída.

Mas essas são todas notícias velhas. Já estão correndo no vento e se não foram fisgadas por um galho de árvore, devem estar chegando no topo de uma montanha e logo logo deságuam no mar.

Bons sonhos e um fim de semana iluminado por Santa Ignorância.

Inté.

domingo, agosto 05, 2007

Caixa de histórias

Foto: minha, mas é do Rolf, nosso cão amigo.

Esse é o Rolf. Hoje saímos para passear. Entramos numa rua, saímos em outra, descemos até a praça, rodamos, seguimos em frente, voltamos, entramos em outras ruas e retornamos para casa. É um bom amigo. Não foge das suas responsabilidades. Vigia a casa, brinca com os meninos, late para os passarinhos e nos faz companhia.

Enquanto caminhávamos, fui pensando como os cães aprendem rápido a fazer o que esperamos que eles façam. Nós já temos um pouco mais de dificuldade. Normalmente fazemos é o que nos dá na telha. E, ainda bem. Melhor mesmo que seja assim, embora devêssemos também assumir com mais freqüência as conseqüências de nossas escolhas. Isso é mais raro de acontecer.

Andamos mais um pouco e me lembrei de um documentário que assisti recentemente, no Canal Brasil, sobre a língua portuguesa. Era isso mesmo: Língua – Vida em Português, de Victor Lopes. Uma fotografia maravilhosa e uma edição muito cuidadosa. Vou assistir outra vez, quando der. Mas, agora, me lembrei de um jovem moçambicano que aparece no filme. Um jovem como os nossos mesmos, pois a globalização passa pela África também, embora não deixe nada por lá.

Não me lembro do nome dele, mas vejo-o claramente agora, cantando rap, andando nas ruas, olhando para o horizonte e sonhando. Esse menino, porque é só um menino mesmo, disse que gostaria de morar nos Estados Unidos, mas acho que estava zoando. Queria só uma vida melhor. Não disse isso com tristeza, não mesmo. Disse com a coragem de quem vai tentar. E eu acredito que ele conseguirá, não por conta de seus lindos olhos negros, mas porque sua história me permitiu pensar assim.

Esse menino, que queria morar nos Estados Unidos, conheceu uma menina, que também tinha a cabecinha apinhada de sonhos e um sorriso do tamanho do mundo. Os dois namoraram, claro, e ficaram, claro e, destemidos, não se preveniram, claro. Mas o menino não contou isso nem com orgulho nem com deboche nem com vergonha. Simplesmente falou e disse qualquer coisa mais ou menos assim: plantei uma semente sem ter água para regá-la. Agora tenho de assumir minha irresponsabilidade, mas será um miúdo muito bonito e tudo acabará bem.

Andei mais um pouco e me lembrei de Mia Couto e das ruas da sua Moçambique. Lembrei dos contadores de história, que ele conheceu lá na sua infância, nessas ruas povoadas de áfrica. Esses narradores de sonho contam que as histórias ficam guardadas em uma caixa muito antiga, entregue ao primeiro homem e à primeira mulher do mundo. Assim, quando terminam de contar sua história, guardam-na de volta na caixa. Ao final da narrativa, sempre repetem: ...e tu, história, tu voltas novamente para a caixa do primeiro homem. É assim que se fecha uma história. Se ela fica aberta, as pessoas que a estão ouvindo ficam doentes. Não sei bem qual enfermidade poderá contaminá-las, mas já sei que às vezes isso é bom, às vezes é muito mal.

Por isso, já quase chegando em casa, passaram como um vento pela minha cabeça, as repetidas histórias que temos ouvido ultimamente. Histórias mal contadas, histórias pela metade, que ninguém sabe onde começaram e nem porquê começaram e, menos ainda, como e se irão terminar um dia. Histórias que se embrenharam por outras histórias, misturaram seus personagens, desfizeram o fio que nos conduzia e nos deixaram perdidos no meio de palavra nenhuma. São tantas do planalto central, que mais parecem um seriado. São outras tantas de crise, se repetindo numa freqüência tão regular, que, parece, também não terão mais fim. Crise da segurança, crise das penitenciárias, crise do aquecimento global, crise do futebol, crise do apagão aéreo e, agora, já prometem, a crise da energia.

Mas continuei seguindo o meu caminho. E fui subindo a rua e pensando se não é que deixamos abertas nossas histórias e agora estamos doentes de versões mal contadas. Fui andando e pensando se não precisávamos retomá-las, uma por uma, e fechá-las, cada uma de uma vez, retornando-as para a caixa, na qual deve estar guardada nossa própria história. Pensando que se, para isso, não precisávamos terminar de contá-las. E, para chegar ao fim, se não precisávamos que seus personagens assumissem as irresponsabilidades que cometeram em cada um desses diferentes enredos.

E já quase no portão de casa, pensei de novo no jovem moçambicano. De onde será que ele tira sua coragem, se não dos sonhos que ainda é capaz de sonhar? E pensei nos zumbis de nossas histórias mal contadas, que não dormem e nem sonham mais. Nem hoje e talvez nem nunca sonharam. E de tão covardes que se tornaram, se escondem um atrás do outro, um atrás do outro, um atrás do outro, numa cadeia interminável. Sem fim, nossas histórias permanecem eternamente abertas, deixando enfermos, para todo sempre, cada um de nós.

Como viram, andei sobre um mar de pensamentos, que vieram em ondas encavaladas, que quase me jogaram no chão.

Mas agora, fechando a minha história, uma semana de mar bem manso para todos! Tomara que essas histórias mal contadas encontrem logo o seu final e possam ser fechadas para, finalmente, delas nos livrarmos.

terça-feira, julho 31, 2007

O sonho não acabou

Antes que eu me canse, vou retomar os relatos de leitura à beira mar. Depois de Agualusa, fui ler o Livro de Zenóbia, presente de uma amiga. Quando recebi o livro, bestamente quis saber porque eu. Ou melhor, porque o Livro de Zenóbia. Mas tem coisas que não tem explicação, aprendi agora. Estão escritas. Ou devem estar. Percebi isso nas palavras de Zenóbia. E confirmei na coincidência dos livros que escolhi às cegas para jogar dentro da mala, com o táxi já buzinando na porta.

No livro de Agualusa (adoro escrever esse nome!), Félix Ventura inventa passados para a nova elite angolana. Sem histórias grandiosas para contar, ela precisa reinventar suas memórias para lançar-se no presente de alma lavada. E a sua nova biografia surge como um sonho, misturando fatos reais, pessoais, com as histórias de todo mundo ou de qualquer um. Félix Ventura, mais do que um vendedor de passados, era mesmo um fazedor de sonhos.

Zenóbia não faz sonhos, é o próprio. Não precisa garimpar memórias alheias para reconstituir suas lembranças da vida. E não mistura o real com o imaginado: tudo é servido na poesia. Com a delicadeza de quem, numa tarde chuvosa de domingo, folheia um velho álbum de família. Com o espanto e a alegria de quem, numa outra tarde de domingo, redescobre seu caderno de notas, dentro de uma velha caixa esquecida no maleiro.

Zenóbia, cria de Maria Esther Maciel, não faz bem um relato de sua vida, ficou mais só pensando. São as lembranças que vão surgindo como ondas, espalhando as histórias no papel. Zenóbia, imagino, ficava ali mais apreciando o espetáculo, ora se espantando, ora se admirando, ora se alegrando ou se entristecendo. E aí pronto. Dava de pensar. São essas coisas que passaram pela sua cabeça que Zenóbia guardou no seu livro e agora inventou de nos mostrar. Ainda bem!

Dos outros livros que li, não vale a pena comentar. Não que não fossem bons, mas porque não são livros de história, os meus preferidos. Eram leituras obrigatórias para um trabalho que tenho de entregar sexta-feira e mal comecei. Ontem rendi muito: fiz dois parágrafos. Hoje, tentei mais um pouco, mas não foi possível. Busquei novos livros, esbocei novo roteiro, ensaiei alguns parágrafos e depois deletei tudo.

Estou com um problema. As coisas que os livros dizem não se encaixam com as coisas que quero dizer. Isso torna tudo mais difícil, porque um trabalho acadêmico não pode deixar de ter algumas citações de grife, para validar o esforço. Mas preferia, de coração, fazer como Zenóbia, apreciar o espetáculo dos autores renomados, mas escrever apenas o que estou pensando. Mesmo correndo o risco de cair na informalidade. Amanhã será inevitável: de um jeito ou de outro, farei a minha escolha.

Uma quinta-feira sem citações e nem pés de página, só com frases originais!

Inté.

quarta-feira, julho 25, 2007

É só um sonho

Foto: minha.

De volta. Sempre em terra firme, atravessamos as montanhas e fomos desaguar no mar. A cidade estava vazia, o mar imenso de tão grande, o céu azul purinho e o sol morno e lento. Os dias se arrastaram sem pressa e pareceram bem maiores do que de fato são. Aproveitei todos os instantes preguiçosamente. Desliguei o rádio, vi TV só de relance e nem li jornal. Andei descalça na areia, pulei ondas, mergulhei e me afastei só para ficar olhando o mar verde-esmeralda que rodeia a cidade. Bebi água de coco, provei uma caipirinha de abacaxi e temperei um badejo para cozinhar na panela de pedra com tomate, cebola, pimentão, cheiro verde e azeite até entornar. Sem coentro.

Mas, principalmente, li. Se fosse resolver uma pendência agora, diria que o livro que mais marcou a minha vida foi este: o último que devorei. Mas não digo, porque essa é uma missão quase impossível. Talvez listar os livros dos quais ainda me lembro fosse mais fácil. Porque tem isso também. Leio e fatalmente me esqueço de quase tudo, passados alguns meses. Sobram fragmentos, uma palavra, uma frase, uma idéia, uma personagem, qualquer coisa. E me aposso desses pedaços de textos como se fossem meus. Minhas lembranças literárias são como miçangas de um colar que se arrebentou e não é mais. São coisinhas que guardo numa caixa e já não pertencem mais à obra original. Por isso, ainda assim, seria difícil montar essa lista.

Mesmo do último livro que li só guardei o que me tocou, ainda que tenha sido quase tudo. Mas, de O Vendedor de Passados, do angolano José Eduardo Agualusa, guardei principalmente essa confusão: a mistura despudorada de passados que Félix Ventura remexe no seu caldeirão de memórias, só para inventar um presente aceitável para suas personagens. Resgata fatos e fotos, datas e outros registros, tudo fisgado de livros antigos, recortes de jornais, anotações, vídeos gravados de telejornais, bugigangas compradas em feiras de objetos usados e até de palavras que permanecem, como dizia o poeta, em estado de pedra dentro de algum dicionário. E desse emaranhado de histórias reais inventa uma de mentira. Dela puxa linhas bem traçadas que se encaixam como luva nos sonhos nunca sonhados de suas personagens, dando a elas um presente respeitável e digno de ser biografado. Qual história é a verdadeira agora?

Foi uma leitura muito bem ajustada ao momento. Quando troco de casa, passados uns dias, experimento sempre uma leve sensação de desprendimento, como se estivesse saindo da minha história e entrando em outra. Sou eu mesma, igual na forma e no jeito, mas estranhamente outra pessoa. Perdida em outra história que ainda está para ser inventada. A memória da primeira se mistura com o sonho da segunda e nenhuma delas é menos real do que a outra. Quando troco de casa, preciso de um tempo para me encontrar. Ou não. São elas que me encontram ou se encontram no meu corpo e me apontam o mundo das possibilidades, que às vezes esqueço que existe, perdida na rotina da cidade grande. Se não me policio, quase enlouqueço. O mar, de fato, descansa a minha cabeça, mas só em Minas, onde estão minhas raízes, a alma tem sossego.

E de Agualusa guardei ainda as palavras finais da sua personagem que, engraçadamente, se parecem muito com as do escritor moçambicano, Mia Couto, na palestra que fez, recentemente, em Belo Horizonte. Mas só percebi isso, quando voltava pra casa. Vinha distraindo o tempo na estrada e ouvindo a gravação que a Rutinha me passou com a palestra de Mia Couto. E ele fechou sua apresentação dizendo: porque não nos basta ter um sonho, queremos ser um sonho. Félix Ventura, de Agualusa, lembrando-se de Martin Luther King, cita, no desfecho da sua história, a frase do líder negro: eu tive um sonho. Mas, logo retruca. Ele deveria ter dito antes: eu fiz um sonho.

Costurando os fuxicos, é mais ou menos assim que às vezes me sinto, quando troco de casa: como se estivesse num sonho, como se fosse o próprio sonho, como se essa vida não passasse mesmo disso. Puro sonho que a gente vai inventando todo dia e depois dá de chamar de realidade.

Falando nisso, bons sonhos a todos.

Inté mais ver, um dia.

quinta-feira, julho 12, 2007

Não dá samba

Os franceses como os brasileiros. Parece chique, mas não é. É preocupante. Os ingleses como os brasileiros, vá lá, pode dar samba. Eles são meio loucos e um pouco cabeça dura. Essa combinação costuma funcionar. Às vezes. E é o que eles vão testar. Depois de nos observar por um bom tempo, resolveram adotar o nosso modelo de orçamento participativo. O projeto piloto vai abranger 10 regiões do país e, nessas áreas, os ingleses poderão influir na destinação de 23 milhões de libras do orçamento público. Não disse que os ingleses são meio loucos?

Mas os franceses como os brasileiros não vai dar nem marchinha de carnaval. Olha só procê vê. Ainda estava amuada com os resultados da pesquisa de Álvaro Moisés e fui surpreendida, num pleno domingo, com um comentário sobre a tolerância dos franceses que só reforça o aspecto mais negativo daquela pesquisa. Como já contei, Moisés nos revelou que mais da metade dos brasileiros aceitaria de bom grado um governo que passasse por cima das leis, do Congresso e das instituições, quando tivesse de resolver uma situação difícil que o país pudesse estar enfrentando. A pesquisa não explica o que é uma situação difícil, mas os brasileiros responderam que aceitariam esse despropósito.

Fui olhar na Constituição. Não li tudo, mas do que dei conta, o estado democrático de direito poderá ser suspenso, em alguma proporção, apenas quando, por razões que não vou listar aqui, o governo não tiver outra alternativa a não ser decretar no país o estado de defesa, de sítio ou de guerra declarada. Espero estarmos longe disso. Mas, ainda assim, se um governo brasileiro se encontrar em uma situação tão difícil que não tenha outra opção a não ser tomar decisões daquela ordem, estaria agindo estritamente de acordo com as regras constitucionais e não acima delas.

Bom, mas isso é outra história. Aí veio o domingo. Manhãzinha preguiçosa e coisa e tal, até que peguei o jornal pra ler. Fui direto na última página, como faço sempre, e lá estava: um artigo, que acreditava ser, despretensioso sobre o estilo sarkozy de governar. Li só porque era domingo. Ando tão desencantada com as saídas que o mundo tem nos apontado, que agora estou optando por desconhecê-las. Mas, como era domingo, li.

Sarkozy está construindo sua imagem de governante e faz ele muito bem. Mas, pra começar, não precisava exagerar. Aqui no Brasil não deu muito certo. O último presidente que pousou de super-homem e desfilou sua hiperatividade em supersônicos, submarinos e pistas de cooper, acabou no olho da rua. Mas é assim que ele quer ser visto pelos franceses: como um hiperpresidente. E, parece, está conseguindo. Sua taxa de confiabilidade continua a subir, de 63% para 65% em apenas dois meses, desde a sua posse.

Segundo seus marqueteiros, Sarkozy passa essa imagem naturalmente. Não é um super mário, mas é aquele que tudo pode e tudo faz, independentemente do conteúdo ideológico de suas decisões. Isso é novidade, imagino. Não é um costume muito francês. E quando ainda Sarkozy afirma ter sido eleito para fazer alguma coisa em todas as questões, sugere, sutilmente, que fará, de um jeito ou de outro, ainda que tenha mesmo de atropelar alguns desses costumes. E isso é que é hiper preocupante. Não que os franceses não possam mudar. Tudo está mudando nesse mundo. Mas me dá uma cisma danada dessas situações sem limite, sem referência, escancaradas para qualquer possibilidade. Normalmente, não dão samba. Nem no Brasil, nem na França, suponho.

É isso. Se não estivesse com sono, emendaria com um outro artigo que acabei de ler - Educação para a Democracia, de Maria Victória Benevides - e que me trouxe um novo alento. Mas vou dormir, que faço melhor.

Uma sexta-feira bem facinha para todos, nada de situações difíceis.

Inté.

quarta-feira, julho 04, 2007

Confusão mental

Estou igual avião de ponte aérea, só chego atrasada aonde vou. Até para pensar, estou perdendo a hora. Preciso de mais tempo, mais tempo e aí, quando dou pela coisa, o tempo já passou. Nesses últimos meses, enviei uma penca de textos iniciados e inacabados para a cesta editoria, porque tinha coisa melhor para fazer na hora. Às vezes, nem melhor, mas inadiável. E aí o assunto ficou velho, o texto perdeu o ritmo e pronto. Virei o disco e fui pensar outra coisa.

Hoje, de novo, estou com três dias de atraso. Mas vou resistir. Não vou abandonar meu tema. Adoro pesquisas quantitativas. Não pelos resultados propriamente ditos, que são até muito divertidos em alguns casos, mas para tentar descobrir qual a intenção que está por trás da pesquisa. A maioria delas é um exercício de c.q.d.. Lembra das aulas de matemática? Como queríamos demonstrar? Pois é, essas pesquisas, muitas vezes, são utilizadas só para isso. Para dar um status de ciência a alguma opinião que está por aí. Um reforço para validar argumentos sobre achismos de toda sorte, com interesses nem sempre republicanos.

Por isso, ao mesmo tempo que me atrai, tenho uma birra danada dessas pesquisas. Não acho que elas dêem conta de explicar a complexidade do nosso mundo. Reduzem qualquer assunto a três opções: sim, não e talvez ou qualquer uma das variações em torno desses mesmos sentidos. E mais duas opções que não dizem quase nada: não sei e não quero responder. Com um agravante, perguntam o óbvio e, para não pagar mico, o entrevistado responde o óbvio também, o que é esperado que ele responda e não o que ele pensa. E aí não saímos do lugar.

Esse foi o caso da maioria das pesquisas que li nos últimos dias, questionando os entrevistados sobre política, políticos, instituições políticas, democracias, instituições democráticas e assim por diante. Os questionários foram aplicados em universos os mais variados possíveis: universitários capixabas; mulheres em funções executivas; homens de 35 a 50 anos e que andam de bicicleta e por aí vai. Até criancinhas agora estão respondendo questionários de instituto de pesquisa. Andou de velocípede na pracinha já está preparada para a vida. Já tem autonomia para ter alguma opinião formada sobre tudo.

Mas lendo essas pesquisas, observei que os resultados são mais ou menos os mesmos. Isso tem um lado positivo, devem estar certas. Ou não. São, justamente, exercícios de c.q.d. para validar alguma intenção que está solta por aí. Seja como for, resolvi relevar a minha birra por pesquisas quantitativas e ler seriamente uma publicada na Folha de São Paulo do último domingo, patrocinada pela Fapesp e coordenada pelo cientista político José Álvaro Moisés.

Relevei, primeiro, porque gosto das coisas que Álvaro Moisés escreve e, depois, porque esse é um trabalho que ele vem fazendo já há bastante tempo, desde 1989, visando a criação de uma série histórica. Essa preocupação com o longo prazo é interessante porque dá mais sentido aos resultados. Mas o cenário que ela traça para o nosso consumo diário não difere em nada das demais pesquisas.

Olha só. A maioria, 68,1% dos entrevistados, prefere a democracia, mas 81% desconfiam dos partidos e 76% do Congresso. E podíamos esperar outra resposta? Mas qual a coerência desse cenário? E se adicionarmos as respostas de outras questões apuradas, a confusão mental é ainda maior. Dos entrevistados, 31,5% acreditam que a democracia pode funcionar sem partidos e 28.7% acham que pode funcionar sem Congresso.

Até aí, apesar da confusão mental, ainda podemos inventar uma explicação, se extrapolarmos o que está dito e inferirmos que eles estão defendendo um modelo pleno de democracia participativa, mas isso é só suposição. E acho melhor ficar por aí mesmo, porque eles não sabem o problemão que estão criando. Agora, quando 51,8% concordam em algum grau com a idéia de que “quando há uma situação difícil no Brasil, não importa que o governo passe por cima das leis, do Congresso, das instituições para resolver os problemas do país”, o quadro fica mais grave.

A única conclusão que consigo tirar dessa salada de percentuais é que as pessoas estão respondendo qualquer coisa sobre qualquer assunto, mesmo quando não têm a mínima compreensão sobre o tema que estão opinando. Que as palavras estão gastas, já concordamos sobre isso. Que perderam seu sentido original e são utilizadas hoje conforme o gosto e a preferência de cada um, também já percebemos. Que são meros adereços no discurso daqueles que querem apenas aparentar algum jeito especial de ser, também já desconfiamos. Mas e aí? Será que isso é suficiente para explicar esse cenário caótico que as pesquisas estão revelando? Não sei.

Só sei que fico intrigada. Queria mesmo saber como os entrevistados de Álvaro Moisés definiriam democracia. Repetiriam o modelo difundido pela mídia, que tem como único princípio a liberdade de expressão? Mas liberdade para quem? Para os donos das empresas de comunicação? Danou-se, hem? Ou será que seria o modelo do mercado, da democracia do consumidor, liberdade para escolher, comprar e devolver se não gostar? Mas, aí também, liberdade de escolha para quem? Liberdade para quem comprar o quê? Vamos retornar ao conceito de democracia relativa? Deus me livre, hem?

Fico desconfiada de que se essa pergunta fosse incluída no questionário cairíamos mesmo é no modelo básico, o da democracia política, que prevê apenas eleições periódicas, livres e diretas. Um exercício de simplicidade política voluntária. Está na moda, não é? Ou será que seriam capaz de imaginar um modelo de democracia radical? Fico curiosa para saber. De qualquer forma, vou me prevenir da tentação pela simplicidade e reler o texto Nós, o povo: reformas políticas para radicalizar a democracia, de Maria Victoria Benevides. Acho que só com esse artigo já estarei imunizada. Se preciso for, voltarei aos clássicos.

E se não estivesse tão cansada, continuaria pensando sobre essa pesquisa. Sobre como essas pessoas imaginam uma democracia sem Parlamento. Sobre como elas imaginam uma democracia sem partidos. Achei essa idéia até interessante. Voto personalista no sentido mais exato da expressão. E ainda, sobre como elas definem uma situação difícil. Sobre quem elas acreditam seria capaz de resolver os problemas do país, passando por cima das leis, do Congresso, das instituições. Deus? Dom Sebastião? Mas neeem! Já estou com sono e cansada. Amanhã, tenho três opções: levantar cedo e trabalhar; levantar e trabalhar; levantar atrasada e trabalhar.

Um restinho de semana com muitas e variadas opções.
Até de repente

sexta-feira, junho 29, 2007

Que nem

E é assim mesmo. O mundo gira e nós continuamos no mesmo lugar. Se sai um entra outro e quase nada muda. As manchetes do noticiário são as mesmas. Troca-se só o quem, às vezes, o onde também. E todos nós, em maior ou menor grau, delúbio, simone, mabel, luizinho, palloci, renan, roriz e outros. E todos nós, de um certo jeito, felipe, júlio, rodrigo, max, antonio, tomas, eron e suzane ou, pior, fernandinho, marcola, ivan.

É porque estamos todos ficando muito parecidos que nos assustamos tanto. A tela da televisão está virando espelho. Como num parque de diversões, a imagem refletida nos distorce, nos deforma, mas resta em cada uma delas um traço que é nosso também. Um traço que nos iguala. Não nos atos, mas na sua falta de sentido. Não nos atos, talvez nos gestos. Tão sem significado quanto. Só que pior, insignificantes. Inexpressivos. Ou então, na intenção. No que nos move ou nos paralisa, mas que está ali, em algum lugar, dentro de nós.

Aí, mesmo sem ir às vias de fato, nos tornamos iguais na vontade que às vezes dá de matar também. De estrangular. Na vontade que dá de chutar o balde, de rodar a baiana. De fazer de um jeito desajeitado, só porque é mais fácil, mais rápido. De enrolar também. De fingir que não está fazendo malfeito, mas fazendo. De enganar, blefar, engalobar, tapear, burlar, fraudar, iludir, fingir, marombar, como se não estivesse, mas estando. Nas pequenas coisas, mínimas, mas que na intenção se equivalem. Tornam-se todas parecidas, as pequenas e as grandes falcatruas. É disso que estou falando.

E, ainda assim, andamos na rua, com a cabeça erguida e os olhos bem abertos. Não para nos vermos melhor. Estamos na espreita, um vigiando o outro. Na tocaia, sempre alerta, para nos protegermos da maldade um do outro. E seguimos, figuras ilibadas, rua afora. Sonsos, não nos preocupamos mais com o que somos, mas só com o que aparentamos. Gil Brother terá razão? Estaremos todos desmilinguindo história afora, nos desfazendo, nos desmanchando, nos dissolvendo, nos destruindo, nos arruinando convenientemente?

Por isso estou andando é calada. Já perdi palavras, idéias, pensamentos, tudo. Nem ouso procurá-los agora. Quero é distância. Meus olhos não vêem o que não é mais possível explicar. Meus ouvidos não escutam o que a alma não quer sentir. Pronto. Vou hibernar. Entrar em recesso. Quando for razoável, abro os olhos novamente e volto a olhar pro mundo. Mas agora, agora mesmo, é como diz o Maguinho, amigo de uma amiga, não é que não dê, é só que não dá.

Inté, que hoje é só sexta e amanhã tudo continua.

Um final de semana longe da mesmice de sempre e repleto de boas novas.

sábado, junho 23, 2007

Não vou mais por aí

Tenho um problema: preciso marcar as minhas férias de julho. Todo ano reservo uns dias para esse período, que coincide exatamente com o recesso escolar dos meninos. Outros quinze dias tiro em janeiro e guardo mais cinco dias para a semana da criança, em outubro. Tudo friamente calculado para termos, ao longo do ano, pelo menos 25 dias inteiros para ficarmos juntos. Mas este ano estou com um problema: não consigo marcar minhas férias. Tânia já está ficando impaciente e desconfiada de que estou querendo boicotar o seu trabalho. Mas não é nada pessoal. Estou mesmo com dificuldade.

A primeira vez que ela me procurou, há quase dois meses, com o quadro de marcações na mão, senti um frio na espinha. Na hora não associei esse sintoma ao conteúdo da nossa conversa. Só registrei. Mas devo ter expressado um sentimento qualquer de desconforto, porque ela me olhou com espanto e repetiu: férias, Patrícia! Férias! Mas desconversei e disse que iria consultar o calendário escolar dos meninos e voltaria a falar com ela. Ninguém estava com pressa. Ela saiu meio murchinha, mas não disse nada. Passaram-se uns dias e ela voltou. O quadro em excel, com barras coloridas, já estava quase todo preenchido. Só algumas linhas ainda estavam em branco, entre elas, a minha.

Tânia é sempre bem humorada e divertida. No dia a dia, ela tem de lidar só com problemas: é a marcação de ponto errada de um funcionário; um desconto indevido no contracheque de outro; ou alguém que ligou pedindo um serviço que está atrasado e mais alguns abacaxis que desconheço. E ela faz tudo isso com uma leveza invejável. O mundo está desabando sob seus pés e ela saltita entre os pedaços de chão que restam e atravessa seu caminho sem ameaçar ninguém. Por isso, quando chega a folha de marcação de férias, ela sente que é o seu momento de glória. Se aproxima de nós, como uma fada que vem com sua varinha de condão realizar todos os nossos sonhos.

Mas percebi, quando ela se aproximou de mim pela segunda vez, que estava um pouco tensa. Nem rendeu assunto, quis saber só se já tinha me decidido. Resolvi também não estender a conversa, porque já estava pressentindo que teria dificuldades. Disse um vou olhar isso, meio entre os dentes, e voltei para o computador. Neste dia não senti o frio na espinha, foi diferente. Senti um peso nos ombros, como se estivesse prestes a decidir o destino do mundo. Que besteira! - pensei. São míseros cinco dias fora da rotina, para fazermos o que bem entendermos. Poderíamos até pensar numa viagem, por que não?

Mas quando essa idéia me passou pela cabeça, arrepiei. Ops! Tenho um problema! Foi aí que percebi que estava em apuros. Marcar as férias significava exatamente isso: marcar uma viagem. Não a viagem dos nossos sonhos, claro, porque o mar não está pra peixes, ou melhor, o céu não anda pra andorinhas, mas só uma viagenzinha qualquer. Uma saída pelas redondezas ou uma esticada até o litoral. Mas que seja, ainda assim, significará sair de um lugar onde estou para outro onde vou estar. E é aí que mora o problema. O meu problema. Fiz até um diagnóstico, de leigo, mas um diagnóstico: síndrome do imprevisto. Só de pensar em férias, viagem, sair de onkotô e ir pronkovô, os sintomas aparecem: náusea, enxaqueca, arrepios, dores difusas e outros males.

Não sou assim, estou. Antes, o imprevisto era um imprevisto mesmo. E o encarávamos como uma oportunidade para enriquecermos nossa biografia. Conhecer cidades que não havíamos planejado; pessoas, as mais improváveis possíveis; experimentar quitutes dos quais nunca havíamos ouvido falar; e assim por diante, enquanto o problema, o imprevisto era superado. Mas hoje, o imprevisto é o mais certo de acontecer. Já saímos de casa na expectativa: o que vai ser dessa vez? Ficamos tensos, mau humorados, olhando pros lados com cara de pouca conversa. Horrível! Não quero isso. Não quero marcar minhas férias. Já escolheram por mim: prefiro a minha entediante rotina.

Não quero me aventurar nas estradas esburacadas, me arriscar nos desvios de chão de terra, levando fechada de caminhoneiros mal educados e prepotentes. Não vou mesmo encarar 400 quilômetros de asfalto, nem cem, correndo o risco de topar de frente com um engraçadinho qualquer que se acha o dono da estrada e anda na mão que bem lhe convier. Nem quero perder tempo dentro de um ônibus apertado, mal ventilado, com pacotes despencando sobre nossas cabeças a cada curva mais fechada. Isso, pra não dizer dos chatos que falam alto o tempo todo, contando detalhes da sua vida que não interessam a ninguém, além de outras inconveniências.

Estou aborrecida mesmo. E tem mais: de avião, nunca! Vou eu parar num aeroporto qualquer, com mala, sacola, menino, pra ficar fincada numa cadeira desconfortável por 8, 10, 12 horas e ainda ter de brigar na fila para arrumar lugar no avião? Já fui, não vou mais. Agora é ruim, hem? Não é imprevisto, como disse, é certo de acontecer. E pior, com a televisão filmando tudo e depois mostrando pro Brasil inteiro: aquele bando de desarvorados e melancólicos passageiros, com a cara amarrotada; desfalecidos em cima de malas e pacotes; agachados num canto do corredor; mal acomodados em cima de carrinhos de bagagem, com as mãos segurando o queixo e os olhos perdidos num ponto infinito; se arrastando nas filas do check-in e ainda tendo de achar bom, porque estão todos vivos. Não vou me expor nem expor meus meninos a essa tragédia de luxo.

Percebo que estou limitada na minha liberdade de sair por aí. Não sei se por capricho meu ou se pelo persistente desrespeito de seguidos governos ao nosso direito de ir e vir. Já estou ficando até confusa. Será que temos mesmo esse direito, com tanta criancinha passando fome, tantas famílias sem terra, tantos homens sem emprego, tanta miséria por esse mundo afora todo? Será? Será que não estou sendo muito egoísta demais, querendo tirar férias, viajar e ainda mais viajar confortável e seguramente? Ai ai, viu? Então, está bem. Depois conto pros meninos. Segunda-feira vou falar com a Tânia que não vou mais tirar férias. Vou ficar só trabalhando. Se precisar até fazendo hora-extra. Será que isso vai resolver os problemas do Brasil?

Um finzinho de semana com ares de férias. Sem compromisso, sem hora marcada, sem rumo e sem direção.

Buenas e tantas.

domingo, junho 17, 2007

Passado incerto, do futuro certo

Ufa! Vou mudar de assunto. Vou contar uma história. Uma parte é verdadeira, outra parte eu mesma inventei. Quem começou a me contar essa história foi a Bel, que está me ajudando a fazer uma revisão da gramática portuguesa. Bom, pelo menos ela pensa assim e eu deixo, mas, na verdade, ela está é me ensinando mesmo, porque tudo que sei de Português aprendi de ouvido ou só de vista, lendo um livro aqui outro ali. Agora é que estou entendendo o porquê de tantas regras. Bom, mas isso não vem ao caso, principalmente porque só estou começando meus estudos e ainda vou dar muita manota até apreender todos os conhecimentos que Bel tenta me passar. E, agora, o que me interessa mesmo é a história, como sempre.

Então, a Bel é muito atenta a tudo que diz respeito à língua portuguesa e ela observou que as meninas do telemarketing estão abandonando o péssimo hábito do gerundismo. Aliás, para Bel não era um hábito, mas uma escolha política. O gerundismo é o tempo que melhor expressa a cultura contemporânea da falta de compromisso com tudo na vida. O preguiçoso vou estar encaminhando não assume nenhum compromisso de tempo. Pode ser agora, hoje, amanhã, depois de amanhã ou um dia qualquer, o que, aliás, é o que mais acontece. Um dia, quem sabe. Mas o gerundismo está caindo em desuso. Descobriram um novo tempo verbal: o futuro do pretérito!

Isso pode ser uma boa notícia, afinal, usamos esse tempo quando tentamos evitar uma ordem imperativa e, mais do que isso, demonstrar alguma polidez: Você poderia me passar aquele livro? É chique, não é? Em vez de dar uma ordem: passe-me aquele livro!, oferecemos uma opção ao nosso interlocutor: você poderia. E ele escolhe se quer ou não passar, mas, normalmente, é assim que conseguimos convencê-lo a ser educado e a passar o livro de boa vontade e até feliz por ter sido tão bem tratado. Mas, o futuro do pretérito esconde armadilhas. Ele pode ser usado também quando nos referimos a um fato futuro em relação a outro fato passado, ou a um fato futuro, mas duvidoso, incerto: eu passaria, se você não fosse tão imprudente! Seria mesmo muito educado se eu passasse esse livro! Ou seja, o mais provável é que não vai passar, não vai fazer nada. Passaria, mas não passa. E aí voltamos à mesma vontade política que, anteriormente, determinou a escolha do gerúndio como o tempo exemplar do descomprometimento com tudo. Viram o perigo?

Mas a história é a seguinte: a Bel precisou ligar para uma dessas empresas de telefonia. Isso já é um problema, vocês sabem disso, não sabem? Mas ela é corajosa e ligou. Assim que a menina atendeu do outro lado da linha, a Bel começou a falar e a expor o seu problema, mas foi subitamente interrompida:

- Um momento, por favor.

Silêncio. A Bel ficou aguardando, ansiosa. E aí veio a bomba:

- Qual seria o seu nome?

- !??!?

Bel entrou em estado de choque. Como assim? Qual seria o meu nome. O que ela está querendo dizer? Será que ela está querendo mesmo ouvir essa história? Não é possível! Vou conferir:

- Ahn? Desculpa, não ouvi direito.

- Qual seria o seu nome, minha senhora? Por favor.

Então, era isso mesmo que ouvira. Ela queria, de fato, saber qual seria o nome da Bel. Nesses casos, quando a pessoa tem certeza do que quer, sou da opinião de que não devemos nos negar. Se ela queria saber, acho que Bel deveria contar. Então foi mais ou menos assim:

- Está bem menina. Se você quer saber, vou te contar. Fui a primeira filha e, quando nasci, minha mãe não teve dúvidas. Logo que meu pai entrou no quarto, ela disse:

- Olha que gracinha! Não é a coisinha mais bunitinha da terra? Vai se chamar Leoma!

Meu pai olhou com cara de interrogação para a minha mãe:

- Ahn?
- Leoma, homem de deus! Leo de Leonardo, seu nome e ma de Marília, meu nome: Leoma!
- Ah! – disse meu pai com cara de entendido, mas com um ar desconfiado também: será que o parto mexeu com a cabeça dessa mulher? Leoma! Onde já se viu isso? Que coisa horrorosa para a coitada da criança.

- E aí? O que você achou? – quis saber a minha mãe.
- Acho esquisito! – disse meu pai sem papas na língua. Queria um nome mais clássico. Dulcinéia! Olha que beleza! Um nome doce!
- Cruzes! Tem dó. E o que significa Dulcinéia? Nada, não diz nada para nós. Leoma é a forma composta do nosso amor.
- Ahn? Coitado do nosso amor, mulher! E coitada dessa criança. Pensa essa coisinha bonitinha indo para a escola. Aí perguntam o seu nome e ela diz: Leoma! Parece Leona, mulher brava, rude, grosseira! De jeito nenhum!

- Aí amiga, posso te chamar assim, não posso? – quis saber a Bel.

- É que...

- Não, não fique constrangida. Afinal, recordar também é viver. Não me custa nada revelar essa parte da minha história para você. Afinal, é só um detalhe em relação a tudo que tenho para te dizer ainda.

- Mas...

- Calma. Vamos lá: nisso, enquanto meu pai e minha mãe discutiam sobre o melhor nome que poderiam me dar, entra no quarto minha vó. Pegou a conversa andando, mas entrou de cara:

- Leoma! Tem dó Marília, perdeu o juízo na sala de parto! De jeito nenhum, vamos devagar. Essa menina deve ter outro futuro. Olha que gracinha! E não é que ela é a cara de minha mãe. Taí, acho que vocês deveriam prestar uma homenagem a bisa: que tal Leocádia!

- Aí quem perdeu o juízo foi meu pai. Quase pôs minha avó quarto afora. Só sei que fiquei quase uma semana sem nome. As pessoas me chamavam de Bunitinha. E a bunitinha? Tá mamando direitinho? Meu pai emburrou prum lado, minha mãe pro outro e eu fiquei no meio dos dois, sem nome, nem documento. Foi aí que a Bá, a mulher que ajudou minha vó a criar minha mãe e, depois, ajudou minha mãe a me criar, entrou na história. E ela, com toda a sua autoridade de ama de leite, falou com minha mãe:

- Não tem nada disso não, Marilinha. Não tem nada de Leoma, Dulcinéia, Leocádia ou qualquer outra Marocas da vida. Essa menina já nasceu com o nome dela. Olha se não é? Olha se o sorrisinho dela não é um sorrisinho de Isabel? É claro que é. Pronto. Essa menina se chama Isabel. Sempre.

- Meu pai estava no quarto e ouviu silenciosamente a sugestão de Bá. Minha mãe, já cansada de ficar emburrada tanto tempo, ouviu calada também. Depois, os dois se olharam, olharam para a Bá, olharam para mim. Riram e concordaram.

- Não é que ela tem mesmo um jeitinho de Isabel? É isso mesmo. Pode registrar! Isabel – disse minha mãe.

- Então foi assim, amiga. Meu nome seria Leoma ou Dulcinéia ou Leocádia. Mas é Isabel!


Uma semana na real para todos. Sem futuro do pretérito nem gerúndio nem sonhos nem ficções. Só o que vier e que venha tudo em paz. Já estará de bom tamanho.

Buenas.

quinta-feira, junho 14, 2007

Os donos da voz

Foto: essa é minha.

Ainda sem perder o foco e com várias certezas sobre as dúvidas que terei de enfrentar proximamente. Uma delas: porque a grande imprensa brasileira não discute as políticas públicas de comunicação? Vocês sabiam que neste ano da graça de 2007 estão vencendo as outorgas de 28 emissoras de TVs e de 153 canais de rádios, entre elas a Globo, Record, Bandeirantes e Cultura? Vocês sabiam que a Subcomissão Especial da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados aprovou, no último mês de maio, novas regras para a renovação e outorga de rádios e TVs que já valerão para os processos que chegarem à Câmara a partir do dia 1º de julho? Vocês sabiam que os trabalhos dessa Comissão tiveram início há três meses e que já foram realizadas seis audiências públicas para discutir essa questão e que existem propostas até bastante avançadas para atualizar essa legislação?

Essas coisas a gente não fica sabendo assim, distraidamente, né? Temos de correr atrás para buscar informação. Mas pudemos acompanhar detalhadamente, com páginas e páginas de matérias de enviados especiais e horas e horas de debates no rádio e na TV, sobre a recusa de Chávez de renovar a concessão da RCTV venezuelana. Quem é que entende uma coisa dessas? Então vamos por parte. As concessões públicas para rádio e TV são licenças temporárias, concedidas pelo governo para uma determinada empresa transmitir conteúdos por canais de rádio e TV. No caso das televisões brasileiras, conforme explica o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), essas concessões têm validade de 15 anos e, para os rádios, de 10 anos. E são esses prazos que estão vencendo para algumas empresas. Mas quais são os critérios para que a renovação seja aprovada? Quais são os critérios para aprovação de uma concessão de rádio e TV no Brasil? Mais dúvidas.

Uma certeza: não acho que o Congresso vá negar a renovação para nenhuma delas, apesar de criticar, em várias ocasiões, o comportamento da imprensa brasileira. E, às vezes, até com razão. Mas isso não significa que essas questões não devessem estar sendo amplamente discutidas com a sociedade brasileira, inclusive com o apoio e a participação dos meios de comunicação de massa, como as redes de rádio e TV, os jornais de circulação nacional e assim por diante. Isso é o que eu penso, mas não é o que a grande imprensa brasileira pensa. Ela sabe que tem um papel relevante e essencial na consolidação das sociedades democráticas. Sabe que, além de organizar e dar visibilidade às grandes demandas da sociedade na esfera pública, influencia fortemente no agendamento e enquadramento desses temas, contribuindo, de forma decisiva, na formação da opinião pública. Ela sabe disso tudo.

Sabe, mas não se dispõe, com exceções, é claro, a assumir um papel responsivo nesse jogo. Ela não admite, em hipótese alguma, qualquer tipo de crítica, que dirá de mecanismos de controle democrático. Rápida no gatilho, qualquer tentativa nessa direção é traduzida por ela, sem nem pestanejar, como sendo mecanismos de censura, de cerceamento da liberdade de expressão. Essa é a senha para barrar os desavisados que, eventualmente, tentam influir na linha editorial das publicações e programações de rádio e Tvs, propondo um debate mais plural sobre temas espinhosos para a mídia.

E não sou eu que penso que ela pensa assim. É assim que é. Recentemente os jornais publicaram uma notinha de pé de página sobre uma pesquisa realizada pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), com o apoio da Fundação Ford, sobre Mídia e Políticas Públicas de Comunicação. A conclusão da pesquisa é a de que, de maneira geral, os meios de comunicação brasileiros ainda dedicam uma atenção seletiva e parcial aos temas mais polêmicos das Políticas Públicas de Comunicação, como a regulação de conteúdo e a propriedade cruzada dos meios. E porque isso é grave? Exatamente porque os meios de comunicação têm um papel fundamental no debate dos grandes temas de interesse público, pois são eles que dão visibilidade a esses temas, que organizam a discussão, etc. etc. etc. Mas, como qualquer outra instituição, nem sempre os meios de comunicação conseguem representar um papel isento no debate público. Por isso seria importante que eles também fossem passíveis de controle democrático, por meio de regulamentações, amplamente discutidas pela sociedade, que estabelecessem os critérios e limites para sua atuação.

Mas é querer demais da nossa vaidosa imprensa, não é não? Enquanto isso, vamos acumulando dúvidas e desinformação. Vocês sabiam, por exemplo, que a Anatel está criando um grupo de estudos para elaborar uma nova licença para o serviço de TV por assinatura? Sabiam que essas mudanças poderão colocar em risco os canais comunitários, legislativos, universitários e outros previstos na lei do cabo? Que as mudanças não estão levando em consideração os debates sobre a definição de um novo marco regulatório para o setor? Que as mudanças poderão ainda abrir caminho para as operadoras de telefonia atuarem nesse mercado, bem como para o capital estrangeiro?

E assim caminhamos. Até o dia, se é que haverá esse dia, em que um vento mais forte vai soprar e espalhar os ares da democracia pelos quatro cantos dessas plagas brasileiras.

PS: Esse negócio de pensamento único definitivamente não funciona e cansa demais. Já estou ficando enfarada de pensar sempre o mesmo assunto. No próximo fim de semana prometo virar o disco.

Inté

sexta-feira, junho 08, 2007

Eu acredito em notícias!

Já disse que meu teclado está programado para não perder o foco. Não vou nem tentar escapar, porque será inútil. Mas vou ficar rodeando o mesmo tema e passear pelas trilhas que surgirem ao longo do caminho. Sem pretensão. Sem compromisso. Vou fazer como Caetano, andar contra o vento, por entre fotos e nomes. O sol não se reparte mais como antes. Mas a luz que vem da televisão se espalha pela sala. Explode em guerras, protestos e marchas. Em caras de presidente, em longas filas de espera. Em bocas, pernas e banners. Luminosos e merkel, putin e bündchen.

A banca de revistas agora é em realtime e está on line. Mas, assim como antes, me enche de alegria e preguiça. Pra que ler tanta notícia? E por que não? Eu vou. Eu tomo um capuccino de baunilha. Ele pensa no dow jones. E o som do rádio me distrai. Eu vou. Por entre taxas e câmbios. Sem livros e sem outras referências. Sem links nem celular. No coração do planeta. Ele nem sabe, até pensei em gravar um podcast. O som das ruas. Dos carros, dos bares, das cadeias, das calçadas. Eu vou. Agora. Por que não?

Mergulhada num mar de informações, respiro versões, visões e farsas. Delas tiro um ponto, acrescento uma vírgula e invento outra história. Quem ainda acredita em notícia? É livre a expressão. Independentemente de licença. O pensamento não tem restrição. Navega na rede. Google nele! Sai por um portal. Uol, uai, g1. Escapa pelas janelas. Youtube, blogblogs, fóruns, e-mails. Pimenta nos olhos, lá no mundo dela, jamill, verbo transitivo, obvius e blonicas. Interney, underground virtual, as latrinas da vida. Pensar enlouquece. Pense nisso. Espera, estou pensando.

A sopa de letrinhas está cheia de temperos. Tem todo tipo de gosto. Virou obra coletiva. Wikinal. Now. Internacionalizou-se. Pluralizou-se. Globalizou-se. Por isso nem Chávez, nem bush. Nem as rctvs, cisneros, globos, cnns, warners, sonys e bbcs. Nem as públicas, nem as estatais, nem as privadas. Mesmo que tentem. Hoje a voz tem muitos donos. Eu não acredito em notícia. Acredito em notícias. Várias versões. Estou vivendo perigosamente, sem dúvida. Rompi com a ordem das editorias. Minha lente agora é multifocal. Substitui a objetividade pela subjetividade. E é dela que tiro a minha compreensão do mundo. Estejam servidos!

Um fim de semana na diversidade, sem legendas. Ao som das notícias em várias línguas e versões.

Buenas.


PS: E pra não dizer que não falei de flores, vai um linkizinho só para distrair. Basta um computador e um fone de ouvido. Mas tem que ser com o fone de ouvido e de olhos fechados! Agora divirtam-se na vida real com uma experiência inédita de realidade virtual. Com vocês, o Barbeiro Virtual! Como separar uma da outra?


sábado, junho 02, 2007

A vida como ela é

Foto: pesquei na rede. soprou um vento e ela caiu aqui

Por exemplo: tem gente que tem fé. Acredita de olhos fechados. Quando tromba de frente com um problemão, agarra com São Judas Tadeu e vai embora. No que der é o que tinha que dar. E está certo assim. Mas se é problema menor, se está enrolado é com dívidas, pega emprestado mais um pouco e chama Santa Edviges para negociar. E, quando quer sossego, mas o bicho está pegando, é melhor São Paulo e se o que está apurrinhando são os estudos, aí é com São Tomás de Aquino. É um santo para cada pranto.

Agora, tem gente que acredita, mas desconfia. Se dá de frente com o problemão, chama o santo, mas toma providências. Corre atrás de um jeito qualquer, um jeito que, parece, pode ser a solução. Mas, quando encontra, desconfia. Apela para outro santo e toma novas providências. Descobre outro jeito, mas quando olha de perto, desconfia de novo. E assim vai, até o problema não ter mais jeito e o melhor é deixar para lá, ou até o problemão virar probleminha e nem precisar mais de santo para resolver. Às vezes, o problemão deixa até de ser problema e vira solução. Mas aí é que ele desconfia mesmo. E continua correndo atrás, o tempo todo. Desconfiando.

E tem outro tipo de gente que nem acredita nem desconfia. Só tem uma certeza: é em vão. Seja qual for a penca de problemas que terá para se ocupar, não se ocupa. Cria outros, mas não se ocupa. Já sabe de antemão que será uma luta inglória. Se antecipa e pula de fase. Parece fácil, mas é um sofrimento puro. Talvez, o maior deles, porque esse tipo de gente tem uma clareza no olhar para encontrar os problemas que é uma coisa espantosa. Pode ser até instinto de preservação. Precisa estar mais antenado do que todos, para perceber as dificuldades e passar por cima, se não quiser ser engolido por elas.

Esse tipo de gente padece eternamente. Só não pena tanto quanto procura, porque em vez de viver, encena. Se distancia. Está bem dentro do olho do furacão, rodeado de confusão, mas segue impunemente, como se ali não estivesse. E ri de quem o adverte dos riscos que está correndo. Tripudia de quem acredita, porque esse não passa de um cego. Desfaz de quem duvida e desconfia, porque, no fundo, no fundo, esse é o mais crente dos crentes. Acredita piamente que existe algum jeito, o melhor de todos, que vai dar cabo ao problemão. Se diverte no seu cinismo, como a maioria daqueles que hoje estão por aí nos rondando. De longe. Nos planaltos. Rindo da nossa suposta ignorância ou ingenuidade. Os vejo de longe também e sei que, no lampejo, sofrem.

Por isso, já não me preocupo mais com eles. Já não sou crente, nem cética. Muito menos cínica. Reconciliei com a vida e aceito-a que venha como vier. No mais das vezes, tudo me diverte. Se me aborrece, me aborreço. Se me irrita, me irrito. Se me entristece, entristeço. Mas, no mais das vezes, tudo me diverte.

Um domingo do jeito que ele vier para todos. Na paz.
Inté.